Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 10/12/2018

10 de Dezembro de 2018

Ousadia para anunciar o Evangelho

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Ousadia para anunciar o Evangelho

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12/08/2016 00:00 - Atualizado em 13/08/2016 18:59

Ousadia para anunciar o Evangelho 0

12/08/2016 00:00 - Atualizado em 13/08/2016 18:59

Neste 20º Domingo do Tempo Comum nossa reflexão poderia começar pela oração “coleta”, afinal estes textos eucológicos são uma grande riqueza que nos legou a grande Tradição da Igreja. A oração coleta de hoje diz: “Ó Deus, preparastes para quem vos ama bens que nossos olhos não podem ver; acendei em nossos corações a chama da caridade para que, amando-vos em tudo e acima de tudo, corramos ao encontro das vossas promessas que superam todo desejo.”

Deus preparou para nós grandes bens; bens que nossos olhos “ainda não podem ver”. Nós esperamos, na fé, receber esses bens, pois, como afirmava a primeira leitura da semana passada, Hb 11,1, “A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se vêem.” Nós “ainda não vemos” tais bens que Deus preparou para nós, mas já acreditamos possui-los, pois temos “fé”. Sabemos, todavia, que para alcançar tais bens precisamos perseverar nessa mesma fé e isso não podemos fazer sozinhos, precisamos do auxílio divino. Por isso, a mesma oração coleta faz com que o sacerdote peça em favor de toda a assembleia: “acendei em nossos corações a chama da caridade”; de fato, só tendo acesa a chama da caridade em nossos corações poderemos permanecer na fé e corrermos de modo a alcançarmos a coroa da vida que o Senhor reservou para nós.

Mas, que “chama da caridade” é essa da qual fala a oração coleta? Esta com certeza não é outra senão o Espírito Santo do Senhor. Neste ponto, poderíamos conectar a oração coleta com o texto do evangelho.

O evangelho começa com uma sentença de Jesus que pode ser entendida de diversos modos: “Eu vim lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!”. Nesse primeiro versículo Jesus fala que veio lançar “fogo” sobre a terra. Mas, de que fogo o Senhor Jesus está falando?[1]

Em geral, se compreende de três modos essa sentença:

a)      O fogo seria uma imagem do juízo de Deus;

b)      O fogo seria o próprio anúncio da boa nova;

c)       O fogo seria o Espírito Santo derramado no coração dos fiéis.

Alguns autores preferem o terceiro sentido, ou seja, tratar-se-ia do fogo do Espírito Santo que Jesus sabe que, a partir de Pentecostes, será derramado sobre os fiéis.[2] Esse parece ser o sentido mais lógico, primeiro por ser Lucas o evangelista que mais dá destaque à ação do Espírito Santo; depois porque a segunda parte do v. 49 afirma “...e como gostaria que já estivesse aceso”. De fato, era desejo expresso de Jesus derramar seu Espírito sobre toda carne.

Esse desejo do Senhor se cumpriu em Pentecostes e agora, a partir do nosso Batismo, esta “chama da caridade” da qual falava a oração coleta, está acesa em nossos corações. O que nos impede, então, de amar a Deus “em tudo” e “acima de tudo” e de “correr ao encontro das suas promessas”? Talvez seja a estreiteza do nosso coração que não tenha ainda se deixado alargar pelo calor que nele quer produzir o Espírito Santo do Senhor.

O evangelho contudo, continua, no v. 50, com uma afirmação que Jesus faz a respeito do seu próprio destino: “Devo receber um batismo, e como estou ansioso até que ele se cumpra!”

A imagem do batismo aqui nos recorda o evangelho de Mc 10, 35-40. Neste evangelho Tiago e João, os filhos de Zebedeu, pedem para se sentar um a direita e outro a esquerda de Jesus, quando Ele vier em seu Reino. Jesus vai responder-lhes dizendo: “Não sabeis o que estais pedindo.” Em seguida Jesus vai se utilizar da imagem do cálice e do batismo para falar da sua paixão e daquela paixão que, mais tarde, os discípulos também sofrerão por causa do seu Nome (cf. Mc 10, 38-39).

Aqui no texto de Lucas este “batismo” significa, pois, a paixão do Mestre. E Jesus está ansioso para que a sua paixão se cumpra, pois afinal, é através dela que o fogo que Ele veio lançar à terra, será definitivamente aceso, ou seja, passando pela morte e ressuscitando, o Senhor completará o seu Mistério Pascal enviando sobre a Igreja o Espírito Santo, fogo abrasador, que conduzirá os homens à verdade e que tornará o Ressuscitado sempre misticamente presente no meio dos seus.

Contudo, uma vez ateado o fogo do Espírito Santo, também uma divisão se estabelecerá. O fogo do Espírito vai impelir aqueles que o receberem a anunciar com ousadia a boa nova do Evangelho. O Evangelho é vida e paz, contudo, aqueles que não o querem receber, fazem guerra contra aqueles que o anunciam. É neste sentido que podemos entender os vv. 51-53 da perícope evangélica desse domingo.

Assim como o profeta Jeremias, que quase é morto na primeira leitura, também os cristãos que, cheios do fogo do Espírito Santo, forem anunciar a boa nova de Jesus serão perseguidos e, até mesmo dentro das casas, se estabelecerá a divisão.

Quanto já ouvimos na história do cristianismo a respeito de pais que entregaram seus filhos à morte por serem cristãos... Ainda hoje a história se repete. A oposição ao evangelho continua dividindo pessoas e famílias inteiras. Muitas vezes a violência física não acontece, mas quanta violência psicológica sofrem aqueles que querem seguir o evangelho. Nos tornamos, muitas vezes, motivo de anedotas para um mundo que anda descrente...

Todavia, a perseguição não deve ser ocasião de desânimo. Assim como o Senhor estava com Jeremias, livrando-o de tantas perseguições, o Senhor também está conosco. Nos momentos difíceis, devemos rezar com o Salmo 39, salmo responsorial dessa liturgia dominical: “Socorrei-me, ó Senhor, vinde logo em meu auxílio!” O Senhor nunca nos abandona. Ainda que tenhamos de experimentar grandes sofrimentos e talvez até mesmo o martírio por causa do seu Nome, nós nunca estaremos sozinhos. Ele está ao nosso lado, sempre! Ele nos dará o prêmio por termos completado a corrida; ele nos dará bens que, como diz a oração coleta, “superam nosso desejo”.

A segunda leitura, embora não seja, como a primeira, estreitamente ligada ao evangelho, nos ajuda hoje, contudo, a percebermos de onde pode nos vir a força para suportarmos as tribulações: “ter os olhos sempre fixos em Jesus!” O autor da carta aos Hebreus nos apresenta o Cristo como sumo modelo de perseverança diante das tribulações. Motivado pela “alegria” que lhe fora proposta, nosso Senhor suportou a cruz e agora está assentado à direita do Pai. Assim também nós, tendo os olhos fixos em Jesus, não devemos nos deixar abater pelo desânimo, mas devemos caminhar perseverantes, à espera de alcançar um dia, também nós, a recompensa que nos está reservada junto do Pai.



[1] Bovon, 426-429

[2] Bovon, 428.


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12/08/2016 00:00 - Atualizado em 13/08/2016 18:59

Neste 20º Domingo do Tempo Comum nossa reflexão poderia começar pela oração “coleta”, afinal estes textos eucológicos são uma grande riqueza que nos legou a grande Tradição da Igreja. A oração coleta de hoje diz: “Ó Deus, preparastes para quem vos ama bens que nossos olhos não podem ver; acendei em nossos corações a chama da caridade para que, amando-vos em tudo e acima de tudo, corramos ao encontro das vossas promessas que superam todo desejo.”

Deus preparou para nós grandes bens; bens que nossos olhos “ainda não podem ver”. Nós esperamos, na fé, receber esses bens, pois, como afirmava a primeira leitura da semana passada, Hb 11,1, “A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se vêem.” Nós “ainda não vemos” tais bens que Deus preparou para nós, mas já acreditamos possui-los, pois temos “fé”. Sabemos, todavia, que para alcançar tais bens precisamos perseverar nessa mesma fé e isso não podemos fazer sozinhos, precisamos do auxílio divino. Por isso, a mesma oração coleta faz com que o sacerdote peça em favor de toda a assembleia: “acendei em nossos corações a chama da caridade”; de fato, só tendo acesa a chama da caridade em nossos corações poderemos permanecer na fé e corrermos de modo a alcançarmos a coroa da vida que o Senhor reservou para nós.

Mas, que “chama da caridade” é essa da qual fala a oração coleta? Esta com certeza não é outra senão o Espírito Santo do Senhor. Neste ponto, poderíamos conectar a oração coleta com o texto do evangelho.

O evangelho começa com uma sentença de Jesus que pode ser entendida de diversos modos: “Eu vim lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!”. Nesse primeiro versículo Jesus fala que veio lançar “fogo” sobre a terra. Mas, de que fogo o Senhor Jesus está falando?[1]

Em geral, se compreende de três modos essa sentença:

a)      O fogo seria uma imagem do juízo de Deus;

b)      O fogo seria o próprio anúncio da boa nova;

c)       O fogo seria o Espírito Santo derramado no coração dos fiéis.

Alguns autores preferem o terceiro sentido, ou seja, tratar-se-ia do fogo do Espírito Santo que Jesus sabe que, a partir de Pentecostes, será derramado sobre os fiéis.[2] Esse parece ser o sentido mais lógico, primeiro por ser Lucas o evangelista que mais dá destaque à ação do Espírito Santo; depois porque a segunda parte do v. 49 afirma “...e como gostaria que já estivesse aceso”. De fato, era desejo expresso de Jesus derramar seu Espírito sobre toda carne.

Esse desejo do Senhor se cumpriu em Pentecostes e agora, a partir do nosso Batismo, esta “chama da caridade” da qual falava a oração coleta, está acesa em nossos corações. O que nos impede, então, de amar a Deus “em tudo” e “acima de tudo” e de “correr ao encontro das suas promessas”? Talvez seja a estreiteza do nosso coração que não tenha ainda se deixado alargar pelo calor que nele quer produzir o Espírito Santo do Senhor.

O evangelho contudo, continua, no v. 50, com uma afirmação que Jesus faz a respeito do seu próprio destino: “Devo receber um batismo, e como estou ansioso até que ele se cumpra!”

A imagem do batismo aqui nos recorda o evangelho de Mc 10, 35-40. Neste evangelho Tiago e João, os filhos de Zebedeu, pedem para se sentar um a direita e outro a esquerda de Jesus, quando Ele vier em seu Reino. Jesus vai responder-lhes dizendo: “Não sabeis o que estais pedindo.” Em seguida Jesus vai se utilizar da imagem do cálice e do batismo para falar da sua paixão e daquela paixão que, mais tarde, os discípulos também sofrerão por causa do seu Nome (cf. Mc 10, 38-39).

Aqui no texto de Lucas este “batismo” significa, pois, a paixão do Mestre. E Jesus está ansioso para que a sua paixão se cumpra, pois afinal, é através dela que o fogo que Ele veio lançar à terra, será definitivamente aceso, ou seja, passando pela morte e ressuscitando, o Senhor completará o seu Mistério Pascal enviando sobre a Igreja o Espírito Santo, fogo abrasador, que conduzirá os homens à verdade e que tornará o Ressuscitado sempre misticamente presente no meio dos seus.

Contudo, uma vez ateado o fogo do Espírito Santo, também uma divisão se estabelecerá. O fogo do Espírito vai impelir aqueles que o receberem a anunciar com ousadia a boa nova do Evangelho. O Evangelho é vida e paz, contudo, aqueles que não o querem receber, fazem guerra contra aqueles que o anunciam. É neste sentido que podemos entender os vv. 51-53 da perícope evangélica desse domingo.

Assim como o profeta Jeremias, que quase é morto na primeira leitura, também os cristãos que, cheios do fogo do Espírito Santo, forem anunciar a boa nova de Jesus serão perseguidos e, até mesmo dentro das casas, se estabelecerá a divisão.

Quanto já ouvimos na história do cristianismo a respeito de pais que entregaram seus filhos à morte por serem cristãos... Ainda hoje a história se repete. A oposição ao evangelho continua dividindo pessoas e famílias inteiras. Muitas vezes a violência física não acontece, mas quanta violência psicológica sofrem aqueles que querem seguir o evangelho. Nos tornamos, muitas vezes, motivo de anedotas para um mundo que anda descrente...

Todavia, a perseguição não deve ser ocasião de desânimo. Assim como o Senhor estava com Jeremias, livrando-o de tantas perseguições, o Senhor também está conosco. Nos momentos difíceis, devemos rezar com o Salmo 39, salmo responsorial dessa liturgia dominical: “Socorrei-me, ó Senhor, vinde logo em meu auxílio!” O Senhor nunca nos abandona. Ainda que tenhamos de experimentar grandes sofrimentos e talvez até mesmo o martírio por causa do seu Nome, nós nunca estaremos sozinhos. Ele está ao nosso lado, sempre! Ele nos dará o prêmio por termos completado a corrida; ele nos dará bens que, como diz a oração coleta, “superam nosso desejo”.

A segunda leitura, embora não seja, como a primeira, estreitamente ligada ao evangelho, nos ajuda hoje, contudo, a percebermos de onde pode nos vir a força para suportarmos as tribulações: “ter os olhos sempre fixos em Jesus!” O autor da carta aos Hebreus nos apresenta o Cristo como sumo modelo de perseverança diante das tribulações. Motivado pela “alegria” que lhe fora proposta, nosso Senhor suportou a cruz e agora está assentado à direita do Pai. Assim também nós, tendo os olhos fixos em Jesus, não devemos nos deixar abater pelo desânimo, mas devemos caminhar perseverantes, à espera de alcançar um dia, também nós, a recompensa que nos está reservada junto do Pai.



[1] Bovon, 426-429

[2] Bovon, 428.


Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida