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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 25/07/2017

25 de Julho de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (83): Interpretação e tradução da Bíblia

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25 de Julho de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (83): Interpretação e tradução da Bíblia

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A Palavra de Deus na Bíblia (83): Interpretação e tradução da Bíblia 0

17/02/2017 00:00

No artigo anterior aprofundávamos aspectos conclusivos acerca da interpretação bíblica. Elementos de equilíbrio entre a exegese bíblica, enquanto ferramenta científica eficaz na reta compreensão da Palavra de Deus escrita e a tradição viva da Igreja, que possui múltiplos elementos de interação com a ciência na busca de atualização e enculturação do Verbum, Caro factum no mundo!

A atualização é necessária, pois, se bem que a mensagem dos textos da Bíblia tenha um valor durável, estes foram redigidos em função de circunstâncias passadas e em uma linguagem condicionada por diversas épocas. Para manifestar o alcance que eles têm para os homens e as mulheres de hoje, é necessário aplicar a mensagem desses textos às circunstâncias presentes e exprimi-la em uma linguagem adaptada à época atual. Isso pressupõe um esforço hermenêutico que visa discernir através do condicionamento histórico os pontos essenciais da mensagem1.

A ‘atualização’ da Palavra de Deus escrita passa por vários níveis.

Primeiro a evolução da língua traduzida, isto é, não se pode propor à leitura do crente do século XXI, a língua de Camões (sec. XII) ou de Machado de Assis (sec. XIX) como ‘tradução’. Acordos ortográficos (o último de 2012), modificações e aggiornamentos tornam indispensável o trabalho de ‘retradução’ literária a partir do fato que as línguas, como as sociedades, modificam-se, evoluem e se enriquecem com outras línguas. Muitas mais evidentes em tempos de globalização.

Outro elemento é a descoberta do ‘leitor’ em suas vicissitudes.

Não é um ser abstrato que lê a Bíblia. Ele a ‘lê’, isto é, a compreende, interpreta e a aplica ao seu contexto. Por isso, um dos desafios da ‘atualização’ consiste na busca de oferecer oportunidades na tradução, caso isso caiba autenticamente, circunstâncias e significados que dialoguem com a diversidade dos contextos socioculturais dos leitores.

Algo que vislumbrava o Apocalipse quando desenhava o contexto dos salvos, que glorificam a Deus e a seu Cristo, no contexto de 5,9: “E cantavam um cântico novo, dizendo: digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, e língua, e povo e nação”.

O documento, no entanto, não deixa de alertar-nos para a complexidade desta indispensável tarefa eclesial. Pois, o eterno se expõe na rede de efêmero, a mensagem (verdade) que seguirá anunciada integralmente até que Ele volte, propõe-se no tecido da linguagem humana, sempre condicionada à diversidade do tempo e do espaço histórico.

A atualização deve constantemente levar em consideração as relações complexas que existem na Bíblia cristã entre o Novo Testamento e o Antigo, pelo fato de que o Novo se apresenta ao mesmo tempo como realização e ultrapassagem do Antigo. A atualização efetua-se em conformidade com a unidade dinâmica assim constituída2.

Outro aspecto que não deve ser ignorado é baseado no fato que o Novo Testamento nos oferece um modelo de atualização autêntica do Antigo Testamento. A fonte desta regra (cânon) é o próprio Jesus: ‘Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim revogar, mas cumprir’ (Mt 5,17). Seja em circunstâncias de continuidade ou de ativação de um sentido mais profundo e até então desconhecido aos judeus, Jesus conduziu as Escrituras Judaicas ao sentido explícito, querido por Deus! É bem verdade que isto muitas vezes causava perplexidade e contrariedade nos ouvintes mais tradicionais e preparados, como fariseus, saduceus e escribas. Como também nos próprios discípulos!

Mas também os escritores apostólicos do Novo Testamento em suas diversas tradições, como São Paulo e São João, seguiram atualizando o Antigo Testamento à luz dos desdobramentos da Revelação Crística.

A atualização realiza-se graças ao dinamismo da tradição viva da comunidade de fé. Esta situa-se explicitamente no prolongamento das comunidades onde a Escritura nasceu, foi conservada e transmitida. Na atualização, a tradição tem um papel duplo: ela procura, de um lado uma proteção contra as interpretações aberrantes; ela assegura de outro lado a transmissão do dinamismo original3.

Sendo um documento eclesial, é de se supor que, graças à imensa experiência de iniciativas negativas e errôneas (algumas heréticas!), ocorra um permanente alerta para que não se afaste da tradição viva todos os necessários esforços de atualização da Palavra de Deus:

Atualização não significa assim a manipulação dos textos. Não se trata de projetar sobre os escritos bíblicos opiniões ou ideologias novas, mas de procurar sinceramente a luz que eles contêm para o tempo presente. O texto da Bíblia tem autoridade em todos os tempos sobre a Igreja cristã e, se bem que passaram-se séculos desde os tempos de sua composição, ele conserva seu papel de guia privilegiado que não se pode manipular. O Magistério da Igreja “não está acima da Palavra de Deus, mas ele a serve, ensinando somente aquilo que foi transmitido; por mandato de Deus, com a assistência do Espírito Santo, ele a escuta com amor, conserva-a santamente e explica-a com fidelidade” (Dei Verbum, 10).

Referências: 

1http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

2 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

3 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

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A Palavra de Deus na Bíblia (83): Interpretação e tradução da Bíblia

17/02/2017 00:00

No artigo anterior aprofundávamos aspectos conclusivos acerca da interpretação bíblica. Elementos de equilíbrio entre a exegese bíblica, enquanto ferramenta científica eficaz na reta compreensão da Palavra de Deus escrita e a tradição viva da Igreja, que possui múltiplos elementos de interação com a ciência na busca de atualização e enculturação do Verbum, Caro factum no mundo!

A atualização é necessária, pois, se bem que a mensagem dos textos da Bíblia tenha um valor durável, estes foram redigidos em função de circunstâncias passadas e em uma linguagem condicionada por diversas épocas. Para manifestar o alcance que eles têm para os homens e as mulheres de hoje, é necessário aplicar a mensagem desses textos às circunstâncias presentes e exprimi-la em uma linguagem adaptada à época atual. Isso pressupõe um esforço hermenêutico que visa discernir através do condicionamento histórico os pontos essenciais da mensagem1.

A ‘atualização’ da Palavra de Deus escrita passa por vários níveis.

Primeiro a evolução da língua traduzida, isto é, não se pode propor à leitura do crente do século XXI, a língua de Camões (sec. XII) ou de Machado de Assis (sec. XIX) como ‘tradução’. Acordos ortográficos (o último de 2012), modificações e aggiornamentos tornam indispensável o trabalho de ‘retradução’ literária a partir do fato que as línguas, como as sociedades, modificam-se, evoluem e se enriquecem com outras línguas. Muitas mais evidentes em tempos de globalização.

Outro elemento é a descoberta do ‘leitor’ em suas vicissitudes.

Não é um ser abstrato que lê a Bíblia. Ele a ‘lê’, isto é, a compreende, interpreta e a aplica ao seu contexto. Por isso, um dos desafios da ‘atualização’ consiste na busca de oferecer oportunidades na tradução, caso isso caiba autenticamente, circunstâncias e significados que dialoguem com a diversidade dos contextos socioculturais dos leitores.

Algo que vislumbrava o Apocalipse quando desenhava o contexto dos salvos, que glorificam a Deus e a seu Cristo, no contexto de 5,9: “E cantavam um cântico novo, dizendo: digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, e língua, e povo e nação”.

O documento, no entanto, não deixa de alertar-nos para a complexidade desta indispensável tarefa eclesial. Pois, o eterno se expõe na rede de efêmero, a mensagem (verdade) que seguirá anunciada integralmente até que Ele volte, propõe-se no tecido da linguagem humana, sempre condicionada à diversidade do tempo e do espaço histórico.

A atualização deve constantemente levar em consideração as relações complexas que existem na Bíblia cristã entre o Novo Testamento e o Antigo, pelo fato de que o Novo se apresenta ao mesmo tempo como realização e ultrapassagem do Antigo. A atualização efetua-se em conformidade com a unidade dinâmica assim constituída2.

Outro aspecto que não deve ser ignorado é baseado no fato que o Novo Testamento nos oferece um modelo de atualização autêntica do Antigo Testamento. A fonte desta regra (cânon) é o próprio Jesus: ‘Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim revogar, mas cumprir’ (Mt 5,17). Seja em circunstâncias de continuidade ou de ativação de um sentido mais profundo e até então desconhecido aos judeus, Jesus conduziu as Escrituras Judaicas ao sentido explícito, querido por Deus! É bem verdade que isto muitas vezes causava perplexidade e contrariedade nos ouvintes mais tradicionais e preparados, como fariseus, saduceus e escribas. Como também nos próprios discípulos!

Mas também os escritores apostólicos do Novo Testamento em suas diversas tradições, como São Paulo e São João, seguiram atualizando o Antigo Testamento à luz dos desdobramentos da Revelação Crística.

A atualização realiza-se graças ao dinamismo da tradição viva da comunidade de fé. Esta situa-se explicitamente no prolongamento das comunidades onde a Escritura nasceu, foi conservada e transmitida. Na atualização, a tradição tem um papel duplo: ela procura, de um lado uma proteção contra as interpretações aberrantes; ela assegura de outro lado a transmissão do dinamismo original3.

Sendo um documento eclesial, é de se supor que, graças à imensa experiência de iniciativas negativas e errôneas (algumas heréticas!), ocorra um permanente alerta para que não se afaste da tradição viva todos os necessários esforços de atualização da Palavra de Deus:

Atualização não significa assim a manipulação dos textos. Não se trata de projetar sobre os escritos bíblicos opiniões ou ideologias novas, mas de procurar sinceramente a luz que eles contêm para o tempo presente. O texto da Bíblia tem autoridade em todos os tempos sobre a Igreja cristã e, se bem que passaram-se séculos desde os tempos de sua composição, ele conserva seu papel de guia privilegiado que não se pode manipular. O Magistério da Igreja “não está acima da Palavra de Deus, mas ele a serve, ensinando somente aquilo que foi transmitido; por mandato de Deus, com a assistência do Espírito Santo, ele a escuta com amor, conserva-a santamente e explica-a com fidelidade” (Dei Verbum, 10).

Referências: 

1http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

2 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

3 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica