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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/11/2017

20 de Novembro de 2017

Livros do Antigo Testamento (9)

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Livros do Antigo Testamento (9)

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30/06/2017 00:00 - Atualizado em 07/07/2017 15:52

Livros do Antigo Testamento (9) 0

30/06/2017 00:00 - Atualizado em 07/07/2017 15:52

Já iniciamos a análise dos primeiros 11 capítulos da Bíblia. A Gênese da Humanidade a partir da visão da Fé de Israel, no Deus Criador. No centro destas narrativas encontram-se a sensibilidade do Povo de Deus e as respostas da Revelação a questões ingentes que assolavam a Fé e a Perspectiva salvífica de Israel em meio ao Exílio da Babilônia e às tentações de ceder às insídias de um paganismo aparentemente vencedor, no meio do qual eles se encontravam.

6,1-9,17: Corrupção da humanidade e Dilúvio (anti-Criação)

Este capítulo traz muitas dificuldades à interpretação moderna. Entre os versículos 1-8, como que um prólogo ou introito à estória de Noé e do Dilúvio, lemos expressões incomuns:

O casamento entre os ‘filhos de Deus’ e as mulheres na terra:

“Quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas, e escolheram esposas entre elas”. (Gn 6,1s).

Segundo muitos comentadores, antigos e modernos, trata-se de ‘anjos’ os chamados ‘Filhos de Deus’, no vers. 1. E isto é confirmado em Judas 1, 6 quando se refere aos anjos perdidos: “Os anjos que não tinham guardado a dignidade de sua classe, mas abandonado os seus tronos, ele os guardou com laços eternos nas trevas para o julgamento do Grande Dia”. Também 2 Pd 2,4: “Pois se Deus não poupou os anjos que pecaram, mas os precipitou nos abismos tenebrosos do inferno onde os reserva para o julgamento”

Porém, para alguns destes comentadores não se tratava do matrimônio entre anjos rebeldes e as belas filhas dos homens, mas de criaturas não humanas e boas (angelicais) com as criaturas humanas.

Para outros, ao contrário, deve ser uma estranha união entre demônios (anjos decaídos) e mulheres humanas, que deverá se tornar, ao fim de esta unidade, o motivo de um juízo severo de condenação da parte de Deus para a humanidade.

Nesta sessão escutam-se os piores juízos de Deus sobre a humanidade; o pecado introduzira uma ‘natural’ indisposição de Deus em relação à humanidade. Seu Espírito deve ser retirado da humanidade e, assim, a longevidade (no paraíso, a eternidade), que era sinal de comunhão da natureza humana com aquela divina some: “O senhor então disse: “Meu espírito não permanecerá para sempre no homem, porque todo ele é carne, e a duração de sua vida será de 120 anos” (v.2).

Na verdade estes versículos são compreensíveis somente se os lemos à luz das maldições impostas ao primeiro casal após a queda (Gn 3, 14-19), que já comentamos anteriormente.

Esta narração de sabor ‘fabulístico’ tem por índole mostrar nas ‘eras remotas’ a origem da vida humana tão desregrada, limitada e incúria da pureza e dos valores morais. A expressão ‘carne’ não possui aqui um valor, neutro, que se distingue do espírito, mas indica impureza, desordem e luxúria.

Era o cenário assustador que os judeus encontraram entre os ‘pagãos’, seja em Canaã, seja na Babilônia, e talvez o caso mais terrível será das cidades de Sodoma e Gomorra (Gn 19).

Pelo menos três perspectivas teológicas podem ser aplicadas a muitas outras questões levantadas sobre estes capítulos que precedem o difícil capítulo 6,1-8:

 A primeira pergunta é aquela do pecado! A humanidade, de fato, tem se mostrado incapaz de ser responsável pela sua própria liberdade, no entanto, o Senhor responde a essa rejeição renovando sua misericórdia.

 A segunda questão de fato retorna aos temas da antropologia: a rebelião a Deus, ela produz consequências muito pesadas nas relações pessoais entre homens e mulheres, a ponto de ser capaz de falar sobre a dissolução do casal. A mensagem da Genesis 3 culmina, no entanto, com a recomposição de perspectiva da unidade, através dos símbolos de maternidade e nudez revestidos.

 A terceira questão deve cobrir um único verso (Gn 3,15), que por sua importância teológica tem sido chamado de “proto-evangelho”, isto é, o primeiro anúncio salvação: as muitas interpretações que foram dadas ao longo da história são a pista da importância que se exprime nesta promessa divina.

Não nos esqueçamos do grande Mestre Santo Agostinho, exegeta e intérprete do livro do Gênesis no difícil contexto da heresia dos maniqueus1, no século V d.C, na sua Cartago (Africa do Norte). Santo Agostinho nos dá uma regra (mais de uma vez) em sua obra “De Genesi litteram”2.

Ele diz o seguinte:

“Antes de explicar frase por frase do texto suscitado da Escritura, considero adequado aqui para repetir a advertência que eu acho que já fiz em outra etapa deste trabalho, ou seja, que temos de ser obrigados a defender o sentido literal dos fatos narrados pelo autor sacro. Se, no entanto, entre as expressões favoritas de Deus e qualquer pessoa chamada por Deus para o ministério de profeta, se se encontra alguma que não pode ser considerada literalmente, sem, absurdo, sem que isto soe ridículo, não há dúvida de que deve ser entendido em sentido figurado, indicando algo de natureza simbólica. No entanto, não é permitido duvidar que (aquela expressão) seja Palavra de Deus Isto exige a confiabilidade do narrador e a promessa do comentador” (De Genesi ad litteram, Livro XI: 1. 2)

Curiosamente, este mesmo livro era muito conhecido por Judas, que o citou de forma direta em sua epístola (Jd.1:14-15). É só mais tarde que Flávio Josefo3, já em pleno século I da era cristã, propõe a interpretação de que o relato diz respeito à descendência de Sete, e não aos anjos. Isso é bastante fácil de explicar. Como o fato de anjos terem tido relações sexuais com mulheres parece algo bastante forte aos olhos humanos, e até difícil de aceitar; autores posteriores tentaram reinterpretar o verso para suavizar a mensagem – ainda que para isso tenham corrompido a exegese.

Ironicamente, é justamente pelo fato de o acontecimento ter sido tão absurdo e monstruoso que foi a gota d’água para Deus ter enviado o dilúvio e destruído todo o mundo da época (Gn 6,1-7)!

Referências:

1 “O maniqueísmo é uma filosofia religiosa sincrética e dualística fundada e propagada por Manes ou Maniqueu, filósofo cristão do século III, que divide o mundo simplesmente entre Bom, ou Deus, e Mau, ou o Diabo. A matéria é intrinsecamente má, e o espírito, intrinsecamente bom. Com a popularização do termo, maniqueísta passou a ser um adjetivo para toda doutrina fundada nos dois princípios opostos do Bem e do Mal”. Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Manique%C3%ADsmo

2 http://bibbia.verboencarnado.net/2016/05/05/giganti-ed-figli-dio-genesi-64/

3 Flávio Josefo, ou apenas Josefo (em latim: Flavius Josephus; 37 ou 38 ca. 100[2]), também conhecido pelo seu nome hebraico Yosef ben Mattityahu (יוסף בן מתתיהו, “José, filho de Matias [Matias é variante de Mateus]”) e, após se tornar um cidadão romano, como Tito, Flávio Josefo (latim: Titus Flavius Josephus), foi um historiador e apologista judaico-romano, descendente de uma linhagem de importantes sacerdotes e reis, que registrou in loco a destruição de Jerusalém, em 70 d.C., pelas tropas do imperador romano Vespasiano, comandadas por seu filho Tito, futuro imperador. As obras de Josefo fornecem um importante panorama do judaísmo no século I. Suas duas obras mais importantes são “A Guerra dos Judeus” (c. 75) e “Antiguidades Judaicas” (c. 94). O primeiro é fonte primária para o estudo da revolta judaica contra Roma (66-70), enquanto o segundo conta a história do mundo sob uma perspectiva judaica. Estas obras fornecem informações valiosas sobre a sociedade judaica da época, bem como sobre o período que viu a separação definitiva do cristianismo do judaísmo e as origens da dinastia flaviana, que reinou de 69 a 96. Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Fl%C3%A1vio_Josefo

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30/06/2017 00:00 - Atualizado em 07/07/2017 15:52

Já iniciamos a análise dos primeiros 11 capítulos da Bíblia. A Gênese da Humanidade a partir da visão da Fé de Israel, no Deus Criador. No centro destas narrativas encontram-se a sensibilidade do Povo de Deus e as respostas da Revelação a questões ingentes que assolavam a Fé e a Perspectiva salvífica de Israel em meio ao Exílio da Babilônia e às tentações de ceder às insídias de um paganismo aparentemente vencedor, no meio do qual eles se encontravam.

6,1-9,17: Corrupção da humanidade e Dilúvio (anti-Criação)

Este capítulo traz muitas dificuldades à interpretação moderna. Entre os versículos 1-8, como que um prólogo ou introito à estória de Noé e do Dilúvio, lemos expressões incomuns:

O casamento entre os ‘filhos de Deus’ e as mulheres na terra:

“Quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas, e escolheram esposas entre elas”. (Gn 6,1s).

Segundo muitos comentadores, antigos e modernos, trata-se de ‘anjos’ os chamados ‘Filhos de Deus’, no vers. 1. E isto é confirmado em Judas 1, 6 quando se refere aos anjos perdidos: “Os anjos que não tinham guardado a dignidade de sua classe, mas abandonado os seus tronos, ele os guardou com laços eternos nas trevas para o julgamento do Grande Dia”. Também 2 Pd 2,4: “Pois se Deus não poupou os anjos que pecaram, mas os precipitou nos abismos tenebrosos do inferno onde os reserva para o julgamento”

Porém, para alguns destes comentadores não se tratava do matrimônio entre anjos rebeldes e as belas filhas dos homens, mas de criaturas não humanas e boas (angelicais) com as criaturas humanas.

Para outros, ao contrário, deve ser uma estranha união entre demônios (anjos decaídos) e mulheres humanas, que deverá se tornar, ao fim de esta unidade, o motivo de um juízo severo de condenação da parte de Deus para a humanidade.

Nesta sessão escutam-se os piores juízos de Deus sobre a humanidade; o pecado introduzira uma ‘natural’ indisposição de Deus em relação à humanidade. Seu Espírito deve ser retirado da humanidade e, assim, a longevidade (no paraíso, a eternidade), que era sinal de comunhão da natureza humana com aquela divina some: “O senhor então disse: “Meu espírito não permanecerá para sempre no homem, porque todo ele é carne, e a duração de sua vida será de 120 anos” (v.2).

Na verdade estes versículos são compreensíveis somente se os lemos à luz das maldições impostas ao primeiro casal após a queda (Gn 3, 14-19), que já comentamos anteriormente.

Esta narração de sabor ‘fabulístico’ tem por índole mostrar nas ‘eras remotas’ a origem da vida humana tão desregrada, limitada e incúria da pureza e dos valores morais. A expressão ‘carne’ não possui aqui um valor, neutro, que se distingue do espírito, mas indica impureza, desordem e luxúria.

Era o cenário assustador que os judeus encontraram entre os ‘pagãos’, seja em Canaã, seja na Babilônia, e talvez o caso mais terrível será das cidades de Sodoma e Gomorra (Gn 19).

Pelo menos três perspectivas teológicas podem ser aplicadas a muitas outras questões levantadas sobre estes capítulos que precedem o difícil capítulo 6,1-8:

 A primeira pergunta é aquela do pecado! A humanidade, de fato, tem se mostrado incapaz de ser responsável pela sua própria liberdade, no entanto, o Senhor responde a essa rejeição renovando sua misericórdia.

 A segunda questão de fato retorna aos temas da antropologia: a rebelião a Deus, ela produz consequências muito pesadas nas relações pessoais entre homens e mulheres, a ponto de ser capaz de falar sobre a dissolução do casal. A mensagem da Genesis 3 culmina, no entanto, com a recomposição de perspectiva da unidade, através dos símbolos de maternidade e nudez revestidos.

 A terceira questão deve cobrir um único verso (Gn 3,15), que por sua importância teológica tem sido chamado de “proto-evangelho”, isto é, o primeiro anúncio salvação: as muitas interpretações que foram dadas ao longo da história são a pista da importância que se exprime nesta promessa divina.

Não nos esqueçamos do grande Mestre Santo Agostinho, exegeta e intérprete do livro do Gênesis no difícil contexto da heresia dos maniqueus1, no século V d.C, na sua Cartago (Africa do Norte). Santo Agostinho nos dá uma regra (mais de uma vez) em sua obra “De Genesi litteram”2.

Ele diz o seguinte:

“Antes de explicar frase por frase do texto suscitado da Escritura, considero adequado aqui para repetir a advertência que eu acho que já fiz em outra etapa deste trabalho, ou seja, que temos de ser obrigados a defender o sentido literal dos fatos narrados pelo autor sacro. Se, no entanto, entre as expressões favoritas de Deus e qualquer pessoa chamada por Deus para o ministério de profeta, se se encontra alguma que não pode ser considerada literalmente, sem, absurdo, sem que isto soe ridículo, não há dúvida de que deve ser entendido em sentido figurado, indicando algo de natureza simbólica. No entanto, não é permitido duvidar que (aquela expressão) seja Palavra de Deus Isto exige a confiabilidade do narrador e a promessa do comentador” (De Genesi ad litteram, Livro XI: 1. 2)

Curiosamente, este mesmo livro era muito conhecido por Judas, que o citou de forma direta em sua epístola (Jd.1:14-15). É só mais tarde que Flávio Josefo3, já em pleno século I da era cristã, propõe a interpretação de que o relato diz respeito à descendência de Sete, e não aos anjos. Isso é bastante fácil de explicar. Como o fato de anjos terem tido relações sexuais com mulheres parece algo bastante forte aos olhos humanos, e até difícil de aceitar; autores posteriores tentaram reinterpretar o verso para suavizar a mensagem – ainda que para isso tenham corrompido a exegese.

Ironicamente, é justamente pelo fato de o acontecimento ter sido tão absurdo e monstruoso que foi a gota d’água para Deus ter enviado o dilúvio e destruído todo o mundo da época (Gn 6,1-7)!

Referências:

1 “O maniqueísmo é uma filosofia religiosa sincrética e dualística fundada e propagada por Manes ou Maniqueu, filósofo cristão do século III, que divide o mundo simplesmente entre Bom, ou Deus, e Mau, ou o Diabo. A matéria é intrinsecamente má, e o espírito, intrinsecamente bom. Com a popularização do termo, maniqueísta passou a ser um adjetivo para toda doutrina fundada nos dois princípios opostos do Bem e do Mal”. Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Manique%C3%ADsmo

2 http://bibbia.verboencarnado.net/2016/05/05/giganti-ed-figli-dio-genesi-64/

3 Flávio Josefo, ou apenas Josefo (em latim: Flavius Josephus; 37 ou 38 ca. 100[2]), também conhecido pelo seu nome hebraico Yosef ben Mattityahu (יוסף בן מתתיהו, “José, filho de Matias [Matias é variante de Mateus]”) e, após se tornar um cidadão romano, como Tito, Flávio Josefo (latim: Titus Flavius Josephus), foi um historiador e apologista judaico-romano, descendente de uma linhagem de importantes sacerdotes e reis, que registrou in loco a destruição de Jerusalém, em 70 d.C., pelas tropas do imperador romano Vespasiano, comandadas por seu filho Tito, futuro imperador. As obras de Josefo fornecem um importante panorama do judaísmo no século I. Suas duas obras mais importantes são “A Guerra dos Judeus” (c. 75) e “Antiguidades Judaicas” (c. 94). O primeiro é fonte primária para o estudo da revolta judaica contra Roma (66-70), enquanto o segundo conta a história do mundo sob uma perspectiva judaica. Estas obras fornecem informações valiosas sobre a sociedade judaica da época, bem como sobre o período que viu a separação definitiva do cristianismo do judaísmo e as origens da dinastia flaviana, que reinou de 69 a 96. Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Fl%C3%A1vio_Josefo

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica