Arquidiocese do Rio de Janeiro

26º 19º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 19/05/2019

19 de Maio de 2019

“Terço dos Homens”

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“Terço dos Homens”

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15/11/2016 09:20 - Atualizado em 15/11/2016 09:20

“Terço dos Homens” 0

15/11/2016 09:20 - Atualizado em 15/11/2016 09:20

De uns anos para cá, um movimento novo surgiu na Igreja: é o chamado “Terço dos homens”, que faz jus ao próprio nome, pois homens de todas as idades, localidades, condições sociais etc. têm se reunido em diversas igrejas do Brasil a fim de, juntos, rezarem, semanal ou quinzenalmente, o Terço de Nossa Senhora.

Havia, na sociedade do século XX – ora mais ora menos estampado – certo preconceito contra homens que rezavam o terço. As mulheres, de um modo quase geral, sempre foram mais assíduas nessa devoção. Ainda que não se possa, é verdade, esquecer o grande surto das chamadas “Congregações Marianas”, uma espécie de confraria estimulada pelos jesuítas, mas que após as renovações conciliares foi rareando e dando lugar a outros grupos, incluindo os de Oração ligados à Renovação Carismática Católica, muito valorizadora ou mesmo difusora do Terço a partir dos anos de 1960.

Como quer que seja, importa expor neste artigo a origem remota dessa devoção, bem como o seu rico significado teológico, ainda muito valorizado em tempos recentes com o “Papa mariano” São João Paulo II que, em 2002, houve por bem acrescentar mais um Terço ao Rosário: os Mistérios Luminosos, percorrendo os grandes pontos da vida pública de Jesus.

Em termos gerais, diga-se que o costume de se rezar usando “contas” é algo espontâneo ao ser humano, de modo que várias religiões sempre se valeram de pedrinhas, grãos, ossinhos ou outros artifícios para contarem suas preces. Tal prática foi adotada pelos monges católicos desde cedo, a fim de contabilizarem suas muitas jaculatórias (preces curtas, via de regra, retiradas da Bíblia, como: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!”), de modo que nos séculos IV e V era comum aos que abraçavam a vida monástica se valerem desse recurso muito simples e eficaz de contagem.

No século X, também nos mosteiros, parte dos monges não tinha estudos para poder acompanhar a oração do Ofício Divino, de modo que se tornou trivial recitarem certo número de Pai-Nossos, usando para isso contas, quase como um rosário, chamadas de Paternoster. Ao lado desse hábito monástico, foi se tornando cada vez mais frequente o costume de saudar também a Virgem Maria com as palavras tiradas da saudação do Anjo e dos louvores proclamados por Isabel em Lucas 1,28.42. A “Santa Maria” só viria mais tarde, embora a fé em Nossa Senhora como Mãe de Deus seja antiquíssima na Igreja, de modo que o Concílio de Éfeso, em 431, atendendo à fé do povo, já definiu Maria como “Mãe de Deus”. Ela deu à luz o Deus feito Homem por amor de nós.

No século XII, começou a se difundir entre os fiéis o costume de dirigir a Nossa Senhora uma “coroa de rosas” com 150 Ave-Marias, que alguns dividiam de 50 em 50, a fim de louvar a Mãe de Deus e nossa mãe por ter dito “Sim” ao Senhor e nos trazido Jesus, o Salvador. A cada dezena ou mais de Ave-Marias se intercalava um Pai-Nosso, de modo a ficar essa forma de rezar conhecida por Coroa de Maria ou Rosário, como ainda hoje se fala. As então 150 Ave-Marias lembravam os 150 Salmos bíblicos, de forma que alguns também chamaram esse modo de rezar de Saltério da Virgem Maria. Era a salmodia dos que não sabiam ler.

Um monge cartuxo, Henrique de Egher ou de Calcar, falecido em 1408, escreveu o poema Psalterium Beatae Mariae (Saltério da Bem-aventurada Maria), no qual estimulava a recitação de um Pai-Nosso intercalado a cada dez Ave-Marias, como temos hoje, e sua ideia, que não era tão nova, mas pouco difusa, ganhou aceitação entre os monges e entre o povo de Deus em geral.

Por fim, no século XVI, as monjas dominicanas de Töss e Katharinental tinham por prática esse modelo, ao que parece proposto pelo monge Henrique. No entanto, coube a outro cartuxo, Domingos Ruteno, a proposta de um ponto de meditação a cada dezena de um Pai-Nosso e dez Ave-Marias, o que surtiu efeito, mas não conseguiu chegar a uma formulação tão clara e precisa. Prevaleceu o método do frei Alano de La Roche, dominicano do século XV, com 150 Ave-Marias intercaladas de Pai-Nossos com pontos de meditação em cada dezena. Aliás, não se pode deixar de dizer que a difusão popular do Rosário muito se deve à Ordem Dominicana, fundada por São Domingos de Gusmão, no século XIII, na Espanha. Cada religioso ou religiosa dessa Ordem porta, preso ao cinto do hábito, o Rosário como algo próprio do carisma dominicano: contemplar e depois transmitir, na pregação, o fruto da contemplação.

Do Rosário completo surgiu o Terço, ou seja, as contas de 50 Ave-Marias com a intercalação do Pai-Nosso a cada dezena. Aqui importa, desde já, referir o que disse São João Paulo II sobre o valor do Terço: “Um instrumento tradicional na recitação do Rosário é o terço. No seu uso mais superficial, reduz-se frequentemente a um simples meio para contar e registrar a sucessão das Ave-Marias. Mas, presta-se também a exprimir simbolismos, que podem conferir maior profundidade à contemplação”.

“A tal respeito, a primeira coisa a notar é como o terço converge para o Crucificado, que desta forma abre e fecha o próprio itinerário da oração. Em Cristo, está centrada a vida e a oração dos crentes. Tudo parte d’Ele, tudo tende para Ele, tudo por Ele, no Espírito Santo, chega ao Pai”. 

“Como instrumento de contagem que assinala o avançar da oração, o Terço evoca o caminho incessante da contemplação e da perfeição cristã. O Beato Bártolo Longo via-o também como uma ‘cadeia’ que nos prende a Deus. Cadeia sim, mas uma doce cadeia; assim se apresenta sempre a relação com um Deus que é Pai. Cadeia ‘filial’, que nos coloca em sintonia com Maria, a ‘serva do Senhor’ (Lc 1, 38), e em última instância com o próprio Cristo que, apesar de ser Deus, Se fez ‘servo’ por nosso amor (Fl 2, 7)”.

“É bom alargar o significado simbólico do Terço também à nossa relação recíproca, recordando, através dele, o vínculo de comunhão e fraternidade que a todos nos une em Cristo”. (Rosarium Virginis Mariae, n. 36).

Voltando, porém, à História dizemos que, oficialmente, quem configurou o Rosário e, por conseguinte, o Terço foi o Papa São Pio V (1556-1572), pois ele, como dominicano e propagador ardoroso do Rosário, atribuiu a vitória de Lepanto, a afastar as tropas islâmicas da Europa, à intercessão de Nossa Senhora por meio da recitação do Rosário. Permitiu, então, para os dominicanos a Festa de Nossa Senhora do Rosário todo dia 7 de outubro. Em 1716, essa festa foi estendida a toda a Igreja. Já o Papa Leão XIII quis que o mês inteiro de outubro fosse dedicado ao Rosário. Aparecem aqui as importantes Irmandades do Rosário, que grande bem fizeram e fazem à Igreja.

Cada Terço contempla uma parte dos Mistérios da Salvação, de modo que temos os mistérios Gozosos, que vão da Anunciação do Anjo a Maria até a perda e o encontro do Menino Jesus em Jerusalém; depois os Dolorosos, que vão da agonia no Horto das Oliveiras até a Crucificação; os Gloriosos, a contemplar as cenas da Ressurreição até a Coroação de Nossa Senhora como Rainha do Céu e da Terra pela Santíssima Trindade. Por muitos séculos foi assim. Em 2002, o Papa São João Paulo II houve por bem acrescentar ao Rosário os mistérios Luminosos, que meditam sobre a vida pública de Jesus, vão do Batismo no Jordão à Instituição da Eucaristia.

Com essa nova configuração do Rosário, o Papa fez a seguinte explanação: “Para que o Rosário possa considerar-se mais plenamente ‘compêndio do Evangelho’, é conveniente que, depois de recordar a encarnação e a vida oculta de Cristo (mistérios da alegria), e antes de se deter nos sofrimentos da paixão (mistérios da dor) e no triunfo da ressurreição (mistérios da glória), a meditação se concentre também sobre alguns momentos particularmente significativos da vida pública (mistérios da luz). Esta inserção de novos mistérios, sem prejudicar nenhum aspecto essencial do esquema tradicional dessa oração, visa fazê-la viver com renovado interesse na espiritualidade cristã, como verdadeira introdução na profundidade do Coração de Cristo, abismo de alegria e de luz, de dor e de glória”. (Rosarium Virginis Mariae n. 19).

Desse modo, rezamos aos domingos e quartas-feiras os mistérios Gloriosos, às segundas, os Gozosos, às terças os Dolorosos, e às quintas os Luminosos, no Terço. Caso rezemos o Rosário diariamente, então temos em vez de 150 Ave-Marias o acréscimo de mais 50, perfazendo, agora, o total de 200 intercaladas pelo Pai-Nosso a cada dezena. É, sem dúvida, uma forma de oração vocal, mas também mental. Daí, não dever ser rezada depressa, por mera repetição quase papagaial, mas, sim, de forma clara e contemplativa. Afinal, não foi sem razão que São Domingos adotou nas Regras da Ordem tal modelo de oração. Combina bem com seu espírito: contemplar e transmitir o fruto contemplado, ou rezar bem para pregar bem. Que belo ensinamento!

Ainda nessa linha de raciocínio, recordamos, uma vez mais, São João Paulo II, dizendo que “o Rosário, de fato, ainda que caracterizado pela sua fisionomia mariana, no seu âmago é oração cristológica. Na sobriedade dos seus elementos, concentra a profundidade de toda a mensagem evangélica, da qual é quase um compêndio. Nele ecoa a oração de Maria, o seu perene Magnificat pela obra da Encarnação redentora iniciada no seu ventre virginal. Com ele, o povo cristão frequenta a escola de Maria para deixar-se introduzir na contemplação da beleza do rosto de Cristo e na experiência da profundidade do seu amor. Mediante o Rosário, o crente alcança a graça em abundância, como se a recebesse das mesmas mãos da Mãe do Redentor”. (Rosarium Virginis Mariae n. 1).

Pode-se dizer, portanto, que o Terço ou o Rosário é a oração de todas as pessoas em todos os momentos e lugares. Não parece haver desculpas sérias para deixá-la de lado em casa, no aeroporto, na rodoviária, nos meios de transportes, na espera do médico ou dentista, nas prisões, enfim, nos mais diversos lugares e nas mais variadas situações. Com o Terço se agradece, se pede, se louva e tudo se alcança de Deus pela intercessão de Nossa Senhora. Assim como em Caná, onde Ela disse “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,1-11), hoje Ela continua a dizer “Eles não têm mais saúde, casa, alimentação, emprego, segurança, paz etc.” e seu Filho Jesus, por meio d’Ela, nos atende, às vezes não naquilo que pedimos, mas no que nos é melhor. Nenhuma oração é mágica, sempre é a vontade do Pai e não a nossa que deve ser feita.

Nesse contexto, louvo e bendigo a Deus pelo “Terço dos Homens” que tanto vigor e esperança traz à Igreja e à Humanidade. Quem medita a vida bendita de Cristo é não só um cristão melhor, mas também um cidadão de bem. Há de traduzir essa contemplação na vida do dia a dia como bom marido, bom pai, bom profissional, bom vizinho, bom sacerdote etc.

Em nossa Arquidiocese há muitos grupos de Terço dos Homens. Obrigado pelo seu vivo testemunho! Rezem pela Igreja, pela Arquidiocese, pelas nossas famílias, pela nossa cidade e, por favor, rezem por mim. Continuem firmes e perseverantes! Maria é o caminho que Deus escolheu para trazer seu Filho até nós, portanto será também sempre o melhor meio para nos fazer chegar até Ele. Coragem!


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“Terço dos Homens”

15/11/2016 09:20 - Atualizado em 15/11/2016 09:20

De uns anos para cá, um movimento novo surgiu na Igreja: é o chamado “Terço dos homens”, que faz jus ao próprio nome, pois homens de todas as idades, localidades, condições sociais etc. têm se reunido em diversas igrejas do Brasil a fim de, juntos, rezarem, semanal ou quinzenalmente, o Terço de Nossa Senhora.

Havia, na sociedade do século XX – ora mais ora menos estampado – certo preconceito contra homens que rezavam o terço. As mulheres, de um modo quase geral, sempre foram mais assíduas nessa devoção. Ainda que não se possa, é verdade, esquecer o grande surto das chamadas “Congregações Marianas”, uma espécie de confraria estimulada pelos jesuítas, mas que após as renovações conciliares foi rareando e dando lugar a outros grupos, incluindo os de Oração ligados à Renovação Carismática Católica, muito valorizadora ou mesmo difusora do Terço a partir dos anos de 1960.

Como quer que seja, importa expor neste artigo a origem remota dessa devoção, bem como o seu rico significado teológico, ainda muito valorizado em tempos recentes com o “Papa mariano” São João Paulo II que, em 2002, houve por bem acrescentar mais um Terço ao Rosário: os Mistérios Luminosos, percorrendo os grandes pontos da vida pública de Jesus.

Em termos gerais, diga-se que o costume de se rezar usando “contas” é algo espontâneo ao ser humano, de modo que várias religiões sempre se valeram de pedrinhas, grãos, ossinhos ou outros artifícios para contarem suas preces. Tal prática foi adotada pelos monges católicos desde cedo, a fim de contabilizarem suas muitas jaculatórias (preces curtas, via de regra, retiradas da Bíblia, como: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!”), de modo que nos séculos IV e V era comum aos que abraçavam a vida monástica se valerem desse recurso muito simples e eficaz de contagem.

No século X, também nos mosteiros, parte dos monges não tinha estudos para poder acompanhar a oração do Ofício Divino, de modo que se tornou trivial recitarem certo número de Pai-Nossos, usando para isso contas, quase como um rosário, chamadas de Paternoster. Ao lado desse hábito monástico, foi se tornando cada vez mais frequente o costume de saudar também a Virgem Maria com as palavras tiradas da saudação do Anjo e dos louvores proclamados por Isabel em Lucas 1,28.42. A “Santa Maria” só viria mais tarde, embora a fé em Nossa Senhora como Mãe de Deus seja antiquíssima na Igreja, de modo que o Concílio de Éfeso, em 431, atendendo à fé do povo, já definiu Maria como “Mãe de Deus”. Ela deu à luz o Deus feito Homem por amor de nós.

No século XII, começou a se difundir entre os fiéis o costume de dirigir a Nossa Senhora uma “coroa de rosas” com 150 Ave-Marias, que alguns dividiam de 50 em 50, a fim de louvar a Mãe de Deus e nossa mãe por ter dito “Sim” ao Senhor e nos trazido Jesus, o Salvador. A cada dezena ou mais de Ave-Marias se intercalava um Pai-Nosso, de modo a ficar essa forma de rezar conhecida por Coroa de Maria ou Rosário, como ainda hoje se fala. As então 150 Ave-Marias lembravam os 150 Salmos bíblicos, de forma que alguns também chamaram esse modo de rezar de Saltério da Virgem Maria. Era a salmodia dos que não sabiam ler.

Um monge cartuxo, Henrique de Egher ou de Calcar, falecido em 1408, escreveu o poema Psalterium Beatae Mariae (Saltério da Bem-aventurada Maria), no qual estimulava a recitação de um Pai-Nosso intercalado a cada dez Ave-Marias, como temos hoje, e sua ideia, que não era tão nova, mas pouco difusa, ganhou aceitação entre os monges e entre o povo de Deus em geral.

Por fim, no século XVI, as monjas dominicanas de Töss e Katharinental tinham por prática esse modelo, ao que parece proposto pelo monge Henrique. No entanto, coube a outro cartuxo, Domingos Ruteno, a proposta de um ponto de meditação a cada dezena de um Pai-Nosso e dez Ave-Marias, o que surtiu efeito, mas não conseguiu chegar a uma formulação tão clara e precisa. Prevaleceu o método do frei Alano de La Roche, dominicano do século XV, com 150 Ave-Marias intercaladas de Pai-Nossos com pontos de meditação em cada dezena. Aliás, não se pode deixar de dizer que a difusão popular do Rosário muito se deve à Ordem Dominicana, fundada por São Domingos de Gusmão, no século XIII, na Espanha. Cada religioso ou religiosa dessa Ordem porta, preso ao cinto do hábito, o Rosário como algo próprio do carisma dominicano: contemplar e depois transmitir, na pregação, o fruto da contemplação.

Do Rosário completo surgiu o Terço, ou seja, as contas de 50 Ave-Marias com a intercalação do Pai-Nosso a cada dezena. Aqui importa, desde já, referir o que disse São João Paulo II sobre o valor do Terço: “Um instrumento tradicional na recitação do Rosário é o terço. No seu uso mais superficial, reduz-se frequentemente a um simples meio para contar e registrar a sucessão das Ave-Marias. Mas, presta-se também a exprimir simbolismos, que podem conferir maior profundidade à contemplação”.

“A tal respeito, a primeira coisa a notar é como o terço converge para o Crucificado, que desta forma abre e fecha o próprio itinerário da oração. Em Cristo, está centrada a vida e a oração dos crentes. Tudo parte d’Ele, tudo tende para Ele, tudo por Ele, no Espírito Santo, chega ao Pai”. 

“Como instrumento de contagem que assinala o avançar da oração, o Terço evoca o caminho incessante da contemplação e da perfeição cristã. O Beato Bártolo Longo via-o também como uma ‘cadeia’ que nos prende a Deus. Cadeia sim, mas uma doce cadeia; assim se apresenta sempre a relação com um Deus que é Pai. Cadeia ‘filial’, que nos coloca em sintonia com Maria, a ‘serva do Senhor’ (Lc 1, 38), e em última instância com o próprio Cristo que, apesar de ser Deus, Se fez ‘servo’ por nosso amor (Fl 2, 7)”.

“É bom alargar o significado simbólico do Terço também à nossa relação recíproca, recordando, através dele, o vínculo de comunhão e fraternidade que a todos nos une em Cristo”. (Rosarium Virginis Mariae, n. 36).

Voltando, porém, à História dizemos que, oficialmente, quem configurou o Rosário e, por conseguinte, o Terço foi o Papa São Pio V (1556-1572), pois ele, como dominicano e propagador ardoroso do Rosário, atribuiu a vitória de Lepanto, a afastar as tropas islâmicas da Europa, à intercessão de Nossa Senhora por meio da recitação do Rosário. Permitiu, então, para os dominicanos a Festa de Nossa Senhora do Rosário todo dia 7 de outubro. Em 1716, essa festa foi estendida a toda a Igreja. Já o Papa Leão XIII quis que o mês inteiro de outubro fosse dedicado ao Rosário. Aparecem aqui as importantes Irmandades do Rosário, que grande bem fizeram e fazem à Igreja.

Cada Terço contempla uma parte dos Mistérios da Salvação, de modo que temos os mistérios Gozosos, que vão da Anunciação do Anjo a Maria até a perda e o encontro do Menino Jesus em Jerusalém; depois os Dolorosos, que vão da agonia no Horto das Oliveiras até a Crucificação; os Gloriosos, a contemplar as cenas da Ressurreição até a Coroação de Nossa Senhora como Rainha do Céu e da Terra pela Santíssima Trindade. Por muitos séculos foi assim. Em 2002, o Papa São João Paulo II houve por bem acrescentar ao Rosário os mistérios Luminosos, que meditam sobre a vida pública de Jesus, vão do Batismo no Jordão à Instituição da Eucaristia.

Com essa nova configuração do Rosário, o Papa fez a seguinte explanação: “Para que o Rosário possa considerar-se mais plenamente ‘compêndio do Evangelho’, é conveniente que, depois de recordar a encarnação e a vida oculta de Cristo (mistérios da alegria), e antes de se deter nos sofrimentos da paixão (mistérios da dor) e no triunfo da ressurreição (mistérios da glória), a meditação se concentre também sobre alguns momentos particularmente significativos da vida pública (mistérios da luz). Esta inserção de novos mistérios, sem prejudicar nenhum aspecto essencial do esquema tradicional dessa oração, visa fazê-la viver com renovado interesse na espiritualidade cristã, como verdadeira introdução na profundidade do Coração de Cristo, abismo de alegria e de luz, de dor e de glória”. (Rosarium Virginis Mariae n. 19).

Desse modo, rezamos aos domingos e quartas-feiras os mistérios Gloriosos, às segundas, os Gozosos, às terças os Dolorosos, e às quintas os Luminosos, no Terço. Caso rezemos o Rosário diariamente, então temos em vez de 150 Ave-Marias o acréscimo de mais 50, perfazendo, agora, o total de 200 intercaladas pelo Pai-Nosso a cada dezena. É, sem dúvida, uma forma de oração vocal, mas também mental. Daí, não dever ser rezada depressa, por mera repetição quase papagaial, mas, sim, de forma clara e contemplativa. Afinal, não foi sem razão que São Domingos adotou nas Regras da Ordem tal modelo de oração. Combina bem com seu espírito: contemplar e transmitir o fruto contemplado, ou rezar bem para pregar bem. Que belo ensinamento!

Ainda nessa linha de raciocínio, recordamos, uma vez mais, São João Paulo II, dizendo que “o Rosário, de fato, ainda que caracterizado pela sua fisionomia mariana, no seu âmago é oração cristológica. Na sobriedade dos seus elementos, concentra a profundidade de toda a mensagem evangélica, da qual é quase um compêndio. Nele ecoa a oração de Maria, o seu perene Magnificat pela obra da Encarnação redentora iniciada no seu ventre virginal. Com ele, o povo cristão frequenta a escola de Maria para deixar-se introduzir na contemplação da beleza do rosto de Cristo e na experiência da profundidade do seu amor. Mediante o Rosário, o crente alcança a graça em abundância, como se a recebesse das mesmas mãos da Mãe do Redentor”. (Rosarium Virginis Mariae n. 1).

Pode-se dizer, portanto, que o Terço ou o Rosário é a oração de todas as pessoas em todos os momentos e lugares. Não parece haver desculpas sérias para deixá-la de lado em casa, no aeroporto, na rodoviária, nos meios de transportes, na espera do médico ou dentista, nas prisões, enfim, nos mais diversos lugares e nas mais variadas situações. Com o Terço se agradece, se pede, se louva e tudo se alcança de Deus pela intercessão de Nossa Senhora. Assim como em Caná, onde Ela disse “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,1-11), hoje Ela continua a dizer “Eles não têm mais saúde, casa, alimentação, emprego, segurança, paz etc.” e seu Filho Jesus, por meio d’Ela, nos atende, às vezes não naquilo que pedimos, mas no que nos é melhor. Nenhuma oração é mágica, sempre é a vontade do Pai e não a nossa que deve ser feita.

Nesse contexto, louvo e bendigo a Deus pelo “Terço dos Homens” que tanto vigor e esperança traz à Igreja e à Humanidade. Quem medita a vida bendita de Cristo é não só um cristão melhor, mas também um cidadão de bem. Há de traduzir essa contemplação na vida do dia a dia como bom marido, bom pai, bom profissional, bom vizinho, bom sacerdote etc.

Em nossa Arquidiocese há muitos grupos de Terço dos Homens. Obrigado pelo seu vivo testemunho! Rezem pela Igreja, pela Arquidiocese, pelas nossas famílias, pela nossa cidade e, por favor, rezem por mim. Continuem firmes e perseverantes! Maria é o caminho que Deus escolheu para trazer seu Filho até nós, portanto será também sempre o melhor meio para nos fazer chegar até Ele. Coragem!


Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro