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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 19/03/2019

19 de Março de 2019

Eleições para Prefeito

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18/09/2016 00:00 - Atualizado em 23/09/2016 13:09

Eleições para Prefeito 0

18/09/2016 00:00 - Atualizado em 23/09/2016 13:09

Nestes dias, temos nos dedicado a reflexões de temas que são tão caros ao nosso povo, qual seja, o tema das eleições municipais. Este tema desperta as mais diversas paixões por partes de todos, ainda mais que no próximo pleito travaremos embate nas urnas em âmbito municipal, isto é, são pessoas bem próximas à nossa realidade. São nossos parentes, amigos, vizinhos, companheiros de trabalho que estão disputando uma vaga.

Por isto, sempre é bom lembrar que, antes de tudo, nossas reflexões são apartidárias e ao mesmo tempo valem para todos, pois são feitas à luz do Evangelho; da Igreja (por seu magistério e documentos); da Tradição, procurando trazer um alento a todos os cidadãos, aos crentes e não-crentes.

Em 2007, participei do encontro em Aparecida da Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, que eu tive a alegria de ser escolhido pelo episcopado brasileiro Delegado junto com o então Cardeal Jorge Mario Bergoglio. A partir desta assembleia dos bispos latino-americanos, foi produzido o chamado "Documento de Aparecida", que foi aprovado pelo então Sumo Pontífice, o Papa Bento XVI. Um dos principais colaboradores da redação final do documento foi o então  Cardeal argentino Mário Jorge Bergoglio, hoje o Santo Padre Francisco. Por isto, percebemos a ação do Espírito Santo que age na unidade da Igreja e na atualidade do texto.

No tópico 11 do documento final, os bispos presentes assim fazem suas considerações sobre a Igreja na América Latina e Caribe: "A Igreja é chamada a repensar profundamente e a relançar com fidelidade e audácia sua missão nas novas circunstâncias latino-americanas e mundiais. Ela não pode fechar-se àqueles que trazem confusão, perigos e ameaças ou àqueles que pretendem cobrir a variedade e complexidade das situações com uma capa de ideologias gastas ou de agressões irresponsáveis. Trata-se de confirmar, renovar e revitalizar a novidade do Evangelho arraigada em nossa história, a partir de um encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo, que desperte discípulos e missionários. Isso não depende de grandes programas e estruturas, mas de homens e mulheres novos que encarnem essa tradição e novidade como discípulos de Jesus Cristo e missionários de Seu reino, protagonistas de uma vida nova para uma América Latina que deseja se reconhecer com a luz e a força do Espírito".

Ao Chefe do Executivo (em todos os âmbitos, Federal, Executivo e Municipal) cabe velar e valorar as atividades das políticas governamentais ao gerenciar o erário público (dinheiro público), pois o que gerencia não é seu e sim de todos os que habitam num determinado país, estado ou município. É grande a responsabilidade do Chefe do Executivo, pois é ele quem é o "dono da chave do cofre", afinal, é o responsável pelo recolhimento de todos os tributos, os quais deverão ser gastos com o povo, nas mais diversas atividades.

Chegando mais próximo de nós, nos municípios, temos de verificar qual é a atividade que o Prefeito deve exercer. Das diversas formas de organização no mundo, o Brasil é o único lugar no qual o Município ganha status de ente federativo. Haja vista que nos demais só são entes federados os Estados-Membros e a União. Com isto, percebe-se claramente que entre nós os Prefeitos possuem grande privilégio e autonomia para poderem agir ao possuir capacidade de autogoverno, capacidade de autoadministração, capacidade de autolegislação e capacidade de auto-organização.

Passadas as eleições, embora o prefeito seja eleito por uma parcela, deve ele governar para toda a cidade, isto porque vai gerenciar recursos que são próprios de todos e não só dos seus correligionários.  Neste momento que deve se perceber a capacidade de agregação e pacificação por parte do Chefe do Executivo Municipal, de trabalhar acimas de disputas eleitorais, dos interesses dos grupos que o elegeram e agir em prol do bem comum, de todos, até daqueles que não o elegeram. Essa capacidade é a primeira qualidade que devemos ter diante da escolha de um candidato para prefeito.

Ademais, a partir do momento em que o Município é elevado a ente federativo ele possui capacidade de arrecadar tributos próprios, porque só quem tem dinheiro próprio pode possuir autonomia. Devido a isso, nas atribuições que são do Município, é o prefeito quem escolhe as prioridades nas quais os valores serão gastos. Ele deve gerenciar o dinheiro com zelo e moral, pois não são bens dele e sim são bens que são colocados à sua disposição para organizar a comunidade local.

A capacidade do Prefeito de olhar para todos reveste-se da capacidade de andar em compasso com as tradições da região e do município. Apesar de vivermos numa sociedade que é marcadamente caracterizada pela diversidade de hábitos e costumes, principalmente aqueles trazidos pelos meios de comunicação, temos tradições culturais, sociais, políticas e, sobretudo, religiosas que devem ser cuidadosamente respeitadas e incentivadas, já que fazem parte do tesouro histórico. Ser capaz de gerenciar estes paradoxos, tradição e modernidade, ideologias diferentes, mesmo que diversas vezes contrárias ao que pensa, mostra uma maturidade por parte do administrador e capacidade de pensar no todo em detrimento de uma pequena parcela.

Em consonância com meus irmãos no episcopado, animo a todos que não troquem seus votos, em circunstância alguma, por dinheiro ou bem algum. E que caso saibam de fatos como estes que levem ao conhecimento do Ministério Público. As orientações distribuídas e publicadas em nosso Estado, aprovadas pelos Bispos do nosso regional, orientam bem as próximas eleições.

Finalizando, irmãs e irmãos, recomendo a todos que neste período procurem saber quem são os candidatos a prefeitos, sua vida pregressa, quais são os pensamentos que influenciam sua forma de pensar e todos os pormenores que são importantes para alguém que pretende administrar o bem público. A omissão é uma opção horrível, pois fará com que pessoas inaptas venham a assumir cargos tão importantes como o de Prefeito. O bem é nosso, de todos, por isto fiquemos atentos e vigilantes com candidatos que sejam realmente comprometidos com a coisa pública e com as pessoas, e que não sejam representantes de quaisquer grupos de interesses. O Prefeito cuida de gente, do povo da cidade. O Prefeito representa a “polis”, a “Cidade” e a sua primeira qualidade deve ser a agregação de culturas distintas, sendo um artífice da política do encontro. Se o candidato promove unidade e encontro, ele terá capacidade e capilaridade para representar a “polis” e não seus correligionários apenas. 

 

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Eleições para Prefeito

18/09/2016 00:00 - Atualizado em 23/09/2016 13:09

Nestes dias, temos nos dedicado a reflexões de temas que são tão caros ao nosso povo, qual seja, o tema das eleições municipais. Este tema desperta as mais diversas paixões por partes de todos, ainda mais que no próximo pleito travaremos embate nas urnas em âmbito municipal, isto é, são pessoas bem próximas à nossa realidade. São nossos parentes, amigos, vizinhos, companheiros de trabalho que estão disputando uma vaga.

Por isto, sempre é bom lembrar que, antes de tudo, nossas reflexões são apartidárias e ao mesmo tempo valem para todos, pois são feitas à luz do Evangelho; da Igreja (por seu magistério e documentos); da Tradição, procurando trazer um alento a todos os cidadãos, aos crentes e não-crentes.

Em 2007, participei do encontro em Aparecida da Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, que eu tive a alegria de ser escolhido pelo episcopado brasileiro Delegado junto com o então Cardeal Jorge Mario Bergoglio. A partir desta assembleia dos bispos latino-americanos, foi produzido o chamado "Documento de Aparecida", que foi aprovado pelo então Sumo Pontífice, o Papa Bento XVI. Um dos principais colaboradores da redação final do documento foi o então  Cardeal argentino Mário Jorge Bergoglio, hoje o Santo Padre Francisco. Por isto, percebemos a ação do Espírito Santo que age na unidade da Igreja e na atualidade do texto.

No tópico 11 do documento final, os bispos presentes assim fazem suas considerações sobre a Igreja na América Latina e Caribe: "A Igreja é chamada a repensar profundamente e a relançar com fidelidade e audácia sua missão nas novas circunstâncias latino-americanas e mundiais. Ela não pode fechar-se àqueles que trazem confusão, perigos e ameaças ou àqueles que pretendem cobrir a variedade e complexidade das situações com uma capa de ideologias gastas ou de agressões irresponsáveis. Trata-se de confirmar, renovar e revitalizar a novidade do Evangelho arraigada em nossa história, a partir de um encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo, que desperte discípulos e missionários. Isso não depende de grandes programas e estruturas, mas de homens e mulheres novos que encarnem essa tradição e novidade como discípulos de Jesus Cristo e missionários de Seu reino, protagonistas de uma vida nova para uma América Latina que deseja se reconhecer com a luz e a força do Espírito".

Ao Chefe do Executivo (em todos os âmbitos, Federal, Executivo e Municipal) cabe velar e valorar as atividades das políticas governamentais ao gerenciar o erário público (dinheiro público), pois o que gerencia não é seu e sim de todos os que habitam num determinado país, estado ou município. É grande a responsabilidade do Chefe do Executivo, pois é ele quem é o "dono da chave do cofre", afinal, é o responsável pelo recolhimento de todos os tributos, os quais deverão ser gastos com o povo, nas mais diversas atividades.

Chegando mais próximo de nós, nos municípios, temos de verificar qual é a atividade que o Prefeito deve exercer. Das diversas formas de organização no mundo, o Brasil é o único lugar no qual o Município ganha status de ente federativo. Haja vista que nos demais só são entes federados os Estados-Membros e a União. Com isto, percebe-se claramente que entre nós os Prefeitos possuem grande privilégio e autonomia para poderem agir ao possuir capacidade de autogoverno, capacidade de autoadministração, capacidade de autolegislação e capacidade de auto-organização.

Passadas as eleições, embora o prefeito seja eleito por uma parcela, deve ele governar para toda a cidade, isto porque vai gerenciar recursos que são próprios de todos e não só dos seus correligionários.  Neste momento que deve se perceber a capacidade de agregação e pacificação por parte do Chefe do Executivo Municipal, de trabalhar acimas de disputas eleitorais, dos interesses dos grupos que o elegeram e agir em prol do bem comum, de todos, até daqueles que não o elegeram. Essa capacidade é a primeira qualidade que devemos ter diante da escolha de um candidato para prefeito.

Ademais, a partir do momento em que o Município é elevado a ente federativo ele possui capacidade de arrecadar tributos próprios, porque só quem tem dinheiro próprio pode possuir autonomia. Devido a isso, nas atribuições que são do Município, é o prefeito quem escolhe as prioridades nas quais os valores serão gastos. Ele deve gerenciar o dinheiro com zelo e moral, pois não são bens dele e sim são bens que são colocados à sua disposição para organizar a comunidade local.

A capacidade do Prefeito de olhar para todos reveste-se da capacidade de andar em compasso com as tradições da região e do município. Apesar de vivermos numa sociedade que é marcadamente caracterizada pela diversidade de hábitos e costumes, principalmente aqueles trazidos pelos meios de comunicação, temos tradições culturais, sociais, políticas e, sobretudo, religiosas que devem ser cuidadosamente respeitadas e incentivadas, já que fazem parte do tesouro histórico. Ser capaz de gerenciar estes paradoxos, tradição e modernidade, ideologias diferentes, mesmo que diversas vezes contrárias ao que pensa, mostra uma maturidade por parte do administrador e capacidade de pensar no todo em detrimento de uma pequena parcela.

Em consonância com meus irmãos no episcopado, animo a todos que não troquem seus votos, em circunstância alguma, por dinheiro ou bem algum. E que caso saibam de fatos como estes que levem ao conhecimento do Ministério Público. As orientações distribuídas e publicadas em nosso Estado, aprovadas pelos Bispos do nosso regional, orientam bem as próximas eleições.

Finalizando, irmãs e irmãos, recomendo a todos que neste período procurem saber quem são os candidatos a prefeitos, sua vida pregressa, quais são os pensamentos que influenciam sua forma de pensar e todos os pormenores que são importantes para alguém que pretende administrar o bem público. A omissão é uma opção horrível, pois fará com que pessoas inaptas venham a assumir cargos tão importantes como o de Prefeito. O bem é nosso, de todos, por isto fiquemos atentos e vigilantes com candidatos que sejam realmente comprometidos com a coisa pública e com as pessoas, e que não sejam representantes de quaisquer grupos de interesses. O Prefeito cuida de gente, do povo da cidade. O Prefeito representa a “polis”, a “Cidade” e a sua primeira qualidade deve ser a agregação de culturas distintas, sendo um artífice da política do encontro. Se o candidato promove unidade e encontro, ele terá capacidade e capilaridade para representar a “polis” e não seus correligionários apenas. 

 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro