Arquidiocese do Rio de Janeiro

31º 18º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 26/05/2017

26 de Maio de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (85): Interpretação e tradução da Bíblia

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26 de Maio de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (85): Interpretação e tradução da Bíblia

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03/03/2017 12:26 - Atualizado em 03/03/2017 12:26

A Palavra de Deus na Bíblia (85): Interpretação e tradução da Bíblia 0

03/03/2017 12:26 - Atualizado em 03/03/2017 12:26

Neste artigo iniciamos a discussão sobre a realidade da “inculturação”, seus conceitos, tarefas e limites. Uma dimensão que, depois da “atualização”, desafia imensamente a Igreja, por suas características intrigantes e complexas, mas também pelos “riscos” concernentes. Apesar de tudo isso, ela permanece uma ação eclesial inevitável!

Inculturação

Ao esforço de atualização, que permite à Bíblia de permanecer fecunda através da diversidade dos tempos, corresponde, no que concerne à diversidade dos lugares, ao esforço de inculturação, que assegura o enraizamento da mensagem bíblica em terrenos os mais diversos. Esta diversidade, aliás, nunca é total. Toda cultura autêntica é portadora, à sua maneira, de valores universais fundados por Deus1.

Os dois processos referidos aqui desde então, a saber, a “atualização” e a “inculturação” constituem procedimentos inerentes à sadia leitura e exegese bíblicas do cristianismo.

De um lado, a “atualização” autêntica das Escrituras proporciona à Mensagem Divina “de permanecer fecunda através da diversidade dos tempos”, semelhante àquelas sementes que caem em “terra boa e frutificam cem por cento” (Mt 13, 1-8 e par.).

Do outro, tem-se o processo de “inculturação” do Evangelho que, em relação à migração universal da Palavra, carregada para todos os ângulos da terra, deve “enraizar-se, pois caso o contrário, não criando raízes, morrerá, sem deixar vestígios: esforço de inculturação que assegura o enraizamento da mensagem bíblica em terrenos os mais diversos.” Significa afirmar que, não basta transportar a Palavra de Deus a todos os espaços físicos (toda a Terra), mas é necessário que, pela “obediência da fé”, a Palavra de Deus seja comunicada, escutada com compreensão e conservada no interior da cultura humana que recebe o Evangelho.

Outro aspecto importante reside na afirmação que não existe cultura totalmente estranha às sentenças e à verdade do Evangelho, pois, segundo São Justino (+165 d.C)2, antes da encarnação do verbo, como sementes, seu logos foi inseminado na inteligência de todas as culturas: “sémina lógoi” ou “sémina verbi”:

“(…) Cada homem, como criatura racional, é partícipe do logos, leva em si uma “semente”, e pode colher os indícios da verdade. Assim o mesmo logos, que se revelou como figura profética aos judeus na lei antiga, manifestou-se parcialmente, como que em “sementes de verdade”, também na filosofia grega. Mas, conclui Justino, dado que o cristianismo é a manifestação histórica e pessoal do logos na sua totalidade, origina-se que “tudo o que foi expresso de positivo por quem quer que seja, pertence a nós cristãos” (2 Apol. 13, 4). (…)” (RATZINGER, Joseph. São Justino, filósofo e mártir. Audiência Geral, Quarta-feira, 21 de Março 2007).

A capacidade da Palavra de Deus em transcender as culturas supõe que entendamos e aceitemos que Deus quer que todos os homens sejam salvos, pela acolhida e compreensão de Sua Mensagem Divina:

O fundamento teológico da inculturação é a convicção de fé que a Palavra de Deus transcende as culturas nas quais ela foi expressa e tem a capacidade de se propagar em outras culturas, de maneira a atingir todas as pessoas humanas no contexto cultural onde elas vivem. Esta convicção decorre da própria Bíblia que, desde o livro do Gênesis, toma uma orientação universal (Gn 1,27-28), a mantém em seguida na bênção prometida a todos os povos graças a Abraão e à sua descendência (Gn 12,3; 18,18) e a confirma definitivamente estendendo a “todas as nações” a evangelização cristã (Mt 28,18-20; Rm 4,16-17; Ef 3,6)3.

Portanto, mesmo nos diferenciando de seitas cristãs, que se difundem pelo puro proselitismo, às vezes desonesto e radical, temos a convicção acerca da universalidade da Mensagem cristã e bíblica, impressas na natureza mesma do conteúdo, muito mais que em nossa capacidade de difundir e persuadir os outros sobre a auto-comunicação Divina.

A primeira etapa da inculturação consiste em traduzir em uma outra língua a Escritura inspirada. Este primeiro passo foi dado desde os tempos do Antigo Testamento, quando se traduziu oralmente o texto hebreu da Bíblia em aramaico (Ne 8,8.12) e, mais tarde, por escrito em grego. Uma tradução, efetivamente, é sempre mais que uma simples transcrição do texto original. A passagem de uma língua a uma outra comporta necessariamente uma mudança de contexto cultural: os conceitos não são idênticos e o alcance dos símbolos é diferente, pois eles colocam em relação com outras tradições de pensamento e outras maneiras de viver4.

Não é uma mera discussão técnica a questão da tradução! Aliás, a Igreja neste texto mais uma vez reconhece que “uma tradução, efetivamente, é sempre mais que uma simples transcrição do texto original.” Trata-se de um desejo e de um esforço, com muitos riscos.

Um desejo de comunicar-se, de transpor barreiras, de exprimir a própria riqueza ao outro e, inevitavelmente, estabelecer uma forma profunda de reciprocidade, de comunhão com os bens, os mistérios, as riquezas de outrem!

Do outro lado, a tradução assume riscos, pois, a melhor das técnicas de tradução sabe que haverá sempre entre línguas, as suas respectivas culturas, as sociedades e os seres humanos, com seus contextos particulares, e às vezes, intransponíveis!

Traduzir é preciso, viver não!

Referências:

1h http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_

2Justino Mártir (c.100 - c.165) nasceu na colônia romana chamada Flávia Neápolis, uma antiga cidade fundada por Vespasiano no ano 72 na região da Siris Palestina, perto do lugar da antiga Siquém. Não se sabe muito sobre a vida pré-cristã de Justino, exceto alguns poucos dados fornecidos pelo próprio pensador nas obras I e II Apologia bem como o texto “O diálogo com o judeu Trifão” (As únicas obras que subsistiram) e, claro, os registros de Eusébio de Cesaréia na obra “Historia Eclesiástica” - obra que é datada do IV séc. d.C, uma das principais fontes sobre o cristianismo primitivo. Ainda no livro “I Apologia” - obra endereçada ao imperador Antonino Pio em defesa dos cristãos - Justino nos informa ser filho de um certo Prisco, informação que é repetida também por Eusébio de Cesaréia na já citada “História Eclesiástica”. A julgar pelos nomes, embora tenha nascido na região palestinense, é possível que sua família não seja de origem judaica. Cf. http://imf-akm.blogspot.com.br/2015/08/justino-martir-o-filosofo-cristao-do-ii.html

3 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione

4 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione

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A Palavra de Deus na Bíblia (85): Interpretação e tradução da Bíblia

03/03/2017 12:26 - Atualizado em 03/03/2017 12:26

Neste artigo iniciamos a discussão sobre a realidade da “inculturação”, seus conceitos, tarefas e limites. Uma dimensão que, depois da “atualização”, desafia imensamente a Igreja, por suas características intrigantes e complexas, mas também pelos “riscos” concernentes. Apesar de tudo isso, ela permanece uma ação eclesial inevitável!

Inculturação

Ao esforço de atualização, que permite à Bíblia de permanecer fecunda através da diversidade dos tempos, corresponde, no que concerne à diversidade dos lugares, ao esforço de inculturação, que assegura o enraizamento da mensagem bíblica em terrenos os mais diversos. Esta diversidade, aliás, nunca é total. Toda cultura autêntica é portadora, à sua maneira, de valores universais fundados por Deus1.

Os dois processos referidos aqui desde então, a saber, a “atualização” e a “inculturação” constituem procedimentos inerentes à sadia leitura e exegese bíblicas do cristianismo.

De um lado, a “atualização” autêntica das Escrituras proporciona à Mensagem Divina “de permanecer fecunda através da diversidade dos tempos”, semelhante àquelas sementes que caem em “terra boa e frutificam cem por cento” (Mt 13, 1-8 e par.).

Do outro, tem-se o processo de “inculturação” do Evangelho que, em relação à migração universal da Palavra, carregada para todos os ângulos da terra, deve “enraizar-se, pois caso o contrário, não criando raízes, morrerá, sem deixar vestígios: esforço de inculturação que assegura o enraizamento da mensagem bíblica em terrenos os mais diversos.” Significa afirmar que, não basta transportar a Palavra de Deus a todos os espaços físicos (toda a Terra), mas é necessário que, pela “obediência da fé”, a Palavra de Deus seja comunicada, escutada com compreensão e conservada no interior da cultura humana que recebe o Evangelho.

Outro aspecto importante reside na afirmação que não existe cultura totalmente estranha às sentenças e à verdade do Evangelho, pois, segundo São Justino (+165 d.C)2, antes da encarnação do verbo, como sementes, seu logos foi inseminado na inteligência de todas as culturas: “sémina lógoi” ou “sémina verbi”:

“(…) Cada homem, como criatura racional, é partícipe do logos, leva em si uma “semente”, e pode colher os indícios da verdade. Assim o mesmo logos, que se revelou como figura profética aos judeus na lei antiga, manifestou-se parcialmente, como que em “sementes de verdade”, também na filosofia grega. Mas, conclui Justino, dado que o cristianismo é a manifestação histórica e pessoal do logos na sua totalidade, origina-se que “tudo o que foi expresso de positivo por quem quer que seja, pertence a nós cristãos” (2 Apol. 13, 4). (…)” (RATZINGER, Joseph. São Justino, filósofo e mártir. Audiência Geral, Quarta-feira, 21 de Março 2007).

A capacidade da Palavra de Deus em transcender as culturas supõe que entendamos e aceitemos que Deus quer que todos os homens sejam salvos, pela acolhida e compreensão de Sua Mensagem Divina:

O fundamento teológico da inculturação é a convicção de fé que a Palavra de Deus transcende as culturas nas quais ela foi expressa e tem a capacidade de se propagar em outras culturas, de maneira a atingir todas as pessoas humanas no contexto cultural onde elas vivem. Esta convicção decorre da própria Bíblia que, desde o livro do Gênesis, toma uma orientação universal (Gn 1,27-28), a mantém em seguida na bênção prometida a todos os povos graças a Abraão e à sua descendência (Gn 12,3; 18,18) e a confirma definitivamente estendendo a “todas as nações” a evangelização cristã (Mt 28,18-20; Rm 4,16-17; Ef 3,6)3.

Portanto, mesmo nos diferenciando de seitas cristãs, que se difundem pelo puro proselitismo, às vezes desonesto e radical, temos a convicção acerca da universalidade da Mensagem cristã e bíblica, impressas na natureza mesma do conteúdo, muito mais que em nossa capacidade de difundir e persuadir os outros sobre a auto-comunicação Divina.

A primeira etapa da inculturação consiste em traduzir em uma outra língua a Escritura inspirada. Este primeiro passo foi dado desde os tempos do Antigo Testamento, quando se traduziu oralmente o texto hebreu da Bíblia em aramaico (Ne 8,8.12) e, mais tarde, por escrito em grego. Uma tradução, efetivamente, é sempre mais que uma simples transcrição do texto original. A passagem de uma língua a uma outra comporta necessariamente uma mudança de contexto cultural: os conceitos não são idênticos e o alcance dos símbolos é diferente, pois eles colocam em relação com outras tradições de pensamento e outras maneiras de viver4.

Não é uma mera discussão técnica a questão da tradução! Aliás, a Igreja neste texto mais uma vez reconhece que “uma tradução, efetivamente, é sempre mais que uma simples transcrição do texto original.” Trata-se de um desejo e de um esforço, com muitos riscos.

Um desejo de comunicar-se, de transpor barreiras, de exprimir a própria riqueza ao outro e, inevitavelmente, estabelecer uma forma profunda de reciprocidade, de comunhão com os bens, os mistérios, as riquezas de outrem!

Do outro lado, a tradução assume riscos, pois, a melhor das técnicas de tradução sabe que haverá sempre entre línguas, as suas respectivas culturas, as sociedades e os seres humanos, com seus contextos particulares, e às vezes, intransponíveis!

Traduzir é preciso, viver não!

Referências:

1h http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_

2Justino Mártir (c.100 - c.165) nasceu na colônia romana chamada Flávia Neápolis, uma antiga cidade fundada por Vespasiano no ano 72 na região da Siris Palestina, perto do lugar da antiga Siquém. Não se sabe muito sobre a vida pré-cristã de Justino, exceto alguns poucos dados fornecidos pelo próprio pensador nas obras I e II Apologia bem como o texto “O diálogo com o judeu Trifão” (As únicas obras que subsistiram) e, claro, os registros de Eusébio de Cesaréia na obra “Historia Eclesiástica” - obra que é datada do IV séc. d.C, uma das principais fontes sobre o cristianismo primitivo. Ainda no livro “I Apologia” - obra endereçada ao imperador Antonino Pio em defesa dos cristãos - Justino nos informa ser filho de um certo Prisco, informação que é repetida também por Eusébio de Cesaréia na já citada “História Eclesiástica”. A julgar pelos nomes, embora tenha nascido na região palestinense, é possível que sua família não seja de origem judaica. Cf. http://imf-akm.blogspot.com.br/2015/08/justino-martir-o-filosofo-cristao-do-ii.html

3 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione

4 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica