Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/10/2018

20 de Outubro de 2018

Homilia dominical: A melhor parte

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15/07/2016 13:54 - Atualizado em 15/07/2016 13:54

Homilia dominical: A melhor parte 0

15/07/2016 13:54 - Atualizado em 15/07/2016 13:54

Poderíamos de começar a nossa reflexão de hoje com o salmo responsorial: o Salmo 14. Na Bíblia de Jerusalém este salmo recebe o significativo título de “O hóspede de YHWH”. Este salmo é uma solene liturgia de entrada no Templo de Jerusalém.

Quando o ouvimos podemos pintar a cena na nossa cabeça e imaginar o peregrino que chega e clama: “Senhor, quem morará em vossa casa?” E da porta do Templo, talvez, a voz de um levita responde, dizendo quais são as condições para se entrar no Templo de Deus e para morar em sua casa:

“É aquele que caminha sem pecado e pratica a justiça fielmente; que pensa a verdade no seu íntimo e não solta em calúnias sua língua. Que em nada prejudica o seu irmão, nem cobre de insultos seu vizinho; que não dá valor algum ao homem ímpio, mas honra os que respeitam o Senhor; não empresta o seu dinheiro com usura, nem se deixa subornar contra o inocente.”

Estas são as condições para se habitar na casa do Senhor. Diante dessa Palavra de Deus o que temos a fazer é bater no peito como aquele publicano de outra passagem do evangelho que conhecemos e dizer: ‘Senhor, tem piedade de mim que sou pecador. Senhor, eu quero morar em vossa casa, pois os salmos me dizem que mais vale estar no limiar de seu Templo do que habitar na mansão dos pecadores; os mesmos salmos me dizem que um dia em vosso Templo vale mais do que milhares fora dele; por isso, Senhor, eu quero morar em vossa casa, mas eu sou um homem impuro, de lábios impuros, que solto em calúnias minha língua e tantas vezes em meu íntimo tenho a mentira e a ambiguidade. Senhor, estou tão longe de poder morar em vossa casa, tende misericórdia de mim!’

Deus atende as nossas orações. Ele sabia que o homem sozinho não era capaz de alcançar a santidade necessária a fim de habitar na Sua casa santa. O Pai então, na sua infinita misericórdia, enviou o seu Filho, que quis se fazer peregrino e hóspede dos homens a fim de habitar nas suas casas, purificá-los, para que eles pudessem habitar na casa de Deus.

Hoje, tanto o evangelho quanto a primeira leitura nos falam daquele que hospeda em sua casa, ainda que sem saber, o próprio Deus.

Na primeira leitura temos o relato das três figuras misteriosas que aparecem a Abraão junto ao carvalho de Mambré, “no maior calor do dia”. Abraão intui algo a respeito dessas três misteriosas figuras, que serão interpretadas pelos padres da Igreja, na sua leitura alegórica da Sagrada Escritura, como sendo uma manifestação da Trindade.

Este fato da vida de Abraão fará com que ele fique conhecido pela sua hospitalidade. Se saber, ele recebeu em sua tenda o próprio Senhor.

Abraão manda Sara preparar imediatamente alimento para dar aos seus visitantes, mas qual não será a surpresa do grande patriarca ao ver que, na verdade, ele foi o grande beneficiado por essa ação generosa. Através desses visitantes misteriosos chega para Abraão a promessa de uma descendência: “Voltarei, sem falta, no ano que vem, por este tempo, e Sara, tua mulher, já terá um filho”.

No Evangelho nos aparecem os famosos “hospedeiros do Senhor”: Marta e Maria, e seu irmão Lázaro, o qual não aparece nesta cena.

Estamos diante de dois comportamentos distintos: Marta, assoberbada, procura preparar tudo quanto era necessário para bem receber Jesus. Maria, por sua vez, senta-se aos pés do Senhor e se põe a “escutar a sua palavra”. Muito se comparou a atitude dessas duas mulheres como sendo uma imagem da vida ativa e da vida contemplativa na Igreja. Os cristãos de “vida ativa” seriam aqueles que, a exemplo de Marta, cuidam de muitos afazeres. Os chamados de “vida contemplativa” seriam aqueles que se dedicam somente à oração.

Mas, será real essa distinção? Seria possível haver na Igreja uma vida ativa “sem contemplação”? Seria possível uma vida contemplativa que, também não comportasse em si uma atividade? A própria contemplação, a própria vida de oração é, já, uma atividade. Assim como também não é possível se imaginar um cristão cuja raiz de toda atividade, principalmente aquela que diz respeito ao seu apostolado, não fosse a vida de oração.

De qualquer forma, o centro deste evangelho está no chamado que Cristo nos faz a escutar a sua palavra. Maria escolheu a melhor parte... Sem dúvida muitas atividades são necessárias na nossa vida. No exercício de nosso apostolado também nos vemos assoberbados por muitas solicitações. Todavia não podemos negligenciar a urgente tarefa de um “ócio contemplativo”. Precisamos, também nós, escolher a melhor parte, como o fez Maria, e sentarmo-nos aos pés do mestre para ouvirmos a sua palavra.

Concluindo nossa reflexão, lançamos um breve olhar sobre a segunda leitura. Como já tivemos ocasião de ressaltar em outros lugares, esta é uma lectio cursiva, ou seja, uma leitura contínua de alguma epístola do Novo Testamento. Já no domingo passado começamos a leitura da carta de Paulo aos Colossenses.

Neste trecho que ouvimos hoje Paulo se “alegra”, isso mesmo, se “alegra” por poder participar dos sofrimentos de Cristo. Em sua teologia do corpo místico, Paulo compreende que os sofrimentos pelos quais passam os cristãos e pelos quais ele mesmo passa, estão em profunda comunhão com os sofrimentos de Cristo.

Quando o apóstolo diz que pretende completar “o que falta” aos sofrimentos de Cristo, ele de modo algum está pensando que o sofrimento de Cristo foi incompleto. Contudo, como Paulo compreende que existe uma profunda união entre Cristo e os cristãos, de modo que tudo o que acontece com Cristo acontece, também, com os cristãos, ele então conclui que os sofrimentos do corpo místico de Cristo estão, também, em união mística com os sofrimentos do próprio Cristo.

Neste trecho de sua carta Paulo fala também sobre o “mistério escondido” e que agora foi “revelado”. Esse “mistério oculto” é, sem dúvida, o próprio Cristo e seu plano salvífico, que foi se desenvolvendo no decorrer de toda a história da salvação, mas que só foi plenamente revelado, manifesto, em Cristo e na sua Páscoa. Por esse mistério, Cristo agora está “em nós” e isso constitui o que o apóstolo chama de “a esperança da glória”. De fato, se Cristo está em nós, vivemos na esperança da glória, na esperança de sermos com Ele ressuscitados e participar para sempre da sua intimidade no reino que para nós ele preparou.

Peçamos ao Senhor a graça de abrirmos o nosso coração ao Cristo que bate à nossa porta. Tal como Abraão, Marta e Maria acolhamos o Senhor! Deixemos que Ele entre e faça morada em nós. Assim, como deseja o Apóstolo, nos tornaremos “perfeitos em nossa união com Cristo” (cf. Cl 1,28).

          

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15/07/2016 13:54 - Atualizado em 15/07/2016 13:54

Poderíamos de começar a nossa reflexão de hoje com o salmo responsorial: o Salmo 14. Na Bíblia de Jerusalém este salmo recebe o significativo título de “O hóspede de YHWH”. Este salmo é uma solene liturgia de entrada no Templo de Jerusalém.

Quando o ouvimos podemos pintar a cena na nossa cabeça e imaginar o peregrino que chega e clama: “Senhor, quem morará em vossa casa?” E da porta do Templo, talvez, a voz de um levita responde, dizendo quais são as condições para se entrar no Templo de Deus e para morar em sua casa:

“É aquele que caminha sem pecado e pratica a justiça fielmente; que pensa a verdade no seu íntimo e não solta em calúnias sua língua. Que em nada prejudica o seu irmão, nem cobre de insultos seu vizinho; que não dá valor algum ao homem ímpio, mas honra os que respeitam o Senhor; não empresta o seu dinheiro com usura, nem se deixa subornar contra o inocente.”

Estas são as condições para se habitar na casa do Senhor. Diante dessa Palavra de Deus o que temos a fazer é bater no peito como aquele publicano de outra passagem do evangelho que conhecemos e dizer: ‘Senhor, tem piedade de mim que sou pecador. Senhor, eu quero morar em vossa casa, pois os salmos me dizem que mais vale estar no limiar de seu Templo do que habitar na mansão dos pecadores; os mesmos salmos me dizem que um dia em vosso Templo vale mais do que milhares fora dele; por isso, Senhor, eu quero morar em vossa casa, mas eu sou um homem impuro, de lábios impuros, que solto em calúnias minha língua e tantas vezes em meu íntimo tenho a mentira e a ambiguidade. Senhor, estou tão longe de poder morar em vossa casa, tende misericórdia de mim!’

Deus atende as nossas orações. Ele sabia que o homem sozinho não era capaz de alcançar a santidade necessária a fim de habitar na Sua casa santa. O Pai então, na sua infinita misericórdia, enviou o seu Filho, que quis se fazer peregrino e hóspede dos homens a fim de habitar nas suas casas, purificá-los, para que eles pudessem habitar na casa de Deus.

Hoje, tanto o evangelho quanto a primeira leitura nos falam daquele que hospeda em sua casa, ainda que sem saber, o próprio Deus.

Na primeira leitura temos o relato das três figuras misteriosas que aparecem a Abraão junto ao carvalho de Mambré, “no maior calor do dia”. Abraão intui algo a respeito dessas três misteriosas figuras, que serão interpretadas pelos padres da Igreja, na sua leitura alegórica da Sagrada Escritura, como sendo uma manifestação da Trindade.

Este fato da vida de Abraão fará com que ele fique conhecido pela sua hospitalidade. Se saber, ele recebeu em sua tenda o próprio Senhor.

Abraão manda Sara preparar imediatamente alimento para dar aos seus visitantes, mas qual não será a surpresa do grande patriarca ao ver que, na verdade, ele foi o grande beneficiado por essa ação generosa. Através desses visitantes misteriosos chega para Abraão a promessa de uma descendência: “Voltarei, sem falta, no ano que vem, por este tempo, e Sara, tua mulher, já terá um filho”.

No Evangelho nos aparecem os famosos “hospedeiros do Senhor”: Marta e Maria, e seu irmão Lázaro, o qual não aparece nesta cena.

Estamos diante de dois comportamentos distintos: Marta, assoberbada, procura preparar tudo quanto era necessário para bem receber Jesus. Maria, por sua vez, senta-se aos pés do Senhor e se põe a “escutar a sua palavra”. Muito se comparou a atitude dessas duas mulheres como sendo uma imagem da vida ativa e da vida contemplativa na Igreja. Os cristãos de “vida ativa” seriam aqueles que, a exemplo de Marta, cuidam de muitos afazeres. Os chamados de “vida contemplativa” seriam aqueles que se dedicam somente à oração.

Mas, será real essa distinção? Seria possível haver na Igreja uma vida ativa “sem contemplação”? Seria possível uma vida contemplativa que, também não comportasse em si uma atividade? A própria contemplação, a própria vida de oração é, já, uma atividade. Assim como também não é possível se imaginar um cristão cuja raiz de toda atividade, principalmente aquela que diz respeito ao seu apostolado, não fosse a vida de oração.

De qualquer forma, o centro deste evangelho está no chamado que Cristo nos faz a escutar a sua palavra. Maria escolheu a melhor parte... Sem dúvida muitas atividades são necessárias na nossa vida. No exercício de nosso apostolado também nos vemos assoberbados por muitas solicitações. Todavia não podemos negligenciar a urgente tarefa de um “ócio contemplativo”. Precisamos, também nós, escolher a melhor parte, como o fez Maria, e sentarmo-nos aos pés do mestre para ouvirmos a sua palavra.

Concluindo nossa reflexão, lançamos um breve olhar sobre a segunda leitura. Como já tivemos ocasião de ressaltar em outros lugares, esta é uma lectio cursiva, ou seja, uma leitura contínua de alguma epístola do Novo Testamento. Já no domingo passado começamos a leitura da carta de Paulo aos Colossenses.

Neste trecho que ouvimos hoje Paulo se “alegra”, isso mesmo, se “alegra” por poder participar dos sofrimentos de Cristo. Em sua teologia do corpo místico, Paulo compreende que os sofrimentos pelos quais passam os cristãos e pelos quais ele mesmo passa, estão em profunda comunhão com os sofrimentos de Cristo.

Quando o apóstolo diz que pretende completar “o que falta” aos sofrimentos de Cristo, ele de modo algum está pensando que o sofrimento de Cristo foi incompleto. Contudo, como Paulo compreende que existe uma profunda união entre Cristo e os cristãos, de modo que tudo o que acontece com Cristo acontece, também, com os cristãos, ele então conclui que os sofrimentos do corpo místico de Cristo estão, também, em união mística com os sofrimentos do próprio Cristo.

Neste trecho de sua carta Paulo fala também sobre o “mistério escondido” e que agora foi “revelado”. Esse “mistério oculto” é, sem dúvida, o próprio Cristo e seu plano salvífico, que foi se desenvolvendo no decorrer de toda a história da salvação, mas que só foi plenamente revelado, manifesto, em Cristo e na sua Páscoa. Por esse mistério, Cristo agora está “em nós” e isso constitui o que o apóstolo chama de “a esperança da glória”. De fato, se Cristo está em nós, vivemos na esperança da glória, na esperança de sermos com Ele ressuscitados e participar para sempre da sua intimidade no reino que para nós ele preparou.

Peçamos ao Senhor a graça de abrirmos o nosso coração ao Cristo que bate à nossa porta. Tal como Abraão, Marta e Maria acolhamos o Senhor! Deixemos que Ele entre e faça morada em nós. Assim, como deseja o Apóstolo, nos tornaremos “perfeitos em nossa união com Cristo” (cf. Cl 1,28).

          

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida