Arquidiocese do Rio de Janeiro

34º 23º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 16/12/2017

16 de Dezembro de 2017

O respeito ao sagrado

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do e-mail.
E-mail enviado com sucesso.

16 de Dezembro de 2017

O respeito ao sagrado

Se você encontrou erro neste texto ou nesta página, por favor preencha os campos abaixo. O link da página será enviado automaticamente a ArqRio.

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do erro.
Erro relatado com sucesso, obrigado.

02/01/2017 00:00 - Atualizado em 03/01/2017 10:41

O respeito ao sagrado 0

02/01/2017 00:00 - Atualizado em 03/01/2017 10:41

Em tempos de paz, de convulsão social ou de guerra, sempre os templos religiosos gozaram de uma imunidade que os caracterizam como local de acolhida e de respeito à vida. Chamam a atenção as barbáries cometidas pelas guerras mundo afora, e como os locais religiosos são retratados pela imprensa quando são atingidos ou retomados depois de ocupações.

Tivemos muitos episódios em várias comunidades com relação aos templos religiosos, assim como também no centro da cidade, tanto em tempos de protestos como em tempos de convulsão social. Nem sempre foram para se refugiar de perseguições, outras vezes para protestar, e em outro momento, para se aproveitar de um lugar estratégico. Quantas vezes experimentamos destruição dos mesmos devido à intolerância religiosa? E outras vezes, mesmo fora dos templos, o vilipêndio às imagens sacras nas ruas, ou ainda verbalmente ou virtualmente. Existe uma perigosa falta de respeito aos direitos ao culto e à religião de cada um. As acusações de uns contra os outros nem sempre levam em consideração que o que um acusa o outro, o faz de outra maneira e com objetivos inconfessáveis.

É importante que a cultura do respeito aos locais e imagens sacras, que significa o respeito ao outro e à sua liberdade de culto, deve ser levada em consideração. Quando o povo de Deus estava no Egito como escravo, o pedido para sair foi para que pudessem cultuar o Seu Deus. Os martírios de ontem e de hoje de tantos homens e mulheres canonizados demonstram essa intolerância em todos os tempos, lugares e épocas. Isso ocorre em todos os regimes, mas os totalitários primam por querer silenciar ou domesticar a religião para se utilizarem dela para dominar as pessoas.

Reflito sobre isso ao pensar sobre o ano que passou e sobre alguns episódios que passamos. Alguns noticiados amplamente pela imprensa, outros totalmente desconhecidos pelo povo em geral. Em alguns lugares não chegam as reportagens. Outras vezes mesmo noticiados os processos não chegam ao final, como o caso do vilipêndio das imagens durante a JMJ três anos atrás.

Fatos deploráveis que chocam as pessoas de boa vontade que sonham com a liberdade, pensamento e o respeito de um pelo outro. Isso se torna triste quando são bens tombados e patrimônios da humanidade. Vimos como foram destruídos muitos devido a fanatismos religiosos.

A igreja templo deve ser (e tem sido) a casa de Deus e lugar de paz, onde não poucas pessoas buscam refúgio na sua aridez espiritual, muito especialmente junto ao Senhor Jesus no Santíssimo Sacramento. Ainda: a Igreja sempre serviu ao atendimento dos mais necessitados e nunca como lugar de opressão a quem quer que seja. Em locais centrais, mesmo pessoas não cristãs buscam um pouco de paz e tranquilidade na azáfama da correria da grande cidade.  

Sobre os templos religiosos sempre se difundiu, não obstante abusos, um costume circulante desde remota data que, mesmo em tempo de guerra declarada, “É proibido atacar ou invadir igrejas ou edifícios de culto religioso, monumentos históricos, hospitais e outros locais com doentes e feridos”.

Desejo, irmão e irmã, lembrar ainda dois pontos básicos que muito interessam a respeito de um templo religioso, seja ele de qual religião for, mas aqui, de um modo especial, refiro-me às igrejas católicas, da forma como ela é entendida no Magistério da Igreja. Diz, com efeito, o Catecismo da Igreja Católica o seguinte: “A Igreja é também muitas vezes chamada construção de Deus. O próprio Senhor se comparou à pedra que os construtores rejeitaram e que se tornou pedra angular (Mt 21, 42 par.: At 4, 11; 1 Pd 2, 7; Sl 118, 22). Sobre esse fundamento é a Igreja construída pelos Apóstolos, e dele recebe firmeza e coesão. Esta construção recebe vários nomes: casa de Deus, na qual habita a sua família; habitação de Deus no Espírito; tabernáculo de Deus com os homens; e, sobretudo, templo santo, o qual, representado pelos santuários de pedra e louvado pelos santos Padres, é com razão comparado, na Liturgia, à cidade santa, a nova Jerusalém. Nela, com efeito, somos edificados cá na Terra como pedras vivas. Esta cidade, S. João contemplou-a ‘descendo do céu, da presença de Deus, na renovação do mundo, como esposa adornada para ir ao encontro do esposo’. (Ap 21, 1-2)” (§ 756).

Também o Código de Direito Canônico assim diz sobre a função de uma igreja: “Em lugar sagrado só se admita aquilo que favoreça o exercício e a promoção do culto, da piedade, da religião; proíba-se tudo quanto for inconveniente à santidade do lugar. Todavia, o Ordinário, per modum actus, pode permitir outros usos, não, porém contrários à santidade do lugar” (cânon 1210).

Em comentário de rodapé, escreve o Pe. Jesús Hortal, SJ, o que segue: “Sob o nome de ‘piedade e religião’, incluem-se também aquelas coisas que dizem respeito à promoção do homem, no sentido cristão”. (Comunicationes 12, 1980, p. 331). Coisa semelhante se pode dizer “das celebrações dos irmãos de outras confissões cristãs, quando, por carecerem de templo próprio ou por outro motivo justo, permite-se lhes o uso de templos católicos”.

A igreja, casa de Deus, há de ser local de paz e de esperança e não se pode criar precedentes a graves desrespeitos à casa de Deus e, talvez, até a seus fiéis. Olhando os episódios pelo mundo afora e verificando as necessidades de restabelecer a ordem e o respeito, neste ano que iniciamos esperamos que saibamos construí-lo no entendimento entre as pessoas e no respeito às instituições, assim como à liberdade e respeito do culto. As intolerâncias ou desrespeitos só se somarão aos problemas que não construirão a tão sonhada fraternidade e prosperidade que todos desejamos.

A Igreja, anunciadora da paz e da justiça, olha com responsabilidade e confiança o momento presente e, meditando com Maria “sobre tudo isso em seu coração”, sabe que este é um momento de esperanças que renascem e que devem ser compartilhadas diante do caos que ora vivemos. Para quem crê n’Aquele que morreu, foi sepultados e ressuscitou, tem consigo uma boa notícia eterna a anunciar ao mundo de hoje e de sempre. E este anúncio nos compromete ainda mais para vivermos com entusiasmo a nossa fé.

 

Leia os comentários

Deixe seu comentário

Resposta ao comentário de:

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do comentário.
Comentário enviado para aprovação.

O respeito ao sagrado

02/01/2017 00:00 - Atualizado em 03/01/2017 10:41

Em tempos de paz, de convulsão social ou de guerra, sempre os templos religiosos gozaram de uma imunidade que os caracterizam como local de acolhida e de respeito à vida. Chamam a atenção as barbáries cometidas pelas guerras mundo afora, e como os locais religiosos são retratados pela imprensa quando são atingidos ou retomados depois de ocupações.

Tivemos muitos episódios em várias comunidades com relação aos templos religiosos, assim como também no centro da cidade, tanto em tempos de protestos como em tempos de convulsão social. Nem sempre foram para se refugiar de perseguições, outras vezes para protestar, e em outro momento, para se aproveitar de um lugar estratégico. Quantas vezes experimentamos destruição dos mesmos devido à intolerância religiosa? E outras vezes, mesmo fora dos templos, o vilipêndio às imagens sacras nas ruas, ou ainda verbalmente ou virtualmente. Existe uma perigosa falta de respeito aos direitos ao culto e à religião de cada um. As acusações de uns contra os outros nem sempre levam em consideração que o que um acusa o outro, o faz de outra maneira e com objetivos inconfessáveis.

É importante que a cultura do respeito aos locais e imagens sacras, que significa o respeito ao outro e à sua liberdade de culto, deve ser levada em consideração. Quando o povo de Deus estava no Egito como escravo, o pedido para sair foi para que pudessem cultuar o Seu Deus. Os martírios de ontem e de hoje de tantos homens e mulheres canonizados demonstram essa intolerância em todos os tempos, lugares e épocas. Isso ocorre em todos os regimes, mas os totalitários primam por querer silenciar ou domesticar a religião para se utilizarem dela para dominar as pessoas.

Reflito sobre isso ao pensar sobre o ano que passou e sobre alguns episódios que passamos. Alguns noticiados amplamente pela imprensa, outros totalmente desconhecidos pelo povo em geral. Em alguns lugares não chegam as reportagens. Outras vezes mesmo noticiados os processos não chegam ao final, como o caso do vilipêndio das imagens durante a JMJ três anos atrás.

Fatos deploráveis que chocam as pessoas de boa vontade que sonham com a liberdade, pensamento e o respeito de um pelo outro. Isso se torna triste quando são bens tombados e patrimônios da humanidade. Vimos como foram destruídos muitos devido a fanatismos religiosos.

A igreja templo deve ser (e tem sido) a casa de Deus e lugar de paz, onde não poucas pessoas buscam refúgio na sua aridez espiritual, muito especialmente junto ao Senhor Jesus no Santíssimo Sacramento. Ainda: a Igreja sempre serviu ao atendimento dos mais necessitados e nunca como lugar de opressão a quem quer que seja. Em locais centrais, mesmo pessoas não cristãs buscam um pouco de paz e tranquilidade na azáfama da correria da grande cidade.  

Sobre os templos religiosos sempre se difundiu, não obstante abusos, um costume circulante desde remota data que, mesmo em tempo de guerra declarada, “É proibido atacar ou invadir igrejas ou edifícios de culto religioso, monumentos históricos, hospitais e outros locais com doentes e feridos”.

Desejo, irmão e irmã, lembrar ainda dois pontos básicos que muito interessam a respeito de um templo religioso, seja ele de qual religião for, mas aqui, de um modo especial, refiro-me às igrejas católicas, da forma como ela é entendida no Magistério da Igreja. Diz, com efeito, o Catecismo da Igreja Católica o seguinte: “A Igreja é também muitas vezes chamada construção de Deus. O próprio Senhor se comparou à pedra que os construtores rejeitaram e que se tornou pedra angular (Mt 21, 42 par.: At 4, 11; 1 Pd 2, 7; Sl 118, 22). Sobre esse fundamento é a Igreja construída pelos Apóstolos, e dele recebe firmeza e coesão. Esta construção recebe vários nomes: casa de Deus, na qual habita a sua família; habitação de Deus no Espírito; tabernáculo de Deus com os homens; e, sobretudo, templo santo, o qual, representado pelos santuários de pedra e louvado pelos santos Padres, é com razão comparado, na Liturgia, à cidade santa, a nova Jerusalém. Nela, com efeito, somos edificados cá na Terra como pedras vivas. Esta cidade, S. João contemplou-a ‘descendo do céu, da presença de Deus, na renovação do mundo, como esposa adornada para ir ao encontro do esposo’. (Ap 21, 1-2)” (§ 756).

Também o Código de Direito Canônico assim diz sobre a função de uma igreja: “Em lugar sagrado só se admita aquilo que favoreça o exercício e a promoção do culto, da piedade, da religião; proíba-se tudo quanto for inconveniente à santidade do lugar. Todavia, o Ordinário, per modum actus, pode permitir outros usos, não, porém contrários à santidade do lugar” (cânon 1210).

Em comentário de rodapé, escreve o Pe. Jesús Hortal, SJ, o que segue: “Sob o nome de ‘piedade e religião’, incluem-se também aquelas coisas que dizem respeito à promoção do homem, no sentido cristão”. (Comunicationes 12, 1980, p. 331). Coisa semelhante se pode dizer “das celebrações dos irmãos de outras confissões cristãs, quando, por carecerem de templo próprio ou por outro motivo justo, permite-se lhes o uso de templos católicos”.

A igreja, casa de Deus, há de ser local de paz e de esperança e não se pode criar precedentes a graves desrespeitos à casa de Deus e, talvez, até a seus fiéis. Olhando os episódios pelo mundo afora e verificando as necessidades de restabelecer a ordem e o respeito, neste ano que iniciamos esperamos que saibamos construí-lo no entendimento entre as pessoas e no respeito às instituições, assim como à liberdade e respeito do culto. As intolerâncias ou desrespeitos só se somarão aos problemas que não construirão a tão sonhada fraternidade e prosperidade que todos desejamos.

A Igreja, anunciadora da paz e da justiça, olha com responsabilidade e confiança o momento presente e, meditando com Maria “sobre tudo isso em seu coração”, sabe que este é um momento de esperanças que renascem e que devem ser compartilhadas diante do caos que ora vivemos. Para quem crê n’Aquele que morreu, foi sepultados e ressuscitou, tem consigo uma boa notícia eterna a anunciar ao mundo de hoje e de sempre. E este anúncio nos compromete ainda mais para vivermos com entusiasmo a nossa fé.

 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro