Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 21/11/2019

21 de Novembro de 2019

A Igreja e nossa “casa comum”

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22/09/2016 00:00 - Atualizado em 26/09/2016 14:52

A Igreja e nossa “casa comum” 0

22/09/2016 00:00 - Atualizado em 26/09/2016 14:52

Nestes dias tivemos a inauguração do sistema de geração de energia elétrica autossustentável na Paróquia de São José da Lagoa, que fica na Avenida Borges de Medeiros, 2.735, Lagoa, inclusive contando com nossa participação em missa solene para a inauguração do sistema. Além da economia financeira, o aproveitamento da luz solar é um belo sinal que se dá para um futuro diferencial em geração de energia elétrica. Agradeço a todos os grupos empenhados nessa realização. Creio que essa iniciativa pode nos ajudar a aprofundar uma reflexão sobre a nossa responsabilidade pelo meio ambiente onde nos encontramos.

Convido a todos para que conheçam o belíssimo trabalho ali feito, vale a pena, além da bela visão do local da paróquia, uma região de cartão postal de nossa cidade. Com a visita, aproveitem para ter um encontro pessoal com o Senhor Jesus, rezar por si e pelos seus, pelos doentes, por todos que necessitam de oração.

De início, podemos dizer com muita satisfação que a iniciativa do pároco é muito salutar e, na medida do possível, especialmente econômico-financeira, pode ser um exemplo de outros passos que traduzam concretamente o pedido do Papa Francisco na Laudato Si’. A busca de novas formas de energia, as quais sejam menos poluentes e agressivas ao meio ambiente, é uma constante no desenvolvimento da ciência e das técnicas.

Aprofundando esta reflexão sobre a questão ambiental, temos de lembrar que esta é muito mais vasta, ampla e complexa do que pode parecer à primeira vista. Essa nova demanda da chamada sustentabilidade, da qual a questão energética é um dos vieses, é, antes de tudo, uma problemática socioambiental.

Uma das questões que está muito em voga nos meios de comunicação é a questão da relação do ser humano com a natureza. O tema provoca grande preocupação em todos os lugares do mundo, gerando até mesmo sentimentos apocalípticos em pessoas mais suscetíveis a este tipo de demanda. A importância da temática é tanta que houve vários encontros internacionais, dois dos quais aqui no Rio de Janeiro (1992, 2012).

A sustentabilidade envolve coisas muito mais básicas em termos de vida digna e saudável em todo o planeta. Pelas chaves do Evangelho, a de ser superada a desigualdade e a exclusão, que marginalizam milhões de seres humanos nos porões da subserviência humana, da simples sobrevivência sofrida. Isto deveria consistir de projetos governamentais para que haja uma verdadeira e efetiva sustentabilidade da existência humana.

De forma não predatória, ainda devemos tratar todos os seres não humanos, afinal, pelo relato bíblico do Gênesis, todos foram colocados à nossa disposição para que, num gesto de compromisso, possamos com o Senhor cuidar da obra criada de Suas Mãos. Recorrendo aos escritores sagrados, encontramos uma pulsante teologia que compreende a criação como morada de Deus, e não como um lugar de morte e violência. Nos textos bíblicos, há o reconhecimento da dignidade ímpar do ser humano e uma negação de qualquer atitude de rebaixamento desse humano. Essa condição, no entanto, é a dignidade de cocriador criado, dignidade missionária e relacional voltada para a proteção da criação de Deus, para o cuidado constante da vida em sua vulnerabilidade.

Com isto, vislumbramos, claramente, que a sustentabilidade é muito mais ampla do que somente algum ponto isolado colocado, e sim consiste em toda uma visão de necessidade de reforma da sociedade pelos valores que nos são fornecidos pelo Evangelho.

Neste sentido, é a encíclica "Laudato Si" do Papa Francisco, a dizer:[1]

"Estas contribuições dos Papas recolhem a reflexão de inúmeros cientistas, filósofos, teólogos e organizações sociais que enriqueceram o pensamento da Igreja sobre estas questões. Mas não podemos ignorar que, também fora da Igreja Católica, noutras Igrejas e Comunidades cristãs – bem como noutras religiões – se tem desenvolvido uma profunda preocupação e uma reflexão valiosa sobre estes temas que a todos nós estão a peito. Apenas para dar um exemplo particularmente significativo, quero retomar brevemente parte da contribuição do amado Patriarca Ecuménico Bartolomeu, com quem partilhamos a esperança da plena comunhão eclesial".

Nesse escrito, tem-se o posicionamento firme e inarredável do Santo Padre Francisco, que vem reforçar a necessidade de que a parte da humanidade que se encontra adormecida seja desperta para os perigos que nosso planeta enfrenta, e de forma cada vez mais rápida, devido às mudanças do ecossistema de todo o mundo.

“A vida espiritual conhece o mesmo equilíbrio delicado da vida biológica. Mas o homem, como criatura, pode apenas sentir o amor de seu Criador e, consequentemente, sentir amor pela criação e tratá-la com respeito, porque Deus criou cada coisa com amor.” (BERNEX, 1996, p. 96)[2]

"Laudato Si", lançada em junho de 2015, mesmo antes da publicação oficial, teve grande repercussão e foi muito bem recepcionada pelos leigos e pela crítica especializada. Devido à sua premência, o tema da questão ambiental chama sobre si a atenção das mais diversas pessoas em volta do globo. Ao fazer este documento, o Santo Padre se preocupou, antes de tudo, em ouvir especialistas de diversas áreas, estudos e repercussões que poderiam surgir de um documento tão polêmico. Em todo momento, jamais quis se identificar com nenhuma linha ideológica, pois sabe o Papa Francisco que o tema é uma questão mundial, a todos nós que vivemos na "Casa Comum". Devido a isso, não poderia se deixar levar por análises reducionistas sobre os problemas.

Frei Raniero Catalamesa, pregador da Casa Pontifícia, de 01/09/16, em texto publicado pela Rádio Vaticano, com o seguinte título "Ecologia sem glorificação a Deus torna o universo opaco"[3], assim se expressou:

“Referindo-se novamente ao discurso de Crisólogo, o Pregador da Casa Pontifícia diz que o autor reafirma “a ideia bíblica da soberania do homem sobre o cosmos”, visão completada por São Paulo, que indica o lugar que Cristo ocupa nele: “Estamos diante de um “ecologismo humano” ou “humanístico”: um ecologismo, isto é, que não é um fim por si só, mas em função do homem, não só, naturalmente, do homem de hoje, mas também daquele futuro”.

O pensamento cristão nunca deixou de interrogar-se sobre o porquê desta transcendência do homem em relação ao resto da criação, encontrando sempre a resposta na afirmação bíblica de que “o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus”.

O renovado diálogo com o pensamento ortodoxo tornou possível à teologia dar uma explicação realmente satisfatória para a questão, que “é saber em que consiste ser a imagem de Deus”: “Tudo se alicerça na revelação da Trindade operada por Cristo. O homem é criado à imagem de Deus, no sentido que participa da íntima essência de Deus, que é de ser em relação de amor entre Pai, Filho e Espírito Santo”. “Eles não têm uma relação entre si, mas são a relação”, como define Santo Agostinho”.

Podemos ver que a iniciativa da Paróquia São José da Lagoa, no território da Arquidiocese do Rio de Janeiro, é de grande importância e que necessita ser incentivada para que sirva de exemplo para todas as pessoas, pois a Igreja deve ser farol que guia as pessoas para as veredas do Reino, mesmo indo contra a correnteza num mundo secularizado, e, em diversas vezes, antieclesial e anticlerical. Devemos ser firmes no nosso anúncio, porém serenos e caridosos na mesma medida do Cristo. E assim como na parábola do Semeador, sabemos que a colheita é feita no tempo que o Senhor determina, e que é Ele, Sumo Bem e Suma Bondade, que vai fazer dar os frutos dos nossos trabalhos.



[2] BERNEX, Nicole. A percepção ambiental de Santo Agostinho. Santo Agostinho e uma proto-ecoteologia. In: OLIVEIRA, Nair de Assis (org.). Ecoteologia Agostiniana. São Paulo: Paulus, 1996, p. 82-101.

[3] http://br.radiovaticana.va/news/2016/09/01/cantalamessa_ecologia_sem_doxologia_torna_o_universo_opaco/1255158

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22/09/2016 00:00 - Atualizado em 26/09/2016 14:52

Nestes dias tivemos a inauguração do sistema de geração de energia elétrica autossustentável na Paróquia de São José da Lagoa, que fica na Avenida Borges de Medeiros, 2.735, Lagoa, inclusive contando com nossa participação em missa solene para a inauguração do sistema. Além da economia financeira, o aproveitamento da luz solar é um belo sinal que se dá para um futuro diferencial em geração de energia elétrica. Agradeço a todos os grupos empenhados nessa realização. Creio que essa iniciativa pode nos ajudar a aprofundar uma reflexão sobre a nossa responsabilidade pelo meio ambiente onde nos encontramos.

Convido a todos para que conheçam o belíssimo trabalho ali feito, vale a pena, além da bela visão do local da paróquia, uma região de cartão postal de nossa cidade. Com a visita, aproveitem para ter um encontro pessoal com o Senhor Jesus, rezar por si e pelos seus, pelos doentes, por todos que necessitam de oração.

De início, podemos dizer com muita satisfação que a iniciativa do pároco é muito salutar e, na medida do possível, especialmente econômico-financeira, pode ser um exemplo de outros passos que traduzam concretamente o pedido do Papa Francisco na Laudato Si’. A busca de novas formas de energia, as quais sejam menos poluentes e agressivas ao meio ambiente, é uma constante no desenvolvimento da ciência e das técnicas.

Aprofundando esta reflexão sobre a questão ambiental, temos de lembrar que esta é muito mais vasta, ampla e complexa do que pode parecer à primeira vista. Essa nova demanda da chamada sustentabilidade, da qual a questão energética é um dos vieses, é, antes de tudo, uma problemática socioambiental.

Uma das questões que está muito em voga nos meios de comunicação é a questão da relação do ser humano com a natureza. O tema provoca grande preocupação em todos os lugares do mundo, gerando até mesmo sentimentos apocalípticos em pessoas mais suscetíveis a este tipo de demanda. A importância da temática é tanta que houve vários encontros internacionais, dois dos quais aqui no Rio de Janeiro (1992, 2012).

A sustentabilidade envolve coisas muito mais básicas em termos de vida digna e saudável em todo o planeta. Pelas chaves do Evangelho, a de ser superada a desigualdade e a exclusão, que marginalizam milhões de seres humanos nos porões da subserviência humana, da simples sobrevivência sofrida. Isto deveria consistir de projetos governamentais para que haja uma verdadeira e efetiva sustentabilidade da existência humana.

De forma não predatória, ainda devemos tratar todos os seres não humanos, afinal, pelo relato bíblico do Gênesis, todos foram colocados à nossa disposição para que, num gesto de compromisso, possamos com o Senhor cuidar da obra criada de Suas Mãos. Recorrendo aos escritores sagrados, encontramos uma pulsante teologia que compreende a criação como morada de Deus, e não como um lugar de morte e violência. Nos textos bíblicos, há o reconhecimento da dignidade ímpar do ser humano e uma negação de qualquer atitude de rebaixamento desse humano. Essa condição, no entanto, é a dignidade de cocriador criado, dignidade missionária e relacional voltada para a proteção da criação de Deus, para o cuidado constante da vida em sua vulnerabilidade.

Com isto, vislumbramos, claramente, que a sustentabilidade é muito mais ampla do que somente algum ponto isolado colocado, e sim consiste em toda uma visão de necessidade de reforma da sociedade pelos valores que nos são fornecidos pelo Evangelho.

Neste sentido, é a encíclica "Laudato Si" do Papa Francisco, a dizer:[1]

"Estas contribuições dos Papas recolhem a reflexão de inúmeros cientistas, filósofos, teólogos e organizações sociais que enriqueceram o pensamento da Igreja sobre estas questões. Mas não podemos ignorar que, também fora da Igreja Católica, noutras Igrejas e Comunidades cristãs – bem como noutras religiões – se tem desenvolvido uma profunda preocupação e uma reflexão valiosa sobre estes temas que a todos nós estão a peito. Apenas para dar um exemplo particularmente significativo, quero retomar brevemente parte da contribuição do amado Patriarca Ecuménico Bartolomeu, com quem partilhamos a esperança da plena comunhão eclesial".

Nesse escrito, tem-se o posicionamento firme e inarredável do Santo Padre Francisco, que vem reforçar a necessidade de que a parte da humanidade que se encontra adormecida seja desperta para os perigos que nosso planeta enfrenta, e de forma cada vez mais rápida, devido às mudanças do ecossistema de todo o mundo.

“A vida espiritual conhece o mesmo equilíbrio delicado da vida biológica. Mas o homem, como criatura, pode apenas sentir o amor de seu Criador e, consequentemente, sentir amor pela criação e tratá-la com respeito, porque Deus criou cada coisa com amor.” (BERNEX, 1996, p. 96)[2]

"Laudato Si", lançada em junho de 2015, mesmo antes da publicação oficial, teve grande repercussão e foi muito bem recepcionada pelos leigos e pela crítica especializada. Devido à sua premência, o tema da questão ambiental chama sobre si a atenção das mais diversas pessoas em volta do globo. Ao fazer este documento, o Santo Padre se preocupou, antes de tudo, em ouvir especialistas de diversas áreas, estudos e repercussões que poderiam surgir de um documento tão polêmico. Em todo momento, jamais quis se identificar com nenhuma linha ideológica, pois sabe o Papa Francisco que o tema é uma questão mundial, a todos nós que vivemos na "Casa Comum". Devido a isso, não poderia se deixar levar por análises reducionistas sobre os problemas.

Frei Raniero Catalamesa, pregador da Casa Pontifícia, de 01/09/16, em texto publicado pela Rádio Vaticano, com o seguinte título "Ecologia sem glorificação a Deus torna o universo opaco"[3], assim se expressou:

“Referindo-se novamente ao discurso de Crisólogo, o Pregador da Casa Pontifícia diz que o autor reafirma “a ideia bíblica da soberania do homem sobre o cosmos”, visão completada por São Paulo, que indica o lugar que Cristo ocupa nele: “Estamos diante de um “ecologismo humano” ou “humanístico”: um ecologismo, isto é, que não é um fim por si só, mas em função do homem, não só, naturalmente, do homem de hoje, mas também daquele futuro”.

O pensamento cristão nunca deixou de interrogar-se sobre o porquê desta transcendência do homem em relação ao resto da criação, encontrando sempre a resposta na afirmação bíblica de que “o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus”.

O renovado diálogo com o pensamento ortodoxo tornou possível à teologia dar uma explicação realmente satisfatória para a questão, que “é saber em que consiste ser a imagem de Deus”: “Tudo se alicerça na revelação da Trindade operada por Cristo. O homem é criado à imagem de Deus, no sentido que participa da íntima essência de Deus, que é de ser em relação de amor entre Pai, Filho e Espírito Santo”. “Eles não têm uma relação entre si, mas são a relação”, como define Santo Agostinho”.

Podemos ver que a iniciativa da Paróquia São José da Lagoa, no território da Arquidiocese do Rio de Janeiro, é de grande importância e que necessita ser incentivada para que sirva de exemplo para todas as pessoas, pois a Igreja deve ser farol que guia as pessoas para as veredas do Reino, mesmo indo contra a correnteza num mundo secularizado, e, em diversas vezes, antieclesial e anticlerical. Devemos ser firmes no nosso anúncio, porém serenos e caridosos na mesma medida do Cristo. E assim como na parábola do Semeador, sabemos que a colheita é feita no tempo que o Senhor determina, e que é Ele, Sumo Bem e Suma Bondade, que vai fazer dar os frutos dos nossos trabalhos.



[2] BERNEX, Nicole. A percepção ambiental de Santo Agostinho. Santo Agostinho e uma proto-ecoteologia. In: OLIVEIRA, Nair de Assis (org.). Ecoteologia Agostiniana. São Paulo: Paulus, 1996, p. 82-101.

[3] http://br.radiovaticana.va/news/2016/09/01/cantalamessa_ecologia_sem_doxologia_torna_o_universo_opaco/1255158

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro