Arquidiocese do Rio de Janeiro

30º 26º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 19/03/2019

19 de Março de 2019

Que escutem as escrituras

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24/09/2016 00:00 - Atualizado em 26/09/2016 15:02

Que escutem as escrituras 0

24/09/2016 00:00 - Atualizado em 26/09/2016 15:02

A parábola do rico e Lázaro que emoldura o Evangelho do 26º Domingo do Tempo Comum (Lc 16, 19-31) descreve-nos um homem que não soube tirar o verdadeiro proveito dos seus bens e se omitiu na partilha. Ao invés de ganhar com eles o Céu, perdeu-o para sempre. Trata-se de um homem rico, que se “vestia de púrpura e de linho”, e que todos os dias “fazia festas esplêndidas”; muito perto dele, à sua porta, estava deitado um mendigo chamado Lázaro, todo coberto de chagas, que desejava saciar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico. E até os cães lambiam as suas feridas.

A descrição que o Senhor nos faz nesta parábola tem fortes contrastes: grande abundância num, extrema necessidade no outro. O homem rico vive para si, como se Deus não existisse. Esqueceu uma coisa que o Senhor recorda com muita frequência: não somos donos dos bens materiais, mas administradores.

A parábola ensina a sobrevivência da alma após a morte e que, imediatamente depois da morte a alma é julgada por Deus de todos os seus atos – juízo particular –, recebendo o prêmio ou o castigo; que a Revelação divina é, de per si, suficiente para que os homens creiam no mais além.

Jesus hoje desmente os que afirmam que os mortos estão dormindo. É verdade que, antes do Exílio de Babilônia, quando ainda não se sabia em Israel que havia ressurreição, os judeus e seus textos bíblicos diziam que quem morria ia com os pais no sheol. Tal ideia foi superada já no próprio Antigo Testamento, quando Israel compreendeu que o Senhor nos reserva a ressurreição. Então, os judeus pensavam que quem morresse, ficava bem vivo, na mansão dos mortos, à espera do Julgamento Final. Já aí, havia uma mansão dos mortos de refrigério e paz e uma mansão dos mortos de tormento.

É esta crença que Jesus supõe ao contar a parábola do mau rico e do pobre Lázaro. Então, nem mesmo para os judeus, que não conheciam o Messias, os mortos ficavam dormindo! Quanto mais para nós, cristãos, que sabemos que nem a morte nem a vida nos poderão separar do amor de Cristo” (Rm 8,38-39). Como para São Paulo, o desejo do cristão é “partir para estar com Cristo” (Fl 1,23).

Observe-se que o que o rico pede é que Lázaro ressuscite. Daí, a resposta de Jesus: “Eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”. Recordemos que o Senhor Jesus Ressuscitou e está vivo entre nós e ainda hoje são muitos que não O escutam.

Jesus continua o tema de domingo passado, quando nos exortou a fazer amigos com o dinheiro injusto. Este é o pecado do rico do Evangelho de hoje: não fez amigos com suas riquezas. Se tivesse aberto o coração para Lázaro, teria um amigo a recebê-lo no céu! É importante notar que não é dito que esse rico roubou,  ou q eu ganhou seu dinheiro matando ou fazendo mal aos outros. Seu pecado foi da omissão em viver somente para si: “se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias”(Lc 16,19). Ele foi incapaz de enxergar o “pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, que estava no chão”(Lc 16,20), à sua porta. “Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas”(Lc 16,21). O rico nunca se incomodou com aquele pobre, nunca perguntou o seu nome, nunca procurou saber sua história, nunca abriu a mão para ajudá-lo, nunca lhe deu um pouco de seu tempo. O rico jamais pensou que aquele pobre, cujo nome ninguém importante conhecia, era conhecido e amado por Deus. Não deixa de ser impressionante que Jesus chama o pobre pelo nome, mas ignora o nome do rico! Afinal, os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos.

Ele está cego para as necessidades alheias. O seu pecado foi não ter visto Lázaro, a quem poderia ter feito feliz com um pouco menos de egoísmo e um pouco mais de despreocupação pelas suas próprias coisas. Não utilizou os bens conforme o querer de Deus. Não soube compartilhar. Santo Agostinho comenta: “Não foi a pobreza que conduziu Lázaro ao Céu, mas a sua humildade; nem foram as riquezas que impediram o rico de entrar no descanso eterno, mas o seu egoísmo e a sua infidelidade”.

Neste mês da Bíblia é muito significativo que Jesus nos conta na parábola para responder ao pedido do rico que pedia para avisar seus irmãos para que mudassem de vida: “Eles tem Moisés e os Profetas, que os escutem!”.

A primeira leitura (Am 6, 1.4-7) já anunciava essa questão lembrando que esses que assim vivem irão para o desterro, na primeira fila. Que a recomendação de Paulo a Timóteo (1Tim 6,11-16) nos ajude a viver esse domingo: “foge das coisas perversas, procura a justiça, a piedade, a fé, o amor, a firmeza, a mansidão” – “combate o bom combate da fé”!


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Que escutem as escrituras

24/09/2016 00:00 - Atualizado em 26/09/2016 15:02

A parábola do rico e Lázaro que emoldura o Evangelho do 26º Domingo do Tempo Comum (Lc 16, 19-31) descreve-nos um homem que não soube tirar o verdadeiro proveito dos seus bens e se omitiu na partilha. Ao invés de ganhar com eles o Céu, perdeu-o para sempre. Trata-se de um homem rico, que se “vestia de púrpura e de linho”, e que todos os dias “fazia festas esplêndidas”; muito perto dele, à sua porta, estava deitado um mendigo chamado Lázaro, todo coberto de chagas, que desejava saciar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico. E até os cães lambiam as suas feridas.

A descrição que o Senhor nos faz nesta parábola tem fortes contrastes: grande abundância num, extrema necessidade no outro. O homem rico vive para si, como se Deus não existisse. Esqueceu uma coisa que o Senhor recorda com muita frequência: não somos donos dos bens materiais, mas administradores.

A parábola ensina a sobrevivência da alma após a morte e que, imediatamente depois da morte a alma é julgada por Deus de todos os seus atos – juízo particular –, recebendo o prêmio ou o castigo; que a Revelação divina é, de per si, suficiente para que os homens creiam no mais além.

Jesus hoje desmente os que afirmam que os mortos estão dormindo. É verdade que, antes do Exílio de Babilônia, quando ainda não se sabia em Israel que havia ressurreição, os judeus e seus textos bíblicos diziam que quem morria ia com os pais no sheol. Tal ideia foi superada já no próprio Antigo Testamento, quando Israel compreendeu que o Senhor nos reserva a ressurreição. Então, os judeus pensavam que quem morresse, ficava bem vivo, na mansão dos mortos, à espera do Julgamento Final. Já aí, havia uma mansão dos mortos de refrigério e paz e uma mansão dos mortos de tormento.

É esta crença que Jesus supõe ao contar a parábola do mau rico e do pobre Lázaro. Então, nem mesmo para os judeus, que não conheciam o Messias, os mortos ficavam dormindo! Quanto mais para nós, cristãos, que sabemos que nem a morte nem a vida nos poderão separar do amor de Cristo” (Rm 8,38-39). Como para São Paulo, o desejo do cristão é “partir para estar com Cristo” (Fl 1,23).

Observe-se que o que o rico pede é que Lázaro ressuscite. Daí, a resposta de Jesus: “Eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”. Recordemos que o Senhor Jesus Ressuscitou e está vivo entre nós e ainda hoje são muitos que não O escutam.

Jesus continua o tema de domingo passado, quando nos exortou a fazer amigos com o dinheiro injusto. Este é o pecado do rico do Evangelho de hoje: não fez amigos com suas riquezas. Se tivesse aberto o coração para Lázaro, teria um amigo a recebê-lo no céu! É importante notar que não é dito que esse rico roubou,  ou q eu ganhou seu dinheiro matando ou fazendo mal aos outros. Seu pecado foi da omissão em viver somente para si: “se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias”(Lc 16,19). Ele foi incapaz de enxergar o “pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, que estava no chão”(Lc 16,20), à sua porta. “Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas”(Lc 16,21). O rico nunca se incomodou com aquele pobre, nunca perguntou o seu nome, nunca procurou saber sua história, nunca abriu a mão para ajudá-lo, nunca lhe deu um pouco de seu tempo. O rico jamais pensou que aquele pobre, cujo nome ninguém importante conhecia, era conhecido e amado por Deus. Não deixa de ser impressionante que Jesus chama o pobre pelo nome, mas ignora o nome do rico! Afinal, os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos.

Ele está cego para as necessidades alheias. O seu pecado foi não ter visto Lázaro, a quem poderia ter feito feliz com um pouco menos de egoísmo e um pouco mais de despreocupação pelas suas próprias coisas. Não utilizou os bens conforme o querer de Deus. Não soube compartilhar. Santo Agostinho comenta: “Não foi a pobreza que conduziu Lázaro ao Céu, mas a sua humildade; nem foram as riquezas que impediram o rico de entrar no descanso eterno, mas o seu egoísmo e a sua infidelidade”.

Neste mês da Bíblia é muito significativo que Jesus nos conta na parábola para responder ao pedido do rico que pedia para avisar seus irmãos para que mudassem de vida: “Eles tem Moisés e os Profetas, que os escutem!”.

A primeira leitura (Am 6, 1.4-7) já anunciava essa questão lembrando que esses que assim vivem irão para o desterro, na primeira fila. Que a recomendação de Paulo a Timóteo (1Tim 6,11-16) nos ajude a viver esse domingo: “foge das coisas perversas, procura a justiça, a piedade, a fé, o amor, a firmeza, a mansidão” – “combate o bom combate da fé”!


Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro