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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 27/04/2017

27 de Abril de 2017

Amor compaixão

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Amor compaixão

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30/09/2016 15:49 - Atualizado em 30/09/2016 15:50

Amor compaixão 0

30/09/2016 15:49 - Atualizado em 30/09/2016 15:50

No Evangelho de Mateus, Jesus, dirigindo-se aos seus discípulos, afirma: “Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7), e, no Evangelho de Lucas: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). O tema da misericórdia é introduzido, tanto no Sermão da Montanha como no discurso da planície, entre as características distintivas do agir cristão. O Papa Francisco, na sua iniciativa de conclamar o Jubileu Extraordinário, quer repropor à Igreja e a todas as pessoas esta experiência da prática da compaixão. Ele mesmo nos explica que tal práxis “é um programa de vida tão empenhativo como rico de alegria e paz”(MV 13).

O vocabulário bíblico vétero-testamentário para misericórdia quer exprimir um amor tão visceral e concreto que envolve completamente o “amante” em sua doação total ao “amado”. Dois termos são utilizados para dar conta de tal realidade: o primeiro é hesed – aparece 245 vezes no Primeiro Testamento, evocando matizes semânticas como “bondade’, “amor” e “fidelidade” em uma perspectiva de aliança – e o segundo, rahamîn – provém da palavra rehem (ventre materno, vísceras gerativas), portando um valor metafórico para uma experiência emocional profunda entre aquele que ama e o que é amado. Aos estudiosos parece que, no Novo Testamento, o termo hesed corresponde ao termo grego éleos e aos seus correlatos, enquanto que rahamîn está ligado, propriamente, à splanchnízesthai.

Este amor visceral pode ser encontrado, no Primeiro Testamento, em passagens como Is 49,15 – “Por acaso uma mulher se esquecerá de sua criancinha de peito? Não se compadecerá ela do filho de seu ventre? Ainda que as mulheres se esquecessem, eu não me esqueceria de ti” – e Sl 103,13 – “como um pai é compassivo com seus filhos, o Senhor é compassivo com aqueles que O temem”. No Novo, o termo splanchnízesthai aparece de forma direta em 12 versículos: Mt 9,36; 14,14; 15,32; 18,27; 20,34; Mc 1,41; 6,34; 8,2; 9,22; Lc 7,13; 10,33; 15,20. Normalmente, os tradutores escolhem vertê-lo pela palavra “compaixão”, ou seja, “sofrer pelo outro”, “se envolver com o que padece”. Ademais, a sua realidade se revela, de forma indireta, no amor radical vivido por Jesus: “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos” (Jo 15,13).

No ministério do Senhor, a misericórdia se manifesta como compaixão. Seria um reducionismo entendermos o amor visceral apenas como um sentimento abstrato. Na verdade, ele gera uma ação concreta em favor dos sofredores. Desta forma, a compaixão levou Jesus a instituir a oração pelas vocações (Mt 9,38), a curar os doentes (Mt 14,14; 20,34; Mc 9,22), a purificar os leprosos (Mc 1,41), a multiplicar os pães (Mt 15,32; Mc 8,2), a indicar o modo como se deve perdoar (Mt 18,27), a ensinar (Mc 6,34), a ajudar os necessitados (Lc 10,33), a acolher o pecador que retorna (Lc 15,32) e a ressuscitar os mortos (Lc 7,13).

Este agir compassivo de Cristo passou para sua comunidade de seguidores. Contudo, com as vicissitudes e as dinâmicas da história, a atividade pastoral e a reflexão teológica perigam, às vezes, a se empedernecerem, desfigurando-se e afastando-se da sua real razão de ser. Consciente disto, o Papa Francisco deseja soprar um vento novo na comunidade eclesial, a fim de que ela seja um verdadeiro instrumento para a cultura de misericórdia: “Neste Ano Santo, poderemos fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contemporâneo cria de forma dramática (...) Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas” (MV 15).


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Amor compaixão

30/09/2016 15:49 - Atualizado em 30/09/2016 15:50

No Evangelho de Mateus, Jesus, dirigindo-se aos seus discípulos, afirma: “Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7), e, no Evangelho de Lucas: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). O tema da misericórdia é introduzido, tanto no Sermão da Montanha como no discurso da planície, entre as características distintivas do agir cristão. O Papa Francisco, na sua iniciativa de conclamar o Jubileu Extraordinário, quer repropor à Igreja e a todas as pessoas esta experiência da prática da compaixão. Ele mesmo nos explica que tal práxis “é um programa de vida tão empenhativo como rico de alegria e paz”(MV 13).

O vocabulário bíblico vétero-testamentário para misericórdia quer exprimir um amor tão visceral e concreto que envolve completamente o “amante” em sua doação total ao “amado”. Dois termos são utilizados para dar conta de tal realidade: o primeiro é hesed – aparece 245 vezes no Primeiro Testamento, evocando matizes semânticas como “bondade’, “amor” e “fidelidade” em uma perspectiva de aliança – e o segundo, rahamîn – provém da palavra rehem (ventre materno, vísceras gerativas), portando um valor metafórico para uma experiência emocional profunda entre aquele que ama e o que é amado. Aos estudiosos parece que, no Novo Testamento, o termo hesed corresponde ao termo grego éleos e aos seus correlatos, enquanto que rahamîn está ligado, propriamente, à splanchnízesthai.

Este amor visceral pode ser encontrado, no Primeiro Testamento, em passagens como Is 49,15 – “Por acaso uma mulher se esquecerá de sua criancinha de peito? Não se compadecerá ela do filho de seu ventre? Ainda que as mulheres se esquecessem, eu não me esqueceria de ti” – e Sl 103,13 – “como um pai é compassivo com seus filhos, o Senhor é compassivo com aqueles que O temem”. No Novo, o termo splanchnízesthai aparece de forma direta em 12 versículos: Mt 9,36; 14,14; 15,32; 18,27; 20,34; Mc 1,41; 6,34; 8,2; 9,22; Lc 7,13; 10,33; 15,20. Normalmente, os tradutores escolhem vertê-lo pela palavra “compaixão”, ou seja, “sofrer pelo outro”, “se envolver com o que padece”. Ademais, a sua realidade se revela, de forma indireta, no amor radical vivido por Jesus: “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos” (Jo 15,13).

No ministério do Senhor, a misericórdia se manifesta como compaixão. Seria um reducionismo entendermos o amor visceral apenas como um sentimento abstrato. Na verdade, ele gera uma ação concreta em favor dos sofredores. Desta forma, a compaixão levou Jesus a instituir a oração pelas vocações (Mt 9,38), a curar os doentes (Mt 14,14; 20,34; Mc 9,22), a purificar os leprosos (Mc 1,41), a multiplicar os pães (Mt 15,32; Mc 8,2), a indicar o modo como se deve perdoar (Mt 18,27), a ensinar (Mc 6,34), a ajudar os necessitados (Lc 10,33), a acolher o pecador que retorna (Lc 15,32) e a ressuscitar os mortos (Lc 7,13).

Este agir compassivo de Cristo passou para sua comunidade de seguidores. Contudo, com as vicissitudes e as dinâmicas da história, a atividade pastoral e a reflexão teológica perigam, às vezes, a se empedernecerem, desfigurando-se e afastando-se da sua real razão de ser. Consciente disto, o Papa Francisco deseja soprar um vento novo na comunidade eclesial, a fim de que ela seja um verdadeiro instrumento para a cultura de misericórdia: “Neste Ano Santo, poderemos fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contemporâneo cria de forma dramática (...) Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas” (MV 15).


Padre Vitor Gino Finelon
Autor

Padre Vitor Gino Finelon

Professor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida