Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 27/05/2017

27 de Maio de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (54): Interpretação e tradução da Bíblia

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27 de Maio de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (54): Interpretação e tradução da Bíblia

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29/07/2016 16:47 - Atualizado em 29/07/2016 16:47

A Palavra de Deus na Bíblia (54): Interpretação e tradução da Bíblia 0

29/07/2016 16:47 - Atualizado em 29/07/2016 16:47

Neste artigo concluímos a primeira etapa desta unidade sobre a ‘Hermenêutica’, denominada “A. Hermenêuticas filosóficas”, que discutiram os limites do uso inevitável de ferramentas filosóficas na interpretação do sentido das Escrituras, entregando ao homem de hoje a mensagem essencial da Palavra de Deus.

A hermenêutica bíblica, se ela é da competência da hermenêutica geral de todo texto literário e histórico, é ao mesmo tempo um caso único dentro dela. Suas características específicas vêm-lhe de seu objeto. Os acontecimentos da salvação e sua realização na pessoa de Jesus Cristo dão sentido a toda a história humana1.

As novas interpretações históricas só poderão ser descobertas e com o desdobramento dessas riquezas de sentido. O relato bíblico desses acontecimentos não pode ser plenamente entendido só pela razão.

Pressupostos particulares comandam sua interpretação, como a fé vivida na comunidade eclesial e à luz do Espírito. Com o crescimento da vida no Espírito cresce, no leitor, a compreensão das realidades das quais fala o texto bíblico2.

 E assim passamos a analisar aspectos mais clássicos sobre o sentido das Escrituras que emergem da competente ação hermenêutica

A contribuição moderna das hermenêuticas filosóficas e os desenvolvimentos recentes do estudo científico das literaturas permitem à exegese bíblica aprofundar a compreensão de sua tarefa, cuja complexidade tornou-se mais evidente3.

A exegese antiga, que evidentemente não podia levar em consideração as exigências científicas modernas, atribuía a todo texto da Escritura sentidos de vários níveis. A distinção mais corrente se fazia entre sentido literal e sentido espiritual.

A exegese medieval distinguiu no sentido espiritual três aspectos diferentes que se relacionam, respectivamente, à verdade revelada, à conduta a ser mantida e à realização final. Daí o célebre dístico de Agostinho da Dinamarca (século XIII): “Littera gesta docet, quid credas allegoria, moralis quid agas, quid speres anagogia”4.

Como reação a esta multiplicidade de sentidos, a exegese histórico-crítica adotou, mais ou menos abertamente, a tese da unicidade de sentidos, segundo a qual um texto não pode ter simultaneamente vários significados. Todo esforço da exegese histórico-crítica é de definir ‘o’ sentido preciso de um ou outro texto bíblico nas circunstâncias de sua produção.

Mas esta tese choca-se agora com as conclusões das ciências da linguagem e das hermenêuticas filosóficas, que afirmam a polissemia dos textos escritos. O problema não é simples e ele não se apresenta da mesma maneira para todos os gêneros de textos: relatos históricos, parábolas, oráculos, leis, provérbios, orações, hinos, etc. Pode-se, entretanto, dar alguns princípios gerais, levando-se em conta a diversidade das opiniões5.

Passemos, assim, a expor os três sentidos que se extraem das Sagradas Escrituras, que complementares constituem o ‘bom odor’ da leitura bíblica, em sua lite hermenêutica diária. Isso significa que não se interpreta bem a Palavra de Deus quando ignoramos um destes sentidos na execução de leituras semânticas da Bíblia:

1. Sentido literal

É não apenas legítimo, mas indispensável procurar definir o sentido preciso dos textos tais como foram produzidos por seus autores, sentido chamado de ‘literal’. Já São Tomás de Aquino afirmava sua importância fundamental (S. Th., I, q.l, a. 10, ad. 1)6.

 Logo de início o documento alerta para a necessidade de distinguir a interpretação fundamentalista do sentido literal a ser buscado prioritariamente na leitura bíblica. Aquela é literalista, letra por letra traduzida traria à luz o sentido da Escritura, imenso engano.

O sentido literal não deve ser confundido com o sentido ‘literalista’ ao qual aderem os fundamentalistas. Não é suficiente traduzir um texto palavra por palavra para obter seu sentido literal. É preciso compreendê-lo segundo as convenções literárias da época. Quando um texto é metafórico, seu sentido literal não é aquele que resulta imediatamente do palavra por palavra (por exemplo: “Tende os rins cingidos”, Lc 12,35), mas aquele que corresponde ao uso metafórico dos termos (“Tende uma atitude de disponibilidade”). Quando se trata de um relato, o sentido literal não comporta necessariamente a afirmação de que os fatos contados tenham efetivamente acontecido, pois um relato pode não pertencer ao gênero histórico, mas ser uma obra de imaginação7.

O sentido literal da Escritura é aquele que foi expresso diretamente pelos autores humanos inspirados. Sendo o fruto da inspiração, este sentido é também desejado por Deus, autor principal.

Ele é discernido graças a uma análise precisa do texto, situado em seu contexto literário e histórico.

A tarefa principal da exegese é de bem conduzir esta análise, utilizando todas as possibilidades das pesquisas literárias e históricas, em vista de definir o sentido literal dos textos bíblicos com a maior exatidão possível (cf. Divino afflante Spiritu: E. B., 550). Para esta finalidade, o estudo dos gêneros literários antigos é particularmente necessário (ibid. 560)8.

Referências:

1http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

2http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

3http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

4‘A letra ensina o que aconteceu (fatos), a alegoria aquilo que se deve crer, a moral aquilo que se deve fazer (ação moral) e anagogia aquilo que se deve esperar)’, Tradução livre!

5 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

6 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

7 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.htm

8 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.htm

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A Palavra de Deus na Bíblia (54): Interpretação e tradução da Bíblia

29/07/2016 16:47 - Atualizado em 29/07/2016 16:47

Neste artigo concluímos a primeira etapa desta unidade sobre a ‘Hermenêutica’, denominada “A. Hermenêuticas filosóficas”, que discutiram os limites do uso inevitável de ferramentas filosóficas na interpretação do sentido das Escrituras, entregando ao homem de hoje a mensagem essencial da Palavra de Deus.

A hermenêutica bíblica, se ela é da competência da hermenêutica geral de todo texto literário e histórico, é ao mesmo tempo um caso único dentro dela. Suas características específicas vêm-lhe de seu objeto. Os acontecimentos da salvação e sua realização na pessoa de Jesus Cristo dão sentido a toda a história humana1.

As novas interpretações históricas só poderão ser descobertas e com o desdobramento dessas riquezas de sentido. O relato bíblico desses acontecimentos não pode ser plenamente entendido só pela razão.

Pressupostos particulares comandam sua interpretação, como a fé vivida na comunidade eclesial e à luz do Espírito. Com o crescimento da vida no Espírito cresce, no leitor, a compreensão das realidades das quais fala o texto bíblico2.

 E assim passamos a analisar aspectos mais clássicos sobre o sentido das Escrituras que emergem da competente ação hermenêutica

A contribuição moderna das hermenêuticas filosóficas e os desenvolvimentos recentes do estudo científico das literaturas permitem à exegese bíblica aprofundar a compreensão de sua tarefa, cuja complexidade tornou-se mais evidente3.

A exegese antiga, que evidentemente não podia levar em consideração as exigências científicas modernas, atribuía a todo texto da Escritura sentidos de vários níveis. A distinção mais corrente se fazia entre sentido literal e sentido espiritual.

A exegese medieval distinguiu no sentido espiritual três aspectos diferentes que se relacionam, respectivamente, à verdade revelada, à conduta a ser mantida e à realização final. Daí o célebre dístico de Agostinho da Dinamarca (século XIII): “Littera gesta docet, quid credas allegoria, moralis quid agas, quid speres anagogia”4.

Como reação a esta multiplicidade de sentidos, a exegese histórico-crítica adotou, mais ou menos abertamente, a tese da unicidade de sentidos, segundo a qual um texto não pode ter simultaneamente vários significados. Todo esforço da exegese histórico-crítica é de definir ‘o’ sentido preciso de um ou outro texto bíblico nas circunstâncias de sua produção.

Mas esta tese choca-se agora com as conclusões das ciências da linguagem e das hermenêuticas filosóficas, que afirmam a polissemia dos textos escritos. O problema não é simples e ele não se apresenta da mesma maneira para todos os gêneros de textos: relatos históricos, parábolas, oráculos, leis, provérbios, orações, hinos, etc. Pode-se, entretanto, dar alguns princípios gerais, levando-se em conta a diversidade das opiniões5.

Passemos, assim, a expor os três sentidos que se extraem das Sagradas Escrituras, que complementares constituem o ‘bom odor’ da leitura bíblica, em sua lite hermenêutica diária. Isso significa que não se interpreta bem a Palavra de Deus quando ignoramos um destes sentidos na execução de leituras semânticas da Bíblia:

1. Sentido literal

É não apenas legítimo, mas indispensável procurar definir o sentido preciso dos textos tais como foram produzidos por seus autores, sentido chamado de ‘literal’. Já São Tomás de Aquino afirmava sua importância fundamental (S. Th., I, q.l, a. 10, ad. 1)6.

 Logo de início o documento alerta para a necessidade de distinguir a interpretação fundamentalista do sentido literal a ser buscado prioritariamente na leitura bíblica. Aquela é literalista, letra por letra traduzida traria à luz o sentido da Escritura, imenso engano.

O sentido literal não deve ser confundido com o sentido ‘literalista’ ao qual aderem os fundamentalistas. Não é suficiente traduzir um texto palavra por palavra para obter seu sentido literal. É preciso compreendê-lo segundo as convenções literárias da época. Quando um texto é metafórico, seu sentido literal não é aquele que resulta imediatamente do palavra por palavra (por exemplo: “Tende os rins cingidos”, Lc 12,35), mas aquele que corresponde ao uso metafórico dos termos (“Tende uma atitude de disponibilidade”). Quando se trata de um relato, o sentido literal não comporta necessariamente a afirmação de que os fatos contados tenham efetivamente acontecido, pois um relato pode não pertencer ao gênero histórico, mas ser uma obra de imaginação7.

O sentido literal da Escritura é aquele que foi expresso diretamente pelos autores humanos inspirados. Sendo o fruto da inspiração, este sentido é também desejado por Deus, autor principal.

Ele é discernido graças a uma análise precisa do texto, situado em seu contexto literário e histórico.

A tarefa principal da exegese é de bem conduzir esta análise, utilizando todas as possibilidades das pesquisas literárias e históricas, em vista de definir o sentido literal dos textos bíblicos com a maior exatidão possível (cf. Divino afflante Spiritu: E. B., 550). Para esta finalidade, o estudo dos gêneros literários antigos é particularmente necessário (ibid. 560)8.

Referências:

1http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

2http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

3http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

4‘A letra ensina o que aconteceu (fatos), a alegoria aquilo que se deve crer, a moral aquilo que se deve fazer (ação moral) e anagogia aquilo que se deve esperar)’, Tradução livre!

5 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

6 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

7 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.htm

8 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.htm

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica