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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/10/2017

20 de Outubro de 2017

O Tempo do Advento

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O Tempo do Advento

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30/11/2016 11:26 - Atualizado em 30/11/2016 11:26

O Tempo do Advento 0

30/11/2016 11:26 - Atualizado em 30/11/2016 11:26

O ano todo coroais com vossos dons,

vossos passos são fecundos... (Salmo 64 [65],12)

 

Esse versículo sálmico bem pode representar uma metáfora do que é o Ano Litúrgico. Cada novo ciclo litúrgico que celebramos é como uma nova passagem de Deus pela nossa vida. A celebração do Mistério Pascal de Cristo, apresentado a nós em cada um de seus aspectos nos múltiplos tempos, solenidades, festas e memórias do Ano Litúrgico, vai nos santificando e renovando-nos interiormente.

Começamos o ano litúrgico com o Tempo do Advento, este ano com o Ciclo de Leituras A, marcado pela leitura predominante do evangelho de Mateus. Este artigo pretende oferecer uma breve reflexão sobre a origem e o sentido teológico-espiritual deste tempo.

O Advento na sua Origem[1] 

O testemunho mais antigo de algo que já nos acena para o Tempo do Advento é um texto do chamado “Livro dos Ofícios”, da Gália, do século IV. Ali se fala de três semanas de práticas ascéticas e espirituais em vista da Vinda do Senhor.

Na Espanha, o I Concílio de Saragoça (380) convida os fiéis a frequentar a assembleia durante as três semanas que precedem a festa da Epifania (de 17 de dezembro a 06 de janeiro).

No século V, na Gália, surgem informações mais precisas. São Gregório de Tours, falecido em 594, na sua História dos Francos, fala de um jejum instituído pelo seu predecessor, Perpétuo de Tours, de três vezes por semana, que ia da festa de São Martinho (11 de novembro) até o Natal.

Esses testemunhos são o que os liturgistas chamam de pré-história do Advento. Daqui se depreende o caráter ascético e preparatório deste tempo. Em algumas igrejas coincidia com um tempo de preparação para o Batismo, prática advinda do Oriente -  onde durante algum e em alguns lugares, se costumava batizar em 06 de janeiro, Solenidade da Epifania, que recorda além da presença dos Magos no Presépio, o mistério do Batismo de Cristo no Jordão e sua designação pública como Messias – e que nunca foi costume em Roma.

Em Roma, do Papa São Leão Magno (440-461), temos os sermões sobre o jejum de dezembro com um delineamento escatológico, mas ainda não existe um Advento propriamente dito como preparação para o Natal.

Os testemunhos mais antigos de orações para o tempo do Advento temos nos sacramentários dos séculos VI-VII. O sacramentário Gregoriano, do século VIII, já apresenta na liturgia papal um Advento de quatro domingos. No início o Advento tinha um colorido escatológico, apontando para o mistério da segunda vinda do Senhor. Contudo, em virtude da sua proximidade com o Natal, o Advento passou a se inclinar também para o sentido de uma preparação para a celebração desta Solenidade. Assim, o Advento ganhou a dupla dimensão que ele tem hoje: nas primeiras semanas nos aponta para a Parusia; já no seu fim, particularmente nos dias 17 a 24 de dezembro, nos faz olhar para o mistério do nascimento de Cristo que já estaremos próximos de celebrar. O Advento de quatro semanas se impôs definitivamente nos chamados “Missais Plenos” dos séculos XII-XIII.

O sentido teológico-espiritual deste tempo

O ano litúrgico termina na Solenidade de Cristo Rei e com a última semana do Tempo Comum. Essa última semana do Tempo Comum tem um caráter austero, nos recorda a segunda vinda de Cristo e o juízo iminente do fim dos tempos. Isto fica patente no canto do famoso hino Dies Irae, inspirado em Sf 1,14-15, que cantamos na Liturgia das Horas durante esta última semana.

O advento também nos faz começar o ano litúrgico de modo austero. A cor roxa, as práticas ascéticas, o despojamento das igrejas, a sobriedade da liturgia (sem o hino do Glória), as leituras bíblicas e os textos eucológicos nos ajudam a refletir sobre o mistério do Cristo que virá no final dos tempos.

Nesse sentido, o início e o fim do ano litúrgico se tocam não somente cronologicamente, o que é óbvio, mas também, de certo modo, em seu sentido espiritual-teológico. Essa vinda deve nos encontrar preparados. Por isso, a atitude espiritual por excelência à qual somos convidados neste tempo litúrgico do Advento é aquela da VIGILÂNCIA.

Podemos dividir o Advento em duas partes. A primeira delas é a que carrega um tom fortemente escatológico. Este aspecto aparece no primeiro e no segundo domingos do Advento. Podemos ver isso nas leituras dos textos evangélicos.

Vejamos, somente os exemplos do ciclo A que estamos iniciando: no primeiro Domingo temos o texto de Mt 24,37-44, a vinda repentina do Filho do Homem; no segundo Domingo, por sua vez, temos o texto de Mt 3,1-12, cuja mensagem central é “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo!” Também os textos eucológicos[2], nos apontam para este sentido desta primeira parte do Advento. Vejamos a “oração coleta” do primeiro domingo do Advento Ano A: “Ó Deus todo-poderoso, concedei a vossos fieis o ardente desejo de possuir o reino celeste, para que, acorrendo com as nossas boas obras ao encontro do Cristo que vem, sejamos reunidos à sua direita na comunidade dos justos.” Poderíamos olhar, ainda, os prefácios, que são uma riqueza particular para compreendermos o sentido teológico-espiritual deste tempo. Infelizmente, por razões de brevidade não podemos fazê-lo.

A segunda parte do Advento (a partir da III Semana) já nos faz entrever o mistério do Nascimento do Cristo. Isso fica patente nos textos bíblicos. Vejamos, por exemplo, os evangelhos do Ano A: no terceiro domingo, temos Mt 11,2-11, onde “Jesus dá testemunho de si mesmo aos enviados de João Batista” e, no quarto domingo temos Mt 1,18-24, que nos apresenta “A origem de Jesus”. Também os textos eucológicos, como já dizíamos acima, nos apontam para este sentido desta primeira parte do Advento. Vejamos a “oração coleta” do terceiro domingo do Advento Ano A: Ó Deus de bondade, que vedes o vosso povo esperando fervoroso o natal do Senhor, dai chegarmos às alegrias da Salvação e celebrá-las com intenso júbilo na solene liturgia.

Conclusão

O Tempo do Advento marca o início do ano litúrgico, colocando-nos numa santa tensão. De um lado, a expectativa da Parusia, que nos leva a uma atitude de sábia vigilância, a fim de sermos encontrados preparados. De outro, a espera da celebração do Natal do Senhor, que sendo uma grande solenidade, celebrada e vista sempre a partir do Mistério Pascal do Cristo, exige de nós uma adequada preparação, através da oração, da ascese e da participação na Liturgia.

Que a vigilância e a espera jubilosa possam ser atitudes espirituais vividas intensamente por todos os cristãos nesses dias.



[1] Todo esse resumo histórico pode ser encontrado em: AUGÉ, Matias. Advento, Natal, Epifania. São Paulo: Ave-Maria, pp. 18-21.

[2] São chamados “textos eucológicos” aqueles textos fixos de oração não-bíblicos que temos na celebração dos diversos sacramentos e sacramentais, como as orações eucarísticas, os formulários de Missa, as fórmulas de bênção etc.

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O Tempo do Advento

30/11/2016 11:26 - Atualizado em 30/11/2016 11:26

O ano todo coroais com vossos dons,

vossos passos são fecundos... (Salmo 64 [65],12)

 

Esse versículo sálmico bem pode representar uma metáfora do que é o Ano Litúrgico. Cada novo ciclo litúrgico que celebramos é como uma nova passagem de Deus pela nossa vida. A celebração do Mistério Pascal de Cristo, apresentado a nós em cada um de seus aspectos nos múltiplos tempos, solenidades, festas e memórias do Ano Litúrgico, vai nos santificando e renovando-nos interiormente.

Começamos o ano litúrgico com o Tempo do Advento, este ano com o Ciclo de Leituras A, marcado pela leitura predominante do evangelho de Mateus. Este artigo pretende oferecer uma breve reflexão sobre a origem e o sentido teológico-espiritual deste tempo.

O Advento na sua Origem[1] 

O testemunho mais antigo de algo que já nos acena para o Tempo do Advento é um texto do chamado “Livro dos Ofícios”, da Gália, do século IV. Ali se fala de três semanas de práticas ascéticas e espirituais em vista da Vinda do Senhor.

Na Espanha, o I Concílio de Saragoça (380) convida os fiéis a frequentar a assembleia durante as três semanas que precedem a festa da Epifania (de 17 de dezembro a 06 de janeiro).

No século V, na Gália, surgem informações mais precisas. São Gregório de Tours, falecido em 594, na sua História dos Francos, fala de um jejum instituído pelo seu predecessor, Perpétuo de Tours, de três vezes por semana, que ia da festa de São Martinho (11 de novembro) até o Natal.

Esses testemunhos são o que os liturgistas chamam de pré-história do Advento. Daqui se depreende o caráter ascético e preparatório deste tempo. Em algumas igrejas coincidia com um tempo de preparação para o Batismo, prática advinda do Oriente -  onde durante algum e em alguns lugares, se costumava batizar em 06 de janeiro, Solenidade da Epifania, que recorda além da presença dos Magos no Presépio, o mistério do Batismo de Cristo no Jordão e sua designação pública como Messias – e que nunca foi costume em Roma.

Em Roma, do Papa São Leão Magno (440-461), temos os sermões sobre o jejum de dezembro com um delineamento escatológico, mas ainda não existe um Advento propriamente dito como preparação para o Natal.

Os testemunhos mais antigos de orações para o tempo do Advento temos nos sacramentários dos séculos VI-VII. O sacramentário Gregoriano, do século VIII, já apresenta na liturgia papal um Advento de quatro domingos. No início o Advento tinha um colorido escatológico, apontando para o mistério da segunda vinda do Senhor. Contudo, em virtude da sua proximidade com o Natal, o Advento passou a se inclinar também para o sentido de uma preparação para a celebração desta Solenidade. Assim, o Advento ganhou a dupla dimensão que ele tem hoje: nas primeiras semanas nos aponta para a Parusia; já no seu fim, particularmente nos dias 17 a 24 de dezembro, nos faz olhar para o mistério do nascimento de Cristo que já estaremos próximos de celebrar. O Advento de quatro semanas se impôs definitivamente nos chamados “Missais Plenos” dos séculos XII-XIII.

O sentido teológico-espiritual deste tempo

O ano litúrgico termina na Solenidade de Cristo Rei e com a última semana do Tempo Comum. Essa última semana do Tempo Comum tem um caráter austero, nos recorda a segunda vinda de Cristo e o juízo iminente do fim dos tempos. Isto fica patente no canto do famoso hino Dies Irae, inspirado em Sf 1,14-15, que cantamos na Liturgia das Horas durante esta última semana.

O advento também nos faz começar o ano litúrgico de modo austero. A cor roxa, as práticas ascéticas, o despojamento das igrejas, a sobriedade da liturgia (sem o hino do Glória), as leituras bíblicas e os textos eucológicos nos ajudam a refletir sobre o mistério do Cristo que virá no final dos tempos.

Nesse sentido, o início e o fim do ano litúrgico se tocam não somente cronologicamente, o que é óbvio, mas também, de certo modo, em seu sentido espiritual-teológico. Essa vinda deve nos encontrar preparados. Por isso, a atitude espiritual por excelência à qual somos convidados neste tempo litúrgico do Advento é aquela da VIGILÂNCIA.

Podemos dividir o Advento em duas partes. A primeira delas é a que carrega um tom fortemente escatológico. Este aspecto aparece no primeiro e no segundo domingos do Advento. Podemos ver isso nas leituras dos textos evangélicos.

Vejamos, somente os exemplos do ciclo A que estamos iniciando: no primeiro Domingo temos o texto de Mt 24,37-44, a vinda repentina do Filho do Homem; no segundo Domingo, por sua vez, temos o texto de Mt 3,1-12, cuja mensagem central é “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo!” Também os textos eucológicos[2], nos apontam para este sentido desta primeira parte do Advento. Vejamos a “oração coleta” do primeiro domingo do Advento Ano A: “Ó Deus todo-poderoso, concedei a vossos fieis o ardente desejo de possuir o reino celeste, para que, acorrendo com as nossas boas obras ao encontro do Cristo que vem, sejamos reunidos à sua direita na comunidade dos justos.” Poderíamos olhar, ainda, os prefácios, que são uma riqueza particular para compreendermos o sentido teológico-espiritual deste tempo. Infelizmente, por razões de brevidade não podemos fazê-lo.

A segunda parte do Advento (a partir da III Semana) já nos faz entrever o mistério do Nascimento do Cristo. Isso fica patente nos textos bíblicos. Vejamos, por exemplo, os evangelhos do Ano A: no terceiro domingo, temos Mt 11,2-11, onde “Jesus dá testemunho de si mesmo aos enviados de João Batista” e, no quarto domingo temos Mt 1,18-24, que nos apresenta “A origem de Jesus”. Também os textos eucológicos, como já dizíamos acima, nos apontam para este sentido desta primeira parte do Advento. Vejamos a “oração coleta” do terceiro domingo do Advento Ano A: Ó Deus de bondade, que vedes o vosso povo esperando fervoroso o natal do Senhor, dai chegarmos às alegrias da Salvação e celebrá-las com intenso júbilo na solene liturgia.

Conclusão

O Tempo do Advento marca o início do ano litúrgico, colocando-nos numa santa tensão. De um lado, a expectativa da Parusia, que nos leva a uma atitude de sábia vigilância, a fim de sermos encontrados preparados. De outro, a espera da celebração do Natal do Senhor, que sendo uma grande solenidade, celebrada e vista sempre a partir do Mistério Pascal do Cristo, exige de nós uma adequada preparação, através da oração, da ascese e da participação na Liturgia.

Que a vigilância e a espera jubilosa possam ser atitudes espirituais vividas intensamente por todos os cristãos nesses dias.



[1] Todo esse resumo histórico pode ser encontrado em: AUGÉ, Matias. Advento, Natal, Epifania. São Paulo: Ave-Maria, pp. 18-21.

[2] São chamados “textos eucológicos” aqueles textos fixos de oração não-bíblicos que temos na celebração dos diversos sacramentos e sacramentais, como as orações eucarísticas, os formulários de Missa, as fórmulas de bênção etc.

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida