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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 27/03/2017

27 de Março de 2017

Padre Jesus Hortal: 90 anos de serviço e fidelidade

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27 de Março de 2017

Padre Jesus Hortal: 90 anos de serviço e fidelidade

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20/02/2017 16:00 - Atualizado em 20/02/2017 16:00

Padre Jesus Hortal: 90 anos de serviço e fidelidade 0

20/02/2017 16:00 - Atualizado em 20/02/2017 16:00

Conheci o padre Hortal quando ainda era recém doutora em teologia, professora jovem de departamento da PUC-Rio. O então diretor chegava ao fim de muitos mandatos, e anunciaram que chegaria do Sul para substituí-lo um jesuíta espanhol, grande especialista em Direito Canônico.

Nossa expectativa era de alguém sisudo e rígido, amante da Lei e disciplinado. Mas teria o novo diretor flexibilidade para o complexo tecido da missão de um Departamento de Teologia em uma universidade católica? Ansiosos esperávamos o novo diretor.

Ele chegou e foi pouco a pouco conquistando o corpo docente pela competência, firmeza e um grande senso de humor. Enfrentou situações difíceis e delicadas, sabendo sempre esgrimir com maestria a fidelidade à Igreja e o espaço aberto da liberdade acadêmica. Deixou saudades quando se foi para ser vice-reitor acadêmico e em seguida reitor da PUC-Rio, cargo que ocupou por quase 20 anos. Ali se tornou conhecido nacional e internacionalmente, notabilizando-se no cenário acadêmico nacional. 

Se me perguntassem, portanto, qual a melhor palavra para definir este homem que por quase 20 anos conduziu a PUC-Rio até o lugar que hoje ocupa na vida acadêmica do país, ficaria, em um primeiro momento, indecisa. Seriam tantas as palavras que me ocorreriam… Pois convivendo durante quase três décadas com o padre Jesus Hortal Sánchez SJ, tive a graça de descobrir diversas facetas de sua rica personalidade. Não é tão fácil determinar qual a que mais se destaca. 

O que primeiro salta à vista no contato com este salmantino de pura cepa, amante de sua Espanha natal e de tudo que ela de bom oferece, incluídos os bons vinhos, é sem dúvida a brilhante inteligência. Conversar com o padre Hortal é um prazer e um aprendizado contínuos. Dotado de mente clara, percepção aguda e precisa e uma vastíssima cultura, encontra-se à vontade tanto no Direito Canônico e na teologia, suas especialidades acadêmicas, como também em temas sociais, políticos e econômicos. 

Entre as línguas que domina estão o grego, o hebraico, o latim, pelas quais transita tão à vontade como se estivesse andando pelo campus da universidade que comandou durante tantos anos. Jamais o vi titubear diante de uma pergunta e não ter uma resposta precisa e direta. Inclusive ao se tratar de números. Conhecedor das estatísticas e dos índices do país, do estado e da universidade, conversa descontraidamente com matemáticos e engenheiros, esgrimindo precisões ao que lhe é apresentado pelos especialistas. 

Se o assunto é literatura, história geral e do Brasil, música clássica ou popular, padre Hortal também tem o que dizer e apresentar. Leitor voraz, é apreciador do belo e do erudito e de todas as expressões artísticas e literárias autênticas. Aberto ao novo, o senso estético nele se alia ao senso de humor. É capaz de animar uma reunião com sua verve e erudição, falando a linguagem coloquial assim como a acadêmica. 

Homem de profunda fé, ama a Igreja. No entanto, poucos como ele creem no diálogo ecumênico e inter-religioso. Com o judaísmo é interlocutor dos mais respeitados e assíduos. E não por causa da idade de sábio é avesso às novas tecnologias. Pelo contrário, internauta exímio, responde ao correio eletrônico com a rapidez do raio, e dá conferências com sofisticados power points preparados pessoalmente. 

Tudo isso lhe tem valido o reconhecimento não apenas da universidade onde atuou como reitor até o dia 30 de junho de 2010, como também o respeito da comunidade acadêmica como um todo, que o elegeu por três vezes personalidade educacional do ano. 

Figura de educador destacado na sociedade brasileira, acumulou prêmios e reconhecimento de várias instâncias, os quais recebeu com naturalidade e risonha modéstia. Porém, tudo isso ainda não chega sequer perto da palavra que melhor o define e que só consegui encontrar na Bíblia, por ele tão conhecida e assimilada. 

O padre Jesus Hortal Sanchez é, antes de tudo, um justo. Da mesma estirpe daqueles que a Escritura aponta como exemplos de conduta para o povo eleito. E sua formação de jurista certamente burilou ainda mais essa justiça constitutiva de sua pessoa. Em todas essas décadas em que trabalhamos juntos, eu o tive como chefe. Como diretor do Departamento de Teologia, vice-reitor acadêmico e finalmente como reitor. Em suas mãos estava o tomar decisões muitas vezes em situações difíceis ou delicadas. Jamais o vi pensar, agir ou falar movido por paixões ou sob o vento volúvel das emoções desordenadas. Ainda menos sob o impulso de simpatias ou antipatias, gostos ou desgostos. 

A retidão firme e sóbria o fazia permanecer equilibrado como o fiel da balança mesmo nos momentos mais cruciais à frente de uma instituição complexa e grande como a universidade. A todos inspirava confiança e permitia sentir a PUC-Rio, navegando segura e levantando alto sua bandeira. Olhando-o hoje, quando completa 90 anos de vida, carregado de homenagens que vêm de toda parte, sinto que a ele se aplica a frase do salmo: “A boca do justo fala sabedoria e a sua língua exprime a justiça”. (Sl 37,30) E ainda a frase de Jesus de Nazaré ao enxergar o jovem israelita Natanael sob a figueira: “Eis um homem no qual não há falsidade” (Jo 1,47). E só posso expressar uma profunda gratidão por todos esses anos de convivência e aprendizado. Que seu legado luminoso continue a inspirar-nos hoje e sempre. Parabéns, querido padre Hortal!

 

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Padre Jesus Hortal: 90 anos de serviço e fidelidade

20/02/2017 16:00 - Atualizado em 20/02/2017 16:00

Conheci o padre Hortal quando ainda era recém doutora em teologia, professora jovem de departamento da PUC-Rio. O então diretor chegava ao fim de muitos mandatos, e anunciaram que chegaria do Sul para substituí-lo um jesuíta espanhol, grande especialista em Direito Canônico.

Nossa expectativa era de alguém sisudo e rígido, amante da Lei e disciplinado. Mas teria o novo diretor flexibilidade para o complexo tecido da missão de um Departamento de Teologia em uma universidade católica? Ansiosos esperávamos o novo diretor.

Ele chegou e foi pouco a pouco conquistando o corpo docente pela competência, firmeza e um grande senso de humor. Enfrentou situações difíceis e delicadas, sabendo sempre esgrimir com maestria a fidelidade à Igreja e o espaço aberto da liberdade acadêmica. Deixou saudades quando se foi para ser vice-reitor acadêmico e em seguida reitor da PUC-Rio, cargo que ocupou por quase 20 anos. Ali se tornou conhecido nacional e internacionalmente, notabilizando-se no cenário acadêmico nacional. 

Se me perguntassem, portanto, qual a melhor palavra para definir este homem que por quase 20 anos conduziu a PUC-Rio até o lugar que hoje ocupa na vida acadêmica do país, ficaria, em um primeiro momento, indecisa. Seriam tantas as palavras que me ocorreriam… Pois convivendo durante quase três décadas com o padre Jesus Hortal Sánchez SJ, tive a graça de descobrir diversas facetas de sua rica personalidade. Não é tão fácil determinar qual a que mais se destaca. 

O que primeiro salta à vista no contato com este salmantino de pura cepa, amante de sua Espanha natal e de tudo que ela de bom oferece, incluídos os bons vinhos, é sem dúvida a brilhante inteligência. Conversar com o padre Hortal é um prazer e um aprendizado contínuos. Dotado de mente clara, percepção aguda e precisa e uma vastíssima cultura, encontra-se à vontade tanto no Direito Canônico e na teologia, suas especialidades acadêmicas, como também em temas sociais, políticos e econômicos. 

Entre as línguas que domina estão o grego, o hebraico, o latim, pelas quais transita tão à vontade como se estivesse andando pelo campus da universidade que comandou durante tantos anos. Jamais o vi titubear diante de uma pergunta e não ter uma resposta precisa e direta. Inclusive ao se tratar de números. Conhecedor das estatísticas e dos índices do país, do estado e da universidade, conversa descontraidamente com matemáticos e engenheiros, esgrimindo precisões ao que lhe é apresentado pelos especialistas. 

Se o assunto é literatura, história geral e do Brasil, música clássica ou popular, padre Hortal também tem o que dizer e apresentar. Leitor voraz, é apreciador do belo e do erudito e de todas as expressões artísticas e literárias autênticas. Aberto ao novo, o senso estético nele se alia ao senso de humor. É capaz de animar uma reunião com sua verve e erudição, falando a linguagem coloquial assim como a acadêmica. 

Homem de profunda fé, ama a Igreja. No entanto, poucos como ele creem no diálogo ecumênico e inter-religioso. Com o judaísmo é interlocutor dos mais respeitados e assíduos. E não por causa da idade de sábio é avesso às novas tecnologias. Pelo contrário, internauta exímio, responde ao correio eletrônico com a rapidez do raio, e dá conferências com sofisticados power points preparados pessoalmente. 

Tudo isso lhe tem valido o reconhecimento não apenas da universidade onde atuou como reitor até o dia 30 de junho de 2010, como também o respeito da comunidade acadêmica como um todo, que o elegeu por três vezes personalidade educacional do ano. 

Figura de educador destacado na sociedade brasileira, acumulou prêmios e reconhecimento de várias instâncias, os quais recebeu com naturalidade e risonha modéstia. Porém, tudo isso ainda não chega sequer perto da palavra que melhor o define e que só consegui encontrar na Bíblia, por ele tão conhecida e assimilada. 

O padre Jesus Hortal Sanchez é, antes de tudo, um justo. Da mesma estirpe daqueles que a Escritura aponta como exemplos de conduta para o povo eleito. E sua formação de jurista certamente burilou ainda mais essa justiça constitutiva de sua pessoa. Em todas essas décadas em que trabalhamos juntos, eu o tive como chefe. Como diretor do Departamento de Teologia, vice-reitor acadêmico e finalmente como reitor. Em suas mãos estava o tomar decisões muitas vezes em situações difíceis ou delicadas. Jamais o vi pensar, agir ou falar movido por paixões ou sob o vento volúvel das emoções desordenadas. Ainda menos sob o impulso de simpatias ou antipatias, gostos ou desgostos. 

A retidão firme e sóbria o fazia permanecer equilibrado como o fiel da balança mesmo nos momentos mais cruciais à frente de uma instituição complexa e grande como a universidade. A todos inspirava confiança e permitia sentir a PUC-Rio, navegando segura e levantando alto sua bandeira. Olhando-o hoje, quando completa 90 anos de vida, carregado de homenagens que vêm de toda parte, sinto que a ele se aplica a frase do salmo: “A boca do justo fala sabedoria e a sua língua exprime a justiça”. (Sl 37,30) E ainda a frase de Jesus de Nazaré ao enxergar o jovem israelita Natanael sob a figueira: “Eis um homem no qual não há falsidade” (Jo 1,47). E só posso expressar uma profunda gratidão por todos esses anos de convivência e aprendizado. Que seu legado luminoso continue a inspirar-nos hoje e sempre. Parabéns, querido padre Hortal!

 

Maria Clara Lucchetti Bingemer
Autor

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio