Arquidiocese do Rio de Janeiro

31º 16º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 28/05/2017

28 de Maio de 2017

“Eu sou o Pão da vida!” (Jo 6,48)

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28 de Maio de 2017

“Eu sou o Pão da vida!” (Jo 6,48)

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13/04/2017 00:00 - Atualizado em 17/04/2017 14:19

“Eu sou o Pão da vida!” (Jo 6,48) 0

13/04/2017 00:00 - Atualizado em 17/04/2017 14:19

Celebramos na Quinta-feira Santa a Instituição do Sacerdócio e da Eucaristia. Com as duas celebrações desse dia, arquidiocesana e paroquial, celebramos o memorial desse grande dom da presença do Senhor na Eucaristia.

Muitas vezes pessoas intolerantes invadem nossas igrejas e nossas Capelas do Santíssimo para violar o Santíssimo Sacramento. Existe também um grupo religioso que, não tendo como ter o Pão da Vida, Cristo na Eucaristia, manipula o povo depreciando maldosamente o sinal eucarístico. Além dos interesses econômicos, desrespeitam a fé dos católicos.

Podem até negar que tal ato não se refira à Eucaristia, embora os sinais, formato, cor, espessura sejam claros. Alguns podem achar também que outros momentos seria mais um assalto roubo que profanação ou  sacrilégio com as espécies sagradas. Mas, em qualquer situação, objetivamente o atingido é o povo de Deus, em sua fé e em seu direito de culto e de vida.

São questões que tocam a fundo a reflexão de uma pessoa de fé e de bom-senso e merece, no mínimo, um pedido de desculpas pela confusão despertada. Ou ainda, como podem roubar as igrejas e não respeitar os nossos sacrários e, muitas vezes, nada levam, a não ser a Eucaristia?

O povo tem, por segurança constitucional, direito à liberdade de expressão, mas deve assumir a responsabilidade por tudo quanto expressa, bem como pensar que jamais será possível conviver (= viver com) se há afronta ao outro ou a símbolos que lhe são preciosos. Daí o filósofo e teólogo brasileiro Dom Estevão Bettencourt, OSB, escrever o seguinte: “Na verdade, a liberdade de expressão não implica desrespeito aos valores alheios. A sadia convivência numa sociedade requer polidez de uns para com os outros, ficando excluídas todas as expressões que firam a consciência do próximo. Caso não se observe esta norma, a vida em sociedade assemelha-se à de um campo de batalha”. (Pergunte e Responderemos n. 530, agosto de 2006, p. 371).

Também o promotor de Justiça e Mestre em Direito pela UNESP, Ronaldo Batista Pinto, ao tratar da liberdade de expressão, deixa claro, de modo sintético e magistral, que “nenhum direito, ainda que assegurado constitucionalmente, é absoluto e mesmo a expressão do pensamento, embora livre nos termos do inc. IV do art. 5º da Carta, pode se sujeitar a restrições, desde que seu exercício implique na violação do direito alheio”. (Estatuto do Torcedor comentado. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, p. 39).

Vem, ainda, a parte teológica, que é de suma importância, visto tratar-se de um tema de fé. Vamos, pois, à Bíblia e à Tradição sadiamente interpretadas pelo Magistério da Igreja. Encontramos nos Evangelhos sinóticos e em São Paulo a narrativa da Instituição da Eucaristia (cf. Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,19-20; 1Cor 11,23-26). Já o evangelista João não narra a última Ceia, mas lhe dá o fundamento teológico-doutrinário, de modo especial no capítulo 6 do seu Evangelho. Nesses dias da Semana Santa celebramos justamente este grande mistério instituído pelo Cristo.

O capítulo 6º de São João apresenta três grandes pontos interligados que se referem à Eucaristia: do versículo 1 ao 15, a multiplicação de pães a prefigurar a Eucaristia, com pouco pão muitos são saciados e o alimento não acaba, mas, ao contrário, sobra em abundância; do 16 ao 21, Jesus caminha sobre as águas, o que bem demonstra o poder que Ele, enquanto Deus e Homem, tem sobre Si mesmo e sobre a natureza inteira, e, por fim, o longo sermão a respeito do Pão da Vida, que é o próprio Cristo, nos versículos 22-71, em cujo corpo está a secção dos versículos 51-56.

As afirmações aí contidas são de um realismo ímpar. No versículo 52, os judeus alarmados perguntam como Jesus daria de comer (phagein, no grego) a Sua carne e Ele, longe de tentar esclarecer com alegoria ou interpretação simbólica, é muito enfático ao afirmar que quem come a Sua carne e bebe o Seu sangue tem a vida eterna (v. 54). Ora, aqui o comer é tido, no original grego, como o verbo trogô, que significa “mastigar, dilacerar com os dentes”, e isso é algo novo para todos, dado que, em linguagem bíblica, comer a carne ou beber o sangue de alguém significava ódio, ofensa grave à pessoa dilacerada, conforme o Salmo 26,2... O Senhor Jesus, príncipe da paz, não convidaria – é óbvio – ninguém a odiá-Lo em troca da vida eterna, mas insiste, ante o espanto de alguns (v. 52), em ser alimento e sustento de todos, não obstante o abandono de seguidores (v. 66-67). A fala do Senhor é, portanto, realista e não simbólica!

Certo é que o versículo 63 causa embaraço a certos leitores ao afirmar que “é o Espírito que vivifica; a carne para nada serve. As palavras que eu vos disse são espírito e vida”. Que isso quer dizer, pois primeiro Jesus manda comer a Sua carne, depois afirma que Ela, em si, para nada serve? – Responde-nos Dom Estêvão Bettencourt: “Jesus apenas visava remover um entendimento grosseiro de suas afirmações: não se tratava de comer carne enquanto tal (está claro que esta por si só não santifica o homem) nem de comer a carne do Senhor em suas condições terrestres, mas, sim, de receber a carne de Cristo glorificada e elevada aos céus, emancipada das leis do espaço e do tempo. É a carne nessas circunstâncias novas que Jesus chama ‘espírito’; é espírito, porque está toda penetrada pela Divindade (na verdade, é a Divindade de Cristo que, mediante a carne, vivifica os fiéis na Eucaristia)”.

“Acrescentou o Senhor que as suas palavras são espírito, não como se tivessem de ser entendidas em sentido figurado, mas pelo fato de terem um alcance espiritual e de exigirem um entendimento sobrenatural (na fé); são vida também, porque nos revelam o meio de termos a vida em nós”.

“Sto. Agostinho († 430), tão explorado pelos simbolistas, propõe de maneira admirável a exegese de Jo 6,63: ‘A carne para nada serve, se ela está só. Que o Espírito (= a Divindade) se junte a ela, como a caridade se pode juntar à ciência, e então ela servirá muito. Pois, se a carne para nada servisse, o Verbo não se teria feito carne para habitar entre nós. Se Cristo muito nos valeu encarnando-se, como é que a carne para nada serve? Eis contudo que o Espírito se empenhou em nossa salvação mediante a carne. A carne foi o receptáculo: considera o que ela continha, não o que ela era... O Espírito é que vivifica, a carne para nada serve: minha carne, que dou a comer, não é a carne tal como eles a concebiam (= como carne de açougue)’ (In Io tr. 27,5)”.

“São João Crisóstomo († 407) diz o mesmo, sob nova forma: ‘Se aquele que não come a carne de Jesus e não bebe o seu sangue, não tem a vida em si, como seria verdade que essa carne, sem a qual ninguém possui a vida, para nada serve? Vês, por conseguinte, que a frase ‘A carne para nada serve’ significa não a carne de Jesus, mas o modo carnal como eles escutavam’. (In Io 6,30)” (Curso sobre os Sacramentos. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2002, p. 90).

Cabe ainda uma breve, mas esclarecedora palavra a respeito da transubstanciação, que a Igreja sempre professou como verdade de fé, de modo que Sto. Agostinho de Hipona († 430) ensinava: “O que vedes, caríssimos, na mesa do Senhor, é pão e vinho; mas esse pão e esse vinho, acrescentando-se-lhes a Palavra, tornam-se corpo e sangue de Cristo… Tira a Palavra, e tens pão e vinho; acrescenta a Palavra, e já tens outra coisa. E essa outra coisa que é? Corpo e Sangue de Cristo. Tira a Palavra, e tens pão e vinho; acrescenta a Palavra, e tens um sacramento. A isso tudo vós dizeis: ‘Amem’. Dizer ‘Amem’ é subscrever. ‘Amem’ em latim significa: ‘É verdade’” (Sermão 6,3).

Note-se, portanto, que a conversão ou mudança da substância do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo sempre existiu, a partir da instituição da Eucaristia pelo próprio Senhor Jesus ao cear com seus Apóstolos, conforme as passagens bíblicas citadas. Faltava, porém, uma palavra capaz de expressar, à luz da Filosofia e da Teologia, essa realidade. Esse termo apareceu entre os séculos XI e XII e se tornou comum a partir de então: é o vocábulo transubstanciação.

Com efeito, em 1079, um Concílio Regional em Roma, recolhendo os dados da Tradição, elaborou a seguinte profissão de fé: “Intimamente creio e abertamente confesso que o pão e o vinho colocados sobre o altar, mediante o mistério da oração sagrada e as palavras do nosso Redentor, se convertem substancialmente (substantialiter converti) na verdadeira, própria e vivífica carne e no sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo; e… que depois da consagração há o verdadeiro corpo de Cristo, o qual nasceu da Virgem, foi oferecido para a salvação do mundo, pendurado à cruz e ora está assentado à direita do Pai;  há também o verdadeiro sangue de Cristo, que jorrou do seu lado… na propriedade da sua natureza e na realidade da sua substância”. (DS 700)

No século XIII, o Concílio de Latrão IV (1215) consagrou, em seus documentos, a palavra transubstanciação, que foi usada pelos Concílios de Latrão IV (1415-1417), de Florença (1438-1444) e de Trento. Este, em 1551, afirmou que a conversão do pão e do vinho em corpo e sangue de Cristo “foi com muito acerto e propriedade chamada pela Igreja Católica transubstanciação”. (DS 1642; cf. DS 1652)

Proposta, portanto, a doutrina da Igreja, resta-nos entender o que, realmente, deseja expressar o termo transubstanciação em linguagem filosófico-teológica (também entendida pelo bom-senso), pois seu significado difere dos conceitos que as palavras substânciamatéria e acidente, alicerces da transubstanciação, têm na Física moderna. É o seguinte: em todo ser há um conjunto de notas acidentais (tamanho, peso, cor, sabor etc.), mas também existe, necessariamente, um substrato permanente e inalterável que dá unidade e coesão a esse ser. Mais: sempre vemos os acidentes, mas não a substância (o que sub está ou o que suporta) de um ser.

Na Consagração, ocorre, pois, a transubstanciação: o pão e o vinho conservam todos os seus acidentes (cor, quantidade, sabor…), mas se transformam, em suas substâncias de pão e de vinho, na substância do corpo humano e no sangue de Jesus Cristo, Nosso Senhor. Como explicar isso? – É um mistério de fé que, embora não seja absurdo, conforme ficou demonstrado, exige uma intervenção de Deus, que tudo pode, a fim de ser realizado esse grande ato de amor. Antes de Sua morte e ressurreição, o Senhor Jesus quis dar-Se em comida e bebida para nos salvar.

Eis porque a Eucaristia, ou mesmo as espécies dela, deve ser sempre respeitada. Quando há desrespeito, é preciso que haja também reparação com oração e esclarecimento ao Povo de Deus, buscador da paz, da concórdia e do respeito à fé alheia.

 

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“Eu sou o Pão da vida!” (Jo 6,48)

13/04/2017 00:00 - Atualizado em 17/04/2017 14:19

Celebramos na Quinta-feira Santa a Instituição do Sacerdócio e da Eucaristia. Com as duas celebrações desse dia, arquidiocesana e paroquial, celebramos o memorial desse grande dom da presença do Senhor na Eucaristia.

Muitas vezes pessoas intolerantes invadem nossas igrejas e nossas Capelas do Santíssimo para violar o Santíssimo Sacramento. Existe também um grupo religioso que, não tendo como ter o Pão da Vida, Cristo na Eucaristia, manipula o povo depreciando maldosamente o sinal eucarístico. Além dos interesses econômicos, desrespeitam a fé dos católicos.

Podem até negar que tal ato não se refira à Eucaristia, embora os sinais, formato, cor, espessura sejam claros. Alguns podem achar também que outros momentos seria mais um assalto roubo que profanação ou  sacrilégio com as espécies sagradas. Mas, em qualquer situação, objetivamente o atingido é o povo de Deus, em sua fé e em seu direito de culto e de vida.

São questões que tocam a fundo a reflexão de uma pessoa de fé e de bom-senso e merece, no mínimo, um pedido de desculpas pela confusão despertada. Ou ainda, como podem roubar as igrejas e não respeitar os nossos sacrários e, muitas vezes, nada levam, a não ser a Eucaristia?

O povo tem, por segurança constitucional, direito à liberdade de expressão, mas deve assumir a responsabilidade por tudo quanto expressa, bem como pensar que jamais será possível conviver (= viver com) se há afronta ao outro ou a símbolos que lhe são preciosos. Daí o filósofo e teólogo brasileiro Dom Estevão Bettencourt, OSB, escrever o seguinte: “Na verdade, a liberdade de expressão não implica desrespeito aos valores alheios. A sadia convivência numa sociedade requer polidez de uns para com os outros, ficando excluídas todas as expressões que firam a consciência do próximo. Caso não se observe esta norma, a vida em sociedade assemelha-se à de um campo de batalha”. (Pergunte e Responderemos n. 530, agosto de 2006, p. 371).

Também o promotor de Justiça e Mestre em Direito pela UNESP, Ronaldo Batista Pinto, ao tratar da liberdade de expressão, deixa claro, de modo sintético e magistral, que “nenhum direito, ainda que assegurado constitucionalmente, é absoluto e mesmo a expressão do pensamento, embora livre nos termos do inc. IV do art. 5º da Carta, pode se sujeitar a restrições, desde que seu exercício implique na violação do direito alheio”. (Estatuto do Torcedor comentado. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, p. 39).

Vem, ainda, a parte teológica, que é de suma importância, visto tratar-se de um tema de fé. Vamos, pois, à Bíblia e à Tradição sadiamente interpretadas pelo Magistério da Igreja. Encontramos nos Evangelhos sinóticos e em São Paulo a narrativa da Instituição da Eucaristia (cf. Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,19-20; 1Cor 11,23-26). Já o evangelista João não narra a última Ceia, mas lhe dá o fundamento teológico-doutrinário, de modo especial no capítulo 6 do seu Evangelho. Nesses dias da Semana Santa celebramos justamente este grande mistério instituído pelo Cristo.

O capítulo 6º de São João apresenta três grandes pontos interligados que se referem à Eucaristia: do versículo 1 ao 15, a multiplicação de pães a prefigurar a Eucaristia, com pouco pão muitos são saciados e o alimento não acaba, mas, ao contrário, sobra em abundância; do 16 ao 21, Jesus caminha sobre as águas, o que bem demonstra o poder que Ele, enquanto Deus e Homem, tem sobre Si mesmo e sobre a natureza inteira, e, por fim, o longo sermão a respeito do Pão da Vida, que é o próprio Cristo, nos versículos 22-71, em cujo corpo está a secção dos versículos 51-56.

As afirmações aí contidas são de um realismo ímpar. No versículo 52, os judeus alarmados perguntam como Jesus daria de comer (phagein, no grego) a Sua carne e Ele, longe de tentar esclarecer com alegoria ou interpretação simbólica, é muito enfático ao afirmar que quem come a Sua carne e bebe o Seu sangue tem a vida eterna (v. 54). Ora, aqui o comer é tido, no original grego, como o verbo trogô, que significa “mastigar, dilacerar com os dentes”, e isso é algo novo para todos, dado que, em linguagem bíblica, comer a carne ou beber o sangue de alguém significava ódio, ofensa grave à pessoa dilacerada, conforme o Salmo 26,2... O Senhor Jesus, príncipe da paz, não convidaria – é óbvio – ninguém a odiá-Lo em troca da vida eterna, mas insiste, ante o espanto de alguns (v. 52), em ser alimento e sustento de todos, não obstante o abandono de seguidores (v. 66-67). A fala do Senhor é, portanto, realista e não simbólica!

Certo é que o versículo 63 causa embaraço a certos leitores ao afirmar que “é o Espírito que vivifica; a carne para nada serve. As palavras que eu vos disse são espírito e vida”. Que isso quer dizer, pois primeiro Jesus manda comer a Sua carne, depois afirma que Ela, em si, para nada serve? – Responde-nos Dom Estêvão Bettencourt: “Jesus apenas visava remover um entendimento grosseiro de suas afirmações: não se tratava de comer carne enquanto tal (está claro que esta por si só não santifica o homem) nem de comer a carne do Senhor em suas condições terrestres, mas, sim, de receber a carne de Cristo glorificada e elevada aos céus, emancipada das leis do espaço e do tempo. É a carne nessas circunstâncias novas que Jesus chama ‘espírito’; é espírito, porque está toda penetrada pela Divindade (na verdade, é a Divindade de Cristo que, mediante a carne, vivifica os fiéis na Eucaristia)”.

“Acrescentou o Senhor que as suas palavras são espírito, não como se tivessem de ser entendidas em sentido figurado, mas pelo fato de terem um alcance espiritual e de exigirem um entendimento sobrenatural (na fé); são vida também, porque nos revelam o meio de termos a vida em nós”.

“Sto. Agostinho († 430), tão explorado pelos simbolistas, propõe de maneira admirável a exegese de Jo 6,63: ‘A carne para nada serve, se ela está só. Que o Espírito (= a Divindade) se junte a ela, como a caridade se pode juntar à ciência, e então ela servirá muito. Pois, se a carne para nada servisse, o Verbo não se teria feito carne para habitar entre nós. Se Cristo muito nos valeu encarnando-se, como é que a carne para nada serve? Eis contudo que o Espírito se empenhou em nossa salvação mediante a carne. A carne foi o receptáculo: considera o que ela continha, não o que ela era... O Espírito é que vivifica, a carne para nada serve: minha carne, que dou a comer, não é a carne tal como eles a concebiam (= como carne de açougue)’ (In Io tr. 27,5)”.

“São João Crisóstomo († 407) diz o mesmo, sob nova forma: ‘Se aquele que não come a carne de Jesus e não bebe o seu sangue, não tem a vida em si, como seria verdade que essa carne, sem a qual ninguém possui a vida, para nada serve? Vês, por conseguinte, que a frase ‘A carne para nada serve’ significa não a carne de Jesus, mas o modo carnal como eles escutavam’. (In Io 6,30)” (Curso sobre os Sacramentos. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2002, p. 90).

Cabe ainda uma breve, mas esclarecedora palavra a respeito da transubstanciação, que a Igreja sempre professou como verdade de fé, de modo que Sto. Agostinho de Hipona († 430) ensinava: “O que vedes, caríssimos, na mesa do Senhor, é pão e vinho; mas esse pão e esse vinho, acrescentando-se-lhes a Palavra, tornam-se corpo e sangue de Cristo… Tira a Palavra, e tens pão e vinho; acrescenta a Palavra, e já tens outra coisa. E essa outra coisa que é? Corpo e Sangue de Cristo. Tira a Palavra, e tens pão e vinho; acrescenta a Palavra, e tens um sacramento. A isso tudo vós dizeis: ‘Amem’. Dizer ‘Amem’ é subscrever. ‘Amem’ em latim significa: ‘É verdade’” (Sermão 6,3).

Note-se, portanto, que a conversão ou mudança da substância do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo sempre existiu, a partir da instituição da Eucaristia pelo próprio Senhor Jesus ao cear com seus Apóstolos, conforme as passagens bíblicas citadas. Faltava, porém, uma palavra capaz de expressar, à luz da Filosofia e da Teologia, essa realidade. Esse termo apareceu entre os séculos XI e XII e se tornou comum a partir de então: é o vocábulo transubstanciação.

Com efeito, em 1079, um Concílio Regional em Roma, recolhendo os dados da Tradição, elaborou a seguinte profissão de fé: “Intimamente creio e abertamente confesso que o pão e o vinho colocados sobre o altar, mediante o mistério da oração sagrada e as palavras do nosso Redentor, se convertem substancialmente (substantialiter converti) na verdadeira, própria e vivífica carne e no sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo; e… que depois da consagração há o verdadeiro corpo de Cristo, o qual nasceu da Virgem, foi oferecido para a salvação do mundo, pendurado à cruz e ora está assentado à direita do Pai;  há também o verdadeiro sangue de Cristo, que jorrou do seu lado… na propriedade da sua natureza e na realidade da sua substância”. (DS 700)

No século XIII, o Concílio de Latrão IV (1215) consagrou, em seus documentos, a palavra transubstanciação, que foi usada pelos Concílios de Latrão IV (1415-1417), de Florença (1438-1444) e de Trento. Este, em 1551, afirmou que a conversão do pão e do vinho em corpo e sangue de Cristo “foi com muito acerto e propriedade chamada pela Igreja Católica transubstanciação”. (DS 1642; cf. DS 1652)

Proposta, portanto, a doutrina da Igreja, resta-nos entender o que, realmente, deseja expressar o termo transubstanciação em linguagem filosófico-teológica (também entendida pelo bom-senso), pois seu significado difere dos conceitos que as palavras substânciamatéria e acidente, alicerces da transubstanciação, têm na Física moderna. É o seguinte: em todo ser há um conjunto de notas acidentais (tamanho, peso, cor, sabor etc.), mas também existe, necessariamente, um substrato permanente e inalterável que dá unidade e coesão a esse ser. Mais: sempre vemos os acidentes, mas não a substância (o que sub está ou o que suporta) de um ser.

Na Consagração, ocorre, pois, a transubstanciação: o pão e o vinho conservam todos os seus acidentes (cor, quantidade, sabor…), mas se transformam, em suas substâncias de pão e de vinho, na substância do corpo humano e no sangue de Jesus Cristo, Nosso Senhor. Como explicar isso? – É um mistério de fé que, embora não seja absurdo, conforme ficou demonstrado, exige uma intervenção de Deus, que tudo pode, a fim de ser realizado esse grande ato de amor. Antes de Sua morte e ressurreição, o Senhor Jesus quis dar-Se em comida e bebida para nos salvar.

Eis porque a Eucaristia, ou mesmo as espécies dela, deve ser sempre respeitada. Quando há desrespeito, é preciso que haja também reparação com oração e esclarecimento ao Povo de Deus, buscador da paz, da concórdia e do respeito à fé alheia.

 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro