Arquidiocese do Rio de Janeiro

31º 22º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 21/11/2019

21 de Novembro de 2019

São Bruno e os monges cartuxos

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21 de Novembro de 2019

São Bruno e os monges cartuxos

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12/07/2016 00:00 - Atualizado em 13/07/2016 17:09

São Bruno e os monges cartuxos 0

12/07/2016 00:00 - Atualizado em 13/07/2016 17:09

A proposta de nossa Arquidiocese do mês de julho para o Ano da Misericórdia é “contemplar o Deus misericordioso”. Todos somos chamados a viver essa dimensão em nossa vida cristã: a vida de oração, a vida de contemplação. Porém, temos na Igreja diversas Ordens Religiosas, masculinas e femininas, que têm na oração contemplativa sua característica principal. Uma delas é a Cartuxa. Na realidade, é pouco conhecida em nosso país, mas deve servir de inspiração para nós neste mês de julho, em que somos chamados a contemplar o rosto misericordioso de Deus.

No dia 24 de junho, se comemorou a fundação da Ordem Cartuxa, pois foi na Solenidade de São João, o Batista, do ano de 1084, que um grupo de homens, liderados por Bruno de Reims, se retirou para um lugar ermo chamado Chartreuse (daí o nome Cartuxa, em português), na verdadeira comunhão de solitários.

Importa, por ocasião desta data, tentar entender melhor – a partir de fontes oriundas da própria Cartuxa – quem foi São Bruno e qual a finalidade da Ordem por ele fundada para a Igreja de seu tempo e a dos nossos dias. Assomado a essa razão, é preciso dizer que temos em nosso país, mais precisamente em Ivorá (RS), a Cartuxa masculina Nossa Senhora Medianeira, o que muito nos alegra como Igreja no Brasil.

Bruno nasceu por volta do ano de 1030 em Colônia, na Alemanha, forte centro da fé católica de então. Embora poucos dados se tenha de sua infância ou de seus primeiros estudos, sabemos que, ainda jovem, o futuro fundador da Cartuxa viajou para Reims (França) a fim de se aprofundar em seus estudos. Permaneceu aí por trinta anos.

De inteligência destacada, Bruno passou de aluno a professor na mesma Escola. Além disso, mantinha uma fé exemplar e grande amor à Igreja, de modo que logo se tornou cônego da catedral local e, alguns anos depois, também reitor da mesma universidade que conhecera como aluno. Teve a honra de ver o grande mestre Gilberto, ex-aluno de Reims, ser elevado ao trono papal com o nome de Silvestre II (999-1003). Ao lado disso tudo, a fama de Bruno como grande mestre era geral, conforme se pode depreender dos elogios pós-morte a ele dirigidos. Teria futuro brilhante.

Eis, porém, que um fato mudará para sempre a mentalidade de nosso futuro santo: com a morte do Bispo Gervásio, assumiu a diocese de Reims, já sede arquiepiscopal, um aventureiro de nome Manassés de Gournay. Sim, era o infeliz tempo das chamadas “investiduras leigas”, que consistia no seguinte: os imperadores nomeavam os bispos que eles desejavam, movidos por avidez temporal, e à Igreja, unida ao Estado, não restava senão acolher a decisão do imperador e entregar ao escolhido a mitra e o báculo episcopal. É certo que foi um período difícil. Ele só retomou à normalidade depois das grandes batalhas disciplinares travadas pelos Papas São Leão IX e Gregório VII. Foi a chamada “Reforma Gregoriana” na Igreja.

Esse bispo, no entanto, para contentar o povo local, que lhe era adverso, nomeou Bruno como seu chanceler. Contudo, o ilustre ex-professor de Reims não pôde ficar calado ante os desmandos, e se viu no dilema de ter de optar entre obedecer a Deus ou aos homens (cf. At 5,29). Não hesitou. Ficou com Deus e a Igreja e denunciou, no Concílio de Autun, em 1077, o seu bispo. A acusação séria surtiu efeito. Dom Manassés foi condenado por Hugo de Die, legado pontifício que presidia o Concílio.

A resposta de Manassés não tardou a vir. Bruno e mais dois amigos que fizeram a denúncia tiveram suas residências invadidas e seus bens confiscados. Além disso, por meios espúrios, o mesmo bispo recorreu a Roma e conseguiu uma medida de clemência do combativo Papa Gregório VII. Passados os mal-entendidos, o bispo foi deposto no Concílio de Lião, no ano de 1080, com um novo indulto de clemência do Papa, que esperava a sua conversão. Ele, porém, não quis saber da misericórdia ofertada pelo Santo Padre. Foi expulso de Reims pelo povo e se refugiou junto ao imperador Henrique IV, da Alemanha, que estava excomungado, e nada mais se soube dele. Tempos difíceis. A intervenção do Estado na religião sempre foi muito nociva à Igreja. Existem por trás muitos interesses. Isso, inclusive, aconteceu em menores proporções conosco no Brasil império. Mas, voltando ao nosso assunto, vemos aí a ação do homem de Deus diante do poder da época.

Bruno vencera a batalha, mas em seu coração havia o desejo muito grande de se entregar a Deus de um modo ilimitado, na solidão e no silêncio. Recusou ser bispo de Reims e foi além: depois de pôr em ordem suas coisas, distribuiu seus bens aos pobres e partiu sem bem saber para onde, pois se julgava conduzido pelo Espírito Santo, a fim de chegar onde Ele o levasse.

Passou pelo mosteiro de Molesmes e aí feito um retiro, bem como conversado com São Roberto, futuro fundador de Cister junto a Santo Alberico e Santo Estêvão Harding, em 1098. Era um tempo de grandes reformas na Vida Religiosa de então. Dali, São Bruno se dirigiu a Séche Fontaine para uma vida solitária e, depois, se afastou em direção à diocese de Glenoble (França), onde encontrou o bispo santo Dom Hugo de Chateauneuf, que muito o ajudou a concretizar seu projeto.

Sim, já com os primeiros companheiros monges, foi para um vale estreito e solitário chamado Chartreuse, a fim de alí se estabelecer. Era 24 de junho de 1084. Lá construíram algo muito simples, mas que venceu os tempos e serve de modelo até hoje. Eram “algumas modestas cabanas de madeira, independentes umas das outras, e unidas por uma galeria ou claustro; uma capela e diversos locais destinados a reuniões em comum. Essa disposição dos edifícios servirá, no futuro, de modelo a todas as cartuxas, e expressa, numa estrutura arquitetônica, aquilo que constitui a vocação a que foram chamados Bruno e seus companheiros: uma comunhão de solitários”. É um tipo de vida eremítico com alguns poucos aspectos da vida cenobítica. Uma proposta muito original diante das reformas monásticas de sua época.

“Mais abaixo, no vale, sempre numa solidão bem protegida, se instalaram aqueles eremitas que dedicariam a maior parte do seu tempo ao trabalho manual, para a subsistência de toda a comunidade: os primeiros irmãos conversos” [são chamados de donatos = doados, e vivem na comunidade ao lado dos irmãos religiosos propriamente e dos padres – nota nossa] (Palavras de monges cartuxos. Porto Alegre: Edipucrs, 2004, p. 20 – grande fonte deste nosso texto).

O apoio do bispo e o isolamento do deserto em meio às montanhas naturais onde até hoje existe a grande cartuxa permitia e permite aos novos solitários uma vida bem separada do mundo, em um completo retiro na oração e no silêncio. Diz-se que Bruno era um verdadeiro pai, a suavizar o rigor da vida monástica com sua bondade quase maternal, a desejar a cada monge uma santa alegria imperturbável, conforme ele mesmo deixará escrito depois: “Regozijai-vos, meus irmãos amadíssimos, regozijai-vos da vossa bendita sorte e da liberalidade da graça divina, derramada sobre vós”. (idem, p. 21).

Eis, porém, que seis anos depois de tudo pronto, veio uma surpresa a Bruno: um de seus antigos alunos foi eleito Papa, com o nome de Urbano II, e precisava dele, com sua inteligência brilhante, na Santa Sé. Contrariado internamente, mas submisso ao Vigário de Cristo, o monge partiu e sua querida Cartuxa foi entregue a Seguin, abade de Chaise-Dieu. A comunidade monástica se dispersou. Em Roma, porém, Bruno expôs ao Santo Padre tudo o que se passava e o Pontífice mandou que o terreno de Chartreuse fosse devolvido aos monges, e sob a direção do monge Landuíno a comunidade se recompôs.

Ocorre que no mesmo ano da eleição de Urbano II, 1090, o Papa teve de abandonar Roma, recém-caída nas mãos de um antipapa (um papa ilegítimo). Refugiou-se no sul da Itália, mas não queria ver Bruno distante, caso precisasse de algum auxílio. Deixou-o voltar para a vida eremítica, desde que não fosse em Chartreuse, mas, sim, na própria Itália. Queria dar-lhe o Arcebispado de Reggio, na Calábria, mas ele recusou. Permitiu o Santo Padre, então, que Bruno se retirasse para uma nova Cartuxa, a segunda por ele fundada: Santa Maria da Torre, na própria Calábria.

Em 29 de junho de 1099, morreu o Papa Urbano II, seu antigo aluno e admirador, de modo que cessou seu compromisso de ajudar o Romano Pontífice mais diretamente. No entanto, dois anos depois, em 6 de outubro de 1101, após fazer uma profissão de fé ante sua comunidade monástica, Bruno também entregou sua alma a Deus. Foi inscrito no catálogo dos santos pelo Papa Leão X, em 1515, e Gregório XV decretou sua memória a toda a Igreja no ano de 1621. Hoje, ela é celebrada em 6 de outubro. Sua obra escondida aos olhos dos homens foi muito louvada pelos Papas, especialmente Pio XI, na Constituição Umbratilem, e por São João Paulo II, em Mensagem dirigida aos cartuxos por ocasião de sua visita à Cartuxa de Serra de S. Bruno, em 5 de outubro de 1984.

Sobre a Ordem Cartusiana, em sua organização interna, se lê: “Esse mosteiro prosperou graças ao empenho do primeiro Prior Guigues I, amigo do Abade Cisterciense, São Bernardo de Claraval, e do Abade Beneditino, Pedro, o Venerável. Ele atraiu muitos discípulos e fundou mais ou menos doze grupos semelhantes, para os quais codificou os costumes da Cartuxa. Assim se formou a Regra que, em seguida, recebeu pequenas modificações. Em 1076, a Ordem foi organizada com um sistema de Capítulos Gerais e sob a inspeção e supervisão do Prior da Grande Cartuxa” (Dom Emanuel d’Able do Amaral, OSB. Introdução à história monástica. Salvador: Ed. São Bento, 2006, p. 157). É, portanto, o primeiro grupo monástico pós-beneditino que não segue a Regra de São Bento, e nem tem Abade, mas, sim, um Prior à frente. Pode-se dizer que cada cartuxa é um priorado.

A razão de ser do monge (e também da monja) cartuxo na Igreja é a dedicação a Deus pelo fato de ser Ele Deus e merecer todo louvor humano. Lembra-se, desse modo, aos homens que a Cruz está de pé enquanto o mundo se revolve, ou seja, há algo a mais do que o corre-corre do dia a dia. Deus é e sempre será. Tudo o mais passa. Seu apostolado consiste em louvar a Deus dia e noite, e interceder por seus irmãos a necessitarem da presença divina em suas agitadas e, muitas vezes, sofrida vida.

Fiel ao espírito do Fundador, os cartuxos são, como dito, uma comunidade de solitários. Cada um vive a sós em sua cela (residência do monge), mas se encontram, nos dias comuns, três vezes para rezar em comunidade. Nos dias de solenidades, festas ou outras ocasiões muito especiais têm mais reuniões, fazem as refeições juntos, no refeitório comum, e aos domingos realizam um passeio da comunidade fora do claustro. O resto dos dias é de oração, trabalho e silêncio, embora a conversa com o Prior seja sempre permitida. Em uma cartuxa se pode ser sacerdote, irmão religioso ou donato. (Este não faz votos, mas um compromisso de servir a Deus na comunidade).

O candidato à vida cartusiana tem de preencher os requisitos básicos de fé e de qualidades humanas, pois a clausura, severa como é, exige sadio equilíbrio físico e mental. No mosteiro, faz-se o postulantado (experiência), que varia de três meses a um ano; o noviciado, iniciado com a recepção do hábito cartuxo composto da túnica e da cogula (túnica larga, veste coral sem manga e com capuz) brancas. Vêm, depois, os primeiros votos, renováveis por três anos, sendo que, antes, já no segundo ano de noviciado, se iniciam os estudos para o sacerdócio aos que se sentem chamados a essa vocação, no próprio mosteiro. Ao final dos três anos, se faz a profissão solene, ou perpétua, e se torna membro definitivo daquela comunidade monástica.

Como se vive o dia a dia na cartuxa de Ivorá, Rio Grande do Sul, e nas demais de todo o mundo? – Vive-se o espírito da comunidade de solitários. Levanta-se às 23h45 para meia-noite começar o Ofício de Vigília noturna (Matinas e Laudes) na capela; às 3h voltam para o repouso; 6h30 despertam a fim de rezar as Primas; às 7h30 há a Missa Conventual na capela; às 9h se reza a Terça, faz-se a Lectio Divina (Leitura orante da Palavra de Deus) e, em seguida, cada um se dirige aos estudos e/ou trabalhos; às 12h reza-se a Hora Sexta, seguida do almoço e de um tempo livre a fim de depois retomar os estudos e/ou trabalhos; às 15h se reza a Noa; às 18h as Vésperas (na capela) e às 19h30 as Completas, seguidas de repouso, pois às 23h45 é hora de se levantar para as Vigílias. (cf. A vida cartusiana. Ivorá: Most. N. Sra. Medianeira, p. 30).

Deus seja louvado por ter dado à Igreja a Ordem Cartusiana por meio de São Bruno... Ordem que chegou também ao Brasil testemunhando aqui, em nossas terras, que vale a pena viver por Deus e para Deus, sem se esquecer de rezar pelos irmãos e irmãs mais necessitados, como obra de caridade e misericórdia. Que essa inspiração nos ajude a contemplar ainda mais o Deus Misericordioso e, assim, ir ao encontro do outro anunciando essa misericórdia. Amém!


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São Bruno e os monges cartuxos

12/07/2016 00:00 - Atualizado em 13/07/2016 17:09

A proposta de nossa Arquidiocese do mês de julho para o Ano da Misericórdia é “contemplar o Deus misericordioso”. Todos somos chamados a viver essa dimensão em nossa vida cristã: a vida de oração, a vida de contemplação. Porém, temos na Igreja diversas Ordens Religiosas, masculinas e femininas, que têm na oração contemplativa sua característica principal. Uma delas é a Cartuxa. Na realidade, é pouco conhecida em nosso país, mas deve servir de inspiração para nós neste mês de julho, em que somos chamados a contemplar o rosto misericordioso de Deus.

No dia 24 de junho, se comemorou a fundação da Ordem Cartuxa, pois foi na Solenidade de São João, o Batista, do ano de 1084, que um grupo de homens, liderados por Bruno de Reims, se retirou para um lugar ermo chamado Chartreuse (daí o nome Cartuxa, em português), na verdadeira comunhão de solitários.

Importa, por ocasião desta data, tentar entender melhor – a partir de fontes oriundas da própria Cartuxa – quem foi São Bruno e qual a finalidade da Ordem por ele fundada para a Igreja de seu tempo e a dos nossos dias. Assomado a essa razão, é preciso dizer que temos em nosso país, mais precisamente em Ivorá (RS), a Cartuxa masculina Nossa Senhora Medianeira, o que muito nos alegra como Igreja no Brasil.

Bruno nasceu por volta do ano de 1030 em Colônia, na Alemanha, forte centro da fé católica de então. Embora poucos dados se tenha de sua infância ou de seus primeiros estudos, sabemos que, ainda jovem, o futuro fundador da Cartuxa viajou para Reims (França) a fim de se aprofundar em seus estudos. Permaneceu aí por trinta anos.

De inteligência destacada, Bruno passou de aluno a professor na mesma Escola. Além disso, mantinha uma fé exemplar e grande amor à Igreja, de modo que logo se tornou cônego da catedral local e, alguns anos depois, também reitor da mesma universidade que conhecera como aluno. Teve a honra de ver o grande mestre Gilberto, ex-aluno de Reims, ser elevado ao trono papal com o nome de Silvestre II (999-1003). Ao lado disso tudo, a fama de Bruno como grande mestre era geral, conforme se pode depreender dos elogios pós-morte a ele dirigidos. Teria futuro brilhante.

Eis, porém, que um fato mudará para sempre a mentalidade de nosso futuro santo: com a morte do Bispo Gervásio, assumiu a diocese de Reims, já sede arquiepiscopal, um aventureiro de nome Manassés de Gournay. Sim, era o infeliz tempo das chamadas “investiduras leigas”, que consistia no seguinte: os imperadores nomeavam os bispos que eles desejavam, movidos por avidez temporal, e à Igreja, unida ao Estado, não restava senão acolher a decisão do imperador e entregar ao escolhido a mitra e o báculo episcopal. É certo que foi um período difícil. Ele só retomou à normalidade depois das grandes batalhas disciplinares travadas pelos Papas São Leão IX e Gregório VII. Foi a chamada “Reforma Gregoriana” na Igreja.

Esse bispo, no entanto, para contentar o povo local, que lhe era adverso, nomeou Bruno como seu chanceler. Contudo, o ilustre ex-professor de Reims não pôde ficar calado ante os desmandos, e se viu no dilema de ter de optar entre obedecer a Deus ou aos homens (cf. At 5,29). Não hesitou. Ficou com Deus e a Igreja e denunciou, no Concílio de Autun, em 1077, o seu bispo. A acusação séria surtiu efeito. Dom Manassés foi condenado por Hugo de Die, legado pontifício que presidia o Concílio.

A resposta de Manassés não tardou a vir. Bruno e mais dois amigos que fizeram a denúncia tiveram suas residências invadidas e seus bens confiscados. Além disso, por meios espúrios, o mesmo bispo recorreu a Roma e conseguiu uma medida de clemência do combativo Papa Gregório VII. Passados os mal-entendidos, o bispo foi deposto no Concílio de Lião, no ano de 1080, com um novo indulto de clemência do Papa, que esperava a sua conversão. Ele, porém, não quis saber da misericórdia ofertada pelo Santo Padre. Foi expulso de Reims pelo povo e se refugiou junto ao imperador Henrique IV, da Alemanha, que estava excomungado, e nada mais se soube dele. Tempos difíceis. A intervenção do Estado na religião sempre foi muito nociva à Igreja. Existem por trás muitos interesses. Isso, inclusive, aconteceu em menores proporções conosco no Brasil império. Mas, voltando ao nosso assunto, vemos aí a ação do homem de Deus diante do poder da época.

Bruno vencera a batalha, mas em seu coração havia o desejo muito grande de se entregar a Deus de um modo ilimitado, na solidão e no silêncio. Recusou ser bispo de Reims e foi além: depois de pôr em ordem suas coisas, distribuiu seus bens aos pobres e partiu sem bem saber para onde, pois se julgava conduzido pelo Espírito Santo, a fim de chegar onde Ele o levasse.

Passou pelo mosteiro de Molesmes e aí feito um retiro, bem como conversado com São Roberto, futuro fundador de Cister junto a Santo Alberico e Santo Estêvão Harding, em 1098. Era um tempo de grandes reformas na Vida Religiosa de então. Dali, São Bruno se dirigiu a Séche Fontaine para uma vida solitária e, depois, se afastou em direção à diocese de Glenoble (França), onde encontrou o bispo santo Dom Hugo de Chateauneuf, que muito o ajudou a concretizar seu projeto.

Sim, já com os primeiros companheiros monges, foi para um vale estreito e solitário chamado Chartreuse, a fim de alí se estabelecer. Era 24 de junho de 1084. Lá construíram algo muito simples, mas que venceu os tempos e serve de modelo até hoje. Eram “algumas modestas cabanas de madeira, independentes umas das outras, e unidas por uma galeria ou claustro; uma capela e diversos locais destinados a reuniões em comum. Essa disposição dos edifícios servirá, no futuro, de modelo a todas as cartuxas, e expressa, numa estrutura arquitetônica, aquilo que constitui a vocação a que foram chamados Bruno e seus companheiros: uma comunhão de solitários”. É um tipo de vida eremítico com alguns poucos aspectos da vida cenobítica. Uma proposta muito original diante das reformas monásticas de sua época.

“Mais abaixo, no vale, sempre numa solidão bem protegida, se instalaram aqueles eremitas que dedicariam a maior parte do seu tempo ao trabalho manual, para a subsistência de toda a comunidade: os primeiros irmãos conversos” [são chamados de donatos = doados, e vivem na comunidade ao lado dos irmãos religiosos propriamente e dos padres – nota nossa] (Palavras de monges cartuxos. Porto Alegre: Edipucrs, 2004, p. 20 – grande fonte deste nosso texto).

O apoio do bispo e o isolamento do deserto em meio às montanhas naturais onde até hoje existe a grande cartuxa permitia e permite aos novos solitários uma vida bem separada do mundo, em um completo retiro na oração e no silêncio. Diz-se que Bruno era um verdadeiro pai, a suavizar o rigor da vida monástica com sua bondade quase maternal, a desejar a cada monge uma santa alegria imperturbável, conforme ele mesmo deixará escrito depois: “Regozijai-vos, meus irmãos amadíssimos, regozijai-vos da vossa bendita sorte e da liberalidade da graça divina, derramada sobre vós”. (idem, p. 21).

Eis, porém, que seis anos depois de tudo pronto, veio uma surpresa a Bruno: um de seus antigos alunos foi eleito Papa, com o nome de Urbano II, e precisava dele, com sua inteligência brilhante, na Santa Sé. Contrariado internamente, mas submisso ao Vigário de Cristo, o monge partiu e sua querida Cartuxa foi entregue a Seguin, abade de Chaise-Dieu. A comunidade monástica se dispersou. Em Roma, porém, Bruno expôs ao Santo Padre tudo o que se passava e o Pontífice mandou que o terreno de Chartreuse fosse devolvido aos monges, e sob a direção do monge Landuíno a comunidade se recompôs.

Ocorre que no mesmo ano da eleição de Urbano II, 1090, o Papa teve de abandonar Roma, recém-caída nas mãos de um antipapa (um papa ilegítimo). Refugiou-se no sul da Itália, mas não queria ver Bruno distante, caso precisasse de algum auxílio. Deixou-o voltar para a vida eremítica, desde que não fosse em Chartreuse, mas, sim, na própria Itália. Queria dar-lhe o Arcebispado de Reggio, na Calábria, mas ele recusou. Permitiu o Santo Padre, então, que Bruno se retirasse para uma nova Cartuxa, a segunda por ele fundada: Santa Maria da Torre, na própria Calábria.

Em 29 de junho de 1099, morreu o Papa Urbano II, seu antigo aluno e admirador, de modo que cessou seu compromisso de ajudar o Romano Pontífice mais diretamente. No entanto, dois anos depois, em 6 de outubro de 1101, após fazer uma profissão de fé ante sua comunidade monástica, Bruno também entregou sua alma a Deus. Foi inscrito no catálogo dos santos pelo Papa Leão X, em 1515, e Gregório XV decretou sua memória a toda a Igreja no ano de 1621. Hoje, ela é celebrada em 6 de outubro. Sua obra escondida aos olhos dos homens foi muito louvada pelos Papas, especialmente Pio XI, na Constituição Umbratilem, e por São João Paulo II, em Mensagem dirigida aos cartuxos por ocasião de sua visita à Cartuxa de Serra de S. Bruno, em 5 de outubro de 1984.

Sobre a Ordem Cartusiana, em sua organização interna, se lê: “Esse mosteiro prosperou graças ao empenho do primeiro Prior Guigues I, amigo do Abade Cisterciense, São Bernardo de Claraval, e do Abade Beneditino, Pedro, o Venerável. Ele atraiu muitos discípulos e fundou mais ou menos doze grupos semelhantes, para os quais codificou os costumes da Cartuxa. Assim se formou a Regra que, em seguida, recebeu pequenas modificações. Em 1076, a Ordem foi organizada com um sistema de Capítulos Gerais e sob a inspeção e supervisão do Prior da Grande Cartuxa” (Dom Emanuel d’Able do Amaral, OSB. Introdução à história monástica. Salvador: Ed. São Bento, 2006, p. 157). É, portanto, o primeiro grupo monástico pós-beneditino que não segue a Regra de São Bento, e nem tem Abade, mas, sim, um Prior à frente. Pode-se dizer que cada cartuxa é um priorado.

A razão de ser do monge (e também da monja) cartuxo na Igreja é a dedicação a Deus pelo fato de ser Ele Deus e merecer todo louvor humano. Lembra-se, desse modo, aos homens que a Cruz está de pé enquanto o mundo se revolve, ou seja, há algo a mais do que o corre-corre do dia a dia. Deus é e sempre será. Tudo o mais passa. Seu apostolado consiste em louvar a Deus dia e noite, e interceder por seus irmãos a necessitarem da presença divina em suas agitadas e, muitas vezes, sofrida vida.

Fiel ao espírito do Fundador, os cartuxos são, como dito, uma comunidade de solitários. Cada um vive a sós em sua cela (residência do monge), mas se encontram, nos dias comuns, três vezes para rezar em comunidade. Nos dias de solenidades, festas ou outras ocasiões muito especiais têm mais reuniões, fazem as refeições juntos, no refeitório comum, e aos domingos realizam um passeio da comunidade fora do claustro. O resto dos dias é de oração, trabalho e silêncio, embora a conversa com o Prior seja sempre permitida. Em uma cartuxa se pode ser sacerdote, irmão religioso ou donato. (Este não faz votos, mas um compromisso de servir a Deus na comunidade).

O candidato à vida cartusiana tem de preencher os requisitos básicos de fé e de qualidades humanas, pois a clausura, severa como é, exige sadio equilíbrio físico e mental. No mosteiro, faz-se o postulantado (experiência), que varia de três meses a um ano; o noviciado, iniciado com a recepção do hábito cartuxo composto da túnica e da cogula (túnica larga, veste coral sem manga e com capuz) brancas. Vêm, depois, os primeiros votos, renováveis por três anos, sendo que, antes, já no segundo ano de noviciado, se iniciam os estudos para o sacerdócio aos que se sentem chamados a essa vocação, no próprio mosteiro. Ao final dos três anos, se faz a profissão solene, ou perpétua, e se torna membro definitivo daquela comunidade monástica.

Como se vive o dia a dia na cartuxa de Ivorá, Rio Grande do Sul, e nas demais de todo o mundo? – Vive-se o espírito da comunidade de solitários. Levanta-se às 23h45 para meia-noite começar o Ofício de Vigília noturna (Matinas e Laudes) na capela; às 3h voltam para o repouso; 6h30 despertam a fim de rezar as Primas; às 7h30 há a Missa Conventual na capela; às 9h se reza a Terça, faz-se a Lectio Divina (Leitura orante da Palavra de Deus) e, em seguida, cada um se dirige aos estudos e/ou trabalhos; às 12h reza-se a Hora Sexta, seguida do almoço e de um tempo livre a fim de depois retomar os estudos e/ou trabalhos; às 15h se reza a Noa; às 18h as Vésperas (na capela) e às 19h30 as Completas, seguidas de repouso, pois às 23h45 é hora de se levantar para as Vigílias. (cf. A vida cartusiana. Ivorá: Most. N. Sra. Medianeira, p. 30).

Deus seja louvado por ter dado à Igreja a Ordem Cartusiana por meio de São Bruno... Ordem que chegou também ao Brasil testemunhando aqui, em nossas terras, que vale a pena viver por Deus e para Deus, sem se esquecer de rezar pelos irmãos e irmãs mais necessitados, como obra de caridade e misericórdia. Que essa inspiração nos ajude a contemplar ainda mais o Deus Misericordioso e, assim, ir ao encontro do outro anunciando essa misericórdia. Amém!


Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro