Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/09/2017

23 de Setembro de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (55): Interpretação e tradução da Bíblia

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23 de Setembro de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (55): Interpretação e tradução da Bíblia

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05/08/2016 13:52 - Atualizado em 05/08/2016 13:52

A Palavra de Deus na Bíblia (55): Interpretação e tradução da Bíblia 0

05/08/2016 13:52 - Atualizado em 05/08/2016 13:52

No artigo anterior, destacamos no contexto da Unidade “Sentido da Escritura inspirada” do documento “A Interpretação da Bíblia na Igreja” o tríplice nível de sentido das Sagradas Escrituras: literal, espiritual e pleno, que agora daremos continuidade.

Sobre o primeiro sentido, dito literal, a Igreja afirma-lhe a importância e precedência sobre os outros:

O sentido literal de um texto é único? Geralmente, sim, mas não se trata aqui de um princípio absoluto, e isso por duas razões.

De um lado, um autor humano pode querer se referir ao mesmo tempo a vários níveis de realidade. O caso é comum em poesia. A inspiração bíblica não desdenha esta possibilidade da psicologia e da linguagem humana; o IV Evangelho fornece numerosos exemplos disto.

De outro lado, mesmo quando uma expressão humana parece ter um único significado, a inspiração divina pode guiar a expressão de maneira a produzir uma ambivalência. Este é o caso da palavra de Caifás em Jo 11,501.

Ela exprime ao mesmo tempo um cálculo político imoral e uma revelação divina. Estes dois aspectos pertencem um e outro ao sentido literal, pois eles são, os dois, colocados em evidência pelo contexto. Se bem que ele seja extremo, este caso é significativo; ele deve advertir contra uma concepção muito estrita do sentido literal dos textos inspirados2.

Convém particularmente estar atento ao aspecto dinâmico de muitos textos. O sentido dos salmos reais, por exemplo, não deve estar limitado estritamente às circunstâncias históricas da produção deles.

Falando do rei, o salmista evocava ao mesmo tempo uma instituição verdadeira e uma visão ideal da realeza, conforme o plano de Deus, de maneira que seu texto ultrapassava a instituição real tal como ela tinha se manifestado na história.

A exegese histórico-crítica teve muitas vezes a tendência de fixar o sentido dos textos, ligando-o exclusivamente a circunstâncias históricas precisas.

Ela deve antes de tudo procurar determinar a direção do pensamento expresso pelo texto, direção que, ao invés de convidar o exegeta a fixar o sentido, sugere-lhe, ao contrário, de perceber seu desenvolvimento mais ou menos previsível.

Uma corrente da hermenêutica moderna sublinhou a diferença de estatuto que afeta a palavra humana logo que ela é colocada por escrito. Um texto escrito tem a capacidade de ser colocado em circunstancias novas, que o iluminam de maneiras diferentes, acrescentando ao seu sentido novas determinações. Esta capacidade do texto escrito é especialmente efetiva no caso dos textos bíblicos, reconhecidos como Palavra de Deus3.

Efetivamente, o que levou a comunidade de fiéis a conservá-los foi a convicção que eles continuariam a ser portadores de luz e de vida para as gerações vindouras. O sentido literal é, desde o início, aberto a desenvolvimentos ulteriores, que se produzem graças a ‘releituras’ em contextos novos.

Neste sentido explicou-se a diferença do valor da busca do sentido literal do texto bíblico e da abordagem literalista, de matiz fundamentalista, que isola o texto na aparente tradução literalista, letra a letra, o que somado, não obtém ao leitor o sentido profundo do texto.

Não se deve concluir que se possa atribuir a um texto bíblico qualquer sentido, interpretando-o de maneira subjetiva. E preciso, ao contrário, rejeitar como inautêntica toda interpretação que seja heterogênea ao sentido expresso pelos autores humanos e no texto escrito por eles. Admitir sentidos heterogêneos equivaleria a cortar a mensagem bíblica de sua raiz, que é a Palavra de Deus comunicada historicamente, e a abrir a porta a um subjetivismo incontrolável4.

2. Sentido espiritual

Não é o caso, no entanto, de tomar ‘heterogêneo’ em um sentido estrito, contrário a toda possibilidade de realização superior. O acontecimento pascal, morte e ressurreição de Jesus, deu origem a um contexto histórico radicalmente novo, que ilumina de maneira nova os textos antigos e os faz sofrer uma mutação de sentido.

Particularmente certos textos que nas antigas circunstancias deveriam ser considerados como hipérboles (por exemplo, o oráculo onde Deus, falando de um filho de Davi, prometia afirmar ‘para sempre’ seu trono: 2Sam 7,12-13; 1 Cron 17,11-14), doravante esses textos devem ser tomados ao pé da letra, porque o “Cristo, tendo ressuscitado dentre os mortos, já não morre” (Rom 6,9).

Os exegetas que têm uma noção limitada, «histórica», do sentido literal estimarão que aqui há heterogeneidade. Aqueles que são abertos ao aspecto dinâmico dos textos reconhecerão uma continuidade profunda ao mesmo tempo em que uma passagem a um nível diferente: o Cristo reina para sempre, mas não sobre o trono terrestre de Davi (cf. também Sal 2,7-8; 110,1.4).

Nos casos desse gênero, fala-se de ‘sentido espiritual’.

Em regra geral, pode-se definir o sentido espiritual, entendido segundo a fé cristã, como o sentido expresso pelos textos bíblicos, logo que são lidos sob influência do Espírito Santo no contexto do mistério pascal do Cristo e da vida nova que resulta dele. Esse contexto existe efetivamente.

O Novo Testamento reconhece nele a realização das Escrituras. É, assim, normal reler as Escrituras à luz deste novo contexto, que é aquele da vida no Espírito.

Referências:

1‘Nem considerais que vos convém que morra um só homem pelo povo, e que não pereça toda a nação’?

2http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

3http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

4 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html


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A Palavra de Deus na Bíblia (55): Interpretação e tradução da Bíblia

05/08/2016 13:52 - Atualizado em 05/08/2016 13:52

No artigo anterior, destacamos no contexto da Unidade “Sentido da Escritura inspirada” do documento “A Interpretação da Bíblia na Igreja” o tríplice nível de sentido das Sagradas Escrituras: literal, espiritual e pleno, que agora daremos continuidade.

Sobre o primeiro sentido, dito literal, a Igreja afirma-lhe a importância e precedência sobre os outros:

O sentido literal de um texto é único? Geralmente, sim, mas não se trata aqui de um princípio absoluto, e isso por duas razões.

De um lado, um autor humano pode querer se referir ao mesmo tempo a vários níveis de realidade. O caso é comum em poesia. A inspiração bíblica não desdenha esta possibilidade da psicologia e da linguagem humana; o IV Evangelho fornece numerosos exemplos disto.

De outro lado, mesmo quando uma expressão humana parece ter um único significado, a inspiração divina pode guiar a expressão de maneira a produzir uma ambivalência. Este é o caso da palavra de Caifás em Jo 11,501.

Ela exprime ao mesmo tempo um cálculo político imoral e uma revelação divina. Estes dois aspectos pertencem um e outro ao sentido literal, pois eles são, os dois, colocados em evidência pelo contexto. Se bem que ele seja extremo, este caso é significativo; ele deve advertir contra uma concepção muito estrita do sentido literal dos textos inspirados2.

Convém particularmente estar atento ao aspecto dinâmico de muitos textos. O sentido dos salmos reais, por exemplo, não deve estar limitado estritamente às circunstâncias históricas da produção deles.

Falando do rei, o salmista evocava ao mesmo tempo uma instituição verdadeira e uma visão ideal da realeza, conforme o plano de Deus, de maneira que seu texto ultrapassava a instituição real tal como ela tinha se manifestado na história.

A exegese histórico-crítica teve muitas vezes a tendência de fixar o sentido dos textos, ligando-o exclusivamente a circunstâncias históricas precisas.

Ela deve antes de tudo procurar determinar a direção do pensamento expresso pelo texto, direção que, ao invés de convidar o exegeta a fixar o sentido, sugere-lhe, ao contrário, de perceber seu desenvolvimento mais ou menos previsível.

Uma corrente da hermenêutica moderna sublinhou a diferença de estatuto que afeta a palavra humana logo que ela é colocada por escrito. Um texto escrito tem a capacidade de ser colocado em circunstancias novas, que o iluminam de maneiras diferentes, acrescentando ao seu sentido novas determinações. Esta capacidade do texto escrito é especialmente efetiva no caso dos textos bíblicos, reconhecidos como Palavra de Deus3.

Efetivamente, o que levou a comunidade de fiéis a conservá-los foi a convicção que eles continuariam a ser portadores de luz e de vida para as gerações vindouras. O sentido literal é, desde o início, aberto a desenvolvimentos ulteriores, que se produzem graças a ‘releituras’ em contextos novos.

Neste sentido explicou-se a diferença do valor da busca do sentido literal do texto bíblico e da abordagem literalista, de matiz fundamentalista, que isola o texto na aparente tradução literalista, letra a letra, o que somado, não obtém ao leitor o sentido profundo do texto.

Não se deve concluir que se possa atribuir a um texto bíblico qualquer sentido, interpretando-o de maneira subjetiva. E preciso, ao contrário, rejeitar como inautêntica toda interpretação que seja heterogênea ao sentido expresso pelos autores humanos e no texto escrito por eles. Admitir sentidos heterogêneos equivaleria a cortar a mensagem bíblica de sua raiz, que é a Palavra de Deus comunicada historicamente, e a abrir a porta a um subjetivismo incontrolável4.

2. Sentido espiritual

Não é o caso, no entanto, de tomar ‘heterogêneo’ em um sentido estrito, contrário a toda possibilidade de realização superior. O acontecimento pascal, morte e ressurreição de Jesus, deu origem a um contexto histórico radicalmente novo, que ilumina de maneira nova os textos antigos e os faz sofrer uma mutação de sentido.

Particularmente certos textos que nas antigas circunstancias deveriam ser considerados como hipérboles (por exemplo, o oráculo onde Deus, falando de um filho de Davi, prometia afirmar ‘para sempre’ seu trono: 2Sam 7,12-13; 1 Cron 17,11-14), doravante esses textos devem ser tomados ao pé da letra, porque o “Cristo, tendo ressuscitado dentre os mortos, já não morre” (Rom 6,9).

Os exegetas que têm uma noção limitada, «histórica», do sentido literal estimarão que aqui há heterogeneidade. Aqueles que são abertos ao aspecto dinâmico dos textos reconhecerão uma continuidade profunda ao mesmo tempo em que uma passagem a um nível diferente: o Cristo reina para sempre, mas não sobre o trono terrestre de Davi (cf. também Sal 2,7-8; 110,1.4).

Nos casos desse gênero, fala-se de ‘sentido espiritual’.

Em regra geral, pode-se definir o sentido espiritual, entendido segundo a fé cristã, como o sentido expresso pelos textos bíblicos, logo que são lidos sob influência do Espírito Santo no contexto do mistério pascal do Cristo e da vida nova que resulta dele. Esse contexto existe efetivamente.

O Novo Testamento reconhece nele a realização das Escrituras. É, assim, normal reler as Escrituras à luz deste novo contexto, que é aquele da vida no Espírito.

Referências:

1‘Nem considerais que vos convém que morra um só homem pelo povo, e que não pereça toda a nação’?

2http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

3http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

4 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html


Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica