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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 27/02/2017

27 de Fevereiro de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (64): Interpretação e tradução da Bíblia

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27 de Fevereiro de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (64): Interpretação e tradução da Bíblia

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07/10/2016 16:21 - Atualizado em 07/10/2016 16:22

A Palavra de Deus na Bíblia (64): Interpretação e tradução da Bíblia 0

07/10/2016 16:21 - Atualizado em 07/10/2016 16:22

No artigo anterior tratamos a questão da interpretação como um processo histórico ao interno das Escrituras, e, portanto, como uma identidade dinâmica da Bíblia, que nos impede de lê-la isolada da Tradição da Igreja dos Apóstolos, em todos os tempos.

Deveremos concluir as “observações” a este respeito. E iniciar um novo tópico em relação à “Interpretação Católica da Escritura”.

3) “Dado que os textos da Santa Escritura têm algumas vezes relações de tensão entre eles, a interpretação deve necessariamente ser múltipla. Nenhuma interpretação particular pode esgotar o sentido do conjunto, que é uma sinfonia a várias vozes. A interpretação de um texto particular deve assim evitar de ser exclusivista”1. O princípio literário que já evocamos antes, denominado ‘intertextual’, explica-se bem na tessitura complexa dos 72 livros da Bíblia. Um arranjo às vezes ‘tenso’ entre textos que exige ‘(...) a interpretação deve necessariamente ser múltipla’.

O que exige um leitor sofisticado que busca com esforço e ardor interpretar a Bíblia, respeitando sua globalidade em rede de variações textuais, de gêneros, de contextos históricos, de intenções diversas e, portanto, com uma multiplicidade de significações.

4) “A Santa Escritura está em diálogo com as comunidades dos fiéis: ela saiu de suas tradições de fé. Seus textos se desenvolveram em relação com essas tradições e contribuíram, reciprocamente, ao desenvolvimento delas. Conclui-se que a interpretação da Escritura faz-se no seio da Igreja, em sua pluralidade, em sua unidade e em sua tradição de fé”2.

O documento reforça o princípio eclesial da interpretação bíblica; a Bíblia em seu conteúdo pertence à fé vida, à experiência da recepção da Revelação no seio do Povo de Deus.

Entender a mensagem bíblica como um livro ‘privado’ do intérprete, desfoca, empobrece e falsifica os resultados desta leitura: “a interpretação da Escritura faz-se no seio da Igreja, em sua pluralidade, em sua unidade e em sua tradição de fé”.

Alias, é o que se afirma no CIC 84: “O depósito da fé (49) (depositum fidei), contido na Tradição sagrada e na Sagrada Escritura, foi confiado pelos apóstolos ao conjunto da Igreja. Apoiando-se nele, todo o povo santo persevera unido aos seus pastores na doutrina dos apóstolos e na comunhão, na fracção do pão e na oração, de tal modo que, na conservação, atuação e profissão da fé transmitida, haja uma especial concordância dos pastores e dos fiéis”3.

5) “As tradições de fé formavam o ambiente vital no qual inseriu-se a atividade literária dos autores da Santa Escritura. Esta inserção compreendia também a participação à vida litúrgica e à atividade externa das comunidades; ao mundo espiritual, à cultura e às peripécias do destino histórico delas. Assim, de maneira semelhante, a interpretação da Santa Escritura exige a participação dos exegetas em toda a vida e em toda a fé da comunidade crente do tempo deles.”4

Esta observação avança, em consequência, em relação aos itens anteriores. O documento reafirma a estreita relação entre a tradição viva nas Escrituras, o amplo e dinâmico contexto de elaboração da Bíblia. Aliás, princípio básico de interpretação literária: não há texto no vácuo; desconsiderar totalmente as referências do texto, como desejam os estruturalistas radicais, é desnaturar a verdade bíblica, introduzindo interpretações ‘exóticas’.

Mas o novo é que não só o contexto vital da Bíblia é a referência mais correta de leitura da Bíblia: “As tradições de fé formavam o ambiente vital no qual inseriu-se a atividade literária dos autores da Santa Escritura”, como também, cabe ao exegeta, intérprete e leitor da Bíblia estar inserido nesta dinâmica: Fora da fé eclesial, o intérprete da Bíblia não possui horizonte de interpretação plausível das Sagradas Escrituras.

Este texto sob a responsabilidade do Cardeal Ratzinger (1993) terá ecos mais adiante, em pronunciamentos do Papa Bento XVI (2006) acerca do papel do teólogo, do exegeta e de todos aqueles que ensinam na Igreja:

Em 2006, falando aos membros da Comissão Teológica Internacional, o Papa Bento XVI advertiu que os teólogos devem “procurar a obediência à verdade” e não desvirtuar a palavra e a alma “ao falar obedecendo à ditadura das opiniões comuns”. O Santo Padre lembrou que “falar para encontrar aplausos, falar orientando-se ao que os homens querem escutar, falar obedecendo à ditadura das opiniões comuns considera-se como uma espécie de prostituição da palavra e da alma”. (ACI, Vaticano, 06 out) Disse o Papa que “o teólogo deve seguir a disciplina dura da obediência à verdade, que nos faz colaboradores” e “bocas da verdade”5.

6) Por fim, a última observação: não basta ter um agudo olhar para trás, reconhecendo as gerações, em seus contextos, que formaram o conjunto dinâmico da formação e desenvolvimento do Cânon Bíblico:

O diálogo com a Santa Escritura em seu conjunto, e, assim, com a compreensão da fé própria a épocas anteriores, é acompanhado necessariamente de um diálogo com a geração presente. Isso provoca o estabelecimento de uma relação de continuidade, mas também a constatação de diferenças. Conclui-se que a interpretação da Escritura comporta um trabalho de verificação e de triagem; ele permanece em continuidade com as tradições exegéticas anteriores, das quais conserva e toma para si muitos elementos, mas em outros pontos ela se separa delas para poder progredir6.

Não é suficiente, é necessário colocar o tesouro hermenêutico da Bíblia em contato com o futuro, com as inumeráveis gerações de cristãos, que tempos afora, serão os leitores, os ouvintes, os interpretes e os comunicadores da Palavra de Deus.

Portanto, a exegese bíblica nutre-se do rico passado da tradição, intra e extra bíblica para bem entende-la e explica-la. Mas, também, está aberta a circunstâncias desafiadoras dos ‘sinais dos tempos’: “A interpretação da Escritura comporta um trabalho de verificação e de triagem; ele permanece em continuidade com as tradições exegéticas anteriores, das quais conserva e toma para si muitos elementos, mas em outros pontos ela se separa delas para poder progredir.

Referências:

1 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#III.

2 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#III.

3 http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s1c2_50-141_po.html

4 http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s1c2_50-141_po.html

5 http://cleofas.com.br/o-papel-do-teologo-na-igreja/

6 http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s1c2_50-141_po.html

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A Palavra de Deus na Bíblia (64): Interpretação e tradução da Bíblia

07/10/2016 16:21 - Atualizado em 07/10/2016 16:22

No artigo anterior tratamos a questão da interpretação como um processo histórico ao interno das Escrituras, e, portanto, como uma identidade dinâmica da Bíblia, que nos impede de lê-la isolada da Tradição da Igreja dos Apóstolos, em todos os tempos.

Deveremos concluir as “observações” a este respeito. E iniciar um novo tópico em relação à “Interpretação Católica da Escritura”.

3) “Dado que os textos da Santa Escritura têm algumas vezes relações de tensão entre eles, a interpretação deve necessariamente ser múltipla. Nenhuma interpretação particular pode esgotar o sentido do conjunto, que é uma sinfonia a várias vozes. A interpretação de um texto particular deve assim evitar de ser exclusivista”1. O princípio literário que já evocamos antes, denominado ‘intertextual’, explica-se bem na tessitura complexa dos 72 livros da Bíblia. Um arranjo às vezes ‘tenso’ entre textos que exige ‘(...) a interpretação deve necessariamente ser múltipla’.

O que exige um leitor sofisticado que busca com esforço e ardor interpretar a Bíblia, respeitando sua globalidade em rede de variações textuais, de gêneros, de contextos históricos, de intenções diversas e, portanto, com uma multiplicidade de significações.

4) “A Santa Escritura está em diálogo com as comunidades dos fiéis: ela saiu de suas tradições de fé. Seus textos se desenvolveram em relação com essas tradições e contribuíram, reciprocamente, ao desenvolvimento delas. Conclui-se que a interpretação da Escritura faz-se no seio da Igreja, em sua pluralidade, em sua unidade e em sua tradição de fé”2.

O documento reforça o princípio eclesial da interpretação bíblica; a Bíblia em seu conteúdo pertence à fé vida, à experiência da recepção da Revelação no seio do Povo de Deus.

Entender a mensagem bíblica como um livro ‘privado’ do intérprete, desfoca, empobrece e falsifica os resultados desta leitura: “a interpretação da Escritura faz-se no seio da Igreja, em sua pluralidade, em sua unidade e em sua tradição de fé”.

Alias, é o que se afirma no CIC 84: “O depósito da fé (49) (depositum fidei), contido na Tradição sagrada e na Sagrada Escritura, foi confiado pelos apóstolos ao conjunto da Igreja. Apoiando-se nele, todo o povo santo persevera unido aos seus pastores na doutrina dos apóstolos e na comunhão, na fracção do pão e na oração, de tal modo que, na conservação, atuação e profissão da fé transmitida, haja uma especial concordância dos pastores e dos fiéis”3.

5) “As tradições de fé formavam o ambiente vital no qual inseriu-se a atividade literária dos autores da Santa Escritura. Esta inserção compreendia também a participação à vida litúrgica e à atividade externa das comunidades; ao mundo espiritual, à cultura e às peripécias do destino histórico delas. Assim, de maneira semelhante, a interpretação da Santa Escritura exige a participação dos exegetas em toda a vida e em toda a fé da comunidade crente do tempo deles.”4

Esta observação avança, em consequência, em relação aos itens anteriores. O documento reafirma a estreita relação entre a tradição viva nas Escrituras, o amplo e dinâmico contexto de elaboração da Bíblia. Aliás, princípio básico de interpretação literária: não há texto no vácuo; desconsiderar totalmente as referências do texto, como desejam os estruturalistas radicais, é desnaturar a verdade bíblica, introduzindo interpretações ‘exóticas’.

Mas o novo é que não só o contexto vital da Bíblia é a referência mais correta de leitura da Bíblia: “As tradições de fé formavam o ambiente vital no qual inseriu-se a atividade literária dos autores da Santa Escritura”, como também, cabe ao exegeta, intérprete e leitor da Bíblia estar inserido nesta dinâmica: Fora da fé eclesial, o intérprete da Bíblia não possui horizonte de interpretação plausível das Sagradas Escrituras.

Este texto sob a responsabilidade do Cardeal Ratzinger (1993) terá ecos mais adiante, em pronunciamentos do Papa Bento XVI (2006) acerca do papel do teólogo, do exegeta e de todos aqueles que ensinam na Igreja:

Em 2006, falando aos membros da Comissão Teológica Internacional, o Papa Bento XVI advertiu que os teólogos devem “procurar a obediência à verdade” e não desvirtuar a palavra e a alma “ao falar obedecendo à ditadura das opiniões comuns”. O Santo Padre lembrou que “falar para encontrar aplausos, falar orientando-se ao que os homens querem escutar, falar obedecendo à ditadura das opiniões comuns considera-se como uma espécie de prostituição da palavra e da alma”. (ACI, Vaticano, 06 out) Disse o Papa que “o teólogo deve seguir a disciplina dura da obediência à verdade, que nos faz colaboradores” e “bocas da verdade”5.

6) Por fim, a última observação: não basta ter um agudo olhar para trás, reconhecendo as gerações, em seus contextos, que formaram o conjunto dinâmico da formação e desenvolvimento do Cânon Bíblico:

O diálogo com a Santa Escritura em seu conjunto, e, assim, com a compreensão da fé própria a épocas anteriores, é acompanhado necessariamente de um diálogo com a geração presente. Isso provoca o estabelecimento de uma relação de continuidade, mas também a constatação de diferenças. Conclui-se que a interpretação da Escritura comporta um trabalho de verificação e de triagem; ele permanece em continuidade com as tradições exegéticas anteriores, das quais conserva e toma para si muitos elementos, mas em outros pontos ela se separa delas para poder progredir6.

Não é suficiente, é necessário colocar o tesouro hermenêutico da Bíblia em contato com o futuro, com as inumeráveis gerações de cristãos, que tempos afora, serão os leitores, os ouvintes, os interpretes e os comunicadores da Palavra de Deus.

Portanto, a exegese bíblica nutre-se do rico passado da tradição, intra e extra bíblica para bem entende-la e explica-la. Mas, também, está aberta a circunstâncias desafiadoras dos ‘sinais dos tempos’: “A interpretação da Escritura comporta um trabalho de verificação e de triagem; ele permanece em continuidade com as tradições exegéticas anteriores, das quais conserva e toma para si muitos elementos, mas em outros pontos ela se separa delas para poder progredir.

Referências:

1 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#III.

2 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#III.

3 http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s1c2_50-141_po.html

4 http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s1c2_50-141_po.html

5 http://cleofas.com.br/o-papel-do-teologo-na-igreja/

6 http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s1c2_50-141_po.html

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica