Arquidiocese do Rio de Janeiro

26º 21º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/10/2018

20 de Outubro de 2018

Senhor, ensina-nos a rezar

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Senhor, ensina-nos a rezar

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22/07/2016 12:00 - Atualizado em 22/07/2016 12:00

Senhor, ensina-nos a rezar 0

22/07/2016 12:00 - Atualizado em 22/07/2016 12:00

“Com Cristo fostes sepultados no batismo; com ele também fostes ressuscitados por meio da fé no poder de Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos.” (Cl 2,12)

São Paulo nos exorta, neste trecho de sua epístola aos Colossenses, a tomarmos consciência do que aconteceu conosco ao sermos batizados. O batismo significa “morte e vida”. Morremos para o pecado e ressuscitamos para a vida nova da graça. Na verdade, vai nos dizer ainda São Paulo, nós apenas pensávamos viver. Estávamos, na realidade, mortos por causa dos nossos pecados e Cristo, ressurgindo, deu-nos a vida.

Ainda aguardamos a vida que virá após a nossa morte, mas nós já a recebemos antecipadamente no sacramento do Batismo. E, porque recebemos uma nova vida em Cristo, recebemos também uma nova casa, que é a casa de Deus onde hoje nos reunimos a fim de celebrar os seus louvores.

Recebemos também uma família, a família de Deus, a assembleia dos santos, a Igreja, que se reúne nessa sua casa a fim de celebrar o mistério que lhe trouxe à vida: o mistério pascal de Cristo. Esta é a nossa casa, a Igreja; este é o nosso dia: o domingo. Recebemos uma nova vida, que é sacramento da que virá; recebemos uma nova casa, que é sacramento daquela que o Pai edificou para nós junto d’Ele; recebemos também um dia novo e memorável, o Domingo, sacramento do dia sem ocaso no qual Deus será, segundo nos ensina o mesmo Apóstolo Paulo, tudo em todos.

O Evangelho, bem como a primeira leitura que hoje ouvimos, ressaltam para nós o valor da oração, e, particularmente, da importância de sermos “insistentes” nela.

A primeira leitura é uma continuação daquela que escutamos no último domingo. Depois que os três homens misteriosos comem a refeição preparada pelo Patriarca debaixo do carvalho de Mambré, dois deles (cf. Gn 19,1), identificados como os anjos de Deus, descem à Sodoma e Gomorra para se certificarem da impiedade dessas cidades. Abraão, todavia, permanece “na presença do Senhor”.

Abraão, nosso pai na fé, nos dá o exemplo da oração. Ele permanece “na presença do Senhor”. Aqui especificamente Abraão permanece na presença do Senhor com o intuito de rogar pelos justos que possam estar vivendo nessas ímpias cidades na iminência de sua destruição. Abraão intercede pela salvação dos justos que aí habitam. Deus ouve a oração de intercessão do Patriarca e como vamos ver mais adiante na continuação dessa passagem, Deus destrói Sodoma e Gomorra, mas salva Ló e sua família, parentes de Abraão.

Vale a pena ressaltar, todavia, particularmente a atitude do Patriarca. Ele “permanece na presença do Senhor”. Isso é oração. Orar, nada mais é, do que “permanecer na presença do Senhor”, contemplar a sua face, e deixar como Ana, mãe de Samuel, que o coração se derrame na sua presença, com aquilo que lhe vai dentro: nossas lutas, nossos cansaços, nossa fome e sede da justiça divina, nossas incapacidades, nossas necessidades e nosso amor, por imperfeito e pequeno que seja.

A oração é uma necessidade do homem. O homem precisa se relacionar com Deus num diálogo amigo e confiante. Não basta realizar as obras de Deus, mas é necessário relacionar-se com Ele. A nossa relação com Deus acontece na oração. Os discípulos de Jesus também estão inquietos e desejam aprender a rezar. Eles pedem a Jesus que lhes ensine a orar como João Batista ensinou a seus discípulos. Jesus não recusa o pedido e lhes apresenta a oração modelar: o Pai Nosso. Lucas nos apresenta um “Pai Nosso” um pouco menor que o de Mateus. Mateus apresenta sete pedidos, enquanto Lucas apenas cinco. Mas, podemos dizer, que esses cinco pedidos resumem o que deve ser e como deve ser a oração cristã. Gostaria de apresentar resumidamente cada um deles.

“Pai, santificado seja o teu Nome.” Deus é Santo. Se podemos nos dizer santos, o podemos enquanto acreditamos ser participantes da sua santidade. Que significa, então, pedir que o nome de Deus seja santificado? Para Tertuliano e para São Cipriano, que comentam o Pai Nosso, pedir que o nome de Deus seja santificado, significa pedir que ele seja santificado em nós, ou seja, que a nossa vida seja toda ela uma expressão da santidade de Deus. Assim como Deus é santo, nós, que dizemo-nos seus filhos, e por isso o chamamos de Pai, devemos pedir insistentemente – e até mesmo com lágrimas – que a nossa vida seja uma expressão, ainda que imperfeita, daquilo o que é a vida do próprio Deus.

Que significa isso? Significa que, assim como Deus é completamente separado do mundo (e por isso é santo, separado)[1], embora entre no mundo e o salve a partir de dentro, como fez na encarnação do seu Verbo, nós também devemos estar no mundo, sem ser do mundo, a fim de que a nossa vida expresse que também resolvemos nos separar do mundo, porque o nosso Pai está fora desse mundo e não compactua com a mentalidade do mundo. E quando falamos aqui do mundo, queremos, como Paulo, nos remeter àquilo o que, no mundo, se opõe a Deus e não àquilo o que há de belo e bom porque criado pelo próprio Deus. Devemos santificar o nome de Deus, estando no mundo, modificando as suas estruturas a partir de dentro, encarnando-nos por assim dizer, sem contudo, compactuarmos com o mundo. Nós devemos iluminar o mundo e não o mundo nos escurecer. Isso significa, no dizer dos Padres, pedir que o nome de Deus seja santificado.

“Venha o teu Reino!” Que pode haver de mais cristão do que esse desejo de contemplar o Reino de Deus? No final do livro do Apocalipse encontramos o belo versículo onde São João nos diz: “O Espírito e a Esposa dizem: “Vem”!” (Ap 22,17). Nós somos essa esposa, a Igreja. Quando rezamos o Pai Nosso não o rezamos individualmente, mas sempre em comunhão com os irmãos, e, por isso, dizemos: “Pai Nosso” e não “Meu Pai”! Se rezamos unidos aos irmãos, rezamos como Igreja e, por isso, esse é o nosso pedido, o pedido da Igreja no Apocalipse: Vem, Senhor Jesus! Pedir a vinda de Cristo é pedir que o seu Reino venha! Mas, ao pedirmos que venha o seu Reino não pensemos que se trate apenas de um grito que clama pelo final dos tempos. Pedimos também que o seu Reino se faça em nós, que a nossa vida seja já aqui uma expressão, ainda que ínfima e muito imperfeita, do que Reino que virá!

“Dá-nos a cada dia o pão de que precisamos”. Para Tertuliano, devemos entender em sentido espiritual esse pedido. Trata-se, antes de tudo, do pão que é Cristo e que vem a nós pela Palavra e pela Eucaristia. Ele é o nosso “Pão necessário”.[2] Se Ele nos dá o que é necessário, como não nos dará o que precisamos para viver? Se Deus alimenta assim o nosso espírito, não faria também o mesmo favor à nossa carne? De fato, Deus na sua providência infinita dá aos homens tudo o que é necessário para sua vida. Se vemos tantas injustiças e tanta falta do pão material, o erro não está em Deus, mas na dureza do nosso coração que não sabe ouvir a voz que interiormente nos manda ser “guardas do nosso irmão”.[3]

“Perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores.” Ainda bem que a medida de Deus ultrapassa a nossa. De fato, Deus nos perdoou em Cristo uma dívida que ultrapassa todos os limites de todas as dívidas que possamos ter perdoado aos homens. Nós pedimos o perdão de Deus, na certeza que Ele é clemente e misericordioso e sempre nos perdoará. Devemos pedir também ao Espírito insistentemente a graça de usarmos para com os nossos irmãos da mesma medida de misericórdia que o Senhor tem para conosco. De fato, nós queremos ser perdoados. Mas sabemos quanto custa perdoar. Fazemos do nosso coração uma cadeia, onde estão presos todos aqueles que nos magoaram, ofenderam ou denegriram a nossa imagem. Precisamos pedir ao Espírito a graça de dar anistia a todos esses que ficam dentro de nós no fundo nos contaminando ainda com suas sombras e suas infâmias. Devemos deixar que eles saiam e que Deus nos faça justiça no tempo oportuno. Isso é perdoar. É abrir o coração para que os que estão presos em nós possam sair e encontrar também, quem sabe, a Deus, que estará sempre pronto a dar também a eles como dá a cada um de nós, o seu perdão e a sua misericórdia.

“Não nos deixes cair em tentação.” Deus não deseja tentar-nos e não o faz porque Ele é inacessível ao mal. Todavia, é inevitável que tenhamos tentações, porque o diabo, ele sim, deseja nos fazer cair, e porque trazemos em nós, em virtude da culpa original, a concupiscência, uma inclinação ao mal, que em si não é pecado, mas que se for alimentada pode nos fazer cair no ato de pecado. Devemos, então, orar a fim de que não caiamos na tentação, mas que possamos sair delas ainda mais fortalecidos e mais certos de que, como diz o salmista, “Conosco está o Senhor do Universo, o nosso refúgio é o Deus de Jacó”.

O Senhor não nos ensina somente como orar, mas também com que frequência devemos orar. Devemos orar insistentemente, como aquele amigo inoportuno que chega no meio da noite e nos vence pelo cansaço como costumamos dizer. Se nós somos vencidos pelo cansaço e acabamos por dar aquilo o que nos é solicitado, como Deus, que nunca se cansa de nós, não nos dará a coisa boa por excelência que é o Espírito Santo? Pedimos muitas coisas a Deus. Às vezes pedimos cobras e escorpiões, sem saber que os estamos pedindo. Mas Deus, na sua infinita bondade, não nos dá as cobras e escorpiões que pedimos. Deus somente nos dá o que é bom e o bom por excelência é o Espírito Santo que Deus nunca deixa de dar a nós que somos seus filhos. Sobretudo é na liturgia que Deus derrama sobre nós o seu Espírito. A memória litúrgica é obra do Espírito. Ele é quem vem com força na Igreja e transforma nossos gestos e palavras em sinais eficazes da salvação que nos é comunicada pelo Pai em Cristo Jesus.

Sejamos gratos como o salmista que reconhece a bondade de Deus que sempre ouve a nossa oração: “Naquele dia em que gritei, vós me escutastes, ó Senhor!” A nossa oração, mesmo silenciosa, é sempre um grito em direção a Deus e Ele sempre a ouve. Oremos sempre na certeza de que o nosso Pai ouve sempre a nossa oração.



[1] Esse é o sentido básico do termo hebraico qadosh.

[2] Alguns Padres da Igreja compreendiam o termo ἐπιούσιον utilizado com o sentido de sobre-substancial, afinal é um termo composto pelos termos epi, que significa “sobre”, e ousia, que significa “substância”. Daí a leitura espiritual do sentido do termo.

[3] Ao contrário do que fez Caim, como nos relata Gênesis, que ao ser perguntado sobre onde estava seu irmão respondeu a YHWH: Acaso sou eu um guarda para meu irmão? (Gn 4,9)



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22/07/2016 12:00 - Atualizado em 22/07/2016 12:00

“Com Cristo fostes sepultados no batismo; com ele também fostes ressuscitados por meio da fé no poder de Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos.” (Cl 2,12)

São Paulo nos exorta, neste trecho de sua epístola aos Colossenses, a tomarmos consciência do que aconteceu conosco ao sermos batizados. O batismo significa “morte e vida”. Morremos para o pecado e ressuscitamos para a vida nova da graça. Na verdade, vai nos dizer ainda São Paulo, nós apenas pensávamos viver. Estávamos, na realidade, mortos por causa dos nossos pecados e Cristo, ressurgindo, deu-nos a vida.

Ainda aguardamos a vida que virá após a nossa morte, mas nós já a recebemos antecipadamente no sacramento do Batismo. E, porque recebemos uma nova vida em Cristo, recebemos também uma nova casa, que é a casa de Deus onde hoje nos reunimos a fim de celebrar os seus louvores.

Recebemos também uma família, a família de Deus, a assembleia dos santos, a Igreja, que se reúne nessa sua casa a fim de celebrar o mistério que lhe trouxe à vida: o mistério pascal de Cristo. Esta é a nossa casa, a Igreja; este é o nosso dia: o domingo. Recebemos uma nova vida, que é sacramento da que virá; recebemos uma nova casa, que é sacramento daquela que o Pai edificou para nós junto d’Ele; recebemos também um dia novo e memorável, o Domingo, sacramento do dia sem ocaso no qual Deus será, segundo nos ensina o mesmo Apóstolo Paulo, tudo em todos.

O Evangelho, bem como a primeira leitura que hoje ouvimos, ressaltam para nós o valor da oração, e, particularmente, da importância de sermos “insistentes” nela.

A primeira leitura é uma continuação daquela que escutamos no último domingo. Depois que os três homens misteriosos comem a refeição preparada pelo Patriarca debaixo do carvalho de Mambré, dois deles (cf. Gn 19,1), identificados como os anjos de Deus, descem à Sodoma e Gomorra para se certificarem da impiedade dessas cidades. Abraão, todavia, permanece “na presença do Senhor”.

Abraão, nosso pai na fé, nos dá o exemplo da oração. Ele permanece “na presença do Senhor”. Aqui especificamente Abraão permanece na presença do Senhor com o intuito de rogar pelos justos que possam estar vivendo nessas ímpias cidades na iminência de sua destruição. Abraão intercede pela salvação dos justos que aí habitam. Deus ouve a oração de intercessão do Patriarca e como vamos ver mais adiante na continuação dessa passagem, Deus destrói Sodoma e Gomorra, mas salva Ló e sua família, parentes de Abraão.

Vale a pena ressaltar, todavia, particularmente a atitude do Patriarca. Ele “permanece na presença do Senhor”. Isso é oração. Orar, nada mais é, do que “permanecer na presença do Senhor”, contemplar a sua face, e deixar como Ana, mãe de Samuel, que o coração se derrame na sua presença, com aquilo que lhe vai dentro: nossas lutas, nossos cansaços, nossa fome e sede da justiça divina, nossas incapacidades, nossas necessidades e nosso amor, por imperfeito e pequeno que seja.

A oração é uma necessidade do homem. O homem precisa se relacionar com Deus num diálogo amigo e confiante. Não basta realizar as obras de Deus, mas é necessário relacionar-se com Ele. A nossa relação com Deus acontece na oração. Os discípulos de Jesus também estão inquietos e desejam aprender a rezar. Eles pedem a Jesus que lhes ensine a orar como João Batista ensinou a seus discípulos. Jesus não recusa o pedido e lhes apresenta a oração modelar: o Pai Nosso. Lucas nos apresenta um “Pai Nosso” um pouco menor que o de Mateus. Mateus apresenta sete pedidos, enquanto Lucas apenas cinco. Mas, podemos dizer, que esses cinco pedidos resumem o que deve ser e como deve ser a oração cristã. Gostaria de apresentar resumidamente cada um deles.

“Pai, santificado seja o teu Nome.” Deus é Santo. Se podemos nos dizer santos, o podemos enquanto acreditamos ser participantes da sua santidade. Que significa, então, pedir que o nome de Deus seja santificado? Para Tertuliano e para São Cipriano, que comentam o Pai Nosso, pedir que o nome de Deus seja santificado, significa pedir que ele seja santificado em nós, ou seja, que a nossa vida seja toda ela uma expressão da santidade de Deus. Assim como Deus é santo, nós, que dizemo-nos seus filhos, e por isso o chamamos de Pai, devemos pedir insistentemente – e até mesmo com lágrimas – que a nossa vida seja uma expressão, ainda que imperfeita, daquilo o que é a vida do próprio Deus.

Que significa isso? Significa que, assim como Deus é completamente separado do mundo (e por isso é santo, separado)[1], embora entre no mundo e o salve a partir de dentro, como fez na encarnação do seu Verbo, nós também devemos estar no mundo, sem ser do mundo, a fim de que a nossa vida expresse que também resolvemos nos separar do mundo, porque o nosso Pai está fora desse mundo e não compactua com a mentalidade do mundo. E quando falamos aqui do mundo, queremos, como Paulo, nos remeter àquilo o que, no mundo, se opõe a Deus e não àquilo o que há de belo e bom porque criado pelo próprio Deus. Devemos santificar o nome de Deus, estando no mundo, modificando as suas estruturas a partir de dentro, encarnando-nos por assim dizer, sem contudo, compactuarmos com o mundo. Nós devemos iluminar o mundo e não o mundo nos escurecer. Isso significa, no dizer dos Padres, pedir que o nome de Deus seja santificado.

“Venha o teu Reino!” Que pode haver de mais cristão do que esse desejo de contemplar o Reino de Deus? No final do livro do Apocalipse encontramos o belo versículo onde São João nos diz: “O Espírito e a Esposa dizem: “Vem”!” (Ap 22,17). Nós somos essa esposa, a Igreja. Quando rezamos o Pai Nosso não o rezamos individualmente, mas sempre em comunhão com os irmãos, e, por isso, dizemos: “Pai Nosso” e não “Meu Pai”! Se rezamos unidos aos irmãos, rezamos como Igreja e, por isso, esse é o nosso pedido, o pedido da Igreja no Apocalipse: Vem, Senhor Jesus! Pedir a vinda de Cristo é pedir que o seu Reino venha! Mas, ao pedirmos que venha o seu Reino não pensemos que se trate apenas de um grito que clama pelo final dos tempos. Pedimos também que o seu Reino se faça em nós, que a nossa vida seja já aqui uma expressão, ainda que ínfima e muito imperfeita, do que Reino que virá!

“Dá-nos a cada dia o pão de que precisamos”. Para Tertuliano, devemos entender em sentido espiritual esse pedido. Trata-se, antes de tudo, do pão que é Cristo e que vem a nós pela Palavra e pela Eucaristia. Ele é o nosso “Pão necessário”.[2] Se Ele nos dá o que é necessário, como não nos dará o que precisamos para viver? Se Deus alimenta assim o nosso espírito, não faria também o mesmo favor à nossa carne? De fato, Deus na sua providência infinita dá aos homens tudo o que é necessário para sua vida. Se vemos tantas injustiças e tanta falta do pão material, o erro não está em Deus, mas na dureza do nosso coração que não sabe ouvir a voz que interiormente nos manda ser “guardas do nosso irmão”.[3]

“Perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores.” Ainda bem que a medida de Deus ultrapassa a nossa. De fato, Deus nos perdoou em Cristo uma dívida que ultrapassa todos os limites de todas as dívidas que possamos ter perdoado aos homens. Nós pedimos o perdão de Deus, na certeza que Ele é clemente e misericordioso e sempre nos perdoará. Devemos pedir também ao Espírito insistentemente a graça de usarmos para com os nossos irmãos da mesma medida de misericórdia que o Senhor tem para conosco. De fato, nós queremos ser perdoados. Mas sabemos quanto custa perdoar. Fazemos do nosso coração uma cadeia, onde estão presos todos aqueles que nos magoaram, ofenderam ou denegriram a nossa imagem. Precisamos pedir ao Espírito a graça de dar anistia a todos esses que ficam dentro de nós no fundo nos contaminando ainda com suas sombras e suas infâmias. Devemos deixar que eles saiam e que Deus nos faça justiça no tempo oportuno. Isso é perdoar. É abrir o coração para que os que estão presos em nós possam sair e encontrar também, quem sabe, a Deus, que estará sempre pronto a dar também a eles como dá a cada um de nós, o seu perdão e a sua misericórdia.

“Não nos deixes cair em tentação.” Deus não deseja tentar-nos e não o faz porque Ele é inacessível ao mal. Todavia, é inevitável que tenhamos tentações, porque o diabo, ele sim, deseja nos fazer cair, e porque trazemos em nós, em virtude da culpa original, a concupiscência, uma inclinação ao mal, que em si não é pecado, mas que se for alimentada pode nos fazer cair no ato de pecado. Devemos, então, orar a fim de que não caiamos na tentação, mas que possamos sair delas ainda mais fortalecidos e mais certos de que, como diz o salmista, “Conosco está o Senhor do Universo, o nosso refúgio é o Deus de Jacó”.

O Senhor não nos ensina somente como orar, mas também com que frequência devemos orar. Devemos orar insistentemente, como aquele amigo inoportuno que chega no meio da noite e nos vence pelo cansaço como costumamos dizer. Se nós somos vencidos pelo cansaço e acabamos por dar aquilo o que nos é solicitado, como Deus, que nunca se cansa de nós, não nos dará a coisa boa por excelência que é o Espírito Santo? Pedimos muitas coisas a Deus. Às vezes pedimos cobras e escorpiões, sem saber que os estamos pedindo. Mas Deus, na sua infinita bondade, não nos dá as cobras e escorpiões que pedimos. Deus somente nos dá o que é bom e o bom por excelência é o Espírito Santo que Deus nunca deixa de dar a nós que somos seus filhos. Sobretudo é na liturgia que Deus derrama sobre nós o seu Espírito. A memória litúrgica é obra do Espírito. Ele é quem vem com força na Igreja e transforma nossos gestos e palavras em sinais eficazes da salvação que nos é comunicada pelo Pai em Cristo Jesus.

Sejamos gratos como o salmista que reconhece a bondade de Deus que sempre ouve a nossa oração: “Naquele dia em que gritei, vós me escutastes, ó Senhor!” A nossa oração, mesmo silenciosa, é sempre um grito em direção a Deus e Ele sempre a ouve. Oremos sempre na certeza de que o nosso Pai ouve sempre a nossa oração.



[1] Esse é o sentido básico do termo hebraico qadosh.

[2] Alguns Padres da Igreja compreendiam o termo ἐπιούσιον utilizado com o sentido de sobre-substancial, afinal é um termo composto pelos termos epi, que significa “sobre”, e ousia, que significa “substância”. Daí a leitura espiritual do sentido do termo.

[3] Ao contrário do que fez Caim, como nos relata Gênesis, que ao ser perguntado sobre onde estava seu irmão respondeu a YHWH: Acaso sou eu um guarda para meu irmão? (Gn 4,9)



Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida