Arquidiocese do Rio de Janeiro

27º 19º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/07/2019

20 de Julho de 2019

É tempo de Romaria

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27/08/2016 13:34 - Atualizado em 27/08/2016 13:35

É tempo de Romaria 0

27/08/2016 13:34 - Atualizado em 27/08/2016 13:35

Neste tempo de peregrinação arquidiocesana a casa de Nossa Senhora, mãe de Deus e nossa mãe, entre nós invocada sobre o título de Aparecida, é o momento de fazermos experiência da misericórdia, cujo Jubileu Extraordinário estamos vivendo.

No dia 27/08, nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro faz sua Romaria anual a Aparecida. São os filhos que se dirigem confiantes à “Casa da Mãe” ou à “capital nacional da fé”, como se tem dito nos últimos tempos, quase que à moda de um bom slogan entre as pessoas em geral, ou seja, não só entre os católicos. Quem vai à Casa da Mãe, muito mais do que fazer um passeio qualquer, tem um propósito religioso de verdadeira peregrinação. Somos peregrinos neste mundo em demanda da pátria definitiva, a Jerusalém do alto, a cidade cujo arquiteto é Deus (cf. Hb 11,10).

O peregrinar religioso tem sua base na própria Bíblia. Significa “uma viagem para um lugar sagrado, empreendida por motivos religiosos, geralmente com a intenção de, em seguida, voltar para a casa” (Dicionário enciclopédico da Bíblia. Petrópolis: Vozes, 1977). Tem como pano de fundo – sem menosprezar a presença e a ação ilimitada de Deus – a ideia de que há lugares privilegiados de manifestações divinas. Tal pensamento perpassa a imensa maioria das grandes religiões.

No Antigo Testamento, vemos que o povo de Israel, a partir dos reis Davi e Salomão, centralizadores do culto em Jerusalém, peregrinava para lá a fim de adorar a Deus no templo (cf. 1Rs 8). Depois, essas peregrinações se diluíram ou se descentralizaram quando, por interesses políticos, Jeroboão II fundou santuários próprios para o Reino do Norte (1Rs 12,26-30), até que, com a queda da Samaria, o rei Josias quis restabelecer a unidade, chamando o povo judeu para celebrar a Páscoa em Jerusalém (cf. 2 Cr 35). Crê-se que alguns Salmos foram compostos nesse contexto de romaria ou peregrinação, como, por exemplo, o Salmo 15: um diálogo, de fundo litúrgico, entre os sacerdotes e romeiros que adentravam ao santuário.

O preceito da Lei judaica era que cada filho de Israel peregrinasse até Jerusalém ao menos três vezes ao ano: Páscoa, Pentecostes e Festa dos Tabernáculos (cf. Êx 23,17; Dt 16). Contudo, 1Sm 1,3 e Lc 2,41 parecem dar a entender que uma romaria anual era suficiente para cumprir o preceito. Já os judeus que habitavam fora das terras de Israel deviam peregrinar para a Cidade Santa ao menos uma vez na vida. Importa notar que em vista da era messiânica, esperava-se que também os não judeus peregrinassem para Jerusalém (cf. Is 2,1-5, por exemplo).

No Novo Testamento, sob outro enfoque, a Carta aos Hebreus fala que somos, neste mundo, peregrinos em demanda da Pátria definitiva, a Jerusalém do alto. Esta forma de “romaria” não se inspira, segundo Vollebregt, na romaria judaica para a Cidade Santa, mas, sim, nas condições sociais dos israelitas como estrangeiros e hóspedes em outras terras, porém sempre esperançosos na certeza da terra prometida por Deus a eles (idem). Como quer que seja, ambas as interpretações nos levam a fazer de nossas romarias não um momento de lazer ou turismo apenas, mas de fé e devoção.

Os cristãos conservaram essa tradição da peregrinação aos lugares da Bíblia, tendo em vista, sobretudo a Terra Santa, conforme os relatos do Novo Testamento: Belém, Nazaré, Jerusalém etc. Desejavam, assim, dar sentido prático àquilo que acima foi exposto com base na fé israelita e cristã.

Ora, no Brasil, o encontro do corpo e depois da cabeça de uma imagem de Nossa Senhora nas águas do Rio Paraíba e os sucessivos sinais que ocorreram (e ocorrem certamente, pois Deus nunca cessa de agir) a partir da própria pesca abundante, imediata ao encontro da imagem, levaram as pessoas a buscar Aparecida como os filhos buscam a Mãe sempre, mas especialmente nas dificuldades. É o desejo de recorrer à intercessão d’Aquela que Deus escolheu para ser a mãe de seu Filho e nos deu também, na pessoa do apóstolo São João, como mãe na cruz (cf. Jo 19,26-27).

Todos os que recorremos a essa Santa Mãe esperamos sua intercessão como em Caná. Lá ela disse: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3). Hoje, ela continua a rogar por nós dizendo ao seu Filho: “eles não têm mais fé, não têm mais amor, não têm mais fraternidade, não têm pão em suas mesas, não têm emprego digno, não têm direito à vida, à saúde de qualidade, à moradia decente, à educação, à segurança, aos valores do evangelho, e tantas outras questões.”. Parece ser isso que vemos Nossa Senhora pedir...

Aproveitando que nesse último domingo de agosto celebramos o Dia do Catequista, também aprofundando o assunto, podemos recordar o que diz o Catecismo da Igreja Católica a respeito do culto a Nossa Senhora: “‘Todas as gerações me chamarão bem-aventurada’ (Lc 1,48): ‘A piedade da Igreja para com a Santíssima Virgem é intrínseca ao culto cristão’ (Marialis Cultus, 56). A Santíssima Virgem ‘é legitimamente honrada com um culto especial pela Igreja. Com efeito, desde remotíssimos tempos, a bem-aventurada Virgem é venerada sob o título de ‘Mãe de Deus’, sob cuja proteção os fiéis se refugiam suplicantes em todos os seus perigos e necessidades. (...) Este culto (...) embora inteiramente singular, difere essencialmente do culto de adoração que se presta ao Verbo encarnado e igualmente ao Pai e ao Espírito Santo, mas o favorece poderosamente’ (Lumen Gentium, 66); este culto encontra sua expressão nas festas litúrgicas dedicadas à Mãe de Deus (cf. Sancrossanctum Concilium, 103) e na oração mariana, tal como o Santo Rosário, ‘resumo de todo o Evangelho’ (cf. Marialis Cultus, 42)”.

Decorre desses dizeres que só há dois tipos de cultos na vida da Igreja: o de latria (= adoração), que se deve apenas a Deus Uno e Trino, e de dulia (= veneração), devido aos (às) santos(as) e anjos. Todavia, no culto geral de dulia são feitas duas subdivisões: o de hiperdulia (= super veneração), é aquele com o qual honramos Nossa Senhora, Mãe de Deus e nossa mãe, e o de protodulia (= primazia de veneração), que é dedicado a São José, o homem escolhido por Deus para ser pai adotivo de Jesus.

Isso posto, lembramo-nos de Maria como a Mãe de misericórdia ou, então, da Misericórdia, que é o próprio Senhor Jesus. Sim, escreve, com propriedade o Padre Paschoal Rangel, SDN, que “A ‘misericórdia’ de Cristo não é só uma questão de ser bondoso, de ter pena ou sentimentos de amor delicado. Há, no caso do Coração de Jesus (ou de Jesus simplesmente), um sentido teológico forte, muito radical, fundado no próprio desígnio de Deus em relação à Encarnação. Por eterna vontade do Pai, o Verbo se encarnou ‘por causa de nós homens e para nossa salvação’ (Símbolo Niceno-Constantinopolitano). A Encarnação tende, por decreto divino, para o perdão do pecado do homem. O Filho teria de ser aquele que ‘tira o pecado do mundo’ (Jo 1,29). Tudo nele é feito para o perdão, a misericórdia. Ele é mais do que aquele que perdoa: Ele é Perdão, o Perdão. Ele é Amor. Por isso, a Misericórdia. Não apenas tem misericórdia. Ele é Misericórdia, porque é Jesus (Yeshuáh, isto é, salvação). Salvador, em Jesus, não é adjetivo. É a sua substância. Seu Ser inteiro”.

“Quando tivermos compreendido isto, teremos compreendido também o exercício da misericórdia nele. Sua misericórdia vaza, por assim dizer, de sua substância interior, do ser de Salvação que Ele é. O Deus-Homem só existe assim, para isso: para ser Misericórdia” (Sagrado Coração do homem. Belo Horizonte: O Lutador, 1993, p. 82). Ora, a Mãe da Misericórdia não poderá pedir a seu Filho que derrame profusamente seu próprio ser sobre a humanidade inteira, como se reza nas contas pequenas do Terço da Misericórdia: “Pela vossa dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro”?

Ao pedir isso estamos unidos a toda a Igreja que não faz outra coisa senão implorar a Deus a sua misericórdia sobre nós e sobre toda a humanidade, inclusive àqueles que se dizem nossos inimigos. Afinal, Deus faz brilhar o sol e cair a chuva sobre todos (cf. Mt 5,45) inspirando-nos com isso a sermos menos julgadores e mais tolerantes com as falhas alheias. Mesmo no Antigo Testamento, no qual Javé é apresentado como um Deus que fulmina, a misericórdia está presente. Sim, diante de todos os pecados de seu povo que fizera pacto com deuses estranhos, o Senhor se mostra, apesar de indignado com o pecado, misericordioso para com o pecador, por isso o profeta pode dizer ao povo que Deus “está pronto a compadecer-se de vós, e, perdoando-vos será glorificado na medida em que o Senhor é um Deus de justiça: felizes todos os que esperam nele” (Is 30,18).

No entanto, para entender a grandeza desse Deus misericordioso que escolheu Maria como mãe de seu Filho, não podemos deixar de recorrer à catequese ou ao aprendizado da nossa fé. Como gostava de frisar Dom Estêvão Bettencourt, OSB, monge do Mosteiro São Bento do Rio de Janeiro, falecido em 2008, se é verdade que ninguém ama o que não conhece, será verdade também que mais amaremos o que melhor conhecermos. Para isso é preciso buscar o manancial da fé em boas fontes em nosso dia a dia nas nossas paróquias ou em boas publicações impressas ou eletrônicas. Recordamos sempre a nossa Escola Mater Ecclesiae com seus muitos cursos por correspondência e opúsculos desejosos de ajudar o povo de Deus a crescer na fé e a tirar suas dúvidas nessa mesma área.

Esse tema se faz oportuno em todos os momentos, mas especialmente nestes em que o Papa emérito Bento XVI alertou os bispos suíços em 2006 dizendo que a ignorância religiosa atingira um nível espantoso no mundo, o que, certamente, contribui para o afastamento de Cristo e da Igreja. Afirmava o Pontífice: “Se não se ensinar o ser humano, além de tudo o que é capaz de fazer e tudo o que sua inteligência faz possível, a iluminar sua alma e a ser consciente da força de Deus, ele aprenderá sobretudo a destruir. Por isso, é necessário que se fortaleça nossa responsabilidade missionária: se formos felizes com nossa fé, sentimo-nos obrigados a falar dela aos demais. Depois, está nas mãos de Deus em que medida os homens poderão acolhê-la”.

Bento XVI também abordou a educação católica, afirmando que “uma coisa que a todos preocupa no sentido positivo do termo, é o fato de que a formação teológica dos futuros sacerdotes e de outros professores e anunciadores da fé seja boa; por isso, temos necessidade de boas faculdades teológicas, de bons seminários maiores e de adequados professores de teologia”. Afinal, se não temos quem possa bem orientar os fiéis, onde eles buscarão ajuda em suas dúvidas do dia a dia?

O Papa falou depois da catequese, que se por um lado, “nos últimos cinquenta anos progrediu do ponto de vista metodológico, por outra, perdeu-se muito na antropologia e na busca de pontos de referência, de modo que frequentemente não se chega nem sequer aos conteúdos da fé. Entretanto, é importante que na catequese a fé continue sendo plenamente valorizada e encontrar os modos para que seja compreendida e acolhida, porque a ignorância religiosa alcançou hoje um nível espantoso”.

Possa a Virgem Santíssima que trouxe ao mundo o Verbo de Deus feito carne ajudar-nos a bem catequizarmos, com misericórdia, primeiro por nosso exemplo, depois por nossas palavras, começando nos nossos lugares comuns do dia a dia e depois nas nossas comunidades paroquiais e outros meios dos quais dispomos.

Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Mãe da Misericórdia, rogai por nós!

 

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27/08/2016 13:34 - Atualizado em 27/08/2016 13:35

Neste tempo de peregrinação arquidiocesana a casa de Nossa Senhora, mãe de Deus e nossa mãe, entre nós invocada sobre o título de Aparecida, é o momento de fazermos experiência da misericórdia, cujo Jubileu Extraordinário estamos vivendo.

No dia 27/08, nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro faz sua Romaria anual a Aparecida. São os filhos que se dirigem confiantes à “Casa da Mãe” ou à “capital nacional da fé”, como se tem dito nos últimos tempos, quase que à moda de um bom slogan entre as pessoas em geral, ou seja, não só entre os católicos. Quem vai à Casa da Mãe, muito mais do que fazer um passeio qualquer, tem um propósito religioso de verdadeira peregrinação. Somos peregrinos neste mundo em demanda da pátria definitiva, a Jerusalém do alto, a cidade cujo arquiteto é Deus (cf. Hb 11,10).

O peregrinar religioso tem sua base na própria Bíblia. Significa “uma viagem para um lugar sagrado, empreendida por motivos religiosos, geralmente com a intenção de, em seguida, voltar para a casa” (Dicionário enciclopédico da Bíblia. Petrópolis: Vozes, 1977). Tem como pano de fundo – sem menosprezar a presença e a ação ilimitada de Deus – a ideia de que há lugares privilegiados de manifestações divinas. Tal pensamento perpassa a imensa maioria das grandes religiões.

No Antigo Testamento, vemos que o povo de Israel, a partir dos reis Davi e Salomão, centralizadores do culto em Jerusalém, peregrinava para lá a fim de adorar a Deus no templo (cf. 1Rs 8). Depois, essas peregrinações se diluíram ou se descentralizaram quando, por interesses políticos, Jeroboão II fundou santuários próprios para o Reino do Norte (1Rs 12,26-30), até que, com a queda da Samaria, o rei Josias quis restabelecer a unidade, chamando o povo judeu para celebrar a Páscoa em Jerusalém (cf. 2 Cr 35). Crê-se que alguns Salmos foram compostos nesse contexto de romaria ou peregrinação, como, por exemplo, o Salmo 15: um diálogo, de fundo litúrgico, entre os sacerdotes e romeiros que adentravam ao santuário.

O preceito da Lei judaica era que cada filho de Israel peregrinasse até Jerusalém ao menos três vezes ao ano: Páscoa, Pentecostes e Festa dos Tabernáculos (cf. Êx 23,17; Dt 16). Contudo, 1Sm 1,3 e Lc 2,41 parecem dar a entender que uma romaria anual era suficiente para cumprir o preceito. Já os judeus que habitavam fora das terras de Israel deviam peregrinar para a Cidade Santa ao menos uma vez na vida. Importa notar que em vista da era messiânica, esperava-se que também os não judeus peregrinassem para Jerusalém (cf. Is 2,1-5, por exemplo).

No Novo Testamento, sob outro enfoque, a Carta aos Hebreus fala que somos, neste mundo, peregrinos em demanda da Pátria definitiva, a Jerusalém do alto. Esta forma de “romaria” não se inspira, segundo Vollebregt, na romaria judaica para a Cidade Santa, mas, sim, nas condições sociais dos israelitas como estrangeiros e hóspedes em outras terras, porém sempre esperançosos na certeza da terra prometida por Deus a eles (idem). Como quer que seja, ambas as interpretações nos levam a fazer de nossas romarias não um momento de lazer ou turismo apenas, mas de fé e devoção.

Os cristãos conservaram essa tradição da peregrinação aos lugares da Bíblia, tendo em vista, sobretudo a Terra Santa, conforme os relatos do Novo Testamento: Belém, Nazaré, Jerusalém etc. Desejavam, assim, dar sentido prático àquilo que acima foi exposto com base na fé israelita e cristã.

Ora, no Brasil, o encontro do corpo e depois da cabeça de uma imagem de Nossa Senhora nas águas do Rio Paraíba e os sucessivos sinais que ocorreram (e ocorrem certamente, pois Deus nunca cessa de agir) a partir da própria pesca abundante, imediata ao encontro da imagem, levaram as pessoas a buscar Aparecida como os filhos buscam a Mãe sempre, mas especialmente nas dificuldades. É o desejo de recorrer à intercessão d’Aquela que Deus escolheu para ser a mãe de seu Filho e nos deu também, na pessoa do apóstolo São João, como mãe na cruz (cf. Jo 19,26-27).

Todos os que recorremos a essa Santa Mãe esperamos sua intercessão como em Caná. Lá ela disse: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3). Hoje, ela continua a rogar por nós dizendo ao seu Filho: “eles não têm mais fé, não têm mais amor, não têm mais fraternidade, não têm pão em suas mesas, não têm emprego digno, não têm direito à vida, à saúde de qualidade, à moradia decente, à educação, à segurança, aos valores do evangelho, e tantas outras questões.”. Parece ser isso que vemos Nossa Senhora pedir...

Aproveitando que nesse último domingo de agosto celebramos o Dia do Catequista, também aprofundando o assunto, podemos recordar o que diz o Catecismo da Igreja Católica a respeito do culto a Nossa Senhora: “‘Todas as gerações me chamarão bem-aventurada’ (Lc 1,48): ‘A piedade da Igreja para com a Santíssima Virgem é intrínseca ao culto cristão’ (Marialis Cultus, 56). A Santíssima Virgem ‘é legitimamente honrada com um culto especial pela Igreja. Com efeito, desde remotíssimos tempos, a bem-aventurada Virgem é venerada sob o título de ‘Mãe de Deus’, sob cuja proteção os fiéis se refugiam suplicantes em todos os seus perigos e necessidades. (...) Este culto (...) embora inteiramente singular, difere essencialmente do culto de adoração que se presta ao Verbo encarnado e igualmente ao Pai e ao Espírito Santo, mas o favorece poderosamente’ (Lumen Gentium, 66); este culto encontra sua expressão nas festas litúrgicas dedicadas à Mãe de Deus (cf. Sancrossanctum Concilium, 103) e na oração mariana, tal como o Santo Rosário, ‘resumo de todo o Evangelho’ (cf. Marialis Cultus, 42)”.

Decorre desses dizeres que só há dois tipos de cultos na vida da Igreja: o de latria (= adoração), que se deve apenas a Deus Uno e Trino, e de dulia (= veneração), devido aos (às) santos(as) e anjos. Todavia, no culto geral de dulia são feitas duas subdivisões: o de hiperdulia (= super veneração), é aquele com o qual honramos Nossa Senhora, Mãe de Deus e nossa mãe, e o de protodulia (= primazia de veneração), que é dedicado a São José, o homem escolhido por Deus para ser pai adotivo de Jesus.

Isso posto, lembramo-nos de Maria como a Mãe de misericórdia ou, então, da Misericórdia, que é o próprio Senhor Jesus. Sim, escreve, com propriedade o Padre Paschoal Rangel, SDN, que “A ‘misericórdia’ de Cristo não é só uma questão de ser bondoso, de ter pena ou sentimentos de amor delicado. Há, no caso do Coração de Jesus (ou de Jesus simplesmente), um sentido teológico forte, muito radical, fundado no próprio desígnio de Deus em relação à Encarnação. Por eterna vontade do Pai, o Verbo se encarnou ‘por causa de nós homens e para nossa salvação’ (Símbolo Niceno-Constantinopolitano). A Encarnação tende, por decreto divino, para o perdão do pecado do homem. O Filho teria de ser aquele que ‘tira o pecado do mundo’ (Jo 1,29). Tudo nele é feito para o perdão, a misericórdia. Ele é mais do que aquele que perdoa: Ele é Perdão, o Perdão. Ele é Amor. Por isso, a Misericórdia. Não apenas tem misericórdia. Ele é Misericórdia, porque é Jesus (Yeshuáh, isto é, salvação). Salvador, em Jesus, não é adjetivo. É a sua substância. Seu Ser inteiro”.

“Quando tivermos compreendido isto, teremos compreendido também o exercício da misericórdia nele. Sua misericórdia vaza, por assim dizer, de sua substância interior, do ser de Salvação que Ele é. O Deus-Homem só existe assim, para isso: para ser Misericórdia” (Sagrado Coração do homem. Belo Horizonte: O Lutador, 1993, p. 82). Ora, a Mãe da Misericórdia não poderá pedir a seu Filho que derrame profusamente seu próprio ser sobre a humanidade inteira, como se reza nas contas pequenas do Terço da Misericórdia: “Pela vossa dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro”?

Ao pedir isso estamos unidos a toda a Igreja que não faz outra coisa senão implorar a Deus a sua misericórdia sobre nós e sobre toda a humanidade, inclusive àqueles que se dizem nossos inimigos. Afinal, Deus faz brilhar o sol e cair a chuva sobre todos (cf. Mt 5,45) inspirando-nos com isso a sermos menos julgadores e mais tolerantes com as falhas alheias. Mesmo no Antigo Testamento, no qual Javé é apresentado como um Deus que fulmina, a misericórdia está presente. Sim, diante de todos os pecados de seu povo que fizera pacto com deuses estranhos, o Senhor se mostra, apesar de indignado com o pecado, misericordioso para com o pecador, por isso o profeta pode dizer ao povo que Deus “está pronto a compadecer-se de vós, e, perdoando-vos será glorificado na medida em que o Senhor é um Deus de justiça: felizes todos os que esperam nele” (Is 30,18).

No entanto, para entender a grandeza desse Deus misericordioso que escolheu Maria como mãe de seu Filho, não podemos deixar de recorrer à catequese ou ao aprendizado da nossa fé. Como gostava de frisar Dom Estêvão Bettencourt, OSB, monge do Mosteiro São Bento do Rio de Janeiro, falecido em 2008, se é verdade que ninguém ama o que não conhece, será verdade também que mais amaremos o que melhor conhecermos. Para isso é preciso buscar o manancial da fé em boas fontes em nosso dia a dia nas nossas paróquias ou em boas publicações impressas ou eletrônicas. Recordamos sempre a nossa Escola Mater Ecclesiae com seus muitos cursos por correspondência e opúsculos desejosos de ajudar o povo de Deus a crescer na fé e a tirar suas dúvidas nessa mesma área.

Esse tema se faz oportuno em todos os momentos, mas especialmente nestes em que o Papa emérito Bento XVI alertou os bispos suíços em 2006 dizendo que a ignorância religiosa atingira um nível espantoso no mundo, o que, certamente, contribui para o afastamento de Cristo e da Igreja. Afirmava o Pontífice: “Se não se ensinar o ser humano, além de tudo o que é capaz de fazer e tudo o que sua inteligência faz possível, a iluminar sua alma e a ser consciente da força de Deus, ele aprenderá sobretudo a destruir. Por isso, é necessário que se fortaleça nossa responsabilidade missionária: se formos felizes com nossa fé, sentimo-nos obrigados a falar dela aos demais. Depois, está nas mãos de Deus em que medida os homens poderão acolhê-la”.

Bento XVI também abordou a educação católica, afirmando que “uma coisa que a todos preocupa no sentido positivo do termo, é o fato de que a formação teológica dos futuros sacerdotes e de outros professores e anunciadores da fé seja boa; por isso, temos necessidade de boas faculdades teológicas, de bons seminários maiores e de adequados professores de teologia”. Afinal, se não temos quem possa bem orientar os fiéis, onde eles buscarão ajuda em suas dúvidas do dia a dia?

O Papa falou depois da catequese, que se por um lado, “nos últimos cinquenta anos progrediu do ponto de vista metodológico, por outra, perdeu-se muito na antropologia e na busca de pontos de referência, de modo que frequentemente não se chega nem sequer aos conteúdos da fé. Entretanto, é importante que na catequese a fé continue sendo plenamente valorizada e encontrar os modos para que seja compreendida e acolhida, porque a ignorância religiosa alcançou hoje um nível espantoso”.

Possa a Virgem Santíssima que trouxe ao mundo o Verbo de Deus feito carne ajudar-nos a bem catequizarmos, com misericórdia, primeiro por nosso exemplo, depois por nossas palavras, começando nos nossos lugares comuns do dia a dia e depois nas nossas comunidades paroquiais e outros meios dos quais dispomos.

Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Mãe da Misericórdia, rogai por nós!

 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro