Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 25/07/2017

25 de Julho de 2017

Livros do Antigo Testamento (8)

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25 de Julho de 2017

Livros do Antigo Testamento (8)

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23/06/2017 00:00

Livros do Antigo Testamento (8) 0

23/06/2017 00:00

Continuamos neste artigo a tratar dos primeiros 11 capítulos da Bíblia no livro do Gênesis. A Criação e o Pecado. Como visto anteriormente, a situação humana tornou-se precária e difícil. Os resultados do pecado, da desobediência e da perda do paraíso são muitos mais severos que se pensava. É a saga da primeira família na ‘des-graça’!

4,1-24: “História de dois irmãos”, Caim e Abel. Descendência do primeiro.

       Os filhos de Adão e Eva: “Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra” (Gênesis 4,2). Caim e Abel ensejam uma estória horrenda, dada à participação no pecado dos pais. Entre eles, agricultor e pastor, se expressa uma antiga luta pelo uso da terra. Cultivá-la para os animais ou para o plantio? Terra de pasto ou lavouras? Neles se desenha uma contenda milenar, com resultados catastróficos. E o pêndulo do mal atua quando Deus prefere o sacrifício de Abel:

“E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante” (Gênesis 4,3-5).

E ‘irou-se Caim’, e mesmo em diálogo com Deus, no seu coração já nascera o fratricídio, um dos frutos amargos da colheita do pecado: “E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou” (Gênesis 4:8).

       Neste ponto ocorre mais uma vez, como no capítulo anterior, Gen 3, um insólito diálogo de Deus com o homem no pecado. O esquema parece ser o mesmo: questionamento de Deus ao homem, o subterfúgio como resposta, a revelação do Mal e o castigo, ou as consequências (Gn 4, 9-16):“E disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão?” (v.9).

Uma pergunta que exprime o amor de Deus, ‘onde está?’, a busca e o resgate da criatura submersa no pântano do Pecado.

E a resposta humana, que não é confissão do pecado, admissão da culpa, mas cinismo, que o enterra ainda mais profundamente: ‘E ele disse: Não sei; sou eu guardador do meu irmão’!

No fim da unidade, v.16, encontramos a possível função desta tradição, ao vermos que, suposta a existência de Caim, como sobrevivente da família de Adão e de Eva, ao casar-se e procriar, ele perpetuava o castigo e o pecado na humanidade nos seus descendentes[1] (4,17-24):

‘E conheceu Caim a sua mulher, e ela concebeu, e deu à luz a Enoque; e eleedificou uma cidade, e chamou o nome da cidade conforme o nome de seu filho Enoque’ (v.17)

O castigo de Caim teve como característica o fato que se tratava do pecado que nenhum ser humano pode destruir: ‘O Senhor, porém, disse-lhe: Portanto qualquer que matar a Caim, sete vezes será castigado. E pôs o Senhor um sinal em Caim, para que o não ferisse qualquer que o achasse’(v. 15). A humanidade precisará esperar o Justo, que nos justifica-se, nascido na humanidade pecadora, Ele a redimirá.

4,25-5,32: Set e a sua descendência.

       A Família de Adão/Eva através do novo filho, Sete, retoma, ou menos tenta retomar o caminho interrompido pelo fratricídio de Caim:

‘E tornou Adão a conhecer a sua mulher; e ela deu à luz um filho, e chamou o seu nome Sete; porque, disse ela, Deus me deu outro filho em lugar de Abel; porquanto Caim o matou’ (Gn 4,25).

       O capítulo se conclui com uma nota de frágil esperança para a humanidade pós-paraíso; retomava-se o culto de Deus!

‘E a Sete também nasceu um filho; e chamou o seu nome Enos; então se começou a invocar o nome do Senhor’ (Gn 4,26).

A tradição católica leu estas páginas na confiança segura que a Graça da ‘Imagem e Semelhança’ Divinas, isto é a Graça da Criação Humana, jamais abandonou totalmente a natureza humana, mesmo com a danação do Pecado Original[2].

 Referências


[1] CIC §404 “De que maneira o pecado de Adão se tornou o pecado de todos os seus descendentes? O gênero humano inteiro é em Adão "sicut unum corpus unius hominis - como um só corpo de um só homem" Em virtude desta "unidade do gênero humano", todos os homens estão implicados no pecado de Adão, como todos estão implicados na justiça de Cristo. Contudo, a transmissão do pecado original é um mistério que não somos capazes de compreender plenamente. Sabemos, porém, pela Revelação, que Adão havia recebido a santidade e a justiça originais não exclusivamente para si, mas para toda a natureza humana: ao ceder ao Tentador, Adão e Eva cometem um pecado pessoal, mas este pecado afeta a Natureza humana, que vão transmitir em um estado decaído. É um pecado que será transmitido por propagação à humanidade inteira, isto é, pela transmissão de uma natureza humana privada da santidade e da justiça originais. E é por isso que o pecado original é denominado "pecado" de maneira analógica: é um pecado "contraído" e não "cometido", um estado e não um ato”.

[2]A afirmação de que o homem (e também os anjos) foi criado “à imagem” de Deus se refere à sua natureza intelectual. Porém, se é assim, o pecado destrói a “imagem” ou a “semelhança” do homem com Deus? Parece que a imagem não pode ser destruída pelo pecado, visto que ela se refere à natureza intelectual do homem, o qual permanece inteligente mesmo se viver no pecado; a semelhança, porém, está sempre inserida na noção de imagem e não pode ser manchada sem afetar também à imagem. A pergunta dá a ocasião de penetrar ainda mais na compreensão da noção de “imagem”. Em primeiro lugar, certamente o homem foi feito à imagem de Deus, significando a sua natureza intelectual, a qual não se perde com o pecado. O pecado original causou uma ferida na inteligência humana, de modo que agora o conhecimento humano é difícil, e não está isento da possibilidade do erro. Porém, a natureza intelectual humana não está corrompida, e pode conhecer com dificuldades e fadigas”. Cf. Reflexões do Pe. Anderson Alves, Doutor em filosofia na Pontifícia Universidade da Santa Cruz em Roma e professor na Universidade Católica de Petrópolis, Brasil. Disponível em: https://pt.zenit.org/articles/o-pecado-destroi-a-imagem-ou-a-semelhanca-com-deus/

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Livros do Antigo Testamento (8)

23/06/2017 00:00

Continuamos neste artigo a tratar dos primeiros 11 capítulos da Bíblia no livro do Gênesis. A Criação e o Pecado. Como visto anteriormente, a situação humana tornou-se precária e difícil. Os resultados do pecado, da desobediência e da perda do paraíso são muitos mais severos que se pensava. É a saga da primeira família na ‘des-graça’!

4,1-24: “História de dois irmãos”, Caim e Abel. Descendência do primeiro.

       Os filhos de Adão e Eva: “Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra” (Gênesis 4,2). Caim e Abel ensejam uma estória horrenda, dada à participação no pecado dos pais. Entre eles, agricultor e pastor, se expressa uma antiga luta pelo uso da terra. Cultivá-la para os animais ou para o plantio? Terra de pasto ou lavouras? Neles se desenha uma contenda milenar, com resultados catastróficos. E o pêndulo do mal atua quando Deus prefere o sacrifício de Abel:

“E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante” (Gênesis 4,3-5).

E ‘irou-se Caim’, e mesmo em diálogo com Deus, no seu coração já nascera o fratricídio, um dos frutos amargos da colheita do pecado: “E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou” (Gênesis 4:8).

       Neste ponto ocorre mais uma vez, como no capítulo anterior, Gen 3, um insólito diálogo de Deus com o homem no pecado. O esquema parece ser o mesmo: questionamento de Deus ao homem, o subterfúgio como resposta, a revelação do Mal e o castigo, ou as consequências (Gn 4, 9-16):“E disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão?” (v.9).

Uma pergunta que exprime o amor de Deus, ‘onde está?’, a busca e o resgate da criatura submersa no pântano do Pecado.

E a resposta humana, que não é confissão do pecado, admissão da culpa, mas cinismo, que o enterra ainda mais profundamente: ‘E ele disse: Não sei; sou eu guardador do meu irmão’!

No fim da unidade, v.16, encontramos a possível função desta tradição, ao vermos que, suposta a existência de Caim, como sobrevivente da família de Adão e de Eva, ao casar-se e procriar, ele perpetuava o castigo e o pecado na humanidade nos seus descendentes[1] (4,17-24):

‘E conheceu Caim a sua mulher, e ela concebeu, e deu à luz a Enoque; e eleedificou uma cidade, e chamou o nome da cidade conforme o nome de seu filho Enoque’ (v.17)

O castigo de Caim teve como característica o fato que se tratava do pecado que nenhum ser humano pode destruir: ‘O Senhor, porém, disse-lhe: Portanto qualquer que matar a Caim, sete vezes será castigado. E pôs o Senhor um sinal em Caim, para que o não ferisse qualquer que o achasse’(v. 15). A humanidade precisará esperar o Justo, que nos justifica-se, nascido na humanidade pecadora, Ele a redimirá.

4,25-5,32: Set e a sua descendência.

       A Família de Adão/Eva através do novo filho, Sete, retoma, ou menos tenta retomar o caminho interrompido pelo fratricídio de Caim:

‘E tornou Adão a conhecer a sua mulher; e ela deu à luz um filho, e chamou o seu nome Sete; porque, disse ela, Deus me deu outro filho em lugar de Abel; porquanto Caim o matou’ (Gn 4,25).

       O capítulo se conclui com uma nota de frágil esperança para a humanidade pós-paraíso; retomava-se o culto de Deus!

‘E a Sete também nasceu um filho; e chamou o seu nome Enos; então se começou a invocar o nome do Senhor’ (Gn 4,26).

A tradição católica leu estas páginas na confiança segura que a Graça da ‘Imagem e Semelhança’ Divinas, isto é a Graça da Criação Humana, jamais abandonou totalmente a natureza humana, mesmo com a danação do Pecado Original[2].

 Referências


[1] CIC §404 “De que maneira o pecado de Adão se tornou o pecado de todos os seus descendentes? O gênero humano inteiro é em Adão "sicut unum corpus unius hominis - como um só corpo de um só homem" Em virtude desta "unidade do gênero humano", todos os homens estão implicados no pecado de Adão, como todos estão implicados na justiça de Cristo. Contudo, a transmissão do pecado original é um mistério que não somos capazes de compreender plenamente. Sabemos, porém, pela Revelação, que Adão havia recebido a santidade e a justiça originais não exclusivamente para si, mas para toda a natureza humana: ao ceder ao Tentador, Adão e Eva cometem um pecado pessoal, mas este pecado afeta a Natureza humana, que vão transmitir em um estado decaído. É um pecado que será transmitido por propagação à humanidade inteira, isto é, pela transmissão de uma natureza humana privada da santidade e da justiça originais. E é por isso que o pecado original é denominado "pecado" de maneira analógica: é um pecado "contraído" e não "cometido", um estado e não um ato”.

[2]A afirmação de que o homem (e também os anjos) foi criado “à imagem” de Deus se refere à sua natureza intelectual. Porém, se é assim, o pecado destrói a “imagem” ou a “semelhança” do homem com Deus? Parece que a imagem não pode ser destruída pelo pecado, visto que ela se refere à natureza intelectual do homem, o qual permanece inteligente mesmo se viver no pecado; a semelhança, porém, está sempre inserida na noção de imagem e não pode ser manchada sem afetar também à imagem. A pergunta dá a ocasião de penetrar ainda mais na compreensão da noção de “imagem”. Em primeiro lugar, certamente o homem foi feito à imagem de Deus, significando a sua natureza intelectual, a qual não se perde com o pecado. O pecado original causou uma ferida na inteligência humana, de modo que agora o conhecimento humano é difícil, e não está isento da possibilidade do erro. Porém, a natureza intelectual humana não está corrompida, e pode conhecer com dificuldades e fadigas”. Cf. Reflexões do Pe. Anderson Alves, Doutor em filosofia na Pontifícia Universidade da Santa Cruz em Roma e professor na Universidade Católica de Petrópolis, Brasil. Disponível em: https://pt.zenit.org/articles/o-pecado-destroi-a-imagem-ou-a-semelhanca-com-deus/

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica