Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/03/2019

23 de Março de 2019

Irmão Universal Francisco de Assis

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Irmão Universal Francisco de Assis

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04/10/2016 00:00 - Atualizado em 05/10/2016 10:30

Irmão Universal Francisco de Assis 0

04/10/2016 00:00 - Atualizado em 05/10/2016 10:30

Francisco nasceu em plena Idade Média, por volta do ano 1181/82, na pequena cidade de Assis, no coração da Úmbria. Não teria tanta fama esta cidade medieval tão esplendorosa se aí não tivessem nascido Francisco e Clara, dois grandes ícones da cultura da paz e do pensamento fraterno, que envolve todas as criaturas numa mesma fraternidade. Frei Tomás de Celano, seu primeiro biógrafo, escreveu a vida de Francisco de Assis, onde o retrata inicialmente do nascimento à juventude. Filho de Pedro de Barnadonne e madame Picca, oriundos de família burguesa tecelã de magníficos cortes de tecido, Francisco se insere nessa realidade, aí nasce e aí cresce. 

Nessa mesma família medieval burguesa, o menino Francisco bebe dos valores cristãos; sua mãe, devota fiel dos preceitos e tradição católica, pouco a pouco vai inserindo Francisco nos moldes da cristandade medieval, na prática da caridade e no convívio religioso. Na família, ele vai aprendendo e bebendo das fontes da santidade cristã, o que mais tarde abraçará por toda a sua vida de cristão, de irmão menor entre os menores.

Muitos homens e mulheres, ao longo da História, puderam se espelhar em Francisco de Assis, com espanto e admiração; será loucura?  O que faz um jovem talentoso, rico comerciante, trilhar um caminho totalmente diferente do de seus compatriotas de cavalaria medieval? “Nasceu para o mundo um SOL”. Assim Dante inicia a Divina Comédia, obra eminente e clássica da literatura italiana. Estas palavras do poeta fazem referência histórica ao nascimento deste jovem italiano, cristão e poeta da criação, Francisco de Assis.  Segundo Dante, São Francisco fala por todas as épocas, ele é a voz da renovação, dos valores humanos e cristãos, é, por excelência, o mais “próximo” dos sentimentos de Jesus Cristo. Aqui podemos entender o significado desta revolução, foi no prisma da identificação e do seguimento do Senhor Pobre, Humilde e Crucificado, o filho de Deus que se fez homem, foi Deus mesmo assumindo a condição humana do ser, que fez de Francisco este homem santo, este santo homem. "Desta ladeira um sol surgiu para o mundo, brilhando como o sol terreno quando se levanta. Quem fala deste lugar não deveria chamá-lo Assis, mas Oriente." – (Dante - Paradiso, Canto XI, 52, 1313-16).

Um dia, o jovem Francisco, andando pelos campos de Assis, quando parecia ser um dia comum a princípio, se não fosse um fato muito especial e profundamente marcante: o dia de seu encontro com o Senhor, que o chamara a um projeto de vida que marcou toda sua vida de apóstolo da fraternidade. Francisco, caminhando pelo vale de espoleto – seu destino era a Apúlia –, como cavaleiro cruzado partia em defesa de sua identidade católica, e no caminho tem um sonho “Francisco, oh Francisco, quem é maior: o Servo ou o Senhor”? Tão grande foi seu espanto diante da voz do seu Senhor, mas responde, embora espantado: diz claro que é o Senhor, ao que responde, o mesmo Senhor, que o direciona e convida-o a voltar para sua cidade e lá,  mais tarde Ele dirá o que fazer. Assim fez Francisco, e não demorou muito o Senhor propõe um projeto novo de vida, pela voz do Cristo de São Damião, que o convida a restaurar a Igreja, que de início ele entendeu que fosse a velha igrejinha abandonada. Pelo caminho Francisco se depara com uma pequena ermida em ruínas. Ele, como bom devoto, entra piedoso para rezar e é neste momento que o Senhor fala ao seu coração de modo extraordinário. “Francisco, Francisco, não vês que minha Igreja está em ruínas? Vai, Francisco, e restaura a minha Igreja...” Como não inflamar o coração, como não se deixar tocar por uma voz tão provocante e profunda?  A voz é do amado, e não se pode recusar a uma voz tão amorosa e acolhedora. O amante se deixa guiar por esta voz e sua vida nunca mais foi a mesma, ganhou um sentido novo. Francisco de Assis se fez peregrino da História.

Clara foi a primeira mulher a seguir suas pegadas, e como ela tantos outros Deus enviará nas estradas do mundo como forasteiros da vinha do Senhor. Francisco acolhe estes irmãos e lhes dá o nome de irmãos menores; ele, o menor entre os menores, vivia em “santa simplicidade que a irmã da sabedoria” viveram e marcaram a História com tão brilhante testemunho evangélico.

Este Francisco de Assis, que hoje celebramos sua festa, é um irmão, um poeta, um cristão marcado pela graça de Deus e, por isso, transformou os rumos da humanidade com um toque especial e transformador, um toque de fraternidade que se perpetua de geração em geração. Francisco nos convida à fraternidade, ao convívio humano de paz e concórdia, ele é o irmão de todo irmão, esposo da pobreza, irmão das criaturas, seu testemunho não comove simplesmente, mas arrasta uma multidão de homens e mulheres sensíveis aos valores da paz e da justiça. Francisco atrai o olhar de todos, ultrapassa os muros da cristandade, ele fala aos corações e sua voz é a mesma de Jesus Cristo, de quem se tornou seguidor fiel, autêntico seguidor das pegadas do mestre de Nazaré.

Por isso sua pedagogia é a do Evangelho; dizia aos frades: “irmãos, nossa forma de vida, nossa regra é tão somente observar o Santo Evangelho de Jesus Cristo” e viver em Fraternidade no amor e na minoridade. Foi deste amor a Cristo que nasceu o amor às pessoas e também a todas as criaturas de Deus. Este é outro exemplo característico da espiritualidade de Francisco de Assis: o sentido de fraternidade universal e de amor pela criação, que lhe inspirou o célebre “Cântico das criaturas”.

A morte de Francisco – seu transitus – ocorreu na noite de 3 de outubro de 1226, na Porciúncula. Após ter abençoado seus filhos espirituais, deitado sobre a terra nua, vai ao encontro de sua irmã, a morte; assim concluía o canto do irmão Sol chamando a morte de sua irmã. Dois anos mais tarde, o Papa Gregório IX o inscreveu no elenco dos santos. Depois se erigiu em Assis uma grande basílica em sua honra, meta, ainda hoje, de muitíssimos peregrinos, que podem venerar o túmulo do seráfico Francisco de Assis e desfrutar da visão dos afrescos de Giotto, pintor que ilustrou de forma magnífica a vida de Francisco.

Portanto, celebrar São Francisco de Assis é, acima de tudo, renovar a fé em Jesus Cristo, comprometendo-se decisivamente com o Evangelho, que convida a ser irmão de todas as criaturas, como Francisco ser fraterno, praticar os valores cristãos e humanos, acolher a santa simplicidade e humildade, irmã da sabedoria. Lembrar de que mesmo passados 800 anos o Evangelho não muda, continua nos interpelando a sermos também nós instrumentos de paz e fraternidade num mundo em conflito, cultivar um coração pacífico e pacificador, amar o amor, como dizia São Francisco “o amor não é amado” amemos, portanto, o amor, este amor é Jesus Cristo, o filho de Deus encarnado, o Emannuel Deus entre nós.

Que o pobre de Assis, homem da Fraternidade universal, irmão dos pobres, poeta da criação, esposo da Pobreza evangélica, cantor do sol e da lua, seja sempre uma inspiração para nossas vidas. Que o santo de Assis, patrono oficial da Itália, protetor da ecologia, irmão nosso, nos ajude na caminhada cristã.

Podemos ser muito mais felizes seguindo o exemplo de Francisco de Assis. E o nosso Ano Santo é mais misericordioso vivendo como viveu o grande São Francisco de Assis. Rogai por nós!


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Irmão Universal Francisco de Assis

04/10/2016 00:00 - Atualizado em 05/10/2016 10:30

Francisco nasceu em plena Idade Média, por volta do ano 1181/82, na pequena cidade de Assis, no coração da Úmbria. Não teria tanta fama esta cidade medieval tão esplendorosa se aí não tivessem nascido Francisco e Clara, dois grandes ícones da cultura da paz e do pensamento fraterno, que envolve todas as criaturas numa mesma fraternidade. Frei Tomás de Celano, seu primeiro biógrafo, escreveu a vida de Francisco de Assis, onde o retrata inicialmente do nascimento à juventude. Filho de Pedro de Barnadonne e madame Picca, oriundos de família burguesa tecelã de magníficos cortes de tecido, Francisco se insere nessa realidade, aí nasce e aí cresce. 

Nessa mesma família medieval burguesa, o menino Francisco bebe dos valores cristãos; sua mãe, devota fiel dos preceitos e tradição católica, pouco a pouco vai inserindo Francisco nos moldes da cristandade medieval, na prática da caridade e no convívio religioso. Na família, ele vai aprendendo e bebendo das fontes da santidade cristã, o que mais tarde abraçará por toda a sua vida de cristão, de irmão menor entre os menores.

Muitos homens e mulheres, ao longo da História, puderam se espelhar em Francisco de Assis, com espanto e admiração; será loucura?  O que faz um jovem talentoso, rico comerciante, trilhar um caminho totalmente diferente do de seus compatriotas de cavalaria medieval? “Nasceu para o mundo um SOL”. Assim Dante inicia a Divina Comédia, obra eminente e clássica da literatura italiana. Estas palavras do poeta fazem referência histórica ao nascimento deste jovem italiano, cristão e poeta da criação, Francisco de Assis.  Segundo Dante, São Francisco fala por todas as épocas, ele é a voz da renovação, dos valores humanos e cristãos, é, por excelência, o mais “próximo” dos sentimentos de Jesus Cristo. Aqui podemos entender o significado desta revolução, foi no prisma da identificação e do seguimento do Senhor Pobre, Humilde e Crucificado, o filho de Deus que se fez homem, foi Deus mesmo assumindo a condição humana do ser, que fez de Francisco este homem santo, este santo homem. "Desta ladeira um sol surgiu para o mundo, brilhando como o sol terreno quando se levanta. Quem fala deste lugar não deveria chamá-lo Assis, mas Oriente." – (Dante - Paradiso, Canto XI, 52, 1313-16).

Um dia, o jovem Francisco, andando pelos campos de Assis, quando parecia ser um dia comum a princípio, se não fosse um fato muito especial e profundamente marcante: o dia de seu encontro com o Senhor, que o chamara a um projeto de vida que marcou toda sua vida de apóstolo da fraternidade. Francisco, caminhando pelo vale de espoleto – seu destino era a Apúlia –, como cavaleiro cruzado partia em defesa de sua identidade católica, e no caminho tem um sonho “Francisco, oh Francisco, quem é maior: o Servo ou o Senhor”? Tão grande foi seu espanto diante da voz do seu Senhor, mas responde, embora espantado: diz claro que é o Senhor, ao que responde, o mesmo Senhor, que o direciona e convida-o a voltar para sua cidade e lá,  mais tarde Ele dirá o que fazer. Assim fez Francisco, e não demorou muito o Senhor propõe um projeto novo de vida, pela voz do Cristo de São Damião, que o convida a restaurar a Igreja, que de início ele entendeu que fosse a velha igrejinha abandonada. Pelo caminho Francisco se depara com uma pequena ermida em ruínas. Ele, como bom devoto, entra piedoso para rezar e é neste momento que o Senhor fala ao seu coração de modo extraordinário. “Francisco, Francisco, não vês que minha Igreja está em ruínas? Vai, Francisco, e restaura a minha Igreja...” Como não inflamar o coração, como não se deixar tocar por uma voz tão provocante e profunda?  A voz é do amado, e não se pode recusar a uma voz tão amorosa e acolhedora. O amante se deixa guiar por esta voz e sua vida nunca mais foi a mesma, ganhou um sentido novo. Francisco de Assis se fez peregrino da História.

Clara foi a primeira mulher a seguir suas pegadas, e como ela tantos outros Deus enviará nas estradas do mundo como forasteiros da vinha do Senhor. Francisco acolhe estes irmãos e lhes dá o nome de irmãos menores; ele, o menor entre os menores, vivia em “santa simplicidade que a irmã da sabedoria” viveram e marcaram a História com tão brilhante testemunho evangélico.

Este Francisco de Assis, que hoje celebramos sua festa, é um irmão, um poeta, um cristão marcado pela graça de Deus e, por isso, transformou os rumos da humanidade com um toque especial e transformador, um toque de fraternidade que se perpetua de geração em geração. Francisco nos convida à fraternidade, ao convívio humano de paz e concórdia, ele é o irmão de todo irmão, esposo da pobreza, irmão das criaturas, seu testemunho não comove simplesmente, mas arrasta uma multidão de homens e mulheres sensíveis aos valores da paz e da justiça. Francisco atrai o olhar de todos, ultrapassa os muros da cristandade, ele fala aos corações e sua voz é a mesma de Jesus Cristo, de quem se tornou seguidor fiel, autêntico seguidor das pegadas do mestre de Nazaré.

Por isso sua pedagogia é a do Evangelho; dizia aos frades: “irmãos, nossa forma de vida, nossa regra é tão somente observar o Santo Evangelho de Jesus Cristo” e viver em Fraternidade no amor e na minoridade. Foi deste amor a Cristo que nasceu o amor às pessoas e também a todas as criaturas de Deus. Este é outro exemplo característico da espiritualidade de Francisco de Assis: o sentido de fraternidade universal e de amor pela criação, que lhe inspirou o célebre “Cântico das criaturas”.

A morte de Francisco – seu transitus – ocorreu na noite de 3 de outubro de 1226, na Porciúncula. Após ter abençoado seus filhos espirituais, deitado sobre a terra nua, vai ao encontro de sua irmã, a morte; assim concluía o canto do irmão Sol chamando a morte de sua irmã. Dois anos mais tarde, o Papa Gregório IX o inscreveu no elenco dos santos. Depois se erigiu em Assis uma grande basílica em sua honra, meta, ainda hoje, de muitíssimos peregrinos, que podem venerar o túmulo do seráfico Francisco de Assis e desfrutar da visão dos afrescos de Giotto, pintor que ilustrou de forma magnífica a vida de Francisco.

Portanto, celebrar São Francisco de Assis é, acima de tudo, renovar a fé em Jesus Cristo, comprometendo-se decisivamente com o Evangelho, que convida a ser irmão de todas as criaturas, como Francisco ser fraterno, praticar os valores cristãos e humanos, acolher a santa simplicidade e humildade, irmã da sabedoria. Lembrar de que mesmo passados 800 anos o Evangelho não muda, continua nos interpelando a sermos também nós instrumentos de paz e fraternidade num mundo em conflito, cultivar um coração pacífico e pacificador, amar o amor, como dizia São Francisco “o amor não é amado” amemos, portanto, o amor, este amor é Jesus Cristo, o filho de Deus encarnado, o Emannuel Deus entre nós.

Que o pobre de Assis, homem da Fraternidade universal, irmão dos pobres, poeta da criação, esposo da Pobreza evangélica, cantor do sol e da lua, seja sempre uma inspiração para nossas vidas. Que o santo de Assis, patrono oficial da Itália, protetor da ecologia, irmão nosso, nos ajude na caminhada cristã.

Podemos ser muito mais felizes seguindo o exemplo de Francisco de Assis. E o nosso Ano Santo é mais misericordioso vivendo como viveu o grande São Francisco de Assis. Rogai por nós!


Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro