Arquidiocese do Rio de Janeiro

26º 18º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 19/08/2017

19 de Agosto de 2017

Contemplar a misericórdia de Deus

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19 de Agosto de 2017

Contemplar a misericórdia de Deus

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06/07/2016 17:56 - Atualizado em 06/07/2016 17:58

Contemplar a misericórdia de Deus 0

06/07/2016 17:56 - Atualizado em 06/07/2016 17:58

Na Bula de convocação do Jubileu, o Papa Francisco afirma que “precisamos sempre contemplar a misericórdia divina”. Apesar de vivermos, num mundo dividido em contínua discórdia, nós, os cristãos, sabemos, por experiência própria, que Deus sempre conduz as pessoas a reconciliação e a comunhão (cf. Oração Eucarística para a Reconciliação). A contemplação dessa ação divina nos retira do pessimismo e nos abre para a esperança em um mundo novo, se tornando fonte de alegria, serenidade e paz (cf. MV 2). Dito isto, passaremos a refletir sobre o tema da contemplação da misericórdia divina, em consonância com as suas entradas no texto da Misericordiae Vultus.

O nome da Trindade (MV 2):

Na primeira entrada do termo contemplação, já encontramos uma afirmação fundamental na compressão da identidade divina. Assim diz o texto: Precisamos sempre contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade”. Ora, contemplar a misericórdia é, no fundo, enxergar o próprio Deus, sua realidade mais profunda. O Papa Francisco nos convida a purificar a nossa imagem de Deus, carregada de expressões de juízo, de condenação e de inimizade – bem semelhante a experiência de medo testemunhada por Adão (cf. Gn 3,10) – e a recuperar a revelação feita por Jesus: “o Vosso Pai é misericordioso” (cf. Lc 6,36). Desta forma, a contemplação divina está centrada na própria natureza de Deus, nas suas ações para conosco e nos atos, que em seu nome, fazemos e recebemos do próximo.

O Espírito: paráclito da misericórdia (MV 4):

A segunda entrada do tema mostra o papel central do Pneuma como paráclito – ajudante – na tarefa de contemplar a misericórdia divina. O texto diz que: “O Espírito Santo, que conduz os passos dos crentes de forma a cooperarem para a obra de salvação realizada por Cristo, seja guia e apoio do povo de Deus a fim de o ajudar a contemplar o rosto da misericórdia”. Desta forma, se confirmam os textos neotestamentários nos quais o Espírito, prometido por Jesus, tem a missão de ensinar, de conduzir, de amalgamar, de revelar e de perscrutar as profundezas de Deus (cf. 1Cor 2,10). E, ainda mais, é Ele quem efetiva o perdão dado pelo Pai e conquistado pelo Filho (cf. Jo 20,22-23). Contemplar a misericórdia divina é deixar-se mover pelo Divino Pneuma a fim de conhecer o seu amor atuante (cf. Ef 3,14-21). Sem o dom pneumático, a Igreja e a humanidade não teriam suas feridas curadas nem a possibilidade de viver em comunhão.

A Escritura, o silêncio e a oração (MV 13):

O tema entra, pela terceira vez, vinculado a vida espiritual dos cristãos. O Papa Francisco escreve: “Portanto, para ser capazes de misericórdia, devemos primeiro pôr-nos à escuta da Palavra de Deus. Isso significa recuperar o valor do silêncio, para meditar a Palavra que nos é dirigida. Deste modo, é possível contemplar a misericórdia de Deus e assumi-la como próprio estilo de vida”. Este texto apresenta um percurso: leitura da Escritura, silêncio-escuta da Palavra de Deus, contemplação da misericórdia divina e conversão. Na verdade, o caminho espiritual apresentado é o da Leitura Orante – leitura-escuta, meditação, oração, contemplação e ação-conversão. A fonte do agir dos fiéis está na experiência de acolhimento da Palavra divina através da leitura-oração da Escritura. Contemplar a misericórdia divina é escutá-la, acolhê-la e converter-se nela para os irmãos.

Maria, mãe de misericórdia (MV 24):

Já no final do documento, o tema aparece em chave cristológica e mariológica. Lemos assim: “Dirijamos-Lhe a oração, antiga e sempre nova, da Salve Rainha, pedindo-Lhe que nunca se canse de volver para nós os seus olhos misericordiosos e nos faça dignos de contemplar o rosto da misericórdia, seu Filho Jesus”. Primeiro aparece a expressão “olhos misericordiosos” em ligação com Maria. Diante dela, vemos a obra de santificação que o Espírito faz na Igreja e nos cristãos. Assim, os olhos misericordiosos marianos são imagem da vocação da comunidade dos fiéis. Depois, no pedido pela sua intercessão, surge o Filho – rosto da misericórdia do Pai, como a meta da vida terrestre. Contemplar a misericórdia, aqui, aparece com um tom histórico – nossa missão de, sob a ação do Paráclito, olhar as situações difíceis com a compaixão mariana – e, também, com um acento escatológico –  o encontro definitivo com a misericórdia.

A mistagogia da misericórdia (MV 25): 

A última entrada do termo, já no parágrafo final, manifesta a condição e a missão própria da Igreja. Encontramos assim: “Sabe que a sua missão primeira, sobretudo numa época como a nossa cheia de grandes esperanças e fortes contradições, é a de introduzir a todos no grande mistério da misericórdia de Deus, contemplando o rosto de Cristo”. O texto retrata o momento atual destacando seus aspectos positivos – as grandes esperanças de renovação e os desejos crescentes de paz e de comunhão – e caracterizando os negativos – a presença contrastante da guerra, da violência, da fome, da perseguição religiosa e política etc. Para este mundo, a Igreja precisa exercer a sua natureza de introdutora no mistério divino, ou seja, fazer com que os homens experimentem a força do perdão do Cristo e vivam, em suas relações, a mesma dinâmica de compaixão. A contemplação é mistagógica, pois, para adentrar a esfera do divino, precisa se voltar, cada vez mais, para o conhecimento de Jesus Cristo (1Cor 1,24). 


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Contemplar a misericórdia de Deus

06/07/2016 17:56 - Atualizado em 06/07/2016 17:58

Na Bula de convocação do Jubileu, o Papa Francisco afirma que “precisamos sempre contemplar a misericórdia divina”. Apesar de vivermos, num mundo dividido em contínua discórdia, nós, os cristãos, sabemos, por experiência própria, que Deus sempre conduz as pessoas a reconciliação e a comunhão (cf. Oração Eucarística para a Reconciliação). A contemplação dessa ação divina nos retira do pessimismo e nos abre para a esperança em um mundo novo, se tornando fonte de alegria, serenidade e paz (cf. MV 2). Dito isto, passaremos a refletir sobre o tema da contemplação da misericórdia divina, em consonância com as suas entradas no texto da Misericordiae Vultus.

O nome da Trindade (MV 2):

Na primeira entrada do termo contemplação, já encontramos uma afirmação fundamental na compressão da identidade divina. Assim diz o texto: Precisamos sempre contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade”. Ora, contemplar a misericórdia é, no fundo, enxergar o próprio Deus, sua realidade mais profunda. O Papa Francisco nos convida a purificar a nossa imagem de Deus, carregada de expressões de juízo, de condenação e de inimizade – bem semelhante a experiência de medo testemunhada por Adão (cf. Gn 3,10) – e a recuperar a revelação feita por Jesus: “o Vosso Pai é misericordioso” (cf. Lc 6,36). Desta forma, a contemplação divina está centrada na própria natureza de Deus, nas suas ações para conosco e nos atos, que em seu nome, fazemos e recebemos do próximo.

O Espírito: paráclito da misericórdia (MV 4):

A segunda entrada do tema mostra o papel central do Pneuma como paráclito – ajudante – na tarefa de contemplar a misericórdia divina. O texto diz que: “O Espírito Santo, que conduz os passos dos crentes de forma a cooperarem para a obra de salvação realizada por Cristo, seja guia e apoio do povo de Deus a fim de o ajudar a contemplar o rosto da misericórdia”. Desta forma, se confirmam os textos neotestamentários nos quais o Espírito, prometido por Jesus, tem a missão de ensinar, de conduzir, de amalgamar, de revelar e de perscrutar as profundezas de Deus (cf. 1Cor 2,10). E, ainda mais, é Ele quem efetiva o perdão dado pelo Pai e conquistado pelo Filho (cf. Jo 20,22-23). Contemplar a misericórdia divina é deixar-se mover pelo Divino Pneuma a fim de conhecer o seu amor atuante (cf. Ef 3,14-21). Sem o dom pneumático, a Igreja e a humanidade não teriam suas feridas curadas nem a possibilidade de viver em comunhão.

A Escritura, o silêncio e a oração (MV 13):

O tema entra, pela terceira vez, vinculado a vida espiritual dos cristãos. O Papa Francisco escreve: “Portanto, para ser capazes de misericórdia, devemos primeiro pôr-nos à escuta da Palavra de Deus. Isso significa recuperar o valor do silêncio, para meditar a Palavra que nos é dirigida. Deste modo, é possível contemplar a misericórdia de Deus e assumi-la como próprio estilo de vida”. Este texto apresenta um percurso: leitura da Escritura, silêncio-escuta da Palavra de Deus, contemplação da misericórdia divina e conversão. Na verdade, o caminho espiritual apresentado é o da Leitura Orante – leitura-escuta, meditação, oração, contemplação e ação-conversão. A fonte do agir dos fiéis está na experiência de acolhimento da Palavra divina através da leitura-oração da Escritura. Contemplar a misericórdia divina é escutá-la, acolhê-la e converter-se nela para os irmãos.

Maria, mãe de misericórdia (MV 24):

Já no final do documento, o tema aparece em chave cristológica e mariológica. Lemos assim: “Dirijamos-Lhe a oração, antiga e sempre nova, da Salve Rainha, pedindo-Lhe que nunca se canse de volver para nós os seus olhos misericordiosos e nos faça dignos de contemplar o rosto da misericórdia, seu Filho Jesus”. Primeiro aparece a expressão “olhos misericordiosos” em ligação com Maria. Diante dela, vemos a obra de santificação que o Espírito faz na Igreja e nos cristãos. Assim, os olhos misericordiosos marianos são imagem da vocação da comunidade dos fiéis. Depois, no pedido pela sua intercessão, surge o Filho – rosto da misericórdia do Pai, como a meta da vida terrestre. Contemplar a misericórdia, aqui, aparece com um tom histórico – nossa missão de, sob a ação do Paráclito, olhar as situações difíceis com a compaixão mariana – e, também, com um acento escatológico –  o encontro definitivo com a misericórdia.

A mistagogia da misericórdia (MV 25): 

A última entrada do termo, já no parágrafo final, manifesta a condição e a missão própria da Igreja. Encontramos assim: “Sabe que a sua missão primeira, sobretudo numa época como a nossa cheia de grandes esperanças e fortes contradições, é a de introduzir a todos no grande mistério da misericórdia de Deus, contemplando o rosto de Cristo”. O texto retrata o momento atual destacando seus aspectos positivos – as grandes esperanças de renovação e os desejos crescentes de paz e de comunhão – e caracterizando os negativos – a presença contrastante da guerra, da violência, da fome, da perseguição religiosa e política etc. Para este mundo, a Igreja precisa exercer a sua natureza de introdutora no mistério divino, ou seja, fazer com que os homens experimentem a força do perdão do Cristo e vivam, em suas relações, a mesma dinâmica de compaixão. A contemplação é mistagógica, pois, para adentrar a esfera do divino, precisa se voltar, cada vez mais, para o conhecimento de Jesus Cristo (1Cor 1,24). 


Padre Vitor Gino Finelon
Autor

Padre Vitor Gino Finelon

Professor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida