Arquidiocese do Rio de Janeiro

33º 18º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 24/05/2019

24 de Maio de 2019

As Olimpíadas e o nosso tempo

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As Olimpíadas e o nosso tempo

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20/08/2016 00:00 - Atualizado em 22/08/2016 10:38

As Olimpíadas e o nosso tempo 0

20/08/2016 00:00 - Atualizado em 22/08/2016 10:38

Neste domingo concluem-se aqui no Rio de Janeiro os Jogos Olímpicos. Daqui a alguns dias iniciaremos os Jogos Paralímpicos. As Olimpíadas são disputas esportivas de várias modalidades, que acontecem a cada quatro anos em determinado país que tem uma cidade escolhida como sede desses jogos.

É importante meditarmos sobre esse acontecimento por dois principais pontos: sua origem, na Grécia antiga, tem um forte substrato religioso, e as disputas atléticas ensinam o cristão a praticar a ascese, a fim de melhor se purificar do pecado e chegar, com a graça de Deus, à santidade.

É preciso entender que os gregos eram, em sua religião, politeístas – tinham vários deuses ou divindades. Contudo, essa religião era antropomórfica (anthropos = homem / morphè = forma), de modo que os deuses tinham as mesmas virtudes ou fraquezas dos seres humanos e, embora fossem imortais, não podiam fugir do destino fatal a atingir os deuses e os seres humanos. A maioria desses deuses habitava no mais alto ponto do monte Olimpo, salvo Poseidon, habitante do mar, e Hades, o deus do inferno, a reinar no centro da terra. (A. Souto Maior. História Geral. 15ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1972, p. 97-99).

Ora, nesse contexto de muitos deuses particulares, cada ser humano se sentia chamado a desenvolver, de forma individual, alguma qualidade capaz de levá-lo a distinguir-se dos demais. Eis os jogos que, realizados ou não em equipe, eram capazes de revelar, diríamos hoje, talentos pessoais, às vezes um tanto individualistas.

Pois bem, para tentar suprir aquilo de mau ou de “menos bom” que o ego inflado de cada um poderia trazer à sociedade da época se recorria a princípios religiosos. Sim, os concorrentes ofereciam seus esforços de treinos e de disputa à divindade, de modo que ser vencedor parecia não se dever apenas ao esforço próprio, mas à oferta desse mesmo esforço a um deus. A oferta teria sido bem aceita, caso se vencesse. Outro ponto era o aspecto moral, dado que quem fraudasse a competição e fosse descoberto seria expulso, ficando fora da competição junto aos sacrílegos e assassinos.

Era sob esse pano de fundo que se entendia o prêmio: uma coroa de folhas, que por si mesma não tinha valor financeiro algum, mas trazia um sentido ético muito forte: atestava que o competidor conseguira a vitória. Tinha como provar ter sido vencedor por duas razões: recebera ajuda da divindade a quem oferecera a disputa, e coroara seu próprio esforço de treinos exaustivos a fim de conseguir o prêmio esperado.

Há ainda o aspecto da cidade ou da valorização do cidadão – mesmo que entre os gregos antigos esse conceito não seja o mesmo de hoje – como membro de um povo, de uma cidade. Consequentemente, sua vitória exaltava o nome daquela terra onde ele nasceu e foi criado, e isso era uma glória ao seu povo: ter um filho ilustre a se destacar nas competições esportivas nada fáceis.

Esse modelo de competição, tendo sempre por base a religião, se espalhou, de modo que as mais antigas e famosas são as de Olímpia, realizadas de quatro em quatro anos, no Vale do Peloponeso, em honra a Zeus Olímpico, divindade grega. Teriam sido instituídas em 776 a. C. e foram se espalhando pela Grécia e Ásia e, por fim, a todo Ocidente. Ao lado da crescente difusão dos locais, aparecem também as modalidades variadas de provas: corridas a pé, mais tarde de carros, tendo como centro algum dos santuários dedicados a um dos deuses gregos. Destacam-se como muito concorridas as disputas em honra de Poseidon no ístimo de Corinto; o de Zeus de Neméia, entre Corinto e Argos, e de Apolo em Delfos, nestes foram adicionadas provas musicais às competições, além de outras disputas particulares pela Grécia.

Tais competições esportivas envolviam muitas pessoas e deixavam uma espécie de legado social, se não no plano material, no aspecto moral, de forma que havia uma “trégua sagrada” e todo grego, exceto os escravos, tinham direito a participar dos eventos. Era uma forma de demonstrar a superioridade, unidade e igualdade helênica em relação a outros povos, especialmente os considerados bárbaros, que nunca conseguiam semelhante feito. (cf. André Aymard e Jeannine Auboyer. O Oriente e a Grécia antiga. 3ª ed. 2º volume. Tomo I. São Paulo: DEL, 1962, p. 75-76. Col. História Geral das Civilizações).

Até hoje se conservou a ideia de valorizar o legado das disputas: o moral, que seria a acolhida e a união de povos tão diversos em grande harmonia, e o social,a ser deixado para a cidade-sede. De um modo especial, espera-se – não obstante notícias de déficit dos benefícios que as Olimpíadas deixarão (cf. Santuário, agosto, 2016, p. 5) –, um legado material muito favorecedor aos mais necessitados de saúde, educação, habitação, segurança, saneamento básico, transportes públicos etc. Os dias pós-olímpicos nos permitirão medir o alcance desse tão falado legado material.

Ao cristão, no entanto, é motivo de reflexão teológica não, talvez, o evento em si também revestido de grande beleza, mas, sim, a preparação dos atletas, pois lhe recorda o firme compromisso de estar sempre preparado para o encontro com o Senhor Jesus, seja no arremate final da História, seja no momento de sua passagem para a eternidade. O próprio Cristo nos alerta a essa vigilância (cf. Mc 13,33).

Daí, caber aqui o que diz São Paulo, o grande Apóstolo dos povos, ao comparar os atletas olímpicos aos cristãos: “Os atletas se abstêm de tudo; eles, para ganharem uma coroa perecível; nós, porém, para ganharmos uma coroa imperecível. Quanto a mim, é assim que corro, não ao incerto; é assim que pratico o pugilato, mas não como quem fere o ar. Trato duramente meu corpo e reduzo-o à servidão, a fim de que não aconteça que, tendo proclamado a mensagem aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado” (1Cor 9,25-27).

O contexto de Paulo é claríssimo. Ele, usando vocabulário esportivo de então, mas válido também hoje, demonstra o esforço dos atletas (dietas alimentares, viagens, treinos pesados, exames médicos rigorosos etc.) a fim de ganharem uma coroa... Coroa muito bela, mas que, além de não ter valor à época – hoje, as medalhas, além do simbólico, também têm valor monetário –, é perecível.

Em outras palavras: são objetos que a ferrugem corrói (cf. Mt 6,19-21), mas os cristãos devem batalhar pela coroa imperecível, que é a da vida eterna. Paulo mesmo faz isso, luta contra suas más tendências a fim de ser um homem bom e santo a serviço de Deus e dos irmãos e irmãs. E mais: diz que se não nos esforçarmos como os atletas, corremos o risco de pregar a Palavra de Deus aos outros e de ficarmos deserdados, por nosso próprio comodismo, da bem-aventurança celeste.

Certo é que, em um mundo voltado para o bem-estar material facilmente prometido como prosperidade a ser alcançada, essa mensagem pode parecer muito forte ou fora de contexto, mas, ao contrário, ela é real e válida sempre. Não pode haver Cristo sem Cruz, nem há cristianismo sem Cruz... Ficar apenas na glória do Tabor é um engano muito grande (cf. Mt 17,4), pois o Senhor Jesus nunca esconde a Seus seguidores que é dever de cada um tomar a Cruz de cada dia e segui-Lo (cf. Mc 8,34).

Na conclusão desta fase das Olimpíadas aqui no Rio de Janeiro, somos convidados a várias reflexões, entre as quais essa para nós cristãos. Sejamos coerentes com o nome de cristãos e vençamos nossas barreiras a fim de alcançarmos a coroa imperecível, pois, em Cristo, já somos mais que vencedores (cf. Rm 8,37).

 

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20/08/2016 00:00 - Atualizado em 22/08/2016 10:38

Neste domingo concluem-se aqui no Rio de Janeiro os Jogos Olímpicos. Daqui a alguns dias iniciaremos os Jogos Paralímpicos. As Olimpíadas são disputas esportivas de várias modalidades, que acontecem a cada quatro anos em determinado país que tem uma cidade escolhida como sede desses jogos.

É importante meditarmos sobre esse acontecimento por dois principais pontos: sua origem, na Grécia antiga, tem um forte substrato religioso, e as disputas atléticas ensinam o cristão a praticar a ascese, a fim de melhor se purificar do pecado e chegar, com a graça de Deus, à santidade.

É preciso entender que os gregos eram, em sua religião, politeístas – tinham vários deuses ou divindades. Contudo, essa religião era antropomórfica (anthropos = homem / morphè = forma), de modo que os deuses tinham as mesmas virtudes ou fraquezas dos seres humanos e, embora fossem imortais, não podiam fugir do destino fatal a atingir os deuses e os seres humanos. A maioria desses deuses habitava no mais alto ponto do monte Olimpo, salvo Poseidon, habitante do mar, e Hades, o deus do inferno, a reinar no centro da terra. (A. Souto Maior. História Geral. 15ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1972, p. 97-99).

Ora, nesse contexto de muitos deuses particulares, cada ser humano se sentia chamado a desenvolver, de forma individual, alguma qualidade capaz de levá-lo a distinguir-se dos demais. Eis os jogos que, realizados ou não em equipe, eram capazes de revelar, diríamos hoje, talentos pessoais, às vezes um tanto individualistas.

Pois bem, para tentar suprir aquilo de mau ou de “menos bom” que o ego inflado de cada um poderia trazer à sociedade da época se recorria a princípios religiosos. Sim, os concorrentes ofereciam seus esforços de treinos e de disputa à divindade, de modo que ser vencedor parecia não se dever apenas ao esforço próprio, mas à oferta desse mesmo esforço a um deus. A oferta teria sido bem aceita, caso se vencesse. Outro ponto era o aspecto moral, dado que quem fraudasse a competição e fosse descoberto seria expulso, ficando fora da competição junto aos sacrílegos e assassinos.

Era sob esse pano de fundo que se entendia o prêmio: uma coroa de folhas, que por si mesma não tinha valor financeiro algum, mas trazia um sentido ético muito forte: atestava que o competidor conseguira a vitória. Tinha como provar ter sido vencedor por duas razões: recebera ajuda da divindade a quem oferecera a disputa, e coroara seu próprio esforço de treinos exaustivos a fim de conseguir o prêmio esperado.

Há ainda o aspecto da cidade ou da valorização do cidadão – mesmo que entre os gregos antigos esse conceito não seja o mesmo de hoje – como membro de um povo, de uma cidade. Consequentemente, sua vitória exaltava o nome daquela terra onde ele nasceu e foi criado, e isso era uma glória ao seu povo: ter um filho ilustre a se destacar nas competições esportivas nada fáceis.

Esse modelo de competição, tendo sempre por base a religião, se espalhou, de modo que as mais antigas e famosas são as de Olímpia, realizadas de quatro em quatro anos, no Vale do Peloponeso, em honra a Zeus Olímpico, divindade grega. Teriam sido instituídas em 776 a. C. e foram se espalhando pela Grécia e Ásia e, por fim, a todo Ocidente. Ao lado da crescente difusão dos locais, aparecem também as modalidades variadas de provas: corridas a pé, mais tarde de carros, tendo como centro algum dos santuários dedicados a um dos deuses gregos. Destacam-se como muito concorridas as disputas em honra de Poseidon no ístimo de Corinto; o de Zeus de Neméia, entre Corinto e Argos, e de Apolo em Delfos, nestes foram adicionadas provas musicais às competições, além de outras disputas particulares pela Grécia.

Tais competições esportivas envolviam muitas pessoas e deixavam uma espécie de legado social, se não no plano material, no aspecto moral, de forma que havia uma “trégua sagrada” e todo grego, exceto os escravos, tinham direito a participar dos eventos. Era uma forma de demonstrar a superioridade, unidade e igualdade helênica em relação a outros povos, especialmente os considerados bárbaros, que nunca conseguiam semelhante feito. (cf. André Aymard e Jeannine Auboyer. O Oriente e a Grécia antiga. 3ª ed. 2º volume. Tomo I. São Paulo: DEL, 1962, p. 75-76. Col. História Geral das Civilizações).

Até hoje se conservou a ideia de valorizar o legado das disputas: o moral, que seria a acolhida e a união de povos tão diversos em grande harmonia, e o social,a ser deixado para a cidade-sede. De um modo especial, espera-se – não obstante notícias de déficit dos benefícios que as Olimpíadas deixarão (cf. Santuário, agosto, 2016, p. 5) –, um legado material muito favorecedor aos mais necessitados de saúde, educação, habitação, segurança, saneamento básico, transportes públicos etc. Os dias pós-olímpicos nos permitirão medir o alcance desse tão falado legado material.

Ao cristão, no entanto, é motivo de reflexão teológica não, talvez, o evento em si também revestido de grande beleza, mas, sim, a preparação dos atletas, pois lhe recorda o firme compromisso de estar sempre preparado para o encontro com o Senhor Jesus, seja no arremate final da História, seja no momento de sua passagem para a eternidade. O próprio Cristo nos alerta a essa vigilância (cf. Mc 13,33).

Daí, caber aqui o que diz São Paulo, o grande Apóstolo dos povos, ao comparar os atletas olímpicos aos cristãos: “Os atletas se abstêm de tudo; eles, para ganharem uma coroa perecível; nós, porém, para ganharmos uma coroa imperecível. Quanto a mim, é assim que corro, não ao incerto; é assim que pratico o pugilato, mas não como quem fere o ar. Trato duramente meu corpo e reduzo-o à servidão, a fim de que não aconteça que, tendo proclamado a mensagem aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado” (1Cor 9,25-27).

O contexto de Paulo é claríssimo. Ele, usando vocabulário esportivo de então, mas válido também hoje, demonstra o esforço dos atletas (dietas alimentares, viagens, treinos pesados, exames médicos rigorosos etc.) a fim de ganharem uma coroa... Coroa muito bela, mas que, além de não ter valor à época – hoje, as medalhas, além do simbólico, também têm valor monetário –, é perecível.

Em outras palavras: são objetos que a ferrugem corrói (cf. Mt 6,19-21), mas os cristãos devem batalhar pela coroa imperecível, que é a da vida eterna. Paulo mesmo faz isso, luta contra suas más tendências a fim de ser um homem bom e santo a serviço de Deus e dos irmãos e irmãs. E mais: diz que se não nos esforçarmos como os atletas, corremos o risco de pregar a Palavra de Deus aos outros e de ficarmos deserdados, por nosso próprio comodismo, da bem-aventurança celeste.

Certo é que, em um mundo voltado para o bem-estar material facilmente prometido como prosperidade a ser alcançada, essa mensagem pode parecer muito forte ou fora de contexto, mas, ao contrário, ela é real e válida sempre. Não pode haver Cristo sem Cruz, nem há cristianismo sem Cruz... Ficar apenas na glória do Tabor é um engano muito grande (cf. Mt 17,4), pois o Senhor Jesus nunca esconde a Seus seguidores que é dever de cada um tomar a Cruz de cada dia e segui-Lo (cf. Mc 8,34).

Na conclusão desta fase das Olimpíadas aqui no Rio de Janeiro, somos convidados a várias reflexões, entre as quais essa para nós cristãos. Sejamos coerentes com o nome de cristãos e vençamos nossas barreiras a fim de alcançarmos a coroa imperecível, pois, em Cristo, já somos mais que vencedores (cf. Rm 8,37).

 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro