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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 27/02/2017

27 de Fevereiro de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (61): Interpretação e tradução da Bíblia

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27 de Fevereiro de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (61): Interpretação e tradução da Bíblia

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16/09/2016 00:00 - Atualizado em 07/10/2016 15:51

A Palavra de Deus na Bíblia (61): Interpretação e tradução da Bíblia 0

16/09/2016 00:00 - Atualizado em 07/10/2016 15:51

No artigo anterior tratamos das ‘releituras’ da Bíblia, o que demonstra que existe dentro das Escrituras uma tradição que se desenvolve genuinamente. Os livros da Bíblia conversam entre si, poderíamos assim afirmar.

Nas Sagradas Escrituras há uma sucessão de textos, na qual se torna evidente que os livros não se apresentam isoladamente, nem estranhos uns aos outros.

Em muitos casos, os traços desta tradição de leitura, que poderíamos chamar de intertextualidade1, aparecem claros, como os exemplos que mostramos.

Prossigamos agora na direção de outro tema muito estimulante:

“Relações entre o Antigo e Novo Testamento”.

As relações intertextuais assumem uma densidade extrema nos escritos do Novo Testamento, todo formado de alusões ao Antigo Testamento e de citações explícitas. Os autores do Novo Testamento reconhecem no Antigo um valor de revelação divina. Eles proclamam que esta revelação encontrou sua realização na vida, no ensinamento e, sobretudo, na morte e ressurreição de Jesus, fonte de perdão e de vida eterna. “Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu...” (1Co 15,3-5): este é o núcleo central da pregação apostólica (1 Co 15,11)2.

Todas as tentativas no passado primitivo da Igreja de desvincular os dois testamentos foram frustradas pelos apóstolos e no seguir dos séculos, pelo Magistério autêntico da Igreja.

Recordo aqui o caso de Marcião3, que propôs fortemente a eliminação do AT na leitura e na piedade cristã. Foi rechaçado pela Igreja, uma heresia.

O núcleo central ou verdade destas relações entre os textos do Novo e do Antigo Testamento reside na própria verdade Trinitária: o Deus e Pai de Jesus Cristo é o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, assim afirmam Paulo, João, Atos e todo o Novo Testamento:

Os autores do Novo Testamento reconhecem no Antigo um valor de revelação divina. Eles proclamam que esta revelação encontrou sua realização na vida, no ensinamento e, sobretudo na morte e ressurreição de Jesus, fonte de perdão e de vida eterna4.

O Catecismo da Igreja Católica (CIC) reafirma isso de modo estupendo:

CIC 128. A Igreja, já nos tempos apostólicos (107), e depois constantemente na sua Tradição, pôs em evidência a unidade do plano divino nos dois testamentos, graças à tipologia. Esta descobre nas obras de Deus, na Antiga Aliança, prefigurações do que o mesmo Deus realizou na plenitude dos tempos, na pessoa do seu Filho encarnado.

Através de um recurso de ordem literária e retórica, a tipologia, a Igreja demonstra a essencialidade desta ‘unidade’, que garante a leitura e a compreensão autênticas da Bíblia: “(...) a unidade, do plano divino nos dois Testamentos, graças à tipologia!”5

O CIC continua nos ensinando a Doutrina da Unidade das Escrituras:

CIC 129. Os cristãos leem, pois o Antigo Testamento à luz de Cristo morto e ressuscitado. Esta leitura tipológica manifesta o conteúdo inesgotável do Antigo Testamento. Mas não deve fazer-nos esquecer de que ele mantém o seu valor próprio de Revelação, reafirmado pelo próprio Jesus, nosso Senhor (108). Aliás, também o Novo Testamento requer ser lido à luz do Antigo. A catequese cristã primitiva recorreu constantemente a este método (109). Segundo um velho adágio, o Novo Testamento está oculto no Antigo, enquanto o Antigo é desvendado no Novo: “Novum in Vetere latet et in Novo Vetus patet” – “O Novo está oculto no Antigo, e o Antigo está patente no Novo”.

Diversos são os ensinamentos que procedem e justificam este procedimento da Igreja:

1) “Os cristãos leem, pois, o Antigo Testamento à luz de Cristo morto e ressuscitado”

Primeiro, a maneira como os cristãos leem os fatos no AT, de modo profético, como ‘profecia’ dos eventos pascais, já revelados de modo enigmático nas palavras e ações dos atores da História da Salvação. E a ‘tipologia bíblica’, longe de ser uma ‘fantasia’ literária inadequada aos olhos de certa crítica exegética, exprime com força a lógica desta relação intertestamentária e indica ainda o tesouro do AT: ‘Esta leitura tipológica manifesta o conteúdo inesgotável do Antigo Testamento’.

2) “Aliás, também o Novo Testamento requer ser lido à luz do Antigo”.

Nas relações entre os testamentos não que subtrair um ao outro, aliás trata-se de uma verdadeira ‘dialética’  entre conteúdos e formas, que mesmo guardando cada qual sua identidade, têm algo entre si: a Unidade da Revelação Divina, por isso, o belo adágio antigo: “Novum in Vetere latet et in Novo Vetus patet» – «O Novo está oculto no Antigo, e o Antigo está patente no Novo”.

Referências:

1Textos podem conversar entre si? Sim, isso é possível, e a esse fenômeno damos o nome de intertextualidade. Essa ocorrência pode ser implícita ou explícita, feita por meio de paródia ou por meio da paráfrase. O que esses variados tipos têm em comum? Todos resgatam referências nos chamados textos-fonte, que são aqueles textos considerados fundamentais em uma cultura. Ou ainda A intertextualidade pode ser compreendida como a produção de um discurso com base em outro texto previamente estruturado. Em cada caso este conceito assumirá papéis distintos, em decorrência dos enunciados e das circunstâncias nos quais ele será embutido. Este elemento está vinculado certamente ao domínio de um saber geral sobre o mundo, o qual deve ser dividido, melhor dizendo, precisa estar presente, tanto na experiência de vida do criador da mensagem quanto de seu decodificador. É possível haver ou não uma interação entre várias esferas do conhecimento, não necessariamente se limitando à obra literária. Cf. http://brasilescola.uol.com.br/redacao/intertextualidade-.htm e http://www.infoescola.com/redacao/tipos-de-intertextualidade/

2 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#III

3 Marcião de Sinope (c. de 85 d.C. – c. 160 d.C.) foi um bispo no cristianismo primitivo. Sua teologia, que rejeitava a deidade descrita nas escrituras judaicas como sendo inferior ou subjugada ao Deus proclamado no evangelho cristão, foi denunciada pelos padres da Igreja, e ele foi excomungado. A sua rejeição de muitos livros contemporâneos considerados como Escrituras induziu a Igreja a desenvolver um cânone de escrituras. Cf. http://histriadasreligies.blogspot.com.br/2013/12/marciao-de-sinope-e-o-canone-do-novo.html

4http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#III

5 A tipologia bíblica é uma teoria que afirma que uma pessoa, coisa ou acontecimento do Antigo Testamento tem um sentido simbólico, prefigurando uma realidade que se manifesta no Novo Testamento. Assim, por exemplo, Adão é a figura de Cristo (o novo Adão); o dilúvio representa o batismo; o maná, a eucaristia, etc. Cf. http://www.significados.com.br/tipologia/

6 Dialética é uma palavra com origem no termo em grego dialektiké e significa a arte do diálogo, a arte de debater, de persuadir ou raciocinar. Dialética é um debate onde há ideias diferentes, onde um posicionamento é defendido e contradito logo depois. Para os gregos, dialética era separar fatos, dividir as ideias para poder debatê-las com mais clareza. Cf.http://www.significados.com.br/dialetica/

 

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A Palavra de Deus na Bíblia (61): Interpretação e tradução da Bíblia

16/09/2016 00:00 - Atualizado em 07/10/2016 15:51

No artigo anterior tratamos das ‘releituras’ da Bíblia, o que demonstra que existe dentro das Escrituras uma tradição que se desenvolve genuinamente. Os livros da Bíblia conversam entre si, poderíamos assim afirmar.

Nas Sagradas Escrituras há uma sucessão de textos, na qual se torna evidente que os livros não se apresentam isoladamente, nem estranhos uns aos outros.

Em muitos casos, os traços desta tradição de leitura, que poderíamos chamar de intertextualidade1, aparecem claros, como os exemplos que mostramos.

Prossigamos agora na direção de outro tema muito estimulante:

“Relações entre o Antigo e Novo Testamento”.

As relações intertextuais assumem uma densidade extrema nos escritos do Novo Testamento, todo formado de alusões ao Antigo Testamento e de citações explícitas. Os autores do Novo Testamento reconhecem no Antigo um valor de revelação divina. Eles proclamam que esta revelação encontrou sua realização na vida, no ensinamento e, sobretudo, na morte e ressurreição de Jesus, fonte de perdão e de vida eterna. “Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu...” (1Co 15,3-5): este é o núcleo central da pregação apostólica (1 Co 15,11)2.

Todas as tentativas no passado primitivo da Igreja de desvincular os dois testamentos foram frustradas pelos apóstolos e no seguir dos séculos, pelo Magistério autêntico da Igreja.

Recordo aqui o caso de Marcião3, que propôs fortemente a eliminação do AT na leitura e na piedade cristã. Foi rechaçado pela Igreja, uma heresia.

O núcleo central ou verdade destas relações entre os textos do Novo e do Antigo Testamento reside na própria verdade Trinitária: o Deus e Pai de Jesus Cristo é o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, assim afirmam Paulo, João, Atos e todo o Novo Testamento:

Os autores do Novo Testamento reconhecem no Antigo um valor de revelação divina. Eles proclamam que esta revelação encontrou sua realização na vida, no ensinamento e, sobretudo na morte e ressurreição de Jesus, fonte de perdão e de vida eterna4.

O Catecismo da Igreja Católica (CIC) reafirma isso de modo estupendo:

CIC 128. A Igreja, já nos tempos apostólicos (107), e depois constantemente na sua Tradição, pôs em evidência a unidade do plano divino nos dois testamentos, graças à tipologia. Esta descobre nas obras de Deus, na Antiga Aliança, prefigurações do que o mesmo Deus realizou na plenitude dos tempos, na pessoa do seu Filho encarnado.

Através de um recurso de ordem literária e retórica, a tipologia, a Igreja demonstra a essencialidade desta ‘unidade’, que garante a leitura e a compreensão autênticas da Bíblia: “(...) a unidade, do plano divino nos dois Testamentos, graças à tipologia!”5

O CIC continua nos ensinando a Doutrina da Unidade das Escrituras:

CIC 129. Os cristãos leem, pois o Antigo Testamento à luz de Cristo morto e ressuscitado. Esta leitura tipológica manifesta o conteúdo inesgotável do Antigo Testamento. Mas não deve fazer-nos esquecer de que ele mantém o seu valor próprio de Revelação, reafirmado pelo próprio Jesus, nosso Senhor (108). Aliás, também o Novo Testamento requer ser lido à luz do Antigo. A catequese cristã primitiva recorreu constantemente a este método (109). Segundo um velho adágio, o Novo Testamento está oculto no Antigo, enquanto o Antigo é desvendado no Novo: “Novum in Vetere latet et in Novo Vetus patet” – “O Novo está oculto no Antigo, e o Antigo está patente no Novo”.

Diversos são os ensinamentos que procedem e justificam este procedimento da Igreja:

1) “Os cristãos leem, pois, o Antigo Testamento à luz de Cristo morto e ressuscitado”

Primeiro, a maneira como os cristãos leem os fatos no AT, de modo profético, como ‘profecia’ dos eventos pascais, já revelados de modo enigmático nas palavras e ações dos atores da História da Salvação. E a ‘tipologia bíblica’, longe de ser uma ‘fantasia’ literária inadequada aos olhos de certa crítica exegética, exprime com força a lógica desta relação intertestamentária e indica ainda o tesouro do AT: ‘Esta leitura tipológica manifesta o conteúdo inesgotável do Antigo Testamento’.

2) “Aliás, também o Novo Testamento requer ser lido à luz do Antigo”.

Nas relações entre os testamentos não que subtrair um ao outro, aliás trata-se de uma verdadeira ‘dialética’  entre conteúdos e formas, que mesmo guardando cada qual sua identidade, têm algo entre si: a Unidade da Revelação Divina, por isso, o belo adágio antigo: “Novum in Vetere latet et in Novo Vetus patet» – «O Novo está oculto no Antigo, e o Antigo está patente no Novo”.

Referências:

1Textos podem conversar entre si? Sim, isso é possível, e a esse fenômeno damos o nome de intertextualidade. Essa ocorrência pode ser implícita ou explícita, feita por meio de paródia ou por meio da paráfrase. O que esses variados tipos têm em comum? Todos resgatam referências nos chamados textos-fonte, que são aqueles textos considerados fundamentais em uma cultura. Ou ainda A intertextualidade pode ser compreendida como a produção de um discurso com base em outro texto previamente estruturado. Em cada caso este conceito assumirá papéis distintos, em decorrência dos enunciados e das circunstâncias nos quais ele será embutido. Este elemento está vinculado certamente ao domínio de um saber geral sobre o mundo, o qual deve ser dividido, melhor dizendo, precisa estar presente, tanto na experiência de vida do criador da mensagem quanto de seu decodificador. É possível haver ou não uma interação entre várias esferas do conhecimento, não necessariamente se limitando à obra literária. Cf. http://brasilescola.uol.com.br/redacao/intertextualidade-.htm e http://www.infoescola.com/redacao/tipos-de-intertextualidade/

2 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#III

3 Marcião de Sinope (c. de 85 d.C. – c. 160 d.C.) foi um bispo no cristianismo primitivo. Sua teologia, que rejeitava a deidade descrita nas escrituras judaicas como sendo inferior ou subjugada ao Deus proclamado no evangelho cristão, foi denunciada pelos padres da Igreja, e ele foi excomungado. A sua rejeição de muitos livros contemporâneos considerados como Escrituras induziu a Igreja a desenvolver um cânone de escrituras. Cf. http://histriadasreligies.blogspot.com.br/2013/12/marciao-de-sinope-e-o-canone-do-novo.html

4http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#III

5 A tipologia bíblica é uma teoria que afirma que uma pessoa, coisa ou acontecimento do Antigo Testamento tem um sentido simbólico, prefigurando uma realidade que se manifesta no Novo Testamento. Assim, por exemplo, Adão é a figura de Cristo (o novo Adão); o dilúvio representa o batismo; o maná, a eucaristia, etc. Cf. http://www.significados.com.br/tipologia/

6 Dialética é uma palavra com origem no termo em grego dialektiké e significa a arte do diálogo, a arte de debater, de persuadir ou raciocinar. Dialética é um debate onde há ideias diferentes, onde um posicionamento é defendido e contradito logo depois. Para os gregos, dialética era separar fatos, dividir as ideias para poder debatê-las com mais clareza. Cf.http://www.significados.com.br/dialetica/

 

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica