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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 24/07/2017

24 de Julho de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (66): Interpretação e tradução da Bíblia

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24 de Julho de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (66): Interpretação e tradução da Bíblia

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21/10/2016 18:26 - Atualizado em 21/10/2016 18:26

A Palavra de Deus na Bíblia (66): Interpretação e tradução da Bíblia 0

21/10/2016 18:26 - Atualizado em 21/10/2016 18:26

No artigo anterior, começamos a análise sobre a interpretação da Bíblia na tradição da Igreja. Tínhamos, então, tratado sobre o cânon bíblico, que garante aos fiéis em todos os tempos a leitura e o acesso à Palavra mesma de Deus, inscrita nestes textos.

Prosseguiremos nesta via.

O discernimento de um cânon das Santas Escrituras foi a conclusão de um longo processo. As comunidades da Antiga Aliança (desde grupos particulares, como os círculos proféticos ou o ambiente sacerdotal, até o conjunto do povo) reconheceram em um certo número de textos a Palavra de Deus que lhes suscitava a fé e as guiava na vida; elas receberam esses textos como um patrimônio a ser guardado e transmitido. Assim, os textos cessaram de ser simplesmente a expressão da inspiração de autores particulares; eles se tornaram propriedade comum do povo de Deus. O Novo Testamento atesta sua veneração por esses textos sagrados, que recebe como uma preciosa herança transmitida pelo povo judeu. Ele os olha como as Escrituras Santas (Rm 1,2), inspiradas pelo Espírito de Deus (2Tim 3,16; cf 2 Pd 1,20- 21), que não podem ser abolidas (Jo 10,35)1.

No processo longo da formação da Bíblia, como Sagrada Escritura, ocorre uma passagem fundamental, que caracteriza esta lista, como patrimônio comum, como obra coletiva e normativa da fé em uma comunidade: “esses textos cessaram de ser simplesmente a expressão da inspiração de autores particulares; eles se tornaram propriedade comum do povo de Deus.

Textos bíblicos não funcionam como autênticos por sua natureza de autoria individual, como ocorre desde o Romantismo, em que a autenticidade e o valor dependem exclusivamente da autoria individual.Este quadro refere-se em particular ao Antigo Testamento, em especial por duração extensíssima da formação de seu cânon, mas também aos livros do Novo Testamento.

A esses textos que formam o Antigo Testamento (cf 2Co 3,14), a Igreja uniu estreitamente os escritos em que ela reconheceu, de um lado, o testemunho autêntico proveniente dos apóstolos (cf Lc 1,2; 1Jo 1,1-3) e garantido pelo Espírito Santo (cf 1 Pd 1,12), sobre todas as coisas que Jesus fez e ensinou (At 1,1) e, de outro lado, instruções dadas pelos apóstolos mesmos e outros discípulos para constituir a comunidade de fiéis. Esta dupla série de escritos recebeu depois o nome de Novo Testamento2.

Segundo o documento que estudamos, o uso do Antigo Testamento na memória da liturgia está estreitamente conexo às exigências da revelação do Novo Testamento. O mesmo critério guiou, ao menos na mentalidade patrística, a exegese da Igreja.

*Neste processo, numerosos fatores tiveram um papel: a certeza de que Jesus — e os apóstolos com ele — tinha reconhecido o Antigo Testamento como Escritura inspirada, e que esta recebia sua realização em seu mistério pascal; a convicção de que os escritos do Novo Testamento provêm autenticamente da pregação apostólica (o que não implica que eles tenham sido todos compostos pelos próprios apóstolos); a constatação da sua conformidade com a regra da fé e da sua utilização na liturgia cristã; enfim, a experiência da conformidade deles com a vida eclesial das comunidades e da capacidade de alimentar esta vida3.

O documento destaca que o fundamento principal da autenticidade do Antigo Testamento, em sua utilização pelo Novo Testamento, reside na pessoa mesma de Jesus: “A certeza de que Jesus — e os apóstolos com ele — tinha reconhecido o Antigo Testamento como Escritura inspirada e que esta recebia sua realização em seu mistério pascal”. O mistério pascal de Cristo estava inscrito nas páginas proféticas do Antigo Testamento, segundo a consciência de Jesus e da Igreja.

Além disso, as páginas do AT nutrem a Igreja em sua consciência de fé apostólica, dando-lhe sempre um tom judaico-cristão irrenunciável. Motivo pelo qual há sempre um esforço da Igreja em manter-se longe de ambientes e culturas antissemitas, adesão que atestaria uma profunda incoerência com sua constituição mais profunda, fundada na unidade das Escrituras.

Discernindo o cânon das Escrituras, a Igreja discernia e definia sua própria identidade, de maneira que as Escrituras fossem doravante um espelho no qual a Igreja poderá constantemente redescobrir sua identidade e verificar, século após século, a maneira com a qual ela responde sem cessar ao Evangelho e se dispõe ela mesma a ser o meio de transmissão dele (cf Dei Verbum, 7)  .

Uma forte expressão surge diante de nós: a salvaguarda da identidade da Igreja passa pelo discernimento das Sagradas Escrituras, do cânon. As Escrituras refletem à Igreja sua própria consciência, sem as quais ela poderia dissolver-se em equívocos sobre sua essência, ao longo de sua longa história.

Isto confere aos escritos canônicos um valor salvífico e teológico completamente diferente daquele de outros textos antigos.

Se estes últimos podem dar muita luz sobre as origens da fé, eles não podem jamais substituir a autoridade dos escritos considerados como canônicos e, assim, fundamentais para o entendimento da fé cristã.

Referências:

1www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

2www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV.

3www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV.

4www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV.

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A Palavra de Deus na Bíblia (66): Interpretação e tradução da Bíblia

21/10/2016 18:26 - Atualizado em 21/10/2016 18:26

No artigo anterior, começamos a análise sobre a interpretação da Bíblia na tradição da Igreja. Tínhamos, então, tratado sobre o cânon bíblico, que garante aos fiéis em todos os tempos a leitura e o acesso à Palavra mesma de Deus, inscrita nestes textos.

Prosseguiremos nesta via.

O discernimento de um cânon das Santas Escrituras foi a conclusão de um longo processo. As comunidades da Antiga Aliança (desde grupos particulares, como os círculos proféticos ou o ambiente sacerdotal, até o conjunto do povo) reconheceram em um certo número de textos a Palavra de Deus que lhes suscitava a fé e as guiava na vida; elas receberam esses textos como um patrimônio a ser guardado e transmitido. Assim, os textos cessaram de ser simplesmente a expressão da inspiração de autores particulares; eles se tornaram propriedade comum do povo de Deus. O Novo Testamento atesta sua veneração por esses textos sagrados, que recebe como uma preciosa herança transmitida pelo povo judeu. Ele os olha como as Escrituras Santas (Rm 1,2), inspiradas pelo Espírito de Deus (2Tim 3,16; cf 2 Pd 1,20- 21), que não podem ser abolidas (Jo 10,35)1.

No processo longo da formação da Bíblia, como Sagrada Escritura, ocorre uma passagem fundamental, que caracteriza esta lista, como patrimônio comum, como obra coletiva e normativa da fé em uma comunidade: “esses textos cessaram de ser simplesmente a expressão da inspiração de autores particulares; eles se tornaram propriedade comum do povo de Deus.

Textos bíblicos não funcionam como autênticos por sua natureza de autoria individual, como ocorre desde o Romantismo, em que a autenticidade e o valor dependem exclusivamente da autoria individual.Este quadro refere-se em particular ao Antigo Testamento, em especial por duração extensíssima da formação de seu cânon, mas também aos livros do Novo Testamento.

A esses textos que formam o Antigo Testamento (cf 2Co 3,14), a Igreja uniu estreitamente os escritos em que ela reconheceu, de um lado, o testemunho autêntico proveniente dos apóstolos (cf Lc 1,2; 1Jo 1,1-3) e garantido pelo Espírito Santo (cf 1 Pd 1,12), sobre todas as coisas que Jesus fez e ensinou (At 1,1) e, de outro lado, instruções dadas pelos apóstolos mesmos e outros discípulos para constituir a comunidade de fiéis. Esta dupla série de escritos recebeu depois o nome de Novo Testamento2.

Segundo o documento que estudamos, o uso do Antigo Testamento na memória da liturgia está estreitamente conexo às exigências da revelação do Novo Testamento. O mesmo critério guiou, ao menos na mentalidade patrística, a exegese da Igreja.

*Neste processo, numerosos fatores tiveram um papel: a certeza de que Jesus — e os apóstolos com ele — tinha reconhecido o Antigo Testamento como Escritura inspirada, e que esta recebia sua realização em seu mistério pascal; a convicção de que os escritos do Novo Testamento provêm autenticamente da pregação apostólica (o que não implica que eles tenham sido todos compostos pelos próprios apóstolos); a constatação da sua conformidade com a regra da fé e da sua utilização na liturgia cristã; enfim, a experiência da conformidade deles com a vida eclesial das comunidades e da capacidade de alimentar esta vida3.

O documento destaca que o fundamento principal da autenticidade do Antigo Testamento, em sua utilização pelo Novo Testamento, reside na pessoa mesma de Jesus: “A certeza de que Jesus — e os apóstolos com ele — tinha reconhecido o Antigo Testamento como Escritura inspirada e que esta recebia sua realização em seu mistério pascal”. O mistério pascal de Cristo estava inscrito nas páginas proféticas do Antigo Testamento, segundo a consciência de Jesus e da Igreja.

Além disso, as páginas do AT nutrem a Igreja em sua consciência de fé apostólica, dando-lhe sempre um tom judaico-cristão irrenunciável. Motivo pelo qual há sempre um esforço da Igreja em manter-se longe de ambientes e culturas antissemitas, adesão que atestaria uma profunda incoerência com sua constituição mais profunda, fundada na unidade das Escrituras.

Discernindo o cânon das Escrituras, a Igreja discernia e definia sua própria identidade, de maneira que as Escrituras fossem doravante um espelho no qual a Igreja poderá constantemente redescobrir sua identidade e verificar, século após século, a maneira com a qual ela responde sem cessar ao Evangelho e se dispõe ela mesma a ser o meio de transmissão dele (cf Dei Verbum, 7)  .

Uma forte expressão surge diante de nós: a salvaguarda da identidade da Igreja passa pelo discernimento das Sagradas Escrituras, do cânon. As Escrituras refletem à Igreja sua própria consciência, sem as quais ela poderia dissolver-se em equívocos sobre sua essência, ao longo de sua longa história.

Isto confere aos escritos canônicos um valor salvífico e teológico completamente diferente daquele de outros textos antigos.

Se estes últimos podem dar muita luz sobre as origens da fé, eles não podem jamais substituir a autoridade dos escritos considerados como canônicos e, assim, fundamentais para o entendimento da fé cristã.

Referências:

1www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV

2www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV.

3www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV.

4www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#IV.

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica