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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/07/2019

20 de Julho de 2019

As cruzes de nossas vidas

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As cruzes de nossas vidas

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14/09/2016 17:03 - Atualizado em 14/09/2016 17:03

As cruzes de nossas vidas 0

14/09/2016 17:03 - Atualizado em 14/09/2016 17:03

O Mistério da Cruz tem relação com o Mistério da Igreja, Corpo de Cristo que nasceu do seu Sangue Preciosíssimo derramado na Cruz. A graça chega até nós através do Mistério da Cruz, motivo suficiente para que amemos a Santa Cruz. No seguimento do Crucificado, o cristão vive no Espírito Santo, e não na carne. Aquele que renasceu “da água e do Espírito” (Jo 3,5) sabe que nasceu para as realidades superiores.

Celebramos neste 14 de setembro a Festa da Exaltação da Santa Cruz. É uma festa da época do Imperador Constantino, que construiu as duas basílicas em Jerusalém (Gólgota e Sepulcro) e que foram dedicadas neste dia. Celebrar a exaltação da Santa Cruz é celebrar a exaltação da humilhação. Essa afirmação aparentemente contraditória aparece com clareza na carta aos Filipenses. Muitos viram na Cruz e na sua celebração festiva uma contradição; essa maneira de ver as coisas levou-os a renegar a Cruz em nome da vida segundo esse mundo. No entanto, a vida segundo esse mundo termina geralmente em angústia, desespero e morte. A Cruz nos introduz em outra percepção de valores e nos faz passar através das vicissitudes presentes com o olhar fixo nas realidades que nos esperam. Deus falou por meio da Cruz, isto é, por meio do mistério do seu Filho morto e ressuscitado. Ele quer introduzir-nos na Vida pela Cruz.

O culto à Santa Cruz, na qual Cristo deu a sua vida por nós, remonta aos começos do cristianismo. A Igreja canta com fé a Santa Cruz, pois foi o instrumento da nossa Salvação; se a árvore a cuja sombra os nossos primeiros pais pecaram foi a causa de perdição, a árvore da Cruz é origem da nossa salvação eterna. A Palavra de Deus (Num 21,4-9) narra-nos o que ocorreu com o Povo eleito por ter murmurado contra Moisés e contra Deus ao experimentar as dificuldades do deserto; experimentaram as serpentes que causavam estragos entre os israelitas. Quando se arrependeram, o Senhor disse a Moisés: “Faze uma serpente de bronze e coloca-a como sinal sobre uma haste; aquele que for mordido e olhar para ela viverá. Moisés fez, pois, uma serpente de bronze e colocou-a como sinal sobre uma haste. Quando alguém era mordido por uma serpente e olhava para a serpente de bronze, ficava curado”. (Num 21, 8-9).

Assim o diz Jesus no diálogo mantido com Nicodemos: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que seja levantado o Filho do Homem, a fim de que todo aquele que crer tenha Nele vida eterna” (Jo 3, 14-15). O caminho da santidade passa pela Cruz, e ganham sentido todas essas realidades que tanto precisam Dele, como são a doença, a dor, as aflições econômicas, o fracasso…, a mortificação voluntária. A cruz para os cristãos dá sentido à própria vida quando não nos desesperarmos com ela, mas encontrarmos aí um caminho de salvação.

Porém, na cruz de Cristo também estão significadas todas as cruzes do mundo e da humanidade: a cruz do inocente que sofre, a cruz dos órfãos, dos que morrem na guerra, a cruz dos pobres, sem nome, sem vez nem voz... Na cruz do Senhor estão tantos povos e raças oprimidos, dizimados pela ganância e pelo ódio. Na cruz de Cristo está simbolizada toda dor, todo fracasso, toda solidão, todo peso do mundo. Na cruz do Senhor está tudo aquilo que nos deixa com uma pergunta presa na garganta: “Por que tanta dor, tanto sofrimento, tanta injustiça”? Hoje, ainda mais que antes, os gritos das pessoas diante da vida questionam a Deus. Por que Deus se cala? Por que permite? Onde ele está? Não pode compreender o mistério da cruz quem não se deixa atingir e questionar por estas perguntas, por estas dores, por estes prantos! A cruz não é um ornamento, uma brincadeira; a cruz é uma realidade existencial, também um ícone, um símbolo, uma parábola impressionante e dolorosa!

O Cristo que morre de braços abertos na cruz representa a solidariedade de Deus abraçando a humanidade pecadora; ela que, de um lado e de outro, e dos inúmeros motivos padece pela opressão iníqua do pecado e dos sistemas políticos e econômicos. O calvário tornou-se o altar do mundo, onde a graça encerra a sua força e glória, onde Deus revela-se mostrando o verdadeiro rosto da humanidade, onde a humanidade reconhece a sua fragilidade batendo no peito (Lc 23,48), onde a Igreja entende a sua missão evangelizadora e redentora.

Na cruz está significado tudo aquilo que tanto nos apavora! E, no entanto, Jesus diz, no evangelho de hoje, que era necessário passar pela cruz: “Do mesmo modo que Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado...” (Jo 3,14). Palavra impressionante, confirmada após a ressurreição: “Não era necessário que o Filho sofresse tudo isso e assim entrasse na sua glória”? (Lc 24,26). Aliás, Ele mesmo nos mostrou o caminho: “quem quiser me seguir, tome a sua  cruz e me siga”. Enfim, a Cruz apresenta-se na nossa vida de diversas maneiras: doença, pobreza, cansaço, dor, desprezo, solidão… Hoje podemos examinar como é a nossa disposição habitual em face dessa Cruz que às vezes se mostra áspera e dura, mas que, se a levamos com amor, converte-se em fonte de purificação e de Vida, e também de alegria. O amor à Cruz produz abundantes frutos na alma. Em primeiro lugar, leva-nos a descobrir Jesus, que sai ao nosso encontro e carrega sobre os Seus ombros a parte mais pesada da contradição. A nossa dor, associada à do Mestre, deixa de ser o mal que entristece e arruína e converte-se em meio de íntima união com Deus.


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As cruzes de nossas vidas

14/09/2016 17:03 - Atualizado em 14/09/2016 17:03

O Mistério da Cruz tem relação com o Mistério da Igreja, Corpo de Cristo que nasceu do seu Sangue Preciosíssimo derramado na Cruz. A graça chega até nós através do Mistério da Cruz, motivo suficiente para que amemos a Santa Cruz. No seguimento do Crucificado, o cristão vive no Espírito Santo, e não na carne. Aquele que renasceu “da água e do Espírito” (Jo 3,5) sabe que nasceu para as realidades superiores.

Celebramos neste 14 de setembro a Festa da Exaltação da Santa Cruz. É uma festa da época do Imperador Constantino, que construiu as duas basílicas em Jerusalém (Gólgota e Sepulcro) e que foram dedicadas neste dia. Celebrar a exaltação da Santa Cruz é celebrar a exaltação da humilhação. Essa afirmação aparentemente contraditória aparece com clareza na carta aos Filipenses. Muitos viram na Cruz e na sua celebração festiva uma contradição; essa maneira de ver as coisas levou-os a renegar a Cruz em nome da vida segundo esse mundo. No entanto, a vida segundo esse mundo termina geralmente em angústia, desespero e morte. A Cruz nos introduz em outra percepção de valores e nos faz passar através das vicissitudes presentes com o olhar fixo nas realidades que nos esperam. Deus falou por meio da Cruz, isto é, por meio do mistério do seu Filho morto e ressuscitado. Ele quer introduzir-nos na Vida pela Cruz.

O culto à Santa Cruz, na qual Cristo deu a sua vida por nós, remonta aos começos do cristianismo. A Igreja canta com fé a Santa Cruz, pois foi o instrumento da nossa Salvação; se a árvore a cuja sombra os nossos primeiros pais pecaram foi a causa de perdição, a árvore da Cruz é origem da nossa salvação eterna. A Palavra de Deus (Num 21,4-9) narra-nos o que ocorreu com o Povo eleito por ter murmurado contra Moisés e contra Deus ao experimentar as dificuldades do deserto; experimentaram as serpentes que causavam estragos entre os israelitas. Quando se arrependeram, o Senhor disse a Moisés: “Faze uma serpente de bronze e coloca-a como sinal sobre uma haste; aquele que for mordido e olhar para ela viverá. Moisés fez, pois, uma serpente de bronze e colocou-a como sinal sobre uma haste. Quando alguém era mordido por uma serpente e olhava para a serpente de bronze, ficava curado”. (Num 21, 8-9).

Assim o diz Jesus no diálogo mantido com Nicodemos: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que seja levantado o Filho do Homem, a fim de que todo aquele que crer tenha Nele vida eterna” (Jo 3, 14-15). O caminho da santidade passa pela Cruz, e ganham sentido todas essas realidades que tanto precisam Dele, como são a doença, a dor, as aflições econômicas, o fracasso…, a mortificação voluntária. A cruz para os cristãos dá sentido à própria vida quando não nos desesperarmos com ela, mas encontrarmos aí um caminho de salvação.

Porém, na cruz de Cristo também estão significadas todas as cruzes do mundo e da humanidade: a cruz do inocente que sofre, a cruz dos órfãos, dos que morrem na guerra, a cruz dos pobres, sem nome, sem vez nem voz... Na cruz do Senhor estão tantos povos e raças oprimidos, dizimados pela ganância e pelo ódio. Na cruz de Cristo está simbolizada toda dor, todo fracasso, toda solidão, todo peso do mundo. Na cruz do Senhor está tudo aquilo que nos deixa com uma pergunta presa na garganta: “Por que tanta dor, tanto sofrimento, tanta injustiça”? Hoje, ainda mais que antes, os gritos das pessoas diante da vida questionam a Deus. Por que Deus se cala? Por que permite? Onde ele está? Não pode compreender o mistério da cruz quem não se deixa atingir e questionar por estas perguntas, por estas dores, por estes prantos! A cruz não é um ornamento, uma brincadeira; a cruz é uma realidade existencial, também um ícone, um símbolo, uma parábola impressionante e dolorosa!

O Cristo que morre de braços abertos na cruz representa a solidariedade de Deus abraçando a humanidade pecadora; ela que, de um lado e de outro, e dos inúmeros motivos padece pela opressão iníqua do pecado e dos sistemas políticos e econômicos. O calvário tornou-se o altar do mundo, onde a graça encerra a sua força e glória, onde Deus revela-se mostrando o verdadeiro rosto da humanidade, onde a humanidade reconhece a sua fragilidade batendo no peito (Lc 23,48), onde a Igreja entende a sua missão evangelizadora e redentora.

Na cruz está significado tudo aquilo que tanto nos apavora! E, no entanto, Jesus diz, no evangelho de hoje, que era necessário passar pela cruz: “Do mesmo modo que Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado...” (Jo 3,14). Palavra impressionante, confirmada após a ressurreição: “Não era necessário que o Filho sofresse tudo isso e assim entrasse na sua glória”? (Lc 24,26). Aliás, Ele mesmo nos mostrou o caminho: “quem quiser me seguir, tome a sua  cruz e me siga”. Enfim, a Cruz apresenta-se na nossa vida de diversas maneiras: doença, pobreza, cansaço, dor, desprezo, solidão… Hoje podemos examinar como é a nossa disposição habitual em face dessa Cruz que às vezes se mostra áspera e dura, mas que, se a levamos com amor, converte-se em fonte de purificação e de Vida, e também de alegria. O amor à Cruz produz abundantes frutos na alma. Em primeiro lugar, leva-nos a descobrir Jesus, que sai ao nosso encontro e carrega sobre os Seus ombros a parte mais pesada da contradição. A nossa dor, associada à do Mestre, deixa de ser o mal que entristece e arruína e converte-se em meio de íntima união com Deus.


Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro