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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 25/07/2017

25 de Julho de 2017

Livros do Antigo Testamento (7)

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25 de Julho de 2017

Livros do Antigo Testamento (7)

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21/06/2017 10:08 - Atualizado em 21/06/2017 10:10

Livros do Antigo Testamento (7) 0

21/06/2017 10:08 - Atualizado em 21/06/2017 10:10

A análise dos temas da narração do Gênesis nos conduz para o seu epicentro: o relato do Pecado Original ou da “Queda”, Gn 3,1-24.

Esse capítulo 3 do Gênesis está provavelmente situado no contexto do período do rei Salomão no século X a.C. Contudo, sua redação e releitura situam-se no período do exílio no século VIII a.C. Ele é de tradição javista.

         O texto pode ser visto através da ótica narrativa como uma obra de arte da sequencialidade narrativa. Encontramos as circunstâncias do ‘delito’ no diálogo entre a serpente, “o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado”[1], preparando a atmosfera de leitura/audição. Algo de ruim poderia acontecer. A serpente é usada como símbolo da fertilidade, da prostituta sagrada. É símbolo da religião Cananeia:

É símbolo da sabedoria, da esperteza (por isso tem que ser esmagada, pisada) e carrega consigo o conhecimento da vida; com ela está o saber econômico, que domina o ter, o trabalho, a mão de obra; o saber religioso e o saber político que diz ao homem ‘sereis como deuses’, tens poder para decidir sobre a vida e a morte, o destino[2].

É por isso que a serpente é escutada e adorada, e para ela são sacrificadas vidas humanas (1Rs 16,34; 2Rs 16,3; 21,6) em rituais religiosos no meio do povo cananeu e israelita. A serpente faz abandonar o projeto de Deus Javé (1Rs 19,10.14).

Nele encontramos “por trás das palavras” a situação do povo nas corveias (escravidão) do grande rei.  É uma releitura para responder as seguintes perguntas: De quem é a terra (éden)? Porque fomos expulsos dela? Quem nos enganou e nos fez quebrar a Aliança? Porque sofremos as consequências (hoje, longe de casa, violência, fome, perca de identidade como povo) dessa expulsão?

O texto com toda a sua roupagem fabulística e legendária (cobras falam, e andam...), mergulhando o leitor numa atmosfera mais densa que a dimensão prosaica poderia oferecer, nos coloca diante de um dado muito profundo, a saber, a serpente dialoga com a consciência de Eva. Pois, ela o interroga sobre os mandamentos de Deus no Paraíso: “Ela disse a mulher: É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?”(Gn 3,1).

Está lançado o desafio e a circunstância adequada para a configuração da gravidade humana do pecado: estar informado do preceito e, por isso, segui-lo ou transgredi-lo livremente! E, eles, estranhamente escolhem a parte errada!

A segunda parte do texto inicia-se com a última cena bucólica do entrecruzamento de Deus e do primeiro casal, no v.8: “E eis que ouviram o barulho (dos passos) do Senhor Deus que passeava no jardim, à hora da brisa da tarde”. O rumor dos passos de Deus (perspectiva javista sobre Deus) código da intimidade, agora é alerta e sinal de terror: “O homem e sua mulher esconderam-se da face do Senhor Deus, no meio das árvores do jardim”!

Esta reação tão paradoxal repercutirá na poesia dos salmos, quando o cantor-poeta se interrogará acerca deste paradoxal comportamento humano diante de Deus (o Criador!): Sl. 139, 7: “Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face?” No v. 7, temos parte deste motivo ou a razão desta reação: eles estavam nus!

Diálogo denso, de novo, a partir do pretexto da ‘nudez’, que exprime um encontro entre o novo estado de consciência das criaturas com o Criador, no v. 11: “O Senhor Deus disse: “Quem te revelou que estavas nu? Terias tu porventura comido do fruto da árvore que eu te havia proibido de comer?”. Deus desmascara a raiz do escondimento, nus? Não! Mas, despidos de inocência e pureza em sua relação a Deus!

Por fim, encontramos a maneira semítica de exprimir as irreparáveis consequências da perda da intimidade absoluta com Deus: as maldições ou catigos!

  1.  v. 16: “Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio.”

Estão associados agora a geração e a dor (seria absurdo ler aqui o Sl. 50, 5 quando diz “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe”?)

         Também o equilíbrio entre homem e mulher, harmonioso e équide na aurora da Criação, se transforma em dominação e dependência (desejo). De uma forma inédita se afirma que as relações de dominação entre homem e mulher estão mergulhadas na aurora nebulosa do pecado original!

         Para o homem a situação também não permanecerá a mesma de antes:

  1. “Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida” (Gn 3, 17).

Suor, trabalho penoso e fatiga. O fim do estado paradisíaco? Para muitos pensadores antigos, no paraíso não há trabalho servil (v. 19: “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto”). Sinais iniludíveis de um estado degradante de vida! Quanto mais longe de Deus, mais a vida humana é árdua e fatigante! Não menor será o próximo sinal do desagrado Divino com Adão:

  1. v. 19: “até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar.”

Que declínio! Da expressão máxima do Cap. 1, 26s, na qual se afirmara a origem humana como ‘imago et similis Dei’, encontramos aqui o homem definido como ‘pó’. É bem verdade que no Cap. 2, fora dito que nossa origem era o ‘barro’ (2,7: “o homem do barro da terra”). Mas aqui, trata-se da perda de uma semelhança com Deus, a vida perene! Agora a morte entrara na existência humana.

O crepúsculo mais sombrio virá com a expulsão do paraíso, descrito até então, como o lugar mais adequado ao humano: intimidade com Deus, fartura, e harmonia. Tudo perdido! Nos v.23 e 24 se afirma: “O Senhor Deus expulsou-o do jardim do Éden”. Eles já não tinham as condições adequadas para permanecer na Presença de Deus.

Referências:

[1]A serpente é um símbolo poderoso em várias religiões. No judaísmo e no cristianismo, por exemplo, está associada ao mal, por lembrar o fálus e o desejo sexual. No judaísmo, está ligada à transcendência humana pela ligação com Deus, acima do pecado do comportamento sexual, relacionado a Adão e Eva”. Cf. http://leiturasdahistoria.uol.com.br/veneracao-da-serpente-nas-religioes/

[2] http://bibliaecatequese.com/genesis-3/

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Livros do Antigo Testamento (7)

21/06/2017 10:08 - Atualizado em 21/06/2017 10:10

A análise dos temas da narração do Gênesis nos conduz para o seu epicentro: o relato do Pecado Original ou da “Queda”, Gn 3,1-24.

Esse capítulo 3 do Gênesis está provavelmente situado no contexto do período do rei Salomão no século X a.C. Contudo, sua redação e releitura situam-se no período do exílio no século VIII a.C. Ele é de tradição javista.

         O texto pode ser visto através da ótica narrativa como uma obra de arte da sequencialidade narrativa. Encontramos as circunstâncias do ‘delito’ no diálogo entre a serpente, “o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado”[1], preparando a atmosfera de leitura/audição. Algo de ruim poderia acontecer. A serpente é usada como símbolo da fertilidade, da prostituta sagrada. É símbolo da religião Cananeia:

É símbolo da sabedoria, da esperteza (por isso tem que ser esmagada, pisada) e carrega consigo o conhecimento da vida; com ela está o saber econômico, que domina o ter, o trabalho, a mão de obra; o saber religioso e o saber político que diz ao homem ‘sereis como deuses’, tens poder para decidir sobre a vida e a morte, o destino[2].

É por isso que a serpente é escutada e adorada, e para ela são sacrificadas vidas humanas (1Rs 16,34; 2Rs 16,3; 21,6) em rituais religiosos no meio do povo cananeu e israelita. A serpente faz abandonar o projeto de Deus Javé (1Rs 19,10.14).

Nele encontramos “por trás das palavras” a situação do povo nas corveias (escravidão) do grande rei.  É uma releitura para responder as seguintes perguntas: De quem é a terra (éden)? Porque fomos expulsos dela? Quem nos enganou e nos fez quebrar a Aliança? Porque sofremos as consequências (hoje, longe de casa, violência, fome, perca de identidade como povo) dessa expulsão?

O texto com toda a sua roupagem fabulística e legendária (cobras falam, e andam...), mergulhando o leitor numa atmosfera mais densa que a dimensão prosaica poderia oferecer, nos coloca diante de um dado muito profundo, a saber, a serpente dialoga com a consciência de Eva. Pois, ela o interroga sobre os mandamentos de Deus no Paraíso: “Ela disse a mulher: É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?”(Gn 3,1).

Está lançado o desafio e a circunstância adequada para a configuração da gravidade humana do pecado: estar informado do preceito e, por isso, segui-lo ou transgredi-lo livremente! E, eles, estranhamente escolhem a parte errada!

A segunda parte do texto inicia-se com a última cena bucólica do entrecruzamento de Deus e do primeiro casal, no v.8: “E eis que ouviram o barulho (dos passos) do Senhor Deus que passeava no jardim, à hora da brisa da tarde”. O rumor dos passos de Deus (perspectiva javista sobre Deus) código da intimidade, agora é alerta e sinal de terror: “O homem e sua mulher esconderam-se da face do Senhor Deus, no meio das árvores do jardim”!

Esta reação tão paradoxal repercutirá na poesia dos salmos, quando o cantor-poeta se interrogará acerca deste paradoxal comportamento humano diante de Deus (o Criador!): Sl. 139, 7: “Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face?” No v. 7, temos parte deste motivo ou a razão desta reação: eles estavam nus!

Diálogo denso, de novo, a partir do pretexto da ‘nudez’, que exprime um encontro entre o novo estado de consciência das criaturas com o Criador, no v. 11: “O Senhor Deus disse: “Quem te revelou que estavas nu? Terias tu porventura comido do fruto da árvore que eu te havia proibido de comer?”. Deus desmascara a raiz do escondimento, nus? Não! Mas, despidos de inocência e pureza em sua relação a Deus!

Por fim, encontramos a maneira semítica de exprimir as irreparáveis consequências da perda da intimidade absoluta com Deus: as maldições ou catigos!

  1.  v. 16: “Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio.”

Estão associados agora a geração e a dor (seria absurdo ler aqui o Sl. 50, 5 quando diz “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe”?)

         Também o equilíbrio entre homem e mulher, harmonioso e équide na aurora da Criação, se transforma em dominação e dependência (desejo). De uma forma inédita se afirma que as relações de dominação entre homem e mulher estão mergulhadas na aurora nebulosa do pecado original!

         Para o homem a situação também não permanecerá a mesma de antes:

  1. “Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida” (Gn 3, 17).

Suor, trabalho penoso e fatiga. O fim do estado paradisíaco? Para muitos pensadores antigos, no paraíso não há trabalho servil (v. 19: “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto”). Sinais iniludíveis de um estado degradante de vida! Quanto mais longe de Deus, mais a vida humana é árdua e fatigante! Não menor será o próximo sinal do desagrado Divino com Adão:

  1. v. 19: “até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar.”

Que declínio! Da expressão máxima do Cap. 1, 26s, na qual se afirmara a origem humana como ‘imago et similis Dei’, encontramos aqui o homem definido como ‘pó’. É bem verdade que no Cap. 2, fora dito que nossa origem era o ‘barro’ (2,7: “o homem do barro da terra”). Mas aqui, trata-se da perda de uma semelhança com Deus, a vida perene! Agora a morte entrara na existência humana.

O crepúsculo mais sombrio virá com a expulsão do paraíso, descrito até então, como o lugar mais adequado ao humano: intimidade com Deus, fartura, e harmonia. Tudo perdido! Nos v.23 e 24 se afirma: “O Senhor Deus expulsou-o do jardim do Éden”. Eles já não tinham as condições adequadas para permanecer na Presença de Deus.

Referências:

[1]A serpente é um símbolo poderoso em várias religiões. No judaísmo e no cristianismo, por exemplo, está associada ao mal, por lembrar o fálus e o desejo sexual. No judaísmo, está ligada à transcendência humana pela ligação com Deus, acima do pecado do comportamento sexual, relacionado a Adão e Eva”. Cf. http://leiturasdahistoria.uol.com.br/veneracao-da-serpente-nas-religioes/

[2] http://bibliaecatequese.com/genesis-3/

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica