Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 22/11/2017

22 de Novembro de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (70): Interpretação e tradução da Bíblia

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22 de Novembro de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (70): Interpretação e tradução da Bíblia

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18/11/2016 18:20 - Atualizado em 18/11/2016 18:20

A Palavra de Deus na Bíblia (70): Interpretação e tradução da Bíblia 0

18/11/2016 18:20 - Atualizado em 18/11/2016 18:20

Neste artigo, começamos uma nova questão, não menos importante: ‘O Papel dos diversos membros da Igreja na interpretação’. E assim, passamos agora a outro instigante aspecto do percurso interpretativo e eclesial da Bíblia.

Enquanto dadas à Igreja, as Escrituras são um tesouro comum do corpo completo formado pelos fiéis: “A Santa Tradição e a Santa Escritura constituem um único depósito sagrado da Palavra de Deus, confiado à Igreja. Ligando-se a ele, todo o povo santo unido a seus pastores permanece assiduamente fiel ao ensinamento dos apóstolos...” (Dei Verbum, 10; cf também 21). É bem verdade que a familiaridade com o texto das Escrituras foi, entre os fiéis, mais notável em certas épocas da história do que em outras. Mas as Escrituras ocuparam uma posição de primeiro plano em todos os momentos importantes de renovação na vida da Igreja, desde o movimento monástico dos primeiros séculos até a época recente do Concilio Vaticano II1.

A Igreja Católica é consciente das etapas e níveis diversos da ‘familiaridade’ dos fiéis com as Sagradas Escrituras.

Mas, a Igreja é cônscia, sobretudo, que em nenhum momento estes mesmos fiéis, mesmo distantes da leitura pessoal e diária da Bíblia, por ela não foram alimentados, graças à Tradição, à arte, à piedade da Igreja, todas elas imbuídas das mesmas Escrituras.

Este mesmo Concílio ensina que todos os batizados, quando tomam parte, na fé ao Cristo, da celebração da Eucaristia, reconhecem a presença do Cristo também em sua Palavra, “pois é ele mesmo que fala quando as Santas Escrituras são lidas na igreja” (Sacrosanctum Concilium, 7).

A esta escuta da Palavra eles contribuem com o «sentido da fé (sensus fidei) que caracteriza o Povo (de Deus) inteiro. (...) Graças a esse sentido da fé que é despertado e sustentado pelo Espírito de verdade, o Povo de Deus, sob direção do magistério sagrado, que ele segue fielmente, recebe, não uma palavra humana, mas verdadeiramente a Palavra de Deus: (cf 1 Tess 2,13). Ele se une indefectivelmente à fé transmitida aos santos uma vez por todas (cf Jud 3), ele a aprofunda corretamente e a aplica à sua vida da maneira mais completa (Lumen gentium, 12)2.

Aqui surgem dois conceitos que poderiam ser aparentemente antagônicos: de um lado, a leitura e a interpretação da Bíblia na Igreja se realizam sob a égide do Magistério, do outro, o Povo de Deus possui, dada a força do Batismo, que implica na Ação do Espírito Santo, uma capacidade inata de ‘receber’ a Palavra de Deus de modo integral e correto; trata-se do sensus Fidelium.

A propósito do tema que aqui refletimos, é imprescindível que se estabeleça a distinção entre sensus fidei, sensus fidelium e consensus fidelium (ou consensus fidei). Estas expressões não são intercambiáveis. Referem-se, na verdade, a conteúdos muito diversos. Herbert Vorgrimler define o sensus fidei (SF) como “espécie determinada de conhecimento, que provém da fé e se refere ao conteúdo essencial dessa mesma fé” 180. É uma maneira de conhecer espontânea, não discursiva, analógica à vista clínica do médico 181. É o senso da fé que compete a cada um/cada uma que crê na revelação de Deus. É a consciência individual iluminada pela luz do Espírito de Deus. E o sensus fidelium é, afirma o autor, o senso dos fiéis ou, a consciência coletiva da fé. Enquanto o consensus fidelium é a concordância dos fiéis que se forma a partir do senso da fé3.

Mais ainda:

Segundo Vitali Dario, O termo sensus, que quer dizer senso ou sentido; este substantivo corresponde ao termo grego aísthesis que significa: percepção, sensação ou sentimento, que indica, sobretudo, um modo de conhecimento a partir da experiência adquirida através dos sentidos; uma forma de compreender como a capacidade de perceber que eles têm consciência de algo “[...] e, por extensão, também, indica faculdade, o órgão do sentido, através do qual se desenvolve este tipo do saber 183. Enquanto o termo fidei, que quer dizer fé é uma atitude interna de entrega, o amém total do povo de Deus ao pleno e eterno sim de Deus do povo, ambos dados em Jesus Cristo, sob a luz do Espírito Santo, para a glória de Deus Pai4.

Assim, todos os membros da Igreja têm um papel na interpretação das Escrituras.

No exercício de seus ministérios pastorais, os bispos, enquanto sucessores dos apóstolos, são as primeiras testemunhas e garantias da tradição viva na qual as Escrituras são interpretadas em cada época. “Iluminados pelo Espírito da verdade, devem guardar fielmente a Palavra de Deus, explicá-la e propagá-la pela pregação” (Dei Verbum, 9; Lumen gentium, 25).

Enquanto colaboradores dos bispos, os padres têm como primeiro dever a proclamação da Palavra (Presbyterorum ordinis, 4). Eles são dotados de um carisma particular para a interpretação da Escritura quando, transmitindo não suas ideias pessoais, mas a Palavra de Deus, eles aplicam a verdade eterna do Evangelho às circunstâncias concretas da vida (ibid.).

Cabe aos padres e aos diáconos, sobretudo quando eles administram os sacramentos, colocar em evidência a unidade que Palavra e Sacramento formam no ministério da Igreja5.

Impressionante a lucidez a Fé da Igreja, sacerdotes, somos dotados de ‘carisma’ para a pregação fiel da Palavra de Deus, mas não se trata de nada mágico, a ação sacramental que nos capacita para a missão, supôs muito estudo, responsável e formação permanente, além de uma vida de fato consagrada!

Referências:

1www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

2http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

3http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/16843/16843_4.PDF

4http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/16843/16843_4.PDF

5http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

 

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A Palavra de Deus na Bíblia (70): Interpretação e tradução da Bíblia

18/11/2016 18:20 - Atualizado em 18/11/2016 18:20

Neste artigo, começamos uma nova questão, não menos importante: ‘O Papel dos diversos membros da Igreja na interpretação’. E assim, passamos agora a outro instigante aspecto do percurso interpretativo e eclesial da Bíblia.

Enquanto dadas à Igreja, as Escrituras são um tesouro comum do corpo completo formado pelos fiéis: “A Santa Tradição e a Santa Escritura constituem um único depósito sagrado da Palavra de Deus, confiado à Igreja. Ligando-se a ele, todo o povo santo unido a seus pastores permanece assiduamente fiel ao ensinamento dos apóstolos...” (Dei Verbum, 10; cf também 21). É bem verdade que a familiaridade com o texto das Escrituras foi, entre os fiéis, mais notável em certas épocas da história do que em outras. Mas as Escrituras ocuparam uma posição de primeiro plano em todos os momentos importantes de renovação na vida da Igreja, desde o movimento monástico dos primeiros séculos até a época recente do Concilio Vaticano II1.

A Igreja Católica é consciente das etapas e níveis diversos da ‘familiaridade’ dos fiéis com as Sagradas Escrituras.

Mas, a Igreja é cônscia, sobretudo, que em nenhum momento estes mesmos fiéis, mesmo distantes da leitura pessoal e diária da Bíblia, por ela não foram alimentados, graças à Tradição, à arte, à piedade da Igreja, todas elas imbuídas das mesmas Escrituras.

Este mesmo Concílio ensina que todos os batizados, quando tomam parte, na fé ao Cristo, da celebração da Eucaristia, reconhecem a presença do Cristo também em sua Palavra, “pois é ele mesmo que fala quando as Santas Escrituras são lidas na igreja” (Sacrosanctum Concilium, 7).

A esta escuta da Palavra eles contribuem com o «sentido da fé (sensus fidei) que caracteriza o Povo (de Deus) inteiro. (...) Graças a esse sentido da fé que é despertado e sustentado pelo Espírito de verdade, o Povo de Deus, sob direção do magistério sagrado, que ele segue fielmente, recebe, não uma palavra humana, mas verdadeiramente a Palavra de Deus: (cf 1 Tess 2,13). Ele se une indefectivelmente à fé transmitida aos santos uma vez por todas (cf Jud 3), ele a aprofunda corretamente e a aplica à sua vida da maneira mais completa (Lumen gentium, 12)2.

Aqui surgem dois conceitos que poderiam ser aparentemente antagônicos: de um lado, a leitura e a interpretação da Bíblia na Igreja se realizam sob a égide do Magistério, do outro, o Povo de Deus possui, dada a força do Batismo, que implica na Ação do Espírito Santo, uma capacidade inata de ‘receber’ a Palavra de Deus de modo integral e correto; trata-se do sensus Fidelium.

A propósito do tema que aqui refletimos, é imprescindível que se estabeleça a distinção entre sensus fidei, sensus fidelium e consensus fidelium (ou consensus fidei). Estas expressões não são intercambiáveis. Referem-se, na verdade, a conteúdos muito diversos. Herbert Vorgrimler define o sensus fidei (SF) como “espécie determinada de conhecimento, que provém da fé e se refere ao conteúdo essencial dessa mesma fé” 180. É uma maneira de conhecer espontânea, não discursiva, analógica à vista clínica do médico 181. É o senso da fé que compete a cada um/cada uma que crê na revelação de Deus. É a consciência individual iluminada pela luz do Espírito de Deus. E o sensus fidelium é, afirma o autor, o senso dos fiéis ou, a consciência coletiva da fé. Enquanto o consensus fidelium é a concordância dos fiéis que se forma a partir do senso da fé3.

Mais ainda:

Segundo Vitali Dario, O termo sensus, que quer dizer senso ou sentido; este substantivo corresponde ao termo grego aísthesis que significa: percepção, sensação ou sentimento, que indica, sobretudo, um modo de conhecimento a partir da experiência adquirida através dos sentidos; uma forma de compreender como a capacidade de perceber que eles têm consciência de algo “[...] e, por extensão, também, indica faculdade, o órgão do sentido, através do qual se desenvolve este tipo do saber 183. Enquanto o termo fidei, que quer dizer fé é uma atitude interna de entrega, o amém total do povo de Deus ao pleno e eterno sim de Deus do povo, ambos dados em Jesus Cristo, sob a luz do Espírito Santo, para a glória de Deus Pai4.

Assim, todos os membros da Igreja têm um papel na interpretação das Escrituras.

No exercício de seus ministérios pastorais, os bispos, enquanto sucessores dos apóstolos, são as primeiras testemunhas e garantias da tradição viva na qual as Escrituras são interpretadas em cada época. “Iluminados pelo Espírito da verdade, devem guardar fielmente a Palavra de Deus, explicá-la e propagá-la pela pregação” (Dei Verbum, 9; Lumen gentium, 25).

Enquanto colaboradores dos bispos, os padres têm como primeiro dever a proclamação da Palavra (Presbyterorum ordinis, 4). Eles são dotados de um carisma particular para a interpretação da Escritura quando, transmitindo não suas ideias pessoais, mas a Palavra de Deus, eles aplicam a verdade eterna do Evangelho às circunstâncias concretas da vida (ibid.).

Cabe aos padres e aos diáconos, sobretudo quando eles administram os sacramentos, colocar em evidência a unidade que Palavra e Sacramento formam no ministério da Igreja5.

Impressionante a lucidez a Fé da Igreja, sacerdotes, somos dotados de ‘carisma’ para a pregação fiel da Palavra de Deus, mas não se trata de nada mágico, a ação sacramental que nos capacita para a missão, supôs muito estudo, responsável e formação permanente, além de uma vida de fato consagrada!

Referências:

1www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

2http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

3http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/16843/16843_4.PDF

4http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/16843/16843_4.PDF

5http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

 

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica