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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 18/07/2019

18 de Julho de 2019

Miquéias: o homem da Justiça

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18 de Julho de 2019

Miquéias: o homem da Justiça

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25/09/2016 00:00 - Atualizado em 26/09/2016 15:05

Miquéias: o homem da Justiça 0

25/09/2016 00:00 - Atualizado em 26/09/2016 15:05

Neste ano, o Mês da Bíblia nos indica o livro do Profeta Miquéias para ser lido, estudado e aprofundado. Além da Lectio Divina, somos chamados a discernir como encontramos a vida em nossa caminhada de busca pela justiça, experimentando a misericórdia e seguindo o Senhor. Ainda mais nestes tempos de mudança de época e no momento de decisões eleitorais importantes em nossas cidades. Vamos nos adentrar um pouco no tempo de Miquéias, assumindo estudos muito bem elaborados e publicados em livros.

Ao depararmos com o livro de Miquéias, vemos fortes denúncias e julgamentos severos contra as autoridades do seu tempo. O Profeta acredita que Deus não compactua com a injustiça. No século VIII a.C., Judá passou por momentos muito difíceis, como guerras constantes, expropriação de produtos e de terras dos camponeses.

O Capítulo 1 começa assim: “Palavra do Senhor que veio a Miquéias de Morasti, nos dias de Joatão, Acaz e Ezequias, reis de Judá, sobre o que ele viu a respeito da Samaria e de Jerusalém (Mq 1,1). O primeiro versículo do livro de Miquéias situa a sua atividade em três reinados dos reis de Judá: Joatão (740-736 a.C.), Acaz (736-716 a.C) e Ezequias (716-687 a.C). Mas, segundo a informação do livro sobre a destruição da Samaria (Mq 1,2-7: 722 a.C) e a invasão de Judá pela Assíria (Mq 1,8-16: 701 a.C.), no reino do sul. Nesse período, Judá estava sendo ameaçado e devastado pela Assíria.

O nome Miquéias vem de um termo hebraico que pode ser traduzido por “quem como Javé?”, uma espécie de aclamação litúrgica; nasceu em Morasti – aldeia situada no interior de Judá, perto da cidade de Gat, cerca de 30 km a sudoeste da capital Jerusalém –, em meio à realidade conflitiva e sofrida dos camponeses, vítimas dos grandes proprietários de terra e do exército. Morasti estava localizada na planície da Shefelá, a região agrícola mais fértil e produtiva de Judá. Nessa área havia numerosa criação de ovelhas e grande produção de trigo e cevada, por isso os conflitos ali eram frequentes e causavam sérios problemas e sofrimentos aos pequenos agricultores.

Gat era uma das cidades fortificadas, junto com Soco, Laquis, Maresa e Odolam, em um Círculo de dez quilômetros, para proteger a capital Jerusalém, (Mq 1,8-16). Era evidente em Morasti-Gat a presença constante de militares e funcionários da corte de Jerusalém, os quais cometiam crimes de abuso de poder para cobrar impostos, recrutar camponeses e extrair seus produtos agrícolas.

Para entender este capítulo na estrutura do livro de Miquéias, podemos lê-lo, primeiro, em contexto de julgamento, e depois o leremos como unidade e nas suas partes. O capítulo 1, junto com 6,1-7,7, compõe grande quadro, que descreve o julgamento final, enquanto marca o fim de uma época; para Samaria, o final é iminente; para Judá, ele está próximo. Talvez a primeira seção se concentre em Samaria e a segunda em Judá e Jerusalém; porém é evidente o propósito do autor da composição por introduzir Jerusalém na primeira parte.

Podemos nos perguntar: qual é a função dos povos no processo? A relação entre o castigo de Israel e das nações pode conceber-se em duas direções: a) Se Deus pune o seu povo, quanto mais punirá os gentios, é esse o argumento de Jr 25,29: “Se na cidade que traz o meu nome eu iniciei o castigo, ficareis vós impunes?” b) Se Deus pune os gentios, também punirá a seu povo, que se comporta pior do que eles; é o argumento culminante de Amós 1-2.

Se Miquéias seguisse Amós, teríamos um princípio de julgamento contra os gentios, que em seguida é canalizado para a Samaria. No entanto, a situação histórica e o que se segue não apoiam semelhante leitura; ao invés, o convite do público para o julgamento acha-se fartamente documentado.

Nos versículos 8-9, temos as lamentações do profeta: “Por isso gemo e me lamento, caminho descalço e nu, lançarei lamentos como os chacais e gemerei como as avestruzes. Incurável é a ferida que sofreu Judá, chegou até a capital de meu povo, até Jerusalém”. Estas lamentações são provocadas exclusivamente pelas consequências judaítas da derrota da capital do norte ou pela ameaça iminente de Senaquerib (na hipótese de adição posterior). Na primeira suposição, a queda de Samaria era “ferida” de Judá, pois a queda do reino vizinho abria caminho para ulteriores avanços e conquistas.

O primeiro capítulo vai descrever a teofania ameaçadora de Deus. Este Deus responde o pranto do profeta e o luto das populações. Assim, servirão pranto e luto para aplacar o Senhor? Qual é a culpa que provoca a vinda do Senhor?

Portanto, ao olhar para o profeta Miquéias, devemos, também nós, anunciar a justiça e denunciar a injustiça, pois ele, em seu tempo, soube muito bem fazer isso, e, assim, tornou-se um mensageiro do Senhor. Em seu tempo havia conflitos de terra, trabalho forçado, corrupção, guerras, violência, muito sofrimento etc. Tudo isso, também nós vemos em nossos tempos. A postura que nos ilumina é a do profeta, que é um homem justo e íntegro.

 

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Miquéias: o homem da Justiça

25/09/2016 00:00 - Atualizado em 26/09/2016 15:05

Neste ano, o Mês da Bíblia nos indica o livro do Profeta Miquéias para ser lido, estudado e aprofundado. Além da Lectio Divina, somos chamados a discernir como encontramos a vida em nossa caminhada de busca pela justiça, experimentando a misericórdia e seguindo o Senhor. Ainda mais nestes tempos de mudança de época e no momento de decisões eleitorais importantes em nossas cidades. Vamos nos adentrar um pouco no tempo de Miquéias, assumindo estudos muito bem elaborados e publicados em livros.

Ao depararmos com o livro de Miquéias, vemos fortes denúncias e julgamentos severos contra as autoridades do seu tempo. O Profeta acredita que Deus não compactua com a injustiça. No século VIII a.C., Judá passou por momentos muito difíceis, como guerras constantes, expropriação de produtos e de terras dos camponeses.

O Capítulo 1 começa assim: “Palavra do Senhor que veio a Miquéias de Morasti, nos dias de Joatão, Acaz e Ezequias, reis de Judá, sobre o que ele viu a respeito da Samaria e de Jerusalém (Mq 1,1). O primeiro versículo do livro de Miquéias situa a sua atividade em três reinados dos reis de Judá: Joatão (740-736 a.C.), Acaz (736-716 a.C) e Ezequias (716-687 a.C). Mas, segundo a informação do livro sobre a destruição da Samaria (Mq 1,2-7: 722 a.C) e a invasão de Judá pela Assíria (Mq 1,8-16: 701 a.C.), no reino do sul. Nesse período, Judá estava sendo ameaçado e devastado pela Assíria.

O nome Miquéias vem de um termo hebraico que pode ser traduzido por “quem como Javé?”, uma espécie de aclamação litúrgica; nasceu em Morasti – aldeia situada no interior de Judá, perto da cidade de Gat, cerca de 30 km a sudoeste da capital Jerusalém –, em meio à realidade conflitiva e sofrida dos camponeses, vítimas dos grandes proprietários de terra e do exército. Morasti estava localizada na planície da Shefelá, a região agrícola mais fértil e produtiva de Judá. Nessa área havia numerosa criação de ovelhas e grande produção de trigo e cevada, por isso os conflitos ali eram frequentes e causavam sérios problemas e sofrimentos aos pequenos agricultores.

Gat era uma das cidades fortificadas, junto com Soco, Laquis, Maresa e Odolam, em um Círculo de dez quilômetros, para proteger a capital Jerusalém, (Mq 1,8-16). Era evidente em Morasti-Gat a presença constante de militares e funcionários da corte de Jerusalém, os quais cometiam crimes de abuso de poder para cobrar impostos, recrutar camponeses e extrair seus produtos agrícolas.

Para entender este capítulo na estrutura do livro de Miquéias, podemos lê-lo, primeiro, em contexto de julgamento, e depois o leremos como unidade e nas suas partes. O capítulo 1, junto com 6,1-7,7, compõe grande quadro, que descreve o julgamento final, enquanto marca o fim de uma época; para Samaria, o final é iminente; para Judá, ele está próximo. Talvez a primeira seção se concentre em Samaria e a segunda em Judá e Jerusalém; porém é evidente o propósito do autor da composição por introduzir Jerusalém na primeira parte.

Podemos nos perguntar: qual é a função dos povos no processo? A relação entre o castigo de Israel e das nações pode conceber-se em duas direções: a) Se Deus pune o seu povo, quanto mais punirá os gentios, é esse o argumento de Jr 25,29: “Se na cidade que traz o meu nome eu iniciei o castigo, ficareis vós impunes?” b) Se Deus pune os gentios, também punirá a seu povo, que se comporta pior do que eles; é o argumento culminante de Amós 1-2.

Se Miquéias seguisse Amós, teríamos um princípio de julgamento contra os gentios, que em seguida é canalizado para a Samaria. No entanto, a situação histórica e o que se segue não apoiam semelhante leitura; ao invés, o convite do público para o julgamento acha-se fartamente documentado.

Nos versículos 8-9, temos as lamentações do profeta: “Por isso gemo e me lamento, caminho descalço e nu, lançarei lamentos como os chacais e gemerei como as avestruzes. Incurável é a ferida que sofreu Judá, chegou até a capital de meu povo, até Jerusalém”. Estas lamentações são provocadas exclusivamente pelas consequências judaítas da derrota da capital do norte ou pela ameaça iminente de Senaquerib (na hipótese de adição posterior). Na primeira suposição, a queda de Samaria era “ferida” de Judá, pois a queda do reino vizinho abria caminho para ulteriores avanços e conquistas.

O primeiro capítulo vai descrever a teofania ameaçadora de Deus. Este Deus responde o pranto do profeta e o luto das populações. Assim, servirão pranto e luto para aplacar o Senhor? Qual é a culpa que provoca a vinda do Senhor?

Portanto, ao olhar para o profeta Miquéias, devemos, também nós, anunciar a justiça e denunciar a injustiça, pois ele, em seu tempo, soube muito bem fazer isso, e, assim, tornou-se um mensageiro do Senhor. Em seu tempo havia conflitos de terra, trabalho forçado, corrupção, guerras, violência, muito sofrimento etc. Tudo isso, também nós vemos em nossos tempos. A postura que nos ilumina é a do profeta, que é um homem justo e íntegro.

 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro