Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 18/08/2018

18 de Agosto de 2018

A quem servimos?

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20/09/2013 15:45 - Atualizado em 07/10/2013 16:10

A quem servimos?

20/09/2013 15:45 - Atualizado em 07/10/2013 16:10

A quem servimos? / Arqrio

As leituras que hoje ouvimos tocam no tema da justiça social. O profeta Amós critica duramente aqueles que causam a prostração dos “pobres da terra”. O profeta critica a hipocrisia dos falsos religiosos que esperam apenas passar o sábado para voltar a praticar a injustiça: diminuir medidas, aumentar pesos e adulterar balanças.

O evangelho, por sua vez, nos fala de um administrador infiel que esbanja os bens do seu patrão. Trata-se de um mal enraizado no coração de tantas pessoas: o amor ao dinheiro. Esse amor ao dinheiro faz com que se passe até mesmo por cima da dignidade humana apenas com o intuito de se obter cada vez mais.

Esta perícope evangélica termina com uma advertência: “Ninguém pode servir a dois senhores: pois, ou adiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro.” Não podemos dividir o espaço do nosso coração com dois senhores. Precisamos fazer uma escolha radical: ou servimos a Deus ou servimos ao dinheiro. Diante de tal radicalidade, que foi vivida por muitos cristãos de maneira intensa no decorrer dos séculos, nos sentimos abalados e nos questionamos sobre a possibilidade de a vivermos realmente. Vejamos meus irmãos que não se trata aqui exclusivamente de abandonar completamente o uso do dinheiro ou dos bens deste mundo, até mesmo porque sabemos que não podemos viver completamente sem posses. Precisamos possuir ao menos o alimento que comemos e a roupa que vestimos. Jesus não está condenando a posse dos bens. Em outras passagens do Evangelho Jesus vai alertar sobre o perigo das riquezas. Mas aqui o assunto é outro. Trata-se de escolher a quem nós queremos servir. O problema aqui é a nossa atitude espiritual diante dos bens; a avareza não está nos bens, mas está na nossa atitude diante dos bens. Nós “servimos” somente a Deus; com relação aos bens nós podemos “nos servir” deles, mas sem deixar que eles nos dominem.

Aqui Jesus quer nos libertar de uma doença espiritual chamada “avareza”. Os Santos monges condensaram na sua sabedoria todos os males humanos em “oito pensamentos malvados”. Esses oito pensamentos seriam como que as raízes de todos os outros pecados que nós percebemos em nós mesmos. É a raiz mais primitiva daquilo o que posteriormente vai se chamar de “sete pecados capitais”. A doença espiritual da avareza faz com que o homem coloque a sua confiança não em Deus e na sua providência, mas nos bens deste mundo. Um santo monge chamado Evágrio Pôntico nos diz o seguinte: A avareza sugere (ao monge) uma longa velhice, a incapacidade das mãos para o trabalho, a fome que pode padecer, as enfermidades que sobrevirão e as penalidades da pobreza, assim como o vergonhoso ter que receber dos outros o necessário para ele mesmo.[1] A caridade de Cristo com a qual nós comungamos não pode coexistir com a avareza: Assim como é inadmissível que a vida e a morte aconteçam ao mesmo tempo no mesmo homem, do mesmo modo é impossível que a caridade coexista com a riqueza.[2]

Nós talvez nos perguntemos o porquê da avareza. Nos perguntamos porque nos deixamos dominar pela preocupação com a nossa vida a ponto de, ao invés de nos utilizar dos bens deste mundo, acabamos por deixar que eles nos dominem. São Máximo Confessor nos diz que são três as causas da avareza: São três as causas do amor às riquezas: o amor ao prazer, a vanglória e a falta de fé. Mais grave, porém, que as outras duas, é a falta de fé.[3] Falando sobre a falta de fé São Máximo diz: O amante do prazer ama o dinheiro para deleitar-se mediante ele; (...) o que não tem fé para escondê-lo e custodiá-lo tendo medo da fome, da velhice, da doença ou do exílio e espera mais nele (no dinheiro) do que em Deus, autor e providência da criação toda, até dos últimos e menores seres vivos.[4] Vemos o quanto é grave essa doença espiritual da avareza. Nós acabamos por esperar mais do dinheiro do que do próprio Deus que nos amou e nos ama e que nos conserva na existência. Aqui meus irmãos é preciso ser adultos para entendermos o que o Senhor nos quer falar. Não se trata de viver uma vida despreocupada no sentido laxo do termo. Não se trata de ficar sentado esperando que tudo caia do céu. Aqui a insinuação diabólica é bem sutil. Deus não quer que fiquemos esperando tudo cair do céu. Devemos estudar, trabalhar, economizar se queremos ter as coisas. Todavia, precisamos como se costuma dizer por aí, trabalhar como se tudo dependesse de nós, e confiar como se tudo dependesse de Deus, porque de fato depende. De nada adianta o nosso trabalho se Deus não fizer cair o sol e a chuva sobre a terra. Trata-se de trabalhar sim, mas sem perder de vista que Deus é o doador de todos os bens. Importante é saber se utilizar dos bens sem se deixar escravizar por eles e sem colocar a nossa confiança mais nos bens do que em Deus mesmo.

O v. 9 nos coloca diante de uma questão difícil: Jesus manda que se use o dinheiro iníquo para fazer amigos. A interpretação corrente é a de que esses “amigos” são os pobres, aos quais se deve fazer o bem, como forma de bem utilizar o dinheiro. O dinheiro iníquo, aqui chamado literalmente de “mammon de injustiça”, não precisa ser necessariamente entendido como um dinheiro adquirido de maneira errada, embora possa ser também assim entendido. Pode se tratar de uma forma de dizer que o dinheiro é iníquo porque faz com que os homens coloquem nele, e não em Deus, a sua confiança. A única forma de torná-lo “limpo”, seria utilizando-o para fazer o bem, sobretudo aos pobres.

“Louvai o Senhor que eleva os pobres!” Essa é a súplica do salmo. Que Ele seja louvado e que nos eleve também da nossa pobreza, seja lá de qual natureza ela for.


[1] Cf. Evágrio Pôntico, Tratado Prático, 9

[2] Cf. Evágrio Pôntico, Tratado Prático, 18

[3] Cf. São Máximo Confessor – Terceira Centúria sobre a caridade, 17

[4] Cf. São Máximo Confessor – Centúrias sobre a caridade 

A quem servimos? / Arqrio

A quem servimos?

20/09/2013 15:45 - Atualizado em 07/10/2013 16:10

As leituras que hoje ouvimos tocam no tema da justiça social. O profeta Amós critica duramente aqueles que causam a prostração dos “pobres da terra”. O profeta critica a hipocrisia dos falsos religiosos que esperam apenas passar o sábado para voltar a praticar a injustiça: diminuir medidas, aumentar pesos e adulterar balanças.

O evangelho, por sua vez, nos fala de um administrador infiel que esbanja os bens do seu patrão. Trata-se de um mal enraizado no coração de tantas pessoas: o amor ao dinheiro. Esse amor ao dinheiro faz com que se passe até mesmo por cima da dignidade humana apenas com o intuito de se obter cada vez mais.

Esta perícope evangélica termina com uma advertência: “Ninguém pode servir a dois senhores: pois, ou adiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro.” Não podemos dividir o espaço do nosso coração com dois senhores. Precisamos fazer uma escolha radical: ou servimos a Deus ou servimos ao dinheiro. Diante de tal radicalidade, que foi vivida por muitos cristãos de maneira intensa no decorrer dos séculos, nos sentimos abalados e nos questionamos sobre a possibilidade de a vivermos realmente. Vejamos meus irmãos que não se trata aqui exclusivamente de abandonar completamente o uso do dinheiro ou dos bens deste mundo, até mesmo porque sabemos que não podemos viver completamente sem posses. Precisamos possuir ao menos o alimento que comemos e a roupa que vestimos. Jesus não está condenando a posse dos bens. Em outras passagens do Evangelho Jesus vai alertar sobre o perigo das riquezas. Mas aqui o assunto é outro. Trata-se de escolher a quem nós queremos servir. O problema aqui é a nossa atitude espiritual diante dos bens; a avareza não está nos bens, mas está na nossa atitude diante dos bens. Nós “servimos” somente a Deus; com relação aos bens nós podemos “nos servir” deles, mas sem deixar que eles nos dominem.

Aqui Jesus quer nos libertar de uma doença espiritual chamada “avareza”. Os Santos monges condensaram na sua sabedoria todos os males humanos em “oito pensamentos malvados”. Esses oito pensamentos seriam como que as raízes de todos os outros pecados que nós percebemos em nós mesmos. É a raiz mais primitiva daquilo o que posteriormente vai se chamar de “sete pecados capitais”. A doença espiritual da avareza faz com que o homem coloque a sua confiança não em Deus e na sua providência, mas nos bens deste mundo. Um santo monge chamado Evágrio Pôntico nos diz o seguinte: A avareza sugere (ao monge) uma longa velhice, a incapacidade das mãos para o trabalho, a fome que pode padecer, as enfermidades que sobrevirão e as penalidades da pobreza, assim como o vergonhoso ter que receber dos outros o necessário para ele mesmo.[1] A caridade de Cristo com a qual nós comungamos não pode coexistir com a avareza: Assim como é inadmissível que a vida e a morte aconteçam ao mesmo tempo no mesmo homem, do mesmo modo é impossível que a caridade coexista com a riqueza.[2]

Nós talvez nos perguntemos o porquê da avareza. Nos perguntamos porque nos deixamos dominar pela preocupação com a nossa vida a ponto de, ao invés de nos utilizar dos bens deste mundo, acabamos por deixar que eles nos dominem. São Máximo Confessor nos diz que são três as causas da avareza: São três as causas do amor às riquezas: o amor ao prazer, a vanglória e a falta de fé. Mais grave, porém, que as outras duas, é a falta de fé.[3] Falando sobre a falta de fé São Máximo diz: O amante do prazer ama o dinheiro para deleitar-se mediante ele; (...) o que não tem fé para escondê-lo e custodiá-lo tendo medo da fome, da velhice, da doença ou do exílio e espera mais nele (no dinheiro) do que em Deus, autor e providência da criação toda, até dos últimos e menores seres vivos.[4] Vemos o quanto é grave essa doença espiritual da avareza. Nós acabamos por esperar mais do dinheiro do que do próprio Deus que nos amou e nos ama e que nos conserva na existência. Aqui meus irmãos é preciso ser adultos para entendermos o que o Senhor nos quer falar. Não se trata de viver uma vida despreocupada no sentido laxo do termo. Não se trata de ficar sentado esperando que tudo caia do céu. Aqui a insinuação diabólica é bem sutil. Deus não quer que fiquemos esperando tudo cair do céu. Devemos estudar, trabalhar, economizar se queremos ter as coisas. Todavia, precisamos como se costuma dizer por aí, trabalhar como se tudo dependesse de nós, e confiar como se tudo dependesse de Deus, porque de fato depende. De nada adianta o nosso trabalho se Deus não fizer cair o sol e a chuva sobre a terra. Trata-se de trabalhar sim, mas sem perder de vista que Deus é o doador de todos os bens. Importante é saber se utilizar dos bens sem se deixar escravizar por eles e sem colocar a nossa confiança mais nos bens do que em Deus mesmo.

O v. 9 nos coloca diante de uma questão difícil: Jesus manda que se use o dinheiro iníquo para fazer amigos. A interpretação corrente é a de que esses “amigos” são os pobres, aos quais se deve fazer o bem, como forma de bem utilizar o dinheiro. O dinheiro iníquo, aqui chamado literalmente de “mammon de injustiça”, não precisa ser necessariamente entendido como um dinheiro adquirido de maneira errada, embora possa ser também assim entendido. Pode se tratar de uma forma de dizer que o dinheiro é iníquo porque faz com que os homens coloquem nele, e não em Deus, a sua confiança. A única forma de torná-lo “limpo”, seria utilizando-o para fazer o bem, sobretudo aos pobres.

“Louvai o Senhor que eleva os pobres!” Essa é a súplica do salmo. Que Ele seja louvado e que nos eleve também da nossa pobreza, seja lá de qual natureza ela for.


[1] Cf. Evágrio Pôntico, Tratado Prático, 9

[2] Cf. Evágrio Pôntico, Tratado Prático, 18

[3] Cf. São Máximo Confessor – Terceira Centúria sobre a caridade, 17

[4] Cf. São Máximo Confessor – Centúrias sobre a caridade 

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida