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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/11/2017

20 de Novembro de 2017

Livros do Antigo Testamento (4)

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20 de Novembro de 2017

Livros do Antigo Testamento (4)

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26/05/2017 00:00 - Atualizado em 07/07/2017 15:31

Livros do Antigo Testamento (4) 0

26/05/2017 00:00 - Atualizado em 07/07/2017 15:31

Prosseguimos nas observações preliminares às análises e reflexões bíblicas sobre os Livros que compõem o chamado ‘PENTATEUCO’, os cinco primeiros livros da Bíblia.

Esta coleção não se estruturou, por sua vastidão narrativa apenas por uma única mão escrivã, pois, os cinco primeiros livros da Bíblia cobrem todos os fundamentos histórico-teológicos da História e da memória do Povo de Israel.

Desde a chamada de Abraão vislumbrando o conjunto da epopeia de Israel, passando pelo périplo da libertação do Egito, da passagem do Mar vermelho, da peregrinação no deserto por quarenta anos, e sobretudo, o período da Revelação da Lei (Torah) e do Culto, provisório no deserto até o momento em que, depois a entrada na Terra Prometida, será plenamente organizado e celebrado nos dois grandiosos Templos em Jerusalém.

Os cinco primeiros livros da Bíblia cobrem um extenso panorama da Memória das Façanhas Divinas realizadas em favor de Israel.

Tudo isso para dizer que somente a partir de uma concepção baseada em tradições religiosas, literárias e teológicas pode-se entender um pouco melhor a complexa dinâmica da formação destes livros, que só podem ser lidos adequadamente em conjunto, como histórias que se entrecruzam.

Mas, o que são tradições bíblicas?

A palavra tradição é proveniente do latim: ‘tradere’ (transmissão). Supõe uma valiosa informação, experiência, conhecimento que deva por isso mesmo ser transmitida, oral ou por escrito de uma geração à outra.

Tradição é uma palavra com origem no termo em latim traditio, que significa “entregar” ou “passar adiante”. A tradição é a transmissão de costumes, comportamentos, memórias, rumores, crenças, lendas, para pessoas de uma comunidade, sendo que os elementos transmitidos passam a fazer parte da cultura1.

Segundo NEUFELD (2004), a ideia de tradição que inicialmente designava o ato de transmitir objetos materiais, foi em seguida aplicada à perpetuação de doutrinas e de práticas religiosas, legada de uma geração à outra pela palavra e pelos exemplos vivos. Dalí o termo se estendeu ao conjunto dos conteúdos assim comunicados.

Neste contexto é preciso entender que tradições não se justificam sem a presença de uma forma social que as exijam, construam e transmitam. As tradições são molduras de crenças e concepções essências da identidade de um grupo (tribo, sociedade ou civilização).

As tradições funcionam como ‘capsulas do tempo’ que permitem a sobrevida e perpetuação de ideias e conceitos, de cosmovisões, isto é, auto-concepções de vida que determinam a identidade de uma coletividade e por isso, exigem sua proteção, transmissão e perpetuação.

Ora, percebe-se um longo processo histórico entre a vivência da ação divina, a Revelação e a sua transmissão oral e em seguida por escrito. E, ocorre que estes eventos sagrados que identificam o Povo de Israel como destinatário e portador de uma Mensagem Divina sejam preservados e comunicados em sua plena significação, pois além de ouvidos e lidos, eles são ritualizados, pela liturgia, e se estruturam como regras (normas) do comportamento moral da Comunidade legada a estas tradições.

Dada a complexidade da Revelação Divina, inicialmente aos Patriarcas (Abraão) e depois, mais efetivamente a Moisés (A Libertação Pascal e o Decálogo), não é de se admirar que em torno deste legado histórico e teológico, construam-se uma multiplicidade de vozes e interpretações.

Por isso, encontramos em torno dos eventos fundadores da História de Israel, a saber, o período patriarcal, de Abraão a Jacó, incluindo seu filho José, que determina a ida e permanência no Egito, e daí a longa saga de Moisés, entre a libertação no Egito e os ‘40 anos’ (tradição) no deserto, um grande variedade de modos de ver e acentuar os significados principais e sobretudo, a identidade Divina, que se apresenta e justifica fatos e direções tomadas por Israel.

Não por acaso, as primeiras tradições em torno das quais os exegetas no fim do século XIX, início do século XX, irão nomear serão as seguintes: Javista e Eloísta. Por que? Era evidente que a designação divina nestes ambientes, reconhecidamente presente em cada conjunto de textos ou coleções tornou-se o critério para designar-lhes como pertencentes a esta ou àquela tradição. Dois ‘Nomes’ Divinos se destacam e de certa maneira organizam estas coleções: Javé e Elohim.

Nestas coleções designadas por estes dois distintos designativos divinos, percebem-se características do Único Deus, tratadas de modo exclusivo. Ora, se afirma a proximidade de Deus, acentuada pelo tratamento descritivo de Deus, através de ‘antropomorfismos’, isto é, atribui-se a Deus adjetivos e caracteres (morfismos) humanos (antropo) como ciúme, ira, violência, paixão (...) em busca de intensificar as proximidade divina do humano, isto sua imanência, ora, se acentua sua distância, sendo Santo, Ele é sempre o “Outro”, não se confunde, nem se mistura, como os ‘ídolos’, e com as realidades humanas, Ele é essencialmente Transcendente.

Encontraremos também outras designações das tradições do PENTATEUCO que indicam não somente as características divinas, mas os grupos envolvidos na elaboração e transmissão das tradições. Trata-se da chamada tradição P (Priester – Sacerdote), Sacerdotal, pois indica um grupo especifico, portador de uma herança e de um espaço privilegiado de produção, comunicação e transmissão de tradições religiosas: a Liturgia, o Templo, a conservação das ‘Escrituras’. Os sacerdotes, escribas, e doutores são agentes especializados nesta expertise. Pensa-se neste horizonte que a liturgia é a fonte das tradições, isto é, templos e oratórios teriam sido as ‘fábricas’ das tradições mais arcaicas de Israel.

Por fim, percebe-se que o longo itinerário da formação do universo fundador da Fé e da prática identitária de Israel exige constantes revisões, seja porque a extensão narrativa tornou-se considerável, seja porque, a mudança de mentalidade no correr dos tempos exige acertos, em vista de novas perguntas, novos contextos, e novas gerações.

Pense por exemplo, como foi diverso o entendimento do passado, cada vez mais longínquo, entre gerações em espaços sociais tão diversos. No momento em que Israel se estabiliza na terra prometida, constrói-se uma identidade política, com uma soberania monárquica (Saul – Davi – Salomão), com a ereção de um Templo Nacional, em Jerusalém, não se entende mais a vida e a presença de Deus, como foram sentidas e recebidas no ambiente nômade do deserto, não se cultua mais a Deus na Tenda entre tendas (...).

Por isso, são precisas revisões e releituras que englobem novas e permanentes interpretações da Lei, da Presença de Deus, da Identidade de Israel. Por isso, a coleção destes textos, chamar-se-á Deuteronomista.

Ser fiel às origens exige constantes revisões e aprofundamentos, que, sabemos são inspirações do Espirito de Deus e tornam assim, dinâmica a experiência viva de Deus, aquele de Abraão e de Moisés. Tradição, ao contrário do que pode parecer é uma realidade e uma força dinâmicas.

Pois, ao contrário, o que sobraria às novas e seguintes gerações de crentes seria o anacronismo de antigas legendas, inexperimentáveis no presente, arcaicas demais para exprimirem no presente e no futuro aquela Beleza e Verdade que as funda e que as obriga à transmissão perene.

Referência:

1 https://www.significados.com.br/tradicao/

 

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Livros do Antigo Testamento (4)

26/05/2017 00:00 - Atualizado em 07/07/2017 15:31

Prosseguimos nas observações preliminares às análises e reflexões bíblicas sobre os Livros que compõem o chamado ‘PENTATEUCO’, os cinco primeiros livros da Bíblia.

Esta coleção não se estruturou, por sua vastidão narrativa apenas por uma única mão escrivã, pois, os cinco primeiros livros da Bíblia cobrem todos os fundamentos histórico-teológicos da História e da memória do Povo de Israel.

Desde a chamada de Abraão vislumbrando o conjunto da epopeia de Israel, passando pelo périplo da libertação do Egito, da passagem do Mar vermelho, da peregrinação no deserto por quarenta anos, e sobretudo, o período da Revelação da Lei (Torah) e do Culto, provisório no deserto até o momento em que, depois a entrada na Terra Prometida, será plenamente organizado e celebrado nos dois grandiosos Templos em Jerusalém.

Os cinco primeiros livros da Bíblia cobrem um extenso panorama da Memória das Façanhas Divinas realizadas em favor de Israel.

Tudo isso para dizer que somente a partir de uma concepção baseada em tradições religiosas, literárias e teológicas pode-se entender um pouco melhor a complexa dinâmica da formação destes livros, que só podem ser lidos adequadamente em conjunto, como histórias que se entrecruzam.

Mas, o que são tradições bíblicas?

A palavra tradição é proveniente do latim: ‘tradere’ (transmissão). Supõe uma valiosa informação, experiência, conhecimento que deva por isso mesmo ser transmitida, oral ou por escrito de uma geração à outra.

Tradição é uma palavra com origem no termo em latim traditio, que significa “entregar” ou “passar adiante”. A tradição é a transmissão de costumes, comportamentos, memórias, rumores, crenças, lendas, para pessoas de uma comunidade, sendo que os elementos transmitidos passam a fazer parte da cultura1.

Segundo NEUFELD (2004), a ideia de tradição que inicialmente designava o ato de transmitir objetos materiais, foi em seguida aplicada à perpetuação de doutrinas e de práticas religiosas, legada de uma geração à outra pela palavra e pelos exemplos vivos. Dalí o termo se estendeu ao conjunto dos conteúdos assim comunicados.

Neste contexto é preciso entender que tradições não se justificam sem a presença de uma forma social que as exijam, construam e transmitam. As tradições são molduras de crenças e concepções essências da identidade de um grupo (tribo, sociedade ou civilização).

As tradições funcionam como ‘capsulas do tempo’ que permitem a sobrevida e perpetuação de ideias e conceitos, de cosmovisões, isto é, auto-concepções de vida que determinam a identidade de uma coletividade e por isso, exigem sua proteção, transmissão e perpetuação.

Ora, percebe-se um longo processo histórico entre a vivência da ação divina, a Revelação e a sua transmissão oral e em seguida por escrito. E, ocorre que estes eventos sagrados que identificam o Povo de Israel como destinatário e portador de uma Mensagem Divina sejam preservados e comunicados em sua plena significação, pois além de ouvidos e lidos, eles são ritualizados, pela liturgia, e se estruturam como regras (normas) do comportamento moral da Comunidade legada a estas tradições.

Dada a complexidade da Revelação Divina, inicialmente aos Patriarcas (Abraão) e depois, mais efetivamente a Moisés (A Libertação Pascal e o Decálogo), não é de se admirar que em torno deste legado histórico e teológico, construam-se uma multiplicidade de vozes e interpretações.

Por isso, encontramos em torno dos eventos fundadores da História de Israel, a saber, o período patriarcal, de Abraão a Jacó, incluindo seu filho José, que determina a ida e permanência no Egito, e daí a longa saga de Moisés, entre a libertação no Egito e os ‘40 anos’ (tradição) no deserto, um grande variedade de modos de ver e acentuar os significados principais e sobretudo, a identidade Divina, que se apresenta e justifica fatos e direções tomadas por Israel.

Não por acaso, as primeiras tradições em torno das quais os exegetas no fim do século XIX, início do século XX, irão nomear serão as seguintes: Javista e Eloísta. Por que? Era evidente que a designação divina nestes ambientes, reconhecidamente presente em cada conjunto de textos ou coleções tornou-se o critério para designar-lhes como pertencentes a esta ou àquela tradição. Dois ‘Nomes’ Divinos se destacam e de certa maneira organizam estas coleções: Javé e Elohim.

Nestas coleções designadas por estes dois distintos designativos divinos, percebem-se características do Único Deus, tratadas de modo exclusivo. Ora, se afirma a proximidade de Deus, acentuada pelo tratamento descritivo de Deus, através de ‘antropomorfismos’, isto é, atribui-se a Deus adjetivos e caracteres (morfismos) humanos (antropo) como ciúme, ira, violência, paixão (...) em busca de intensificar as proximidade divina do humano, isto sua imanência, ora, se acentua sua distância, sendo Santo, Ele é sempre o “Outro”, não se confunde, nem se mistura, como os ‘ídolos’, e com as realidades humanas, Ele é essencialmente Transcendente.

Encontraremos também outras designações das tradições do PENTATEUCO que indicam não somente as características divinas, mas os grupos envolvidos na elaboração e transmissão das tradições. Trata-se da chamada tradição P (Priester – Sacerdote), Sacerdotal, pois indica um grupo especifico, portador de uma herança e de um espaço privilegiado de produção, comunicação e transmissão de tradições religiosas: a Liturgia, o Templo, a conservação das ‘Escrituras’. Os sacerdotes, escribas, e doutores são agentes especializados nesta expertise. Pensa-se neste horizonte que a liturgia é a fonte das tradições, isto é, templos e oratórios teriam sido as ‘fábricas’ das tradições mais arcaicas de Israel.

Por fim, percebe-se que o longo itinerário da formação do universo fundador da Fé e da prática identitária de Israel exige constantes revisões, seja porque a extensão narrativa tornou-se considerável, seja porque, a mudança de mentalidade no correr dos tempos exige acertos, em vista de novas perguntas, novos contextos, e novas gerações.

Pense por exemplo, como foi diverso o entendimento do passado, cada vez mais longínquo, entre gerações em espaços sociais tão diversos. No momento em que Israel se estabiliza na terra prometida, constrói-se uma identidade política, com uma soberania monárquica (Saul – Davi – Salomão), com a ereção de um Templo Nacional, em Jerusalém, não se entende mais a vida e a presença de Deus, como foram sentidas e recebidas no ambiente nômade do deserto, não se cultua mais a Deus na Tenda entre tendas (...).

Por isso, são precisas revisões e releituras que englobem novas e permanentes interpretações da Lei, da Presença de Deus, da Identidade de Israel. Por isso, a coleção destes textos, chamar-se-á Deuteronomista.

Ser fiel às origens exige constantes revisões e aprofundamentos, que, sabemos são inspirações do Espirito de Deus e tornam assim, dinâmica a experiência viva de Deus, aquele de Abraão e de Moisés. Tradição, ao contrário do que pode parecer é uma realidade e uma força dinâmicas.

Pois, ao contrário, o que sobraria às novas e seguintes gerações de crentes seria o anacronismo de antigas legendas, inexperimentáveis no presente, arcaicas demais para exprimirem no presente e no futuro aquela Beleza e Verdade que as funda e que as obriga à transmissão perene.

Referência:

1 https://www.significados.com.br/tradicao/

 

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica