Arquidiocese do Rio de Janeiro

28º 20º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/08/2018

20 de Agosto de 2018

Já reinamos com Cristo

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do e-mail.
E-mail enviado com sucesso.

20 de Agosto de 2018

Já reinamos com Cristo

Se você encontrou erro neste texto ou nesta página, por favor preencha os campos abaixo. O link da página será enviado automaticamente a ArqRio.

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do erro.
Erro relatado com sucesso, obrigado.

18/11/2016 00:00

Já reinamos com Cristo 0

18/11/2016 00:00

A Solenidade de Cristo Rei foi instituída pelo Papa Pio XI em 1925, através de sua Encíclica Quas Primas. Quando da sua instituição, esta festa era celebrada no último domingo de outubro, antes da Solenidade de Todos os Santos. Depois da reforma litúrgica passou para o último domingo do tempo comum, mostrando assim que tudo deve se dirigir para Cristo, alfa e ômega, isto é, princípio de fim de todas as coisas. Este sentido da Solenidade pode ser captado pela oração coleta: “Deus eterno e todo-poderoso, que dispusestes restaurar todas as coisas no vosso amado Filho, Rei do Universo, fazei que todas as criaturas, libertas da escravidão e servindo à vossa majestade, vos glorifiquem eternamente”.

Este texto eucológico[1] apresenta, em primeiro lugar, o sentido da Solenidade de Cristo Rei: o desejo eterno do Pai de restaurar todas as coisas em Cristo. Isto nos remete para o texto de Ef 1,10, onde Paulo fala que o desejo do Pai é justamente esse: “recapitular” todas as coisas em Cristo. Esta eucologia inicial apresenta, ainda, um pedido: que todas as criaturas, libertas da escravidão, possam glorificar eternamente a Deus. Esse pedido, por sua vez, nos traz à mente Ef 1,12, onde Paulo afirma que a finalidade da nossa existência é servirmos ao “louvor” e à “glória” de Deus.

Neste ciclo de leituras do Ano C, que estamos para encerrar, a primeira leitura que nos é apresentada é 2Sm 5,1-3: a unção de Davi em Hebron. Davi, que já havia sido ungido por Samuel na sua juventude (1Sm 16,1-13) e pelos anciãos de Judá na mesma cidade de Hebron (2Sm 2,1-4), agora é ungido também pelos anciãos de Israel e sua realeza é reconhecida por todo o povo.

Davi se tornará, aos poucos, o protótipo do rei perfeito que, apesar de suas fraquezas, soube manter a aliança com Deus intacta. Não é à toa que Deus lhe fará uma promessa em 2Sm 7,12-13 garantindo-lhe perenidade do governo do povo de Israel: E quando os teus dias estiverem completos e vieres a dormir com teus pais, farei permanecer a tua linhagem após ti, gerada das tuas entranhas e firmarei sua realeza. Será ele que construirá uma casa para o meu Nome, e estabelecerei para sempre o seu trono.

O Salmo 121 que rezamos nessa liturgia da Palavra canta a alegria do povo que sobe ao Templo, que vai a Jerusalém para ver a “sede da justiça” e o “trono de Davi”. O povo sempre esperou, sobretudo depois do fim da monarquia, que Deus lhes enviasse um “Messias”, um “rei” que fosse como havia sido Davi, para ocupar de novo o trono para ele reservado.

Deus realizou sua promessa e enviou um novo Rei. Contudo, o Rei enviado não era segundo as expectativas do povo. Era da linhagem de Davi, mas não veio como soberano de um reino que é deste mundo. É significativo que o Evangelho de hoje seja um trecho da paixão segundo Lucas. A paixão de Jesus em Lucas ocupa os cc. 22-23 e hoje a liturgia nos apresenta o trecho de 23,35-43. Poderíamos dividir esse texto em duas partes:

vv. 35-38: dúvidas a respeito da realeza/messianidade de Jesus

vv. 39-43: Jesus confirma seu reinado

Os vv. 35-38 colocam em cena dois grupos: os chefes e os soldados. Dos chefes, diz-se que “zombavam” de Jesus. Duvidavam da sua messianidade, dizendo: Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido! “Cristo” não é um sobrenome de Jesus, mas um título. “Cristo” significa “Ungido” e é a tradução grega do termo hebraico “Mashîah”, donde o termo “Messias”. Eles duvidavam que Jesus fosse o “eleito” de Deus. Dos soldados que afirma que também “caçoavam” de Jesus, e uma frase semelhante a dos chefes sai de seus lábios: Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo. Até o mesmo o letreiro posto sobre a cruz de Jesus era um sinal de zombaria: Este é o Rei dos Judeus.

Nestes primeiros versículos podemos perceber a repetição da frase Salve-se/Salva-te a ti mesmo. Eis os soldados e os chefes exigindo de Jesus uma prova da sua realeza e da sua messianidade: que Ele “salva-se” da cruz. Ele, o Cristo, não veio para “salvar-se a si mesmo”. Não era Ele quem precisava de salvação, mas sim a humanidade caída no pecado. Ele não “salvou-se da cruz”, para “salvar-nos pela cruz”. A sua cruz foi o instrumento da nossa salvação e o trono de glória d’Aquele que não é rei segundo esse mundo e nem desse mundo, mas que é Rei dos Reis e Senhor dos Senhores e veio para abrir-nos as portas de um reino novo e sem fim.

Na segunda parte do evangelho temos a confirmação que Jesus faz de seu reinado nos vv. 39-43. Se na primeira parte tínhamos Jesus entre dois grupos – os chefes e os soldados – agora temos Jesus entre duas personagens individuais: os dois ladrões que o ladeiam na cruz. Interessante notar que, nos vv. 35-38 os dois grupos concordam em zombar de Jesus; aqui, no entanto, é só um dos ladrões que o “insulta”, mas que isso, que “blasfema” contra Jesus: Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós! Mais uma vez a dúvida a respeito da messianidade de Jesus e a exigência de uma prova: Salva-te a ti mesmo e a nós. Agora a exigência do sinal inclui também a salvação dos dois ladrões, uma vez que eles acreditam que a “salvação” que Jesus pode trazer é uma mera “libertação temporal” das tribulações. Não será Jesus quem irá responder à essa blasfêmia, mas o outro ladrão, que dirá: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma condenação? Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal. Mas que uma defesa de Jesus, o ladrão fez uma confissão, no mais pleno sentido do termo. Confessou o seu pecado e a glória de Jesus, ao afirmar a inocência dele: mas ele não fez nada de mal.

Os vv. 42-43 nos colocam diante de um colóquio decisivo entre este ladrão arrependido e o próprio Jesus. Ele, o ladrão, quer que Jesus se “lembre” dele quando estiver em seu reino. Em todo o trecho ouvido hoje, somente aqui e por este ladrão arrependido Jesus é reconhecido como aquilo o que verdadeiramente Ele é: um Rei! Contudo, para expressar que o seu Reino não é deste mundo, Jesus afirma que eles estarão juntos, ainda naquele mesmo dia, mas no “Paraíso”!

Nosso Senhor Jesus Cristo é verdadeiramente rei, mas não se equipara aos reis deste mundo. O seu trono é a cruz e Ele reinou servindo e oferecendo sua vida por nós, realizando, como afirma a segunda leitura, a paz pelo sangue da sua cruz (cf. Cl 1,20).

Nós somos chamados a reinar com Ele. Na segunda leitura Paulo convida os cristãos de Colossos a “dar graças”, ou seja, “a fazer sua Eucaristia – ação de graças” ao Pai, porque Ele nos libertou do poder das trevas e nos recebeu no Reino do seu Filho amado. O Pai abriu-nos, em Cristo, as portas do Reino. Na Igreja já vivemos de modo antecipado a vida do Reino. Quando celebramos a liturgia, já nos unimos àquela liturgia celeste que se celebra nas moradas eternas. Já reinamos, de certo modo, com Cristo, e esperamos ansiosamente aquele dia em que estaremos para sempre em seu Reino.

Contudo, se de certo modo “já reinamos com Cristo”, será que podemos dizer que aprendemos também a “reinar como Cristo”? Em sua vida terrena Cristo reinou servindo e doando-se na cruz por nós. Será que aprendemos a lição e sabemos, também nós, reinar como Ele reinou, colocando-nos a serviço dos irmãos e assumindo nossa cruz de cada dia com espírito de louvor e ação de graças? Será que nos submetemos à doce Lei de Nosso Rei que é o Evangelho?

Que a liturgia de hoje seja para nós não somente uma proclamação da realeza de Jesus, mas seja também uma realização dessa realeza nas nossas vidas. Que o Espírito Santo do Senhor nos renove interiormente a fim de que, proclamando Cristo como Rei do Universo, possamos deixar que Ele reine também em nossas vidas e em nossos corações.



[1] Textos eucológicos são textos litúrgicos não-bíblicos, como as orações eucarísticas, os prefácios e os formulários da Missa com as orações coleta, sobre as oblatas e pós-comunhão, por exemplo.

Leia os comentários

Deixe seu comentário

Resposta ao comentário de:

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do comentário.
Comentário enviado para aprovação.

Já reinamos com Cristo

18/11/2016 00:00

A Solenidade de Cristo Rei foi instituída pelo Papa Pio XI em 1925, através de sua Encíclica Quas Primas. Quando da sua instituição, esta festa era celebrada no último domingo de outubro, antes da Solenidade de Todos os Santos. Depois da reforma litúrgica passou para o último domingo do tempo comum, mostrando assim que tudo deve se dirigir para Cristo, alfa e ômega, isto é, princípio de fim de todas as coisas. Este sentido da Solenidade pode ser captado pela oração coleta: “Deus eterno e todo-poderoso, que dispusestes restaurar todas as coisas no vosso amado Filho, Rei do Universo, fazei que todas as criaturas, libertas da escravidão e servindo à vossa majestade, vos glorifiquem eternamente”.

Este texto eucológico[1] apresenta, em primeiro lugar, o sentido da Solenidade de Cristo Rei: o desejo eterno do Pai de restaurar todas as coisas em Cristo. Isto nos remete para o texto de Ef 1,10, onde Paulo fala que o desejo do Pai é justamente esse: “recapitular” todas as coisas em Cristo. Esta eucologia inicial apresenta, ainda, um pedido: que todas as criaturas, libertas da escravidão, possam glorificar eternamente a Deus. Esse pedido, por sua vez, nos traz à mente Ef 1,12, onde Paulo afirma que a finalidade da nossa existência é servirmos ao “louvor” e à “glória” de Deus.

Neste ciclo de leituras do Ano C, que estamos para encerrar, a primeira leitura que nos é apresentada é 2Sm 5,1-3: a unção de Davi em Hebron. Davi, que já havia sido ungido por Samuel na sua juventude (1Sm 16,1-13) e pelos anciãos de Judá na mesma cidade de Hebron (2Sm 2,1-4), agora é ungido também pelos anciãos de Israel e sua realeza é reconhecida por todo o povo.

Davi se tornará, aos poucos, o protótipo do rei perfeito que, apesar de suas fraquezas, soube manter a aliança com Deus intacta. Não é à toa que Deus lhe fará uma promessa em 2Sm 7,12-13 garantindo-lhe perenidade do governo do povo de Israel: E quando os teus dias estiverem completos e vieres a dormir com teus pais, farei permanecer a tua linhagem após ti, gerada das tuas entranhas e firmarei sua realeza. Será ele que construirá uma casa para o meu Nome, e estabelecerei para sempre o seu trono.

O Salmo 121 que rezamos nessa liturgia da Palavra canta a alegria do povo que sobe ao Templo, que vai a Jerusalém para ver a “sede da justiça” e o “trono de Davi”. O povo sempre esperou, sobretudo depois do fim da monarquia, que Deus lhes enviasse um “Messias”, um “rei” que fosse como havia sido Davi, para ocupar de novo o trono para ele reservado.

Deus realizou sua promessa e enviou um novo Rei. Contudo, o Rei enviado não era segundo as expectativas do povo. Era da linhagem de Davi, mas não veio como soberano de um reino que é deste mundo. É significativo que o Evangelho de hoje seja um trecho da paixão segundo Lucas. A paixão de Jesus em Lucas ocupa os cc. 22-23 e hoje a liturgia nos apresenta o trecho de 23,35-43. Poderíamos dividir esse texto em duas partes:

vv. 35-38: dúvidas a respeito da realeza/messianidade de Jesus

vv. 39-43: Jesus confirma seu reinado

Os vv. 35-38 colocam em cena dois grupos: os chefes e os soldados. Dos chefes, diz-se que “zombavam” de Jesus. Duvidavam da sua messianidade, dizendo: Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido! “Cristo” não é um sobrenome de Jesus, mas um título. “Cristo” significa “Ungido” e é a tradução grega do termo hebraico “Mashîah”, donde o termo “Messias”. Eles duvidavam que Jesus fosse o “eleito” de Deus. Dos soldados que afirma que também “caçoavam” de Jesus, e uma frase semelhante a dos chefes sai de seus lábios: Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo. Até o mesmo o letreiro posto sobre a cruz de Jesus era um sinal de zombaria: Este é o Rei dos Judeus.

Nestes primeiros versículos podemos perceber a repetição da frase Salve-se/Salva-te a ti mesmo. Eis os soldados e os chefes exigindo de Jesus uma prova da sua realeza e da sua messianidade: que Ele “salva-se” da cruz. Ele, o Cristo, não veio para “salvar-se a si mesmo”. Não era Ele quem precisava de salvação, mas sim a humanidade caída no pecado. Ele não “salvou-se da cruz”, para “salvar-nos pela cruz”. A sua cruz foi o instrumento da nossa salvação e o trono de glória d’Aquele que não é rei segundo esse mundo e nem desse mundo, mas que é Rei dos Reis e Senhor dos Senhores e veio para abrir-nos as portas de um reino novo e sem fim.

Na segunda parte do evangelho temos a confirmação que Jesus faz de seu reinado nos vv. 39-43. Se na primeira parte tínhamos Jesus entre dois grupos – os chefes e os soldados – agora temos Jesus entre duas personagens individuais: os dois ladrões que o ladeiam na cruz. Interessante notar que, nos vv. 35-38 os dois grupos concordam em zombar de Jesus; aqui, no entanto, é só um dos ladrões que o “insulta”, mas que isso, que “blasfema” contra Jesus: Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós! Mais uma vez a dúvida a respeito da messianidade de Jesus e a exigência de uma prova: Salva-te a ti mesmo e a nós. Agora a exigência do sinal inclui também a salvação dos dois ladrões, uma vez que eles acreditam que a “salvação” que Jesus pode trazer é uma mera “libertação temporal” das tribulações. Não será Jesus quem irá responder à essa blasfêmia, mas o outro ladrão, que dirá: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma condenação? Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal. Mas que uma defesa de Jesus, o ladrão fez uma confissão, no mais pleno sentido do termo. Confessou o seu pecado e a glória de Jesus, ao afirmar a inocência dele: mas ele não fez nada de mal.

Os vv. 42-43 nos colocam diante de um colóquio decisivo entre este ladrão arrependido e o próprio Jesus. Ele, o ladrão, quer que Jesus se “lembre” dele quando estiver em seu reino. Em todo o trecho ouvido hoje, somente aqui e por este ladrão arrependido Jesus é reconhecido como aquilo o que verdadeiramente Ele é: um Rei! Contudo, para expressar que o seu Reino não é deste mundo, Jesus afirma que eles estarão juntos, ainda naquele mesmo dia, mas no “Paraíso”!

Nosso Senhor Jesus Cristo é verdadeiramente rei, mas não se equipara aos reis deste mundo. O seu trono é a cruz e Ele reinou servindo e oferecendo sua vida por nós, realizando, como afirma a segunda leitura, a paz pelo sangue da sua cruz (cf. Cl 1,20).

Nós somos chamados a reinar com Ele. Na segunda leitura Paulo convida os cristãos de Colossos a “dar graças”, ou seja, “a fazer sua Eucaristia – ação de graças” ao Pai, porque Ele nos libertou do poder das trevas e nos recebeu no Reino do seu Filho amado. O Pai abriu-nos, em Cristo, as portas do Reino. Na Igreja já vivemos de modo antecipado a vida do Reino. Quando celebramos a liturgia, já nos unimos àquela liturgia celeste que se celebra nas moradas eternas. Já reinamos, de certo modo, com Cristo, e esperamos ansiosamente aquele dia em que estaremos para sempre em seu Reino.

Contudo, se de certo modo “já reinamos com Cristo”, será que podemos dizer que aprendemos também a “reinar como Cristo”? Em sua vida terrena Cristo reinou servindo e doando-se na cruz por nós. Será que aprendemos a lição e sabemos, também nós, reinar como Ele reinou, colocando-nos a serviço dos irmãos e assumindo nossa cruz de cada dia com espírito de louvor e ação de graças? Será que nos submetemos à doce Lei de Nosso Rei que é o Evangelho?

Que a liturgia de hoje seja para nós não somente uma proclamação da realeza de Jesus, mas seja também uma realização dessa realeza nas nossas vidas. Que o Espírito Santo do Senhor nos renove interiormente a fim de que, proclamando Cristo como Rei do Universo, possamos deixar que Ele reine também em nossas vidas e em nossos corações.



[1] Textos eucológicos são textos litúrgicos não-bíblicos, como as orações eucarísticas, os prefácios e os formulários da Missa com as orações coleta, sobre as oblatas e pós-comunhão, por exemplo.

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida