Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 16/10/2018

16 de Outubro de 2018

Ser rico diante de Deus

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31/07/2016 00:00

A primeira leitura se abre com o termo hebel, termo muito recorrente dentro, particularmente, do livro do Eclesiastes. Esse termo pode ser traduzido como “sopro”. Dessa raiz provém o verbo hbl que pode significar em hebraico “tornar-se inútil, ocupar-se de coisas inúteis, converter alguma coisa em algo inútil”.[1] O termo pode servir como uma imagem, segundo Albertz, do que é passageiro e inútil.

Para o Eclesiastes quase tudo parece “vaidade”, “sopro”. Isso acontece por três motivos: primeiro, porque o homem se esforça, mas tendo que morrer, outro gozará do fruto do seu trabalho (Ecl 2,18-21); depois, parece que a perspectiva teológica não se realiza, ou seja, existem ímpios que que são tratados “conforme a conduta dos justos”, e justos, que são tratados “conforme a conduta dos ímpios” (cf. Ecl 8,10-14); por fim, parece que a morte do homem e do animal é idêntica, pois todos morrem e não se sabe o que será depois (cf. Ecl 3,19).[2]

Ao falar do livro do Eclesiastes devemos nos lembrar de que estamos num período de transição, ou seja, ainda não se chegou ao desenvolvimento teológico de uma vida após a morte lúcida, com justa recompensa para justos e ímpios. Por isso, tudo parece tão “vão, vazio” para o autor do Eclesiastes. Diante da incerteza post-mortem e do aparente “sem sentido” da vida, o que dizer, senão que tudo parece um “sopro”?

Foi São Jerônimo quem traduziu o termo hebraico hebel pelo termo latino vanitas: “Vanitas, vanitatum, dixit Eclesiastes, vanitas vanitatum et omnia vanitas”[3]. Vanitas deriva, todavia de Vanus, que significa o “vazio”, “aquilo o que não contém nada”. É esse precisamente o sentido de hebel, e o sentido da “vaidade” da qual fala esse texto.[4]

Não se trata aqui de uma categoria moral, mas da constatação do, pelo menos aparente, sem sentido que é a vida do homem.

Diante dessa atitude que poderíamos chamar de “perplexidade” o que restaria ao homem senão apoiar-se em Deus? Aqui entra o Salmo 89, salmo responsorial de hoje. Embora o salmo proclame também a caducidade da vida humana, a sua transitoriedade, ao afirmar: Fazes o mortal voltar ao pó, dizendo: ‘Voltai, ó filhos de Adão!’, o mesmo salmo começa proclamando o Senhor como “refúgio”, uma “casa” para o homem de geração em geração. Diante da incerteza da vida, quando parece que tudo falta, o que mais o homem pode querer senão um “lugar” para abrigar-se? Adonai é esse “lugar”, é esse “onde” o homem pode se abrigar e ali se sentir realmente protegido, diante das incertezas da vida e das dúvidas do seu próprio coração.

A primeira leitura tem uma perspectiva teológica bem diversa do evangelho, no sentido de que, em Cristo, já sabemos que há um sentido para tudo, sentido este que nos aponta para a eternidade. Todavia, ter o coração preso às coisas terrenas continua sendo uma “vaidade”, um correr atrás do “sopro”, do “vazio”.

Na primeira leitura o Eclesiastes afirma a incerteza da vida, a caducidade de tudo o que o homem pode alcançar neste mundo, porque no final ele não sabe qual será o seu destino. Por isso o homem não deve se apegar ao que é terreno, porque isso, no final, ele deverá deixar para os outros.

No evangelho a temática de fundo é a mesma. Trata-se de irmãos que estão em contenda por causa de uma herança. Jesus que tantas vezes era solicitado para atuar como juiz diante dos pecadores ou como taumaturgo diante dos enfermos e, até mesmo, dos defuntos, agora é solicitado para atuar como juiz diante de uma questão simplesmente material: dividir a herança entre os dois irmãos.

Jesus rechaça esse tipo de atuação da sua parte ao afirmar: Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?, contudo, aproveita a situação para dar um ensinamento a respeito da ganância, ou seja, a respeito da pleonexia. O que significa esse termo grego pleonexia? Segundo Bailly[5] o termo designa o desejo de ter mais que o outro, de ter demais, de buscar o supérfluo; seria o apetite insaciável do homem que nunca consegue estar satisfeito com o que possui.

A resposta de Jesus vem na forma de uma parábola. Uma parábola que ilustra o quanto é vão prender-se aos bens desse mundo. Jesus não toca no fato de se a herança deve ou não ser dividida entre os dois irmãos. Ele não quer entrar nessa casuística. Não está aí o centro do evangelho. Jesus vai mais profundo e quer mostrar o quanto é “vão” prender-se aos laços dos bens materiais.

Jesus começa com a máxima: “A vida de um homem não consiste na abundância de bens”. Depois, nos vv. 16-20 Jesus desenvolve a parábola cujo tema é o homem rico que derruba seus celeiros e constrói outros ainda maiores. Só então a sua alma pode ter paz. No entanto, quando pensa que terá uma paz nesse mundo, que poderá gozar do fruto do seu trabalho, o homem morre. O que lhe restará? Se ele deixou de cuidar dos valores eternos para preocupar-se somente com o que é material, o que agora lhe restará, quando a matéria não serve para mais nada?

“Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus”. A frase final da perícope não somente coloca o ouvinte/leitor diante da necessidade de tomar uma decisão acertada para não ter o mesmo destino do rico da parábola, mas também responde à pergunta que fica no interior de quem ouviu o v. 15: “A vida de um homem não consiste na abundância de bens”. Agora sabemos em que consiste a vida do homem. Esta não consiste na abundância de bens, mas na busca de um bem que dá sentido a tudo: Deus.

Se existe uma riqueza pela qual vale a pena lutar e esforçar essa é a vida de comunhão com Deus. Correr atrás disso não é correr atrás do vento. Sobretudo, na perspectiva cristã, onde o que esperamos como fruto dessa busca não é um prêmio terreno e nem mesmo uma vida boa aqui, mas sim a vida eterna junto com o Senhor.

Embora a segunda leitura não seja necessariamente ligada, do ponto de vista temático, à primeira leitura e ao evangelho, a de hoje se encaixa perfeitamente no contexto, quando ouvimos o apóstolo nos dizer: “Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo... vossa vida está escondida com Cristo, em Deus.” (cf. Cl 3,1.3). Tendo o olhar no que é eterno, também a vida moral do homem se transforma e ele encontra forças para fazer morrer em si mesmo o que “pertence à terra” (cf. Cl 3,5).

Que a Eucaristia dominical e seus desdobramentos na nossa vida de oração pessoal e de comunhão com a Palavra de Deus nos ajude a ter o nosso coração em Deus e a buscar verdadeira as coisas do alto, onde está Cristo.



[1] Cf. Albertz. הֶבֶל. In: Jenni; Westermann. Diccionário Teologico Manual del Antiguo Testamento. Vol. I. Madrid: Cristiandad, cc. 659-662.

[2] Cf. Albertz. הֶבֶל. In: Jenni; Westermann. Diccionário Teologico Manual del Antiguo Testamento. Vol. I. Madrid: Cristiandad, c. 661.

[3] Cf. Ecl 1,2 Vulgata

[4] Cf. Torrinha. Dicionário Latino Português. Verbetes: Vanitas; Vanus, -a, -um.

[5] Bailly. Dictionnaire Grec Français. Paris: Hachette, p. 1569.


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Ser rico diante de Deus

31/07/2016 00:00

A primeira leitura se abre com o termo hebel, termo muito recorrente dentro, particularmente, do livro do Eclesiastes. Esse termo pode ser traduzido como “sopro”. Dessa raiz provém o verbo hbl que pode significar em hebraico “tornar-se inútil, ocupar-se de coisas inúteis, converter alguma coisa em algo inútil”.[1] O termo pode servir como uma imagem, segundo Albertz, do que é passageiro e inútil.

Para o Eclesiastes quase tudo parece “vaidade”, “sopro”. Isso acontece por três motivos: primeiro, porque o homem se esforça, mas tendo que morrer, outro gozará do fruto do seu trabalho (Ecl 2,18-21); depois, parece que a perspectiva teológica não se realiza, ou seja, existem ímpios que que são tratados “conforme a conduta dos justos”, e justos, que são tratados “conforme a conduta dos ímpios” (cf. Ecl 8,10-14); por fim, parece que a morte do homem e do animal é idêntica, pois todos morrem e não se sabe o que será depois (cf. Ecl 3,19).[2]

Ao falar do livro do Eclesiastes devemos nos lembrar de que estamos num período de transição, ou seja, ainda não se chegou ao desenvolvimento teológico de uma vida após a morte lúcida, com justa recompensa para justos e ímpios. Por isso, tudo parece tão “vão, vazio” para o autor do Eclesiastes. Diante da incerteza post-mortem e do aparente “sem sentido” da vida, o que dizer, senão que tudo parece um “sopro”?

Foi São Jerônimo quem traduziu o termo hebraico hebel pelo termo latino vanitas: “Vanitas, vanitatum, dixit Eclesiastes, vanitas vanitatum et omnia vanitas”[3]. Vanitas deriva, todavia de Vanus, que significa o “vazio”, “aquilo o que não contém nada”. É esse precisamente o sentido de hebel, e o sentido da “vaidade” da qual fala esse texto.[4]

Não se trata aqui de uma categoria moral, mas da constatação do, pelo menos aparente, sem sentido que é a vida do homem.

Diante dessa atitude que poderíamos chamar de “perplexidade” o que restaria ao homem senão apoiar-se em Deus? Aqui entra o Salmo 89, salmo responsorial de hoje. Embora o salmo proclame também a caducidade da vida humana, a sua transitoriedade, ao afirmar: Fazes o mortal voltar ao pó, dizendo: ‘Voltai, ó filhos de Adão!’, o mesmo salmo começa proclamando o Senhor como “refúgio”, uma “casa” para o homem de geração em geração. Diante da incerteza da vida, quando parece que tudo falta, o que mais o homem pode querer senão um “lugar” para abrigar-se? Adonai é esse “lugar”, é esse “onde” o homem pode se abrigar e ali se sentir realmente protegido, diante das incertezas da vida e das dúvidas do seu próprio coração.

A primeira leitura tem uma perspectiva teológica bem diversa do evangelho, no sentido de que, em Cristo, já sabemos que há um sentido para tudo, sentido este que nos aponta para a eternidade. Todavia, ter o coração preso às coisas terrenas continua sendo uma “vaidade”, um correr atrás do “sopro”, do “vazio”.

Na primeira leitura o Eclesiastes afirma a incerteza da vida, a caducidade de tudo o que o homem pode alcançar neste mundo, porque no final ele não sabe qual será o seu destino. Por isso o homem não deve se apegar ao que é terreno, porque isso, no final, ele deverá deixar para os outros.

No evangelho a temática de fundo é a mesma. Trata-se de irmãos que estão em contenda por causa de uma herança. Jesus que tantas vezes era solicitado para atuar como juiz diante dos pecadores ou como taumaturgo diante dos enfermos e, até mesmo, dos defuntos, agora é solicitado para atuar como juiz diante de uma questão simplesmente material: dividir a herança entre os dois irmãos.

Jesus rechaça esse tipo de atuação da sua parte ao afirmar: Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?, contudo, aproveita a situação para dar um ensinamento a respeito da ganância, ou seja, a respeito da pleonexia. O que significa esse termo grego pleonexia? Segundo Bailly[5] o termo designa o desejo de ter mais que o outro, de ter demais, de buscar o supérfluo; seria o apetite insaciável do homem que nunca consegue estar satisfeito com o que possui.

A resposta de Jesus vem na forma de uma parábola. Uma parábola que ilustra o quanto é vão prender-se aos bens desse mundo. Jesus não toca no fato de se a herança deve ou não ser dividida entre os dois irmãos. Ele não quer entrar nessa casuística. Não está aí o centro do evangelho. Jesus vai mais profundo e quer mostrar o quanto é “vão” prender-se aos laços dos bens materiais.

Jesus começa com a máxima: “A vida de um homem não consiste na abundância de bens”. Depois, nos vv. 16-20 Jesus desenvolve a parábola cujo tema é o homem rico que derruba seus celeiros e constrói outros ainda maiores. Só então a sua alma pode ter paz. No entanto, quando pensa que terá uma paz nesse mundo, que poderá gozar do fruto do seu trabalho, o homem morre. O que lhe restará? Se ele deixou de cuidar dos valores eternos para preocupar-se somente com o que é material, o que agora lhe restará, quando a matéria não serve para mais nada?

“Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus”. A frase final da perícope não somente coloca o ouvinte/leitor diante da necessidade de tomar uma decisão acertada para não ter o mesmo destino do rico da parábola, mas também responde à pergunta que fica no interior de quem ouviu o v. 15: “A vida de um homem não consiste na abundância de bens”. Agora sabemos em que consiste a vida do homem. Esta não consiste na abundância de bens, mas na busca de um bem que dá sentido a tudo: Deus.

Se existe uma riqueza pela qual vale a pena lutar e esforçar essa é a vida de comunhão com Deus. Correr atrás disso não é correr atrás do vento. Sobretudo, na perspectiva cristã, onde o que esperamos como fruto dessa busca não é um prêmio terreno e nem mesmo uma vida boa aqui, mas sim a vida eterna junto com o Senhor.

Embora a segunda leitura não seja necessariamente ligada, do ponto de vista temático, à primeira leitura e ao evangelho, a de hoje se encaixa perfeitamente no contexto, quando ouvimos o apóstolo nos dizer: “Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo... vossa vida está escondida com Cristo, em Deus.” (cf. Cl 3,1.3). Tendo o olhar no que é eterno, também a vida moral do homem se transforma e ele encontra forças para fazer morrer em si mesmo o que “pertence à terra” (cf. Cl 3,5).

Que a Eucaristia dominical e seus desdobramentos na nossa vida de oração pessoal e de comunhão com a Palavra de Deus nos ajude a ter o nosso coração em Deus e a buscar verdadeira as coisas do alto, onde está Cristo.



[1] Cf. Albertz. הֶבֶל. In: Jenni; Westermann. Diccionário Teologico Manual del Antiguo Testamento. Vol. I. Madrid: Cristiandad, cc. 659-662.

[2] Cf. Albertz. הֶבֶל. In: Jenni; Westermann. Diccionário Teologico Manual del Antiguo Testamento. Vol. I. Madrid: Cristiandad, c. 661.

[3] Cf. Ecl 1,2 Vulgata

[4] Cf. Torrinha. Dicionário Latino Português. Verbetes: Vanitas; Vanus, -a, -um.

[5] Bailly. Dictionnaire Grec Français. Paris: Hachette, p. 1569.


Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida