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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 18/06/2019

18 de Junho de 2019

Recuperar a luz da fé

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18/09/2013 12:45 - Atualizado em 18/09/2013 12:46

Recuperar a luz da fé 0

18/09/2013 12:45 - Atualizado em 18/09/2013 12:46

Recuperar a luz da fé / Arqrio

A encíclica “Lumen Fidei” do Papa Francisco, pelo seu próprio título, assume a metáfora da luz como explicativa da fé. O simbolismo remete à tradição eclesial pela qual é designado o dom trazido por Jesus: “Eu vim ao mundo como luz, para que todo o crê em Mim não fique nas trevas” (Jo 12, 46). Aliás, a luz é um símbolo variado de significados, presente em toda a Bíblia. João o identifica com o Verbo divino encarnado. Opõe trevas à luz. Quem dela se aproxima, vê a dissipação das trevas. A rejeição ao Senhor é a cegueira que põe o homem no escuro.
Os antigos crentes chamaram o Cristo de verdadeiro Sol, “cujos raios dão a vida” em contraposição ao deus “Sol invictus” dos pagãos. Este embora renascesse diariamente não poderia irradiar sua luz sobre toda a existência humana. Não iluminava as sombras da morte. A fé em Cristo, ao contrário, possibilita a visão da glória de Deus, após a passagem pelos umbrais da morte. Tal verdade é sinalizada no contexto da morte de Lázaro, quando disse Jesus à Marta: “Se acreditares, verás a glória de Deus” (cf. Jo 11, 40). Assim opõe a luz da vida às trevas da morte.
Após tantos séculos de cristianismo, a certeza da luminosidade da fé foi abalada pela filosofia moderna. Nietsche é citado, na encíclica, como o filósofo que recusa a fé. Considera-a luz ilusória. Não oferece a verdade. É um simulacro de luz. Diminui o alcance da existência humana, por espoliar a vida de novidade e aventura. Tal rejeição se entende, pois ele associa a fé à escuridão.
Curiosamente, a encíclica não discute com o ateísmo. Apenas se contrapõe. Apresenta e afirma a convicção: a fé é luz e não trevas. Crítica apenas a pretensão da luz da razão autônoma porque não consegue iluminar suficientemente o futuro. O futuro permanece obscuro. O homem permanece no temor do desconhecido.
Claro que a encíclica não se dirige aos ateus ou a quem professa os outros credos. Somente aos católicos: bispos, presbíteros, diáconos, pessoas consagradas e os fiéis leigos. Por isso, faz-nos uma convocação: recuperar o caráter de luz que é próprio da fé. A tarefa não é dos outros. É nossa. O motivo é amplo e aberto, pois quando a chama da fé se apaga todas as outras luzes acabam também por perder seus vigores.
Só a luz da fé é capaz de iluminar toda a existência do homem, pois sua fonte é Deus. O crente, em meio às críticas, precisa ter bem presente que a fé em Deus é luz. Luz segura. Somente, partindo do doador da fé, recupera-se sua luminosidade. Urge, pois, sempre retornar à fonte originária no encontro com o Deus vivo. Sobre o amor, fruto da fé, podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Fé, amor, esperança em relações recíprocas e complementares.
Fixando-nos em Jesus, “na sua vida luminosa”, como memória basilar, e na sua ressurreição, memória do futuro, que n’Ele já chegou, Ele nos amplia os horizontes da fé. Compreendemos, então, que ela não mora na escuridão, mas é luz para nossas trevas. Embora não dissipe todas as trevas do sofrimento, é uma lâmpada que guia os passos na noite. De fato, Deus oferece no sofrimento uma brecha de luz, ao fixarmos o olhar em quem suportou a dor, o “autor e Consumador da fé” (Hb 12, 2). Aliás, a liturgia da festa da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro) sugere a recuperação bem ampliada: da Cruz à luz da fé; da Cruz à luz da glória.

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Recuperar a luz da fé

18/09/2013 12:45 - Atualizado em 18/09/2013 12:46

A encíclica “Lumen Fidei” do Papa Francisco, pelo seu próprio título, assume a metáfora da luz como explicativa da fé. O simbolismo remete à tradição eclesial pela qual é designado o dom trazido por Jesus: “Eu vim ao mundo como luz, para que todo o crê em Mim não fique nas trevas” (Jo 12, 46). Aliás, a luz é um símbolo variado de significados, presente em toda a Bíblia. João o identifica com o Verbo divino encarnado. Opõe trevas à luz. Quem dela se aproxima, vê a dissipação das trevas. A rejeição ao Senhor é a cegueira que põe o homem no escuro.
Os antigos crentes chamaram o Cristo de verdadeiro Sol, “cujos raios dão a vida” em contraposição ao deus “Sol invictus” dos pagãos. Este embora renascesse diariamente não poderia irradiar sua luz sobre toda a existência humana. Não iluminava as sombras da morte. A fé em Cristo, ao contrário, possibilita a visão da glória de Deus, após a passagem pelos umbrais da morte. Tal verdade é sinalizada no contexto da morte de Lázaro, quando disse Jesus à Marta: “Se acreditares, verás a glória de Deus” (cf. Jo 11, 40). Assim opõe a luz da vida às trevas da morte.
Após tantos séculos de cristianismo, a certeza da luminosidade da fé foi abalada pela filosofia moderna. Nietsche é citado, na encíclica, como o filósofo que recusa a fé. Considera-a luz ilusória. Não oferece a verdade. É um simulacro de luz. Diminui o alcance da existência humana, por espoliar a vida de novidade e aventura. Tal rejeição se entende, pois ele associa a fé à escuridão.
Curiosamente, a encíclica não discute com o ateísmo. Apenas se contrapõe. Apresenta e afirma a convicção: a fé é luz e não trevas. Crítica apenas a pretensão da luz da razão autônoma porque não consegue iluminar suficientemente o futuro. O futuro permanece obscuro. O homem permanece no temor do desconhecido.
Claro que a encíclica não se dirige aos ateus ou a quem professa os outros credos. Somente aos católicos: bispos, presbíteros, diáconos, pessoas consagradas e os fiéis leigos. Por isso, faz-nos uma convocação: recuperar o caráter de luz que é próprio da fé. A tarefa não é dos outros. É nossa. O motivo é amplo e aberto, pois quando a chama da fé se apaga todas as outras luzes acabam também por perder seus vigores.
Só a luz da fé é capaz de iluminar toda a existência do homem, pois sua fonte é Deus. O crente, em meio às críticas, precisa ter bem presente que a fé em Deus é luz. Luz segura. Somente, partindo do doador da fé, recupera-se sua luminosidade. Urge, pois, sempre retornar à fonte originária no encontro com o Deus vivo. Sobre o amor, fruto da fé, podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Fé, amor, esperança em relações recíprocas e complementares.
Fixando-nos em Jesus, “na sua vida luminosa”, como memória basilar, e na sua ressurreição, memória do futuro, que n’Ele já chegou, Ele nos amplia os horizontes da fé. Compreendemos, então, que ela não mora na escuridão, mas é luz para nossas trevas. Embora não dissipe todas as trevas do sofrimento, é uma lâmpada que guia os passos na noite. De fato, Deus oferece no sofrimento uma brecha de luz, ao fixarmos o olhar em quem suportou a dor, o “autor e Consumador da fé” (Hb 12, 2). Aliás, a liturgia da festa da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro) sugere a recuperação bem ampliada: da Cruz à luz da fé; da Cruz à luz da glória.

Dom Edson de Castro Homem
Autor

Dom Edson de Castro Homem

Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro