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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/01/2017

20 de Janeiro de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (74): Interpretação e tradução da Bíblia

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20 de Janeiro de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (74): Interpretação e tradução da Bíblia

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16/12/2016 15:36 - Atualizado em 16/12/2016 15:36

A Palavra de Deus na Bíblia (74): Interpretação e tradução da Bíblia 0

16/12/2016 15:36 - Atualizado em 16/12/2016 15:36

‘Os exegetas têm também que explicar o alcance cristológico, canônico e eclesial dos escritos bíblicos’.1

No último artigo dedicávamos atenção especial aos aspectos concernentes às atividades e responsabilidades do ‘exegeta católico’. Seguiremos nesta direção em vista da sua conclusão, dentro da perspectiva da leitura e da interpretação da Bíblia na Igreja!

O alcance cristológico dos textos bíblicos não é sempre evidente; deve ser colocado em evidência cada vez que seja possível. Se bem que o Cristo tenha estabelecido a Nova Aliança em seu sangue; os livros da Primeira Aliança não perderam seu valor. Assumidos na proclamação do Evangelho, adquirem e manifestam seu pleno significado no “mistério do Cristo” (Ef 3,4), do qual eles iluminam os múltiplos aspectos, ao mesmo tempo em que são iluminados por ele. Esses livros, efetivamente, preparavam o povo de Deus à sua vinda (Dei Verbum, 14-16)2.

De fato, já o Concilio Vaticano II expressa firmemente a relevância estratégica da leitura e acolhimento do Antigo Testamento na escuta fiel da Palavra de Deus que realiza cada cristão:

15. A “economia” do Antigo Testamento destinava-se, sobretudo a preparar, a anunciar profeticamente (cfr. Lc. 24,44; Jo. 5,39; 1 Ped. 1,10) e a simbolizar com várias figuras (cfr. 1 Cor. 10,11) o advento de Cristo, redentor universal, e o do reino messiânico. Mas os livros do Antigo Testamento, segundo a condição do gênero humano antes do tempo da salvação estabelecida por Cristo, manifestam a todos o conhecimento de Deus e do homem, e o modo com que Deus justo e misericordioso trata os homens. Tais livros, apesar de conterem também coisas imperfeitas e transitórias, revelam, contudo, a verdadeira pedagogia divina (1). Por isso, os fiéis devem receber com devoção estes livros que exprimem o vivo sentido de Deus, nos quais se encontram sublimes doutrinas a respeito de Deus, uma sabedoria salutar a respeito da vida humana, bem como admiráveis tesouros de preces, nos quais, finalmente, está latente o mistério da nossa salvação3.

Trata-se de um tesouro indispensável à leitura autêntica da cristologia bíblica, com a qual se depara o exegeta católico em sua tarefa interpretativa.

Se bem que cada livro da Bíblia tenha sido escrito com uma finalidade distinta e com significado específico, ele se manifesta portador de um sentido ulterior quando se torna uma parte do conjunto canônico. A tarefa dos exegetas inclui, então, a explicação da afirmação agostiniana: “Novum Testamentum in Vetere latet, et in Novo Vestus patet” (cf s. Agostinho, Quaest. in Hept., 2, 73: CSEL 28, III, 3, p.141)4.

O Novo Testamento está latente no Antigo Testamento e o Antigo se faz patente no Novo, a máxima de Santo Agostinho que expressa com força a unidade dos Testamentos em prol da compreensão plena do sentido das Escrituras Sagradas.

Os exegetas devem explicar também a relação que existe entre a Bíblia e a Igreja. A Bíblia veio à luz em comunidades de fiéis. Ela exprime a fé de Israel e aquela das comunidades cristãs primitivas.

As relações entre a Bíblia e o seu contexto eclesial é uma temática incansável para a Igreja, pois, a Bíblia exilada da sua Pátria, a “Igreja de Cristo” sofre profundas deformações que destroem sua autêntica mensagem. Nas origens da concepção protestante das Escrituras estava uma forma de sociedade convencida do subjetivismo como forma filosófico-social da subjetividade. Neste contexto era preciso desvincular a Bíblia de qualquer ‘tutela’, que não fosse o sujeito. Somente o individuo poderia julgar e interpretar corretamente as Escrituras.

Unida à Tradição viva que a precedeu, a acompanha e da qual se alimenta (cf Dei Verbum, 21), ela é o meio privilegiado do qual Deus se serve para guiar, ainda hoje, a construção e o crescimento da Igreja enquanto Povo de Deus. Inseparável da dimensão eclesial está a abertura ecumênica.

O conceito de Tradição enraíza a Bíblia no domínio de sua origem real: o Povo de Israel e a Igreja Primitiva. Não somente autores, mas destinatários da Revelação Divina, no Antigo e Novo Testamentos. Sem estas referências histórico-culturais, a Bíblia é perigosamente um texto alineado de sua finalidade, sem identidade, meramente à disposição de quaisquer (boas ou más) interpretações individuais e de grupos cismáticos e de seitas.

Assim, afirmou de forma categórica a Igreja, durante o Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática “Dei Verbum” sobre a Palavra de Deus:

21. A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo. Sempre as considerou, e continua a considerar, juntamente com a sagrada Tradição, como regra suprema da sua fé; elas, com efeito, inspiradas como são por Deus, e exaradas por escrito duma vez para sempre, continuam a dar-nos imutavelmente a palavra do próprio Deus, e fazem ouvir a voz do Espírito Santo através das palavras dos profetas e dos apóstolos. É preciso, pois, que toda a pregação eclesiástica, assim como a própria religião cristã, seja alimentada e regida pela Sagrada Escritura. Com efeito, nos livros sagrados, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro de Seus filhos, a conversar com eles; e é tão grande a força e a virtude da Palavra de Deus que se torna o apoio vigoroso da Igreja, solidez da fé para os filhos da Igreja, alimento da alma, fonte pura e perene de vida espiritual. Por isso se devem aplicar, por excelência, à Sagrada Escritura as palavras: “A Palavra de Deus é viva e eficaz” (Hebr. 4,12), “capaz de edificar e dar a herança a todos os santificados”, (Act. 20,32; cfr. 1 Tess. 2,13)5.

Referências:

1 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

2 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

3 http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html

4 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

5 http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html

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A Palavra de Deus na Bíblia (74): Interpretação e tradução da Bíblia

16/12/2016 15:36 - Atualizado em 16/12/2016 15:36

‘Os exegetas têm também que explicar o alcance cristológico, canônico e eclesial dos escritos bíblicos’.1

No último artigo dedicávamos atenção especial aos aspectos concernentes às atividades e responsabilidades do ‘exegeta católico’. Seguiremos nesta direção em vista da sua conclusão, dentro da perspectiva da leitura e da interpretação da Bíblia na Igreja!

O alcance cristológico dos textos bíblicos não é sempre evidente; deve ser colocado em evidência cada vez que seja possível. Se bem que o Cristo tenha estabelecido a Nova Aliança em seu sangue; os livros da Primeira Aliança não perderam seu valor. Assumidos na proclamação do Evangelho, adquirem e manifestam seu pleno significado no “mistério do Cristo” (Ef 3,4), do qual eles iluminam os múltiplos aspectos, ao mesmo tempo em que são iluminados por ele. Esses livros, efetivamente, preparavam o povo de Deus à sua vinda (Dei Verbum, 14-16)2.

De fato, já o Concilio Vaticano II expressa firmemente a relevância estratégica da leitura e acolhimento do Antigo Testamento na escuta fiel da Palavra de Deus que realiza cada cristão:

15. A “economia” do Antigo Testamento destinava-se, sobretudo a preparar, a anunciar profeticamente (cfr. Lc. 24,44; Jo. 5,39; 1 Ped. 1,10) e a simbolizar com várias figuras (cfr. 1 Cor. 10,11) o advento de Cristo, redentor universal, e o do reino messiânico. Mas os livros do Antigo Testamento, segundo a condição do gênero humano antes do tempo da salvação estabelecida por Cristo, manifestam a todos o conhecimento de Deus e do homem, e o modo com que Deus justo e misericordioso trata os homens. Tais livros, apesar de conterem também coisas imperfeitas e transitórias, revelam, contudo, a verdadeira pedagogia divina (1). Por isso, os fiéis devem receber com devoção estes livros que exprimem o vivo sentido de Deus, nos quais se encontram sublimes doutrinas a respeito de Deus, uma sabedoria salutar a respeito da vida humana, bem como admiráveis tesouros de preces, nos quais, finalmente, está latente o mistério da nossa salvação3.

Trata-se de um tesouro indispensável à leitura autêntica da cristologia bíblica, com a qual se depara o exegeta católico em sua tarefa interpretativa.

Se bem que cada livro da Bíblia tenha sido escrito com uma finalidade distinta e com significado específico, ele se manifesta portador de um sentido ulterior quando se torna uma parte do conjunto canônico. A tarefa dos exegetas inclui, então, a explicação da afirmação agostiniana: “Novum Testamentum in Vetere latet, et in Novo Vestus patet” (cf s. Agostinho, Quaest. in Hept., 2, 73: CSEL 28, III, 3, p.141)4.

O Novo Testamento está latente no Antigo Testamento e o Antigo se faz patente no Novo, a máxima de Santo Agostinho que expressa com força a unidade dos Testamentos em prol da compreensão plena do sentido das Escrituras Sagradas.

Os exegetas devem explicar também a relação que existe entre a Bíblia e a Igreja. A Bíblia veio à luz em comunidades de fiéis. Ela exprime a fé de Israel e aquela das comunidades cristãs primitivas.

As relações entre a Bíblia e o seu contexto eclesial é uma temática incansável para a Igreja, pois, a Bíblia exilada da sua Pátria, a “Igreja de Cristo” sofre profundas deformações que destroem sua autêntica mensagem. Nas origens da concepção protestante das Escrituras estava uma forma de sociedade convencida do subjetivismo como forma filosófico-social da subjetividade. Neste contexto era preciso desvincular a Bíblia de qualquer ‘tutela’, que não fosse o sujeito. Somente o individuo poderia julgar e interpretar corretamente as Escrituras.

Unida à Tradição viva que a precedeu, a acompanha e da qual se alimenta (cf Dei Verbum, 21), ela é o meio privilegiado do qual Deus se serve para guiar, ainda hoje, a construção e o crescimento da Igreja enquanto Povo de Deus. Inseparável da dimensão eclesial está a abertura ecumênica.

O conceito de Tradição enraíza a Bíblia no domínio de sua origem real: o Povo de Israel e a Igreja Primitiva. Não somente autores, mas destinatários da Revelação Divina, no Antigo e Novo Testamentos. Sem estas referências histórico-culturais, a Bíblia é perigosamente um texto alineado de sua finalidade, sem identidade, meramente à disposição de quaisquer (boas ou más) interpretações individuais e de grupos cismáticos e de seitas.

Assim, afirmou de forma categórica a Igreja, durante o Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática “Dei Verbum” sobre a Palavra de Deus:

21. A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo. Sempre as considerou, e continua a considerar, juntamente com a sagrada Tradição, como regra suprema da sua fé; elas, com efeito, inspiradas como são por Deus, e exaradas por escrito duma vez para sempre, continuam a dar-nos imutavelmente a palavra do próprio Deus, e fazem ouvir a voz do Espírito Santo através das palavras dos profetas e dos apóstolos. É preciso, pois, que toda a pregação eclesiástica, assim como a própria religião cristã, seja alimentada e regida pela Sagrada Escritura. Com efeito, nos livros sagrados, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro de Seus filhos, a conversar com eles; e é tão grande a força e a virtude da Palavra de Deus que se torna o apoio vigoroso da Igreja, solidez da fé para os filhos da Igreja, alimento da alma, fonte pura e perene de vida espiritual. Por isso se devem aplicar, por excelência, à Sagrada Escritura as palavras: “A Palavra de Deus é viva e eficaz” (Hebr. 4,12), “capaz de edificar e dar a herança a todos os santificados”, (Act. 20,32; cfr. 1 Tess. 2,13)5.

Referências:

1 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

2 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

3 http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html

4 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

5 http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica