Arquidiocese do Rio de Janeiro

37º 23º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 16/12/2018

16 de Dezembro de 2018

Um olhar sobre a grande cidade

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16 de Dezembro de 2018

Um olhar sobre a grande cidade

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21/07/2017 00:00 - Atualizado em 24/07/2017 12:42

Um olhar sobre a grande cidade 0

21/07/2017 00:00 - Atualizado em 24/07/2017 12:42

Entre os eventos do mês de julho deste ano, um deles está dentro de uma das grandes preocupações da metrópole: a questão do meio ambiente. Tivemos o segundo Congresso Internacional sobre as grandes cidades com o tema proposto pelo documento do Papa Francisco: a Laudato Sì. Dentro das múltiplas atividades em andamento, em nossa Arquidiocese, em sintonia com toda a Igreja, pudemos refletir um pouco, ainda dentro do tema dos biomas sugerido pela Campanha da Fraternidade deste ano, a respeito de três pontos importantes (a grande cidade, a paz e a ecologia) nos quais se fazem presentes a missão da Igreja, como aquela que está inserida na sociedade e a chama para passos importantes.

As grandes cidades, nas quais vive, hoje, cerca de 52% da população mundial (no Brasil é bem mais), tem se tornado um grande desafio pastoral para a Igreja, como bem nos lembra o Cardeal Lluís Martínez Sistach no Prólogo do livro A Pastoral das grandes cidades (Brasília: CNBB, 2016). É aí porém que a Igreja se vê chamada a ser criativa ao tentar integrar uma presença evangelizadora que não exclua ninguém, mas, ao contrário, atinja o centro e a periferia, não só aquela geográfica, também a existencial, que independe de tempo e de espaço.

A grande cidade constitui, desde a segunda metade do século XX, um forte desafio eclesial, como bem lembra o Papa Francisco na Evangelii Gaudium n. 71, ao escrever que “precisamos identificar a cidade a partir de um olhar contemplativo, isto é, um olhar de fé que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas”. Ao que completa o Cardeal Sistach “A cidade pede para ser interpretada teologicamente e não apenas do ponto de vista sociológico, urbanístico, econômico etc.” (A Pastoral..., p. 13).

Em um Congresso Internacional de Pastoral das grandes cidades, realizado em Barcelona, no ano de 2014, em unidade com o Santo Padre, focou-se em quatro pontos principais: viver uma mudança de mentalidade pastoral, ou seja, transmitir a verdade imutável do Evangelho de forma adaptada ao contexto de uma grande cidade, tendo de chegar a todos, indistintamente, desde aquelas pessoas que ouvem rádio e leem jornal até aquelas que se informam pelos cada vez mais modernos meios eletrônicos; dialogar com o multiculturalismo, que é estar aberto – como já fez a Igreja nos tempos primitivos – ao que de bom se pode aproveitar do que a sociedade oferece; prestar atenção à realidade do povo, de modo a ver que, em cada contexto, a necessidade é bem diferente. Em alguns lugares, o agente de pastoral terá de falar; em outro, terá de ouvir mais e, ainda, em outro; terá de fazer a ação evangelizadora ser acompanhada pelo alimento material aos necessitados e, por fim; ajudar os pobres urbanos, dado ser grande o contingente de pessoas em situação de exclusão, a pedir de nós não apenas (embora também) pão e cobertor, mas a restituição de sua dignidade humana.

Dentro de tudo isso entra nosso grande anseio pela paz, que é a tranquilidade da ordem. Tema cada vez mais buscado dentro desse tempo tão violento e intolerante. Paz que começa dentro de cada um de nós, se irradia no ambiente familiar e de trabalho e/ou lazer a fim de que, a partir de cada um, o reino de Deus, que todos os dias, ao menos uma vez, pedimos no Pai- Nosso: “Venha a nós o vosso reino”... que é de paz, de justiça, de fraternidade, de vida, de fé e também como rezamos com São Francisco de Assis: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz!”. É certo que a paz vem junto com a dignidade de cada ser humano a clamar, com razão, por saúde digna, moradia decente, segurança efetiva, educação de qualidade, trabalho honesto e devidamente remunerado, etc. Daí a questão crucial: notamos isso tudo ao nosso redor? Se a resposta for não, que podemos fazer para mudar? Que faço eu? Que faz você, caro(a) irmão(ã)?

Por fim – na sequência didática, não, porém, de importância – desejo lembrar que vivemos no início de julho deste ano em nossa Arquidiocese, a importante Conferência Internacional sobre a Encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, que trata do “cuidado com a nossa casa comum, o planeta”. Um encontro de especialistas cristãos que veem a responsabilidade diante de um mundo em mudança e a presença da Igreja a chamar para a responsabilidade.

Somos seres de relação, criados por Deus para ter cuidado com a obra de Deus colocada ao nosso dispor para o uso responsável. Não se trata, portanto, de cair em certo naturalismo que privilegia a natureza em detrimento do ser humano, nem de cair em um antropocentrismo que julgue o ser humano como dono do mundo a ponto de viver nele e usá-lo, como se não existisse o Criador nem uma lei, moral e física, natural a regular a ordem e a harmonia do Universo e do que nele vive, incluindo, é óbvio, o homem e a mulher.

Fala o Papa que o homem muitas vezes age como centro de tudo, esquecendo-se de Deus, do próximo e também do mundo que o cerca, dado por Deus para o seu uso respeitoso, especialmente das leis que a própria natureza impõe no plano físico e moral. Por muito tempo, se interpretou erradamente a antropologia cristã da relação “homem e mundo”, está é de administração não de dominação humana como faz um dono, se assim for levará a desvarios.

Sim, desvarios, pois a própria natureza, obra de Deus, fala por si, ensina o ser humano, mas também, quando atingida indevidamente, cobra desse mesmo homem o mal que ele lhe causou. É preciso, pois renovar o homem em sua mentalidade, caminhar para ser um homem novo para saber administrar esse mundo, o que, evidentemente, não se dá pelo biocentrismo que também causa problemas, mas, sim, pela conversão pessoal no relacionamento do ser humano com o mundo e com o próximo, superando as dialéticas falsas dos últimos tempos.

Reforça o Papa, que não saberá cuidar do mundo quem não é capaz de defender a vida humana no ventre materno (hoje ameaçada até por tiros), em seu n. 120: “Uma vez que tudo está relacionado, também não é compatível a defesa da natureza com a justificação do aborto. Não parece viável um percurso educativo para acolher os seres frágeis que nos rodeiam e que, às vezes, são molestos e inoportunos, quando não se dá proteção a um embrião humano ainda que a sua chegada seja causa de incômodos e dificuldades: ‘Se se perde a sensibilidade pessoal e social ao acolhimento duma nova vida, definham também outras formas de acolhimento úteis à vida social’ (Bento XVI. Caritas in veritate, 28)”.

Volta-se o Papa, a seguir, para a ecologia do dia a dia das pessoas dizendo que a qualidade de vida de alguém depende do lugar em que se vive. Daí ter vida diferente quem mora em um ambiente poluído, visual ou acusticamente, e os que vivem em locais sadios. No entanto, alguns superam esse condicionalismo pela amizade recíproca e pelo desenvolvimento da alegria entre os pobres, não obstante todas as suas limitações materiais.

Há, porém, uma gravidade que não pode ser esquecida: nesses ambientes desordenados, os adolescentes e jovens, em especial, são cooptados por organizações criminosas, especialmente nas periferias sem grande infra-estrutura, mas mesmo aí também se vê aqueles que resistem à tentação de ceder ao crime mantendo-se livres dessa forma de escravidão causado, às vezes, por um projeto de reurbanização mal organizado.

Falar, ainda, em habitação (residências) é lembrar-se de que um lar é parte da dignidade humana ou “questão central da ecologia” (n. 152) que envolve não só os pobres, mas também outros segmentos da sociedade. Daí a luta para que cada um possua seu alojamento é fundamental, no entanto, que tudo se faça pensando no bem comum e não no imediatismo destruidor das culturas ou dos costumes locais.

Percebe-se assim que tudo há de ser vivenciado de modo respeitoso e cooperativo. Afinal, os bens de Deus são emprestados a todos os homens e para o bem comum, especialmente a terra. Embora a propriedade privada seja um direito básico na civilização cristã, ela não pode estar acima do bem do outro, mas a serviço dele, de forma que todos, indistintamente, deveriam ter seu pedaço de chão para plantar contando com todo apoio governamental básico. Ademais, a diferença abissal entre pobres e ricos há de ser combatida, dado que apenas 20% dos homens possuem os recursos da natureza enquanto o resto fica com o que sobra nesse verdadeiro roubo da dignidade humana (LS n. 95).

Mais: sem descuidar da beleza da natureza, cada um viva a austeridade de usar do mundo apenas aquilo que precisa com equilíbrio e desse modo teremos uma nova relação do ser humano com a vida, a sociedade e a natureza. Escreve o Papa Francisco: “A educação ambiental tem vindo a ampliar os seus objetivos. Se, no começo, estava muito centrada na informação científica e na consciencialização e prevenção dos riscos ambientais, agora tende a incluir uma crítica dos ‘mitos’ da modernidade baseados na razão instrumental (individualismo, progresso ilimitado, concorrência, consumismo, mercado sem regras) e tende também a recuperar os distintos níveis de equilíbrio ecológico: o interior consigo mesmo, o solidário com os outros, o natural com todos os seres vivos, o espiritual com Deus. A educação ambiental deveria predispor-nos para dar este salto para o Mistério, do qual uma ética ecológica recebe o seu sentido mais profundo. Além disso, há educadores capazes de reordenar os itinerários pedagógicos duma ética ecológica, de modo que ajudem efetivamente a crescer na solidariedade, na responsabilidade e no cuidado assente na compaixão” (n. 210).

Alguém poderia, aqui, perguntar: mas tudo isso é missão do Bispo? Afinal, qual é essa função do Bispo em linhas gerais? – É a de ser, antes de tudo e acima de tudo Pastor, aquele que cuida de suas ovelhas, especialmente as mais feridas e necessitadas em suas periferias existenciais. Ele não é o “homem de gabinete”, mas, sim, aquele que está no meio do seu povo dando exemplo do serviço, pois se é tido como o primeiro ou o maior, então deverá ser aquele que a todos serve (cf. Lc 22,27).

Ao Bispo, e consequentemente a toda a Igreja, não cabe apenas a preocupação “com os de dentro”, mas também com as ovelhas feridas e dispersas, especialmente para com aqueles que abandonaram os sacramentos, a participação na comunidade, a oração, a fé... Os fiéis de outros ritos ou os irmãos de outras confissões religiosas, promovendo o sadio ecumenismo, o interesse por buscar os não batizados, bem como ser um verdadeiro pai ao seu presbitério: é preciso ouvi-los e ampará-los, especialmente nos momentos mais difíceis de suas vidas (dificuldades pessoais, pastorais, crises diversas etc.), além de trabalhar na pesca das vocações sacerdotais, consagradas e leigas de que a Igreja tanto necessita.

Tem o Bispo diocesano e os auxiliares com ele – em profunda sintonia – a missão tríplice de: 1) evangelizar e defender a ortodoxia da fé; 2) santificar, trabalhando com redobrado ardor a fim de que os fiéis cresçam na graça divina, além do mais, de dar exemplo de uma vida santa, caridosa, humilde, simples, rezando pelo seu povo e 3) como governante da Diocese cabe-lhe o poder executivo, legislativo e judiciário a fim de que seja promovido o bem comum e os trabalhos pastorais necessários entre os seus, de acordo com a realidade na qual ele está inserido.

 

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Entre os eventos do mês de julho deste ano, um deles está dentro de uma das grandes preocupações da metrópole: a questão do meio ambiente. Tivemos o segundo Congresso Internacional sobre as grandes cidades com o tema proposto pelo documento do Papa Francisco: a Laudato Sì. Dentro das múltiplas atividades em andamento, em nossa Arquidiocese, em sintonia com toda a Igreja, pudemos refletir um pouco, ainda dentro do tema dos biomas sugerido pela Campanha da Fraternidade deste ano, a respeito de três pontos importantes (a grande cidade, a paz e a ecologia) nos quais se fazem presentes a missão da Igreja, como aquela que está inserida na sociedade e a chama para passos importantes.

As grandes cidades, nas quais vive, hoje, cerca de 52% da população mundial (no Brasil é bem mais), tem se tornado um grande desafio pastoral para a Igreja, como bem nos lembra o Cardeal Lluís Martínez Sistach no Prólogo do livro A Pastoral das grandes cidades (Brasília: CNBB, 2016). É aí porém que a Igreja se vê chamada a ser criativa ao tentar integrar uma presença evangelizadora que não exclua ninguém, mas, ao contrário, atinja o centro e a periferia, não só aquela geográfica, também a existencial, que independe de tempo e de espaço.

A grande cidade constitui, desde a segunda metade do século XX, um forte desafio eclesial, como bem lembra o Papa Francisco na Evangelii Gaudium n. 71, ao escrever que “precisamos identificar a cidade a partir de um olhar contemplativo, isto é, um olhar de fé que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas”. Ao que completa o Cardeal Sistach “A cidade pede para ser interpretada teologicamente e não apenas do ponto de vista sociológico, urbanístico, econômico etc.” (A Pastoral..., p. 13).

Em um Congresso Internacional de Pastoral das grandes cidades, realizado em Barcelona, no ano de 2014, em unidade com o Santo Padre, focou-se em quatro pontos principais: viver uma mudança de mentalidade pastoral, ou seja, transmitir a verdade imutável do Evangelho de forma adaptada ao contexto de uma grande cidade, tendo de chegar a todos, indistintamente, desde aquelas pessoas que ouvem rádio e leem jornal até aquelas que se informam pelos cada vez mais modernos meios eletrônicos; dialogar com o multiculturalismo, que é estar aberto – como já fez a Igreja nos tempos primitivos – ao que de bom se pode aproveitar do que a sociedade oferece; prestar atenção à realidade do povo, de modo a ver que, em cada contexto, a necessidade é bem diferente. Em alguns lugares, o agente de pastoral terá de falar; em outro, terá de ouvir mais e, ainda, em outro; terá de fazer a ação evangelizadora ser acompanhada pelo alimento material aos necessitados e, por fim; ajudar os pobres urbanos, dado ser grande o contingente de pessoas em situação de exclusão, a pedir de nós não apenas (embora também) pão e cobertor, mas a restituição de sua dignidade humana.

Dentro de tudo isso entra nosso grande anseio pela paz, que é a tranquilidade da ordem. Tema cada vez mais buscado dentro desse tempo tão violento e intolerante. Paz que começa dentro de cada um de nós, se irradia no ambiente familiar e de trabalho e/ou lazer a fim de que, a partir de cada um, o reino de Deus, que todos os dias, ao menos uma vez, pedimos no Pai- Nosso: “Venha a nós o vosso reino”... que é de paz, de justiça, de fraternidade, de vida, de fé e também como rezamos com São Francisco de Assis: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz!”. É certo que a paz vem junto com a dignidade de cada ser humano a clamar, com razão, por saúde digna, moradia decente, segurança efetiva, educação de qualidade, trabalho honesto e devidamente remunerado, etc. Daí a questão crucial: notamos isso tudo ao nosso redor? Se a resposta for não, que podemos fazer para mudar? Que faço eu? Que faz você, caro(a) irmão(ã)?

Por fim – na sequência didática, não, porém, de importância – desejo lembrar que vivemos no início de julho deste ano em nossa Arquidiocese, a importante Conferência Internacional sobre a Encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, que trata do “cuidado com a nossa casa comum, o planeta”. Um encontro de especialistas cristãos que veem a responsabilidade diante de um mundo em mudança e a presença da Igreja a chamar para a responsabilidade.

Somos seres de relação, criados por Deus para ter cuidado com a obra de Deus colocada ao nosso dispor para o uso responsável. Não se trata, portanto, de cair em certo naturalismo que privilegia a natureza em detrimento do ser humano, nem de cair em um antropocentrismo que julgue o ser humano como dono do mundo a ponto de viver nele e usá-lo, como se não existisse o Criador nem uma lei, moral e física, natural a regular a ordem e a harmonia do Universo e do que nele vive, incluindo, é óbvio, o homem e a mulher.

Fala o Papa que o homem muitas vezes age como centro de tudo, esquecendo-se de Deus, do próximo e também do mundo que o cerca, dado por Deus para o seu uso respeitoso, especialmente das leis que a própria natureza impõe no plano físico e moral. Por muito tempo, se interpretou erradamente a antropologia cristã da relação “homem e mundo”, está é de administração não de dominação humana como faz um dono, se assim for levará a desvarios.

Sim, desvarios, pois a própria natureza, obra de Deus, fala por si, ensina o ser humano, mas também, quando atingida indevidamente, cobra desse mesmo homem o mal que ele lhe causou. É preciso, pois renovar o homem em sua mentalidade, caminhar para ser um homem novo para saber administrar esse mundo, o que, evidentemente, não se dá pelo biocentrismo que também causa problemas, mas, sim, pela conversão pessoal no relacionamento do ser humano com o mundo e com o próximo, superando as dialéticas falsas dos últimos tempos.

Reforça o Papa, que não saberá cuidar do mundo quem não é capaz de defender a vida humana no ventre materno (hoje ameaçada até por tiros), em seu n. 120: “Uma vez que tudo está relacionado, também não é compatível a defesa da natureza com a justificação do aborto. Não parece viável um percurso educativo para acolher os seres frágeis que nos rodeiam e que, às vezes, são molestos e inoportunos, quando não se dá proteção a um embrião humano ainda que a sua chegada seja causa de incômodos e dificuldades: ‘Se se perde a sensibilidade pessoal e social ao acolhimento duma nova vida, definham também outras formas de acolhimento úteis à vida social’ (Bento XVI. Caritas in veritate, 28)”.

Volta-se o Papa, a seguir, para a ecologia do dia a dia das pessoas dizendo que a qualidade de vida de alguém depende do lugar em que se vive. Daí ter vida diferente quem mora em um ambiente poluído, visual ou acusticamente, e os que vivem em locais sadios. No entanto, alguns superam esse condicionalismo pela amizade recíproca e pelo desenvolvimento da alegria entre os pobres, não obstante todas as suas limitações materiais.

Há, porém, uma gravidade que não pode ser esquecida: nesses ambientes desordenados, os adolescentes e jovens, em especial, são cooptados por organizações criminosas, especialmente nas periferias sem grande infra-estrutura, mas mesmo aí também se vê aqueles que resistem à tentação de ceder ao crime mantendo-se livres dessa forma de escravidão causado, às vezes, por um projeto de reurbanização mal organizado.

Falar, ainda, em habitação (residências) é lembrar-se de que um lar é parte da dignidade humana ou “questão central da ecologia” (n. 152) que envolve não só os pobres, mas também outros segmentos da sociedade. Daí a luta para que cada um possua seu alojamento é fundamental, no entanto, que tudo se faça pensando no bem comum e não no imediatismo destruidor das culturas ou dos costumes locais.

Percebe-se assim que tudo há de ser vivenciado de modo respeitoso e cooperativo. Afinal, os bens de Deus são emprestados a todos os homens e para o bem comum, especialmente a terra. Embora a propriedade privada seja um direito básico na civilização cristã, ela não pode estar acima do bem do outro, mas a serviço dele, de forma que todos, indistintamente, deveriam ter seu pedaço de chão para plantar contando com todo apoio governamental básico. Ademais, a diferença abissal entre pobres e ricos há de ser combatida, dado que apenas 20% dos homens possuem os recursos da natureza enquanto o resto fica com o que sobra nesse verdadeiro roubo da dignidade humana (LS n. 95).

Mais: sem descuidar da beleza da natureza, cada um viva a austeridade de usar do mundo apenas aquilo que precisa com equilíbrio e desse modo teremos uma nova relação do ser humano com a vida, a sociedade e a natureza. Escreve o Papa Francisco: “A educação ambiental tem vindo a ampliar os seus objetivos. Se, no começo, estava muito centrada na informação científica e na consciencialização e prevenção dos riscos ambientais, agora tende a incluir uma crítica dos ‘mitos’ da modernidade baseados na razão instrumental (individualismo, progresso ilimitado, concorrência, consumismo, mercado sem regras) e tende também a recuperar os distintos níveis de equilíbrio ecológico: o interior consigo mesmo, o solidário com os outros, o natural com todos os seres vivos, o espiritual com Deus. A educação ambiental deveria predispor-nos para dar este salto para o Mistério, do qual uma ética ecológica recebe o seu sentido mais profundo. Além disso, há educadores capazes de reordenar os itinerários pedagógicos duma ética ecológica, de modo que ajudem efetivamente a crescer na solidariedade, na responsabilidade e no cuidado assente na compaixão” (n. 210).

Alguém poderia, aqui, perguntar: mas tudo isso é missão do Bispo? Afinal, qual é essa função do Bispo em linhas gerais? – É a de ser, antes de tudo e acima de tudo Pastor, aquele que cuida de suas ovelhas, especialmente as mais feridas e necessitadas em suas periferias existenciais. Ele não é o “homem de gabinete”, mas, sim, aquele que está no meio do seu povo dando exemplo do serviço, pois se é tido como o primeiro ou o maior, então deverá ser aquele que a todos serve (cf. Lc 22,27).

Ao Bispo, e consequentemente a toda a Igreja, não cabe apenas a preocupação “com os de dentro”, mas também com as ovelhas feridas e dispersas, especialmente para com aqueles que abandonaram os sacramentos, a participação na comunidade, a oração, a fé... Os fiéis de outros ritos ou os irmãos de outras confissões religiosas, promovendo o sadio ecumenismo, o interesse por buscar os não batizados, bem como ser um verdadeiro pai ao seu presbitério: é preciso ouvi-los e ampará-los, especialmente nos momentos mais difíceis de suas vidas (dificuldades pessoais, pastorais, crises diversas etc.), além de trabalhar na pesca das vocações sacerdotais, consagradas e leigas de que a Igreja tanto necessita.

Tem o Bispo diocesano e os auxiliares com ele – em profunda sintonia – a missão tríplice de: 1) evangelizar e defender a ortodoxia da fé; 2) santificar, trabalhando com redobrado ardor a fim de que os fiéis cresçam na graça divina, além do mais, de dar exemplo de uma vida santa, caridosa, humilde, simples, rezando pelo seu povo e 3) como governante da Diocese cabe-lhe o poder executivo, legislativo e judiciário a fim de que seja promovido o bem comum e os trabalhos pastorais necessários entre os seus, de acordo com a realidade na qual ele está inserido.

 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro