Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 19/01/2017

19 de Janeiro de 2017

Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz

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Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz

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28/12/2016 16:16 - Atualizado em 28/12/2016 16:16

Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz 0

28/12/2016 16:16 - Atualizado em 28/12/2016 16:16

Como é praxe desde o Beato Papa Paulo VI, o Santo Padre assina, no dia 8 de dezembro, Solenidade da Imaculada Conceição, a Rainha da Paz, a Mensagem para o Dia Mundial da Paz, que ocorre sempre no primeiro dia do ano civil. Em 1º de janeiro de 2017, será a 50ª Mensagem. Ela tem um sentido especial, pois distribuída a todas as Nunciaturas e Igrejas particulares do mundo, traz o pensamento diplomático-religioso da Igreja nesse tema tão importante. O tema escolhido e desenvolvido para este ano é “a não-violência: estilo de uma política para a paz”.

O Papa Francisco inicia cumprimentando todas as pessoas a quem a Mensagem chegar, desde os chefes de Estado até as crianças, e pede que a dignidade humana do homem e da mulher, criados à imagem e semelhança de Deus, seja respeitada mesmo nos locais de conflitos. Em outras palavras: as situações de guerra, declaradas ou não, nunca podem estar acima do respeito devido às pessoas.

Francisco recorda, a seguir, os antecedentes históricos da origem desta Mensagem, demonstrando que as palavras do Papa se dirigem sempre não só aos católicos, mas a todas as pessoas de boa vontade; assegura ainda que só a paz – e não a guerra de qualquer natureza – é que traz o verdadeiro progresso ao mundo. Mais: toda e qualquer controvérsia internacional pode ser resolvida pelas vias da razão e não do belicismo. Neste sentido, torna-se muito clara e séria a declaração que afirma: “Só o amor constrói”.

Eis as palavras do Documento: “Esta é a Mensagem para o 50º Dia Mundial da Paz. Na primeira, o Beato Papa Paulo VI dirigiu-se a todos os povos – e não só aos católicos – com palavras inequívocas: ‘Finalmente resulta, de forma claríssima, que a paz é a única e verdadeira linha do progresso humano (não às tensões de nacionalismos ambiciosos, nem às conquistas violentas, nem às repressões geradoras duma falsa ordem civil)’. Advertia contra o ‘perigo de crer que as controvérsias internacionais não se possam resolver pelas vias da razão, isto é, das negociações baseadas no direito, na justiça, na equidade, mas apenas pelas vias dissuasivas e devastadoras’. Ao contrário, citando a Pacem in terris do seu antecessor São João XXIII, exaltava ‘o sentido e o amor da paz baseada na verdade, na justiça, na liberdade, no amor’. É impressionante a atualidade destas palavras, não menos importantes e prementes hoje do que há cinquenta anos”.

Isso posto, Francisco dá o tom de sua Mensagem para o ano de 2017, que é a luta incessante, em todos os níveis, desde o ambiente familiar até as relações internacionais, pela não-violência. Afinal, diz o Papa, quem assim age se torna uma testemunha credível daquilo que prega. De fato, pareceria uma grande incoerência falar de paz e agir como beligerante destruidor de vidas humanas, da natureza, dos patrimônios históricos e culturais dos povos, sejam eles quais forem.

A seguir, o Papa recorda os horrores do século XX, marcado por duas grandes guerras mundiais, bem como pela ameaça nuclear, ainda que também hoje vivamos uma nova guerra não declarada, com os seguintes dizeres: “o século passado foi arrasado por duas guerras mundiais devastadoras, conheceu a ameaça da guerra nuclear e um grande número de outros conflitos, hoje, infelizmente, encontramos-nos a braços com uma terrível guerra mundial aos pedaços. Não é fácil saber se o mundo de hoje seja mais ou menos violento que o de ontem, nem se os meios modernos de comunicação e a mobilidade que caracteriza a nossa época nos tornem mais conscientes da violência ou mais rendidos a ela”.

Tudo isso, de acordo com Francisco, leva ao sofrimento e à morte, talvez física e também espiritual, de não poucos jovens que veem recursos mal aplicados em áreas diversas, mas garantidos ao militarismo ou a outras formas de favorecimento daquilo que pode ser denominado de poder, que têm os “senhores da morte”, desde as escalas mais próximas de nós até as alçadas internacionais – promotora das migrações forçadas – e isso em grande parte do mundo, não só em regiões isoladas ou facilmente identificáveis.

Diante desse mundo dilacerado por discórdias de toda ordem, a Igreja propõe a Boa Nova de Cristo, sempre antiga e sempre nova, por isso nunca velha, que leva a paz interior a transbordar para o exterior e ser capaz de produzir uma nova convivência entre todas as pessoas de diferentes classes sociais, religiões e culturas. O Evangelho propõe aquilo que deve ser o norte de cada ser humano, especialmente dos cristãos, chamados, em primeiro lugar, a dar o exemplo de pessoas pacíficas e pacificadoras, como se espera dos seguidores de Nosso Senhor. Neste ponto, o cristão verdadeiro é chamado a rezar diariamente com São Francisco de Assis: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”.

Escreve o Papa: “O próprio Jesus viveu em tempos de violência. Ensinou que o verdadeiro campo de batalha, onde se defrontam a violência e a paz, é o coração humano: ‘Porque é do interior do coração dos homens que saem os maus pensamentos’ (Marcos 7,21). Mas, perante esta realidade, a resposta que oferece a mensagem de Cristo é radicalmente positiva: Ele pregou incansavelmente o amor incondicional de Deus, que acolhe e perdoa, e ensinou os seus discípulos a amar os inimigos (cf. Mateus 5,44) e a oferecer a outra face (cf. Mateus 5,39). Quando impediu, aqueles que acusavam a adúltera, de lapidá-la (cf. João 8,1-11) e na noite antes de morrer, quando disse a Pedro para repor a espada na bainha (cf. Mateus 26,52), Jesus traçou o caminho da não-violência que Ele percorreu até ao fim, até à cruz, tendo assim estabelecido a paz e destruído a hostilidade (cf. Efésios 2,14-16). Por isso, quem acolhe a Boa Nova de Jesus sabe reconhecer a violência que carrega dentro de si e deixa-se curar pela misericórdia de Deus, tornando-se assim, por sua vez, instrumento de reconciliação, como exortava São Francisco de Assis: ‘A paz que anunciais com os lábios, conservai-a ainda mais abundante nos vossos corações’”.

Como ícone de um mundo de paz e misericórdia – em uma linha contrária aos promotores da morte com o tráfico de armas e os ardis da guerra – está, de acordo com o Papa, a Madre Teresa de Calcutá, recém-proclamada Santa da Igreja. Deu a vida a cuidar de Cristo nos irmãos, muitas vezes vítimas da violência de seus próprios semelhantes, como ainda hoje, em grande parte do mundo, suas filhas continuam a fazer. Há também exemplos de não-violência em outros segmentos filosófico-religiosos, como é o caso de Mahatma Gandhi e Khan Abdul Ghaffar Khan, na libertação da Índia, e por Martin Luther King Jr. contra a discriminação racial, e da Sra. Leymah Gbowee e milhares de mulheres liberianas, que organizaram encontros de oração e protesto não-violento (pray-ins), obtendo negociações de alto nível para a conclusão da segunda guerra civil na Libéria.

Cabe lembrar também a resistência pacífica, mas firme, de muitos homens e mulheres que combateram o Comunismo até a sua derrubada no Leste europeu e na Rússia, no qual teve importante papel o Papa São João Paulo II que, depois, muito incentivou na sua Encíclica Centesimus Annus “Que os seres humanos aprendam a lutar pela justiça sem violência, renunciando tanto à luta de classes nas controvérsias internas, como à guerra nas internacionais”. Portanto, nenhuma religião é terrorista, falar de Deus e fazer guerra é profanar Seu nome; só a paz vem d’Ele, o restante é da maldade humana.

É certo que se a violência tem início no coração humano, a família há de ser um dos grandes, senão o maior polo da não-violência. A família “constitui o cadinho indispensável no qual cônjuges, pais e filhos, irmãos e irmãs aprendem a comunicar e a cuidar uns dos outros desinteressadamente e onde os atritos, ou mesmo os conflitos, devem ser superados, não pela força, mas com o diálogo, o respeito, a busca do bem do outro, a misericórdia e o perdão. A partir da família, a alegria do amor propaga-se pelo mundo, irradiando para toda a sociedade. Aliás, uma ética de fraternidade e coexistência pacífica entre as pessoas e entre os povos não se pode basear na lógica do medo, da violência e do fechamento, mas na responsabilidade, no respeito e no diálogo sincero. Neste sentido, lanço um apelo a favor do desarmamento, bem como da proibição e abolição das armas nucleares: a dissuasão nuclear e a ameaça duma segura destruição recíproca não podem fundamentar este tipo de ética. Com igual urgência, suplico que cessem a violência doméstica e os abusos sobre mulheres e crianças”.

Aqui está um ponto forte da mensagem, ao qual ninguém pode se furtar. Lembra ainda o Pontífice que o Jubileu da Misericórdia foi um grande convite para olharmos para dentro de nós mesmos, reconhecermos nossas misérias e pedirmos perdão ao Senhor. Demonstrou também como são vários e diversificados os grupos que sofrem das mais diversas discriminações. Daí ser necessário tomar consciência de que “as políticas de não-violência devem começar dentro das paredes de casa para, depois, se difundir por toda a família humana. ‘O exemplo de Santa Teresa de Lisieux convida-nos a pôr em prática o pequeno caminho do amor, a não perder a oportunidade de uma palavra gentil, de um sorriso, de qualquer pequeno gesto que semeie paz e amizade. Uma ecologia integral é feita também de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo’”.

O Papa convida, por fim, a que o Sermão das Bem-Aventuranças seja o desafio a ser colocado em prática dentro das famílias e também na vida social, especialmente pelos políticos, legisladores, educadores, responsáveis pelos meios de comunicação social, a fim de frearem a violência e o descarte das pessoas, bem como o mau trato com o meio ambiente, e favorecerem a cultura da não-violência. Conflitos existem, mas é preciso resolvê-los com sabedoria e paz.

“Asseguro que a Igreja Católica acompanhará toda a tentativa de construir a paz inclusive através da não-violência ativa e criativa. No dia 1º de janeiro de 2017, nasce o novo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, que ajudará a Igreja a promover, de modo cada vez mais eficaz, ‘os bens incomensuráveis da justiça, da paz e da salvaguarda da criação’ e da solicitude pelos migrantes, ‘os necessitados, os doentes e os excluídos, os marginalizados e as vítimas dos conflitos armados e das catástrofes naturais, os reclusos, os desempregados e as vítimas de toda e qualquer forma de escravidão e de tortura’. Toda a ação nesta linha, ainda que modesta, contribui para construir um mundo livre da violência, o primeiro passo para a justiça e a paz”, conclui Francisco.

Possamos também nós fazer para o Novo Ano o propósito de viver mais e melhor o Evangelho em nossas vidas, pessoal e comunitária. Se assim fizermos estaremos sendo, sem dúvida, promotores da paz em nosso meio e exemplo àqueles que nos veem e desejam seguir a fé por nós professada. Pensarão essas pessoas – como nos ensina o Beato Charles de Foucauld – “se eles são bons, melhor ainda será o Deus deles”.

Deste modo, nos tornaremos sementes de paz efetiva à humanidade, com a graça divina por intercessão da Virgem Santíssima, a Rainha da paz!

 

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Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz

28/12/2016 16:16 - Atualizado em 28/12/2016 16:16

Como é praxe desde o Beato Papa Paulo VI, o Santo Padre assina, no dia 8 de dezembro, Solenidade da Imaculada Conceição, a Rainha da Paz, a Mensagem para o Dia Mundial da Paz, que ocorre sempre no primeiro dia do ano civil. Em 1º de janeiro de 2017, será a 50ª Mensagem. Ela tem um sentido especial, pois distribuída a todas as Nunciaturas e Igrejas particulares do mundo, traz o pensamento diplomático-religioso da Igreja nesse tema tão importante. O tema escolhido e desenvolvido para este ano é “a não-violência: estilo de uma política para a paz”.

O Papa Francisco inicia cumprimentando todas as pessoas a quem a Mensagem chegar, desde os chefes de Estado até as crianças, e pede que a dignidade humana do homem e da mulher, criados à imagem e semelhança de Deus, seja respeitada mesmo nos locais de conflitos. Em outras palavras: as situações de guerra, declaradas ou não, nunca podem estar acima do respeito devido às pessoas.

Francisco recorda, a seguir, os antecedentes históricos da origem desta Mensagem, demonstrando que as palavras do Papa se dirigem sempre não só aos católicos, mas a todas as pessoas de boa vontade; assegura ainda que só a paz – e não a guerra de qualquer natureza – é que traz o verdadeiro progresso ao mundo. Mais: toda e qualquer controvérsia internacional pode ser resolvida pelas vias da razão e não do belicismo. Neste sentido, torna-se muito clara e séria a declaração que afirma: “Só o amor constrói”.

Eis as palavras do Documento: “Esta é a Mensagem para o 50º Dia Mundial da Paz. Na primeira, o Beato Papa Paulo VI dirigiu-se a todos os povos – e não só aos católicos – com palavras inequívocas: ‘Finalmente resulta, de forma claríssima, que a paz é a única e verdadeira linha do progresso humano (não às tensões de nacionalismos ambiciosos, nem às conquistas violentas, nem às repressões geradoras duma falsa ordem civil)’. Advertia contra o ‘perigo de crer que as controvérsias internacionais não se possam resolver pelas vias da razão, isto é, das negociações baseadas no direito, na justiça, na equidade, mas apenas pelas vias dissuasivas e devastadoras’. Ao contrário, citando a Pacem in terris do seu antecessor São João XXIII, exaltava ‘o sentido e o amor da paz baseada na verdade, na justiça, na liberdade, no amor’. É impressionante a atualidade destas palavras, não menos importantes e prementes hoje do que há cinquenta anos”.

Isso posto, Francisco dá o tom de sua Mensagem para o ano de 2017, que é a luta incessante, em todos os níveis, desde o ambiente familiar até as relações internacionais, pela não-violência. Afinal, diz o Papa, quem assim age se torna uma testemunha credível daquilo que prega. De fato, pareceria uma grande incoerência falar de paz e agir como beligerante destruidor de vidas humanas, da natureza, dos patrimônios históricos e culturais dos povos, sejam eles quais forem.

A seguir, o Papa recorda os horrores do século XX, marcado por duas grandes guerras mundiais, bem como pela ameaça nuclear, ainda que também hoje vivamos uma nova guerra não declarada, com os seguintes dizeres: “o século passado foi arrasado por duas guerras mundiais devastadoras, conheceu a ameaça da guerra nuclear e um grande número de outros conflitos, hoje, infelizmente, encontramos-nos a braços com uma terrível guerra mundial aos pedaços. Não é fácil saber se o mundo de hoje seja mais ou menos violento que o de ontem, nem se os meios modernos de comunicação e a mobilidade que caracteriza a nossa época nos tornem mais conscientes da violência ou mais rendidos a ela”.

Tudo isso, de acordo com Francisco, leva ao sofrimento e à morte, talvez física e também espiritual, de não poucos jovens que veem recursos mal aplicados em áreas diversas, mas garantidos ao militarismo ou a outras formas de favorecimento daquilo que pode ser denominado de poder, que têm os “senhores da morte”, desde as escalas mais próximas de nós até as alçadas internacionais – promotora das migrações forçadas – e isso em grande parte do mundo, não só em regiões isoladas ou facilmente identificáveis.

Diante desse mundo dilacerado por discórdias de toda ordem, a Igreja propõe a Boa Nova de Cristo, sempre antiga e sempre nova, por isso nunca velha, que leva a paz interior a transbordar para o exterior e ser capaz de produzir uma nova convivência entre todas as pessoas de diferentes classes sociais, religiões e culturas. O Evangelho propõe aquilo que deve ser o norte de cada ser humano, especialmente dos cristãos, chamados, em primeiro lugar, a dar o exemplo de pessoas pacíficas e pacificadoras, como se espera dos seguidores de Nosso Senhor. Neste ponto, o cristão verdadeiro é chamado a rezar diariamente com São Francisco de Assis: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”.

Escreve o Papa: “O próprio Jesus viveu em tempos de violência. Ensinou que o verdadeiro campo de batalha, onde se defrontam a violência e a paz, é o coração humano: ‘Porque é do interior do coração dos homens que saem os maus pensamentos’ (Marcos 7,21). Mas, perante esta realidade, a resposta que oferece a mensagem de Cristo é radicalmente positiva: Ele pregou incansavelmente o amor incondicional de Deus, que acolhe e perdoa, e ensinou os seus discípulos a amar os inimigos (cf. Mateus 5,44) e a oferecer a outra face (cf. Mateus 5,39). Quando impediu, aqueles que acusavam a adúltera, de lapidá-la (cf. João 8,1-11) e na noite antes de morrer, quando disse a Pedro para repor a espada na bainha (cf. Mateus 26,52), Jesus traçou o caminho da não-violência que Ele percorreu até ao fim, até à cruz, tendo assim estabelecido a paz e destruído a hostilidade (cf. Efésios 2,14-16). Por isso, quem acolhe a Boa Nova de Jesus sabe reconhecer a violência que carrega dentro de si e deixa-se curar pela misericórdia de Deus, tornando-se assim, por sua vez, instrumento de reconciliação, como exortava São Francisco de Assis: ‘A paz que anunciais com os lábios, conservai-a ainda mais abundante nos vossos corações’”.

Como ícone de um mundo de paz e misericórdia – em uma linha contrária aos promotores da morte com o tráfico de armas e os ardis da guerra – está, de acordo com o Papa, a Madre Teresa de Calcutá, recém-proclamada Santa da Igreja. Deu a vida a cuidar de Cristo nos irmãos, muitas vezes vítimas da violência de seus próprios semelhantes, como ainda hoje, em grande parte do mundo, suas filhas continuam a fazer. Há também exemplos de não-violência em outros segmentos filosófico-religiosos, como é o caso de Mahatma Gandhi e Khan Abdul Ghaffar Khan, na libertação da Índia, e por Martin Luther King Jr. contra a discriminação racial, e da Sra. Leymah Gbowee e milhares de mulheres liberianas, que organizaram encontros de oração e protesto não-violento (pray-ins), obtendo negociações de alto nível para a conclusão da segunda guerra civil na Libéria.

Cabe lembrar também a resistência pacífica, mas firme, de muitos homens e mulheres que combateram o Comunismo até a sua derrubada no Leste europeu e na Rússia, no qual teve importante papel o Papa São João Paulo II que, depois, muito incentivou na sua Encíclica Centesimus Annus “Que os seres humanos aprendam a lutar pela justiça sem violência, renunciando tanto à luta de classes nas controvérsias internas, como à guerra nas internacionais”. Portanto, nenhuma religião é terrorista, falar de Deus e fazer guerra é profanar Seu nome; só a paz vem d’Ele, o restante é da maldade humana.

É certo que se a violência tem início no coração humano, a família há de ser um dos grandes, senão o maior polo da não-violência. A família “constitui o cadinho indispensável no qual cônjuges, pais e filhos, irmãos e irmãs aprendem a comunicar e a cuidar uns dos outros desinteressadamente e onde os atritos, ou mesmo os conflitos, devem ser superados, não pela força, mas com o diálogo, o respeito, a busca do bem do outro, a misericórdia e o perdão. A partir da família, a alegria do amor propaga-se pelo mundo, irradiando para toda a sociedade. Aliás, uma ética de fraternidade e coexistência pacífica entre as pessoas e entre os povos não se pode basear na lógica do medo, da violência e do fechamento, mas na responsabilidade, no respeito e no diálogo sincero. Neste sentido, lanço um apelo a favor do desarmamento, bem como da proibição e abolição das armas nucleares: a dissuasão nuclear e a ameaça duma segura destruição recíproca não podem fundamentar este tipo de ética. Com igual urgência, suplico que cessem a violência doméstica e os abusos sobre mulheres e crianças”.

Aqui está um ponto forte da mensagem, ao qual ninguém pode se furtar. Lembra ainda o Pontífice que o Jubileu da Misericórdia foi um grande convite para olharmos para dentro de nós mesmos, reconhecermos nossas misérias e pedirmos perdão ao Senhor. Demonstrou também como são vários e diversificados os grupos que sofrem das mais diversas discriminações. Daí ser necessário tomar consciência de que “as políticas de não-violência devem começar dentro das paredes de casa para, depois, se difundir por toda a família humana. ‘O exemplo de Santa Teresa de Lisieux convida-nos a pôr em prática o pequeno caminho do amor, a não perder a oportunidade de uma palavra gentil, de um sorriso, de qualquer pequeno gesto que semeie paz e amizade. Uma ecologia integral é feita também de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo’”.

O Papa convida, por fim, a que o Sermão das Bem-Aventuranças seja o desafio a ser colocado em prática dentro das famílias e também na vida social, especialmente pelos políticos, legisladores, educadores, responsáveis pelos meios de comunicação social, a fim de frearem a violência e o descarte das pessoas, bem como o mau trato com o meio ambiente, e favorecerem a cultura da não-violência. Conflitos existem, mas é preciso resolvê-los com sabedoria e paz.

“Asseguro que a Igreja Católica acompanhará toda a tentativa de construir a paz inclusive através da não-violência ativa e criativa. No dia 1º de janeiro de 2017, nasce o novo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, que ajudará a Igreja a promover, de modo cada vez mais eficaz, ‘os bens incomensuráveis da justiça, da paz e da salvaguarda da criação’ e da solicitude pelos migrantes, ‘os necessitados, os doentes e os excluídos, os marginalizados e as vítimas dos conflitos armados e das catástrofes naturais, os reclusos, os desempregados e as vítimas de toda e qualquer forma de escravidão e de tortura’. Toda a ação nesta linha, ainda que modesta, contribui para construir um mundo livre da violência, o primeiro passo para a justiça e a paz”, conclui Francisco.

Possamos também nós fazer para o Novo Ano o propósito de viver mais e melhor o Evangelho em nossas vidas, pessoal e comunitária. Se assim fizermos estaremos sendo, sem dúvida, promotores da paz em nosso meio e exemplo àqueles que nos veem e desejam seguir a fé por nós professada. Pensarão essas pessoas – como nos ensina o Beato Charles de Foucauld – “se eles são bons, melhor ainda será o Deus deles”.

Deste modo, nos tornaremos sementes de paz efetiva à humanidade, com a graça divina por intercessão da Virgem Santíssima, a Rainha da paz!

 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro