Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/08/2018

20 de Agosto de 2018

"Basta uma palavra"

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27/05/2016 00:00 - Atualizado em 31/05/2016 18:30

"Basta uma palavra" 0

27/05/2016 00:00 - Atualizado em 31/05/2016 18:30

 “Transformastes o meu pranto em uma festa, Senhor meu Deus, eternamente hei de louvar-vos!” (Sl 29,12-13)

O domingo, dia em que celebramos a Ressurreição de Cristo e, portanto, também a nossa futura ressurreição, nos faz entrever através dos mistérios que celebramos a realidade que esse salmo profeticamente anuncia. O salmista nos diz que o nosso pranto será transformado em uma festa e que nós louvaremos ao Senhor eternamente, logo, o nosso louvor ao Senhor não cessará nessa vida e nesse mundo, mas, começando aqui, se estenderá pela eternidade, quando estivermos mais perfeitamente unidos ao Senhor.

Hoje a liturgia da Palavra nos apresente um trecho do capítulo 7 de Lucas. O evangelista Lucas quer apresentar Jesus como o “grande profeta”, superior aos da Antiga Aliança, porque n’Ele se cumpre aquilo o que os profetas anunciavam. Jesus é o homem portador da Palavra e do Espírito. Como lemos em Lc 4,1 “Jesus, pleno do Espírito Santo, voltou do Jordão”; e ainda em outra passagem citando o profeta Isaías “O Espírito do Senhor está sobre mim porque ele me ungiu para evangelizar os pobres” (cf. Lc 4,18). Para mostrar que Jesus é o grande e verdadeiro profeta, superior aos profetas que vieram antes, Lucas nos apresenta alguns de seus milagres que são muito semelhantes aos milagres de dois grandes profetas do Antigo Testamento: Elias e Eliseu.

Na perícope ouvida hoje na liturgia da Palavra temos a ressurreição do filho da viúva de Naim. Milagre análogo nos é narrado na primeira leitura. Elias está na casa da viúva de Sarepta, na região dos sidônios. O Senhor envia Elias para uma região pagã durante o longo período de seca que atingiu a Palestina. Lá realiza-se o grande milagre da multiplicação da farinha e do óleo e agora vai realizar-se uma outra intervenção divina na vida dessa viúva. Seu filho é acometido de uma grave doença e agora ele está morto.

A viúva acredita que o homem de Deus veio trazer a morte para a sua casa como recordação dos seus muitos pecados. A viúva ainda não conhecia a misericórdia do verdadeiro Deus que, como diz a Escritura, não quer a morte do pecador, mas antes que ele se converta e tenha vida. Elias invoca, então, o Senhor, por três vezes e a vida retorna ao jovem. Diante da revivificação de seu filho a mulher acredita no Homem de Deus e na Palavra que ele traz. Podemos até mesmo entrar na cena e imaginar como a fé dessa mulher é suscitada pela vida que retorna ao corpo do seu Filho. Ela cantaria junto conosco o refrão desse salmo: “Eu vos exalto, ó Senhor, pois me livrastes, e preservastes minha vida da morte!” 

No evangelho Jesus realiza um gesto análogo, mas infinitamente superior. Jesus vai a uma cidade chamada Naim e, antes mesmo de entrar, Jesus se depara com uma cena que despertou a sua compaixão, segundo nos relata Lucas. As entranhas de misericórdia do Senhor se comoveram com a cena: uma viúva, que vai enterrar seu filho único. Contemplamos quase que uma dupla morte aqui: a morte física do jovem e a morte espiritual da mãe que enterra junto com o filho sua única esperança de ter ainda uma alegria sobre a terra. Jesus não somente contempla a miséria daquela mulher, mas se aproxima e toca a morte. O evangelho nos diz que ele tocou o esquife. Talvez muitos tenham se escandalizado desse gesto de Jesus. Ele toca num morto que não é seu parente. Porque se contaminar com a impureza dos mortos se ele não tem nada a ver com esse jovem? Mas o fato é que Jesus sente compaixão e toca a morte e ordena ao jovem: Levanta-te! Sua Palavra é eficaz e o jovem se levanta e começa a falar. Todos, atemorizados diante desse estupendo gesto, glorificam a Deus e reconhecem Jesus como um “grande profeta”.

Essa parábola pode ser para nós um resumo da história da salvação. Deus, na sua infinita misericórdia, nos criou para a vida. Deus não criou o ser humano para a morte. Todavia, a morte entrou no mundo por causa do pecado. Deus, contudo, não ficou assistindo de longe a nossa perdição. Deus, que nos criou para a vida, se comoveu, e o Verbo, tomado de compaixão pela humanidade, desceu de junto do Pai até nós e se encarnou pelo poder do Espírito do seio da Virgem.

Ao se encarnar, o Cristo tocou o nosso esquife, tocou a nossa morte, porque Ele assumiu um corpo a fim de entregá-lo para a nossa salvação. Nessa cena do evangelho Ele toca o morto e ele se levanta. Mas, na história da salvação, Ele não somente toca com a mão a nossa morte, mas Ele entra todo inteiro na morada dos mortos a fim de vencer de uma vez por todas não a morte de um homem, mas a morte em si mesma. A morte não tem mais poder sobre nós.

Poderíamos questionar dizendo que, de fato, ainda vemos o poder da morte reinar no mundo. Mas, a realidade está para além do que podemos ver com nossos olhos carnais. De fato, ainda vemos a morte, mas sabemos que ela não tem mais poder sobre nós. Morremos, mas Cristo destruiu a morte e garantiu-nos a vida eterna. Se morremos para esta vida é porque precisamos morrer para uma realidade para nascermos em outra realidade. Jesus nos disse isso várias vezes. O grão precisa morrer para se tornar trigo. A semente precisa morrer para se tornar uma árvore frondosa. Assim, também, o homem carnal precisa morrer para ressuscitar homem espiritual. Cristo não assumiu a nossa morte para nos garantir uma vida eterna nesse mundo, mas sim uma vida eterna na casa do Pai, onde estaremos para sempre com Ele.

Um dia, quando partirmos desse mundo, ouviremos também a voz de Cristo a nos dizer: Levanta-te! E seremos erguidos para junto do Senhor. E não somente a nossa alma estará com Ele, porque cremos na ressurreição da carne e sabemos que no último dia Ele dará vida aos nossos corpos mortais.

Ao olharmos também para a nossa vida cotidiana percebemos que constantemente a voz de Cristo está a nos dizer: Jovem, eu te ordeno, levanta-te! É uma palavra de ordem para nós, uma ordem do Senhor: Levanta-te! Não podemos ficar sentados nas trevas do pecado. Nesse mundo caímos muitas vezes e Cristo vem e nos ordena que levantemos e continuemos a caminhar. Não podemos sair do caminho.

São Tomás, no seu comentário ao Evangelho de João nos diz: “É melhor claudicar no caminho do que caminhar com desembaraço fora dele. Pois quem manqueja no caminho, conquanto demore, chegará ao termo. Quem, ao contrário, vai por fora do caminho, embora correndo, se afasta, cada vez mais, do termo.” Às vezes nos cansamos de cair e levantar tantas vezes, mas é o Senhor que nos ordena: Levanta-te! No último dia Ele nos chamará pelo nome e nos levantará definitivamente. Mas, até lá, até esse encontro derradeiro, peçamos ao Espírito que nos fortaleça a fim de que nunca cansemos de ouvir essa voz do Senhor, que é a sua própria Palavra, a nos ordenar que levantemos e continuemos a caminhar. A liturgia, os ritos sagrados, a Palavra viva e eficaz de Cristo, nos dão a força necessária para levantarmo-nos e caminharmos mais, recordando-nos sempre da meta, do nosso rumo definitivo.

Como nos diz São Paulo na segunda leitura “o evangelho pregado por mim não é conforme a critérios humanos”, mas é o próprio Cristo que nos ilumina com a luz da verdade.

Quando no ocaso da nossa vida, como nos diz o salmista, o pranto vier visitar-nos, não desanimemos, porque de manhã nos virá saudar a alegria. É assim durante a nossa vida terrena e será assim no último dia, quando Ele enxugar toda lágrima dos nossos olhos, nos fizer entrar em sua morada santa e transformar o nosso pranto em dança, definitivamente.


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27/05/2016 00:00 - Atualizado em 31/05/2016 18:30

 “Transformastes o meu pranto em uma festa, Senhor meu Deus, eternamente hei de louvar-vos!” (Sl 29,12-13)

O domingo, dia em que celebramos a Ressurreição de Cristo e, portanto, também a nossa futura ressurreição, nos faz entrever através dos mistérios que celebramos a realidade que esse salmo profeticamente anuncia. O salmista nos diz que o nosso pranto será transformado em uma festa e que nós louvaremos ao Senhor eternamente, logo, o nosso louvor ao Senhor não cessará nessa vida e nesse mundo, mas, começando aqui, se estenderá pela eternidade, quando estivermos mais perfeitamente unidos ao Senhor.

Hoje a liturgia da Palavra nos apresente um trecho do capítulo 7 de Lucas. O evangelista Lucas quer apresentar Jesus como o “grande profeta”, superior aos da Antiga Aliança, porque n’Ele se cumpre aquilo o que os profetas anunciavam. Jesus é o homem portador da Palavra e do Espírito. Como lemos em Lc 4,1 “Jesus, pleno do Espírito Santo, voltou do Jordão”; e ainda em outra passagem citando o profeta Isaías “O Espírito do Senhor está sobre mim porque ele me ungiu para evangelizar os pobres” (cf. Lc 4,18). Para mostrar que Jesus é o grande e verdadeiro profeta, superior aos profetas que vieram antes, Lucas nos apresenta alguns de seus milagres que são muito semelhantes aos milagres de dois grandes profetas do Antigo Testamento: Elias e Eliseu.

Na perícope ouvida hoje na liturgia da Palavra temos a ressurreição do filho da viúva de Naim. Milagre análogo nos é narrado na primeira leitura. Elias está na casa da viúva de Sarepta, na região dos sidônios. O Senhor envia Elias para uma região pagã durante o longo período de seca que atingiu a Palestina. Lá realiza-se o grande milagre da multiplicação da farinha e do óleo e agora vai realizar-se uma outra intervenção divina na vida dessa viúva. Seu filho é acometido de uma grave doença e agora ele está morto.

A viúva acredita que o homem de Deus veio trazer a morte para a sua casa como recordação dos seus muitos pecados. A viúva ainda não conhecia a misericórdia do verdadeiro Deus que, como diz a Escritura, não quer a morte do pecador, mas antes que ele se converta e tenha vida. Elias invoca, então, o Senhor, por três vezes e a vida retorna ao jovem. Diante da revivificação de seu filho a mulher acredita no Homem de Deus e na Palavra que ele traz. Podemos até mesmo entrar na cena e imaginar como a fé dessa mulher é suscitada pela vida que retorna ao corpo do seu Filho. Ela cantaria junto conosco o refrão desse salmo: “Eu vos exalto, ó Senhor, pois me livrastes, e preservastes minha vida da morte!” 

No evangelho Jesus realiza um gesto análogo, mas infinitamente superior. Jesus vai a uma cidade chamada Naim e, antes mesmo de entrar, Jesus se depara com uma cena que despertou a sua compaixão, segundo nos relata Lucas. As entranhas de misericórdia do Senhor se comoveram com a cena: uma viúva, que vai enterrar seu filho único. Contemplamos quase que uma dupla morte aqui: a morte física do jovem e a morte espiritual da mãe que enterra junto com o filho sua única esperança de ter ainda uma alegria sobre a terra. Jesus não somente contempla a miséria daquela mulher, mas se aproxima e toca a morte. O evangelho nos diz que ele tocou o esquife. Talvez muitos tenham se escandalizado desse gesto de Jesus. Ele toca num morto que não é seu parente. Porque se contaminar com a impureza dos mortos se ele não tem nada a ver com esse jovem? Mas o fato é que Jesus sente compaixão e toca a morte e ordena ao jovem: Levanta-te! Sua Palavra é eficaz e o jovem se levanta e começa a falar. Todos, atemorizados diante desse estupendo gesto, glorificam a Deus e reconhecem Jesus como um “grande profeta”.

Essa parábola pode ser para nós um resumo da história da salvação. Deus, na sua infinita misericórdia, nos criou para a vida. Deus não criou o ser humano para a morte. Todavia, a morte entrou no mundo por causa do pecado. Deus, contudo, não ficou assistindo de longe a nossa perdição. Deus, que nos criou para a vida, se comoveu, e o Verbo, tomado de compaixão pela humanidade, desceu de junto do Pai até nós e se encarnou pelo poder do Espírito do seio da Virgem.

Ao se encarnar, o Cristo tocou o nosso esquife, tocou a nossa morte, porque Ele assumiu um corpo a fim de entregá-lo para a nossa salvação. Nessa cena do evangelho Ele toca o morto e ele se levanta. Mas, na história da salvação, Ele não somente toca com a mão a nossa morte, mas Ele entra todo inteiro na morada dos mortos a fim de vencer de uma vez por todas não a morte de um homem, mas a morte em si mesma. A morte não tem mais poder sobre nós.

Poderíamos questionar dizendo que, de fato, ainda vemos o poder da morte reinar no mundo. Mas, a realidade está para além do que podemos ver com nossos olhos carnais. De fato, ainda vemos a morte, mas sabemos que ela não tem mais poder sobre nós. Morremos, mas Cristo destruiu a morte e garantiu-nos a vida eterna. Se morremos para esta vida é porque precisamos morrer para uma realidade para nascermos em outra realidade. Jesus nos disse isso várias vezes. O grão precisa morrer para se tornar trigo. A semente precisa morrer para se tornar uma árvore frondosa. Assim, também, o homem carnal precisa morrer para ressuscitar homem espiritual. Cristo não assumiu a nossa morte para nos garantir uma vida eterna nesse mundo, mas sim uma vida eterna na casa do Pai, onde estaremos para sempre com Ele.

Um dia, quando partirmos desse mundo, ouviremos também a voz de Cristo a nos dizer: Levanta-te! E seremos erguidos para junto do Senhor. E não somente a nossa alma estará com Ele, porque cremos na ressurreição da carne e sabemos que no último dia Ele dará vida aos nossos corpos mortais.

Ao olharmos também para a nossa vida cotidiana percebemos que constantemente a voz de Cristo está a nos dizer: Jovem, eu te ordeno, levanta-te! É uma palavra de ordem para nós, uma ordem do Senhor: Levanta-te! Não podemos ficar sentados nas trevas do pecado. Nesse mundo caímos muitas vezes e Cristo vem e nos ordena que levantemos e continuemos a caminhar. Não podemos sair do caminho.

São Tomás, no seu comentário ao Evangelho de João nos diz: “É melhor claudicar no caminho do que caminhar com desembaraço fora dele. Pois quem manqueja no caminho, conquanto demore, chegará ao termo. Quem, ao contrário, vai por fora do caminho, embora correndo, se afasta, cada vez mais, do termo.” Às vezes nos cansamos de cair e levantar tantas vezes, mas é o Senhor que nos ordena: Levanta-te! No último dia Ele nos chamará pelo nome e nos levantará definitivamente. Mas, até lá, até esse encontro derradeiro, peçamos ao Espírito que nos fortaleça a fim de que nunca cansemos de ouvir essa voz do Senhor, que é a sua própria Palavra, a nos ordenar que levantemos e continuemos a caminhar. A liturgia, os ritos sagrados, a Palavra viva e eficaz de Cristo, nos dão a força necessária para levantarmo-nos e caminharmos mais, recordando-nos sempre da meta, do nosso rumo definitivo.

Como nos diz São Paulo na segunda leitura “o evangelho pregado por mim não é conforme a critérios humanos”, mas é o próprio Cristo que nos ilumina com a luz da verdade.

Quando no ocaso da nossa vida, como nos diz o salmista, o pranto vier visitar-nos, não desanimemos, porque de manhã nos virá saudar a alegria. É assim durante a nossa vida terrena e será assim no último dia, quando Ele enxugar toda lágrima dos nossos olhos, nos fizer entrar em sua morada santa e transformar o nosso pranto em dança, definitivamente.


Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida