Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 24/06/2017

24 de Junho de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (46) Interpretação e tradução da Bíblia

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24 de Junho de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (46) Interpretação e tradução da Bíblia

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27/05/2016 00:00 - Atualizado em 30/05/2016 14:53

A Palavra de Deus na Bíblia (46) Interpretação e tradução da Bíblia 0

27/05/2016 00:00 - Atualizado em 30/05/2016 14:53

Nos artigos anteriores pudemos abordar, segundo o documento “A Interpretação da Bíblia na Igreja’ (1993), os aspectos mais importantes da abordagem ‘Da Libertação’, que com outras posturas, foi classificada como uma ‘Abordagem Contextual’.

Assim, podemos passar agora à exposição e análise de outra abordagem, dita ainda, ‘contextual’, aquela denominada ‘Feminista’.

2. Abordagem feminista:

A hermenêutica bíblica feminista nasceu por volta do fim do século XIX nos Estados Unidos, no contexto sociocultural da luta pelos direitos da mulher, com o comitê de revisão da Bíblia. Este último produziu o “The Woman’s Bible” em dois volumes (New York 1885, 1898). Esta corrente se manifestou com grande vigor e teve um enorme desenvolvimento a partir dos anos ‘70, em ligação com o movimento de libertação da mulher, sobretudo na América do Norte.1

Melhor dizendo, devem-se distinguir várias hermenêuticas bíblicas feministas, pois as abordagens utilizadas são muito diversas. A unidade delas provém do tema comum, isto é a mulher, e do fim perseguido: a libertação da mulher e a conquista de direitos iguais aos do homem.

Este pensamento de ordem sociocultural e política nascente, como ‘ideologia’ de força, nos anos 70’, representa um longo processo de busca de processos de igualdade étnica, social e de gênero que se desenvolviam na Europa e nos EUA, tendo como referência os ‘estudos multiculturais’2.

Segundo Celi Regina Jardim Pinto o feminismo é uma forma de pensamento autoreferendável, um pensamento sobre mulheres realizado por mulheres:

O movimento feminista tem uma característica muito particular que deve ser tomada em consideração pelos interessados em entender sua história e seus processos: é um movimento que produz sua própria reflexão crítica, sua própria teoria. Esta coincidência entre militância e teoria é rara e deriva-se, entre outras razões, do tipo social de militante que impulsionou, pelo menos em um primeiro momento, o feminismo da segunda metade do século XX: mulheres de classe média, educadas, principalmente, nas áreas das Humanidades, da Crítica Literária e da Psicanálise. Pode se conhecer o movimento feminista a partir de duas vertentes: da história do feminismo, ou seja, da ação do movimento feminista, e da produção teórica feminista nas áreas da história, ciências sociais, crítica literária e psicanálise. Por esta sua dupla característica, tanto o movimento feminista quanto a sua teoria transbordaram seus limites, provocando um interessante embate e reordenamento de diversas naturezas na história dos movimentos sociais e nas próprias teorias das Ciências Humanas em geral3.

A Comissão Bíblica distingue neste universo ao menos três vertentes ou formas, na ordem de seu desenvolvimento histórico: forma radical, neo-ortodoxa, crítica.

A forma radical recusa completamente a autoridade da Bíblia, dizendo que ela foi produzida por homens em vista de assegurar a dominação do homem sobre a mulher (androcentrismo)4.

Na primeira forma da abordagem bíblica feminista, aquela ‘radical’, coloca-se um problema de fundo que desautoriza a Bíblia, a saber, ter sido escrita exclusivamente por ‘homens’, sendo assim, um documento ‘machista’, inadequado para a formação religiosa da mulher.

Este conceito de ‘androcentrismo5’, vem a substituir aquele mais amplo de ‘antropocentrismo’ tão caro ao pensamento do Renascimento no século XV. E se opõe a ‘ginocentrismo’

O termo ‘ântropos’, palavra grega que significa ‘humano’, implica numa extensão que exubera o gênero, isto é, com a palavra ‘humano’ quero me referir a homens e mulheres.

Já o termo ‘andrós’, refere-se ao gênero masculino, diverso daquele feminino. Uma temática ‘androcêntrica’ limita-se ao universo masculino de qualquer realidade.

Referências:

1  http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html.

2 Multiculturalismo (ou pluralismo cultural) é um termo que descreve a existência de muitas culturas numa região, cidade ou país, com no mínimo uma predominante. O Canadá e a Austrália são exemplos de multiculturalismo; porém, alguns países europeus advogam discretamente a adoção de uma política multiculturalista. Em contraponto ao Multiculturalismo, podemos constatar a existência de outras políticas culturais seguidas, como, por exemplo, o Monoculturalismo vigente na maioria dos países do mundo e ligada intimamente ao nacionalismo. Pretende a assimilação dos imigrantes e da sua cultura nos países de acolhimento. O Melting Pot, como é o caso dos Estados Unidos ou, numa versão livre, Caldeirão, uma metáfora para a heterogeneidade do povo americano), e do Brasil, onde as diversas culturas estão misturadas e amalgamadas sem a intervenção do Estado. A política multiculturalista visa resistir à homogeneidade cultural, principalmente quando esta homogeneidade é considerada única e legítima, submetendo outras culturas a particularismos e dependência. Sociedades pluriculturais coexistiram em todas as épocas, e hoje, estima-se que apenas 10 a 15% dos países sejam etnicamente homogêneos. A diversidade cultural e étnica muitas vezes é vista como uma ameaça para a identidade da nação. Em alguns lugares o multiculturalismo provoca desprezo e indiferença, como ocorre no Canadá entre habitantes de língua francesa e os de língua inglesa. Mas também pode ser vista como fator de enriquecimento e abertura de novas e diversas possibilidades, como confirmam o sociólogo Michel Wieviorka e o historiador Serge Gruzinski, ao demonstrarem que o hibridismo e a maleabilidade das culturas são fatores positivos de inovação. Charles Taylor, autor de Multiculturalismo, Diferença e Democracia acredita que toda a política identitária não deveria ultrapassar a liberdade individual. Indivíduos, no seu entender, são únicos e não poderiam ser categorizados. Taylor definiu a democracia como a única alternativa não política para alcançar o reconhecimento do outro, ou seja, da diversidade. Seus opositores defendem que o multiculturalismo pode ser danoso às sociedades e particularmente nocivo às culturas nativas. (cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Multiculturalismo)

3 http://www.scielo.br/pdf/rsocp/v18n36/03.pdf

4 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

5 Termo cunhado pelo sociólogo americano Lester F. Ward em 1903 está intimamente ligado à noção de patriarcado. Entretanto, não se refere apenas ao privilégio dos homens, mas também à forma com a qual as experiências masculinas são consideradas como as experiências de todos os seres humanos e tidas como uma norma universal, tanto para homens quanto para mulheres, sem dar o reconhecimento completo e igualitário à sabedoria e experiência feminina. A tendência quase universal de se reduzir a raça humana ao termo “o homem” é um exemplo excludente que ilustra um comportamento androcêntrico. O seu oposto, relacionando-o com a mulher, designa-se por ginocentrismo. Vale ressaltar que o androcentrismo não deve ser compreendido como misoginia, a qual Darlene M. Juschka faz uma distinção em seu livro Feminism in the Study of Religion: A Reader, de 2001 (https://pt.wikipedia.org/wiki/Androcentrismo)

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A Palavra de Deus na Bíblia (46) Interpretação e tradução da Bíblia

27/05/2016 00:00 - Atualizado em 30/05/2016 14:53

Nos artigos anteriores pudemos abordar, segundo o documento “A Interpretação da Bíblia na Igreja’ (1993), os aspectos mais importantes da abordagem ‘Da Libertação’, que com outras posturas, foi classificada como uma ‘Abordagem Contextual’.

Assim, podemos passar agora à exposição e análise de outra abordagem, dita ainda, ‘contextual’, aquela denominada ‘Feminista’.

2. Abordagem feminista:

A hermenêutica bíblica feminista nasceu por volta do fim do século XIX nos Estados Unidos, no contexto sociocultural da luta pelos direitos da mulher, com o comitê de revisão da Bíblia. Este último produziu o “The Woman’s Bible” em dois volumes (New York 1885, 1898). Esta corrente se manifestou com grande vigor e teve um enorme desenvolvimento a partir dos anos ‘70, em ligação com o movimento de libertação da mulher, sobretudo na América do Norte.1

Melhor dizendo, devem-se distinguir várias hermenêuticas bíblicas feministas, pois as abordagens utilizadas são muito diversas. A unidade delas provém do tema comum, isto é a mulher, e do fim perseguido: a libertação da mulher e a conquista de direitos iguais aos do homem.

Este pensamento de ordem sociocultural e política nascente, como ‘ideologia’ de força, nos anos 70’, representa um longo processo de busca de processos de igualdade étnica, social e de gênero que se desenvolviam na Europa e nos EUA, tendo como referência os ‘estudos multiculturais’2.

Segundo Celi Regina Jardim Pinto o feminismo é uma forma de pensamento autoreferendável, um pensamento sobre mulheres realizado por mulheres:

O movimento feminista tem uma característica muito particular que deve ser tomada em consideração pelos interessados em entender sua história e seus processos: é um movimento que produz sua própria reflexão crítica, sua própria teoria. Esta coincidência entre militância e teoria é rara e deriva-se, entre outras razões, do tipo social de militante que impulsionou, pelo menos em um primeiro momento, o feminismo da segunda metade do século XX: mulheres de classe média, educadas, principalmente, nas áreas das Humanidades, da Crítica Literária e da Psicanálise. Pode se conhecer o movimento feminista a partir de duas vertentes: da história do feminismo, ou seja, da ação do movimento feminista, e da produção teórica feminista nas áreas da história, ciências sociais, crítica literária e psicanálise. Por esta sua dupla característica, tanto o movimento feminista quanto a sua teoria transbordaram seus limites, provocando um interessante embate e reordenamento de diversas naturezas na história dos movimentos sociais e nas próprias teorias das Ciências Humanas em geral3.

A Comissão Bíblica distingue neste universo ao menos três vertentes ou formas, na ordem de seu desenvolvimento histórico: forma radical, neo-ortodoxa, crítica.

A forma radical recusa completamente a autoridade da Bíblia, dizendo que ela foi produzida por homens em vista de assegurar a dominação do homem sobre a mulher (androcentrismo)4.

Na primeira forma da abordagem bíblica feminista, aquela ‘radical’, coloca-se um problema de fundo que desautoriza a Bíblia, a saber, ter sido escrita exclusivamente por ‘homens’, sendo assim, um documento ‘machista’, inadequado para a formação religiosa da mulher.

Este conceito de ‘androcentrismo5’, vem a substituir aquele mais amplo de ‘antropocentrismo’ tão caro ao pensamento do Renascimento no século XV. E se opõe a ‘ginocentrismo’

O termo ‘ântropos’, palavra grega que significa ‘humano’, implica numa extensão que exubera o gênero, isto é, com a palavra ‘humano’ quero me referir a homens e mulheres.

Já o termo ‘andrós’, refere-se ao gênero masculino, diverso daquele feminino. Uma temática ‘androcêntrica’ limita-se ao universo masculino de qualquer realidade.

Referências:

1  http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html.

2 Multiculturalismo (ou pluralismo cultural) é um termo que descreve a existência de muitas culturas numa região, cidade ou país, com no mínimo uma predominante. O Canadá e a Austrália são exemplos de multiculturalismo; porém, alguns países europeus advogam discretamente a adoção de uma política multiculturalista. Em contraponto ao Multiculturalismo, podemos constatar a existência de outras políticas culturais seguidas, como, por exemplo, o Monoculturalismo vigente na maioria dos países do mundo e ligada intimamente ao nacionalismo. Pretende a assimilação dos imigrantes e da sua cultura nos países de acolhimento. O Melting Pot, como é o caso dos Estados Unidos ou, numa versão livre, Caldeirão, uma metáfora para a heterogeneidade do povo americano), e do Brasil, onde as diversas culturas estão misturadas e amalgamadas sem a intervenção do Estado. A política multiculturalista visa resistir à homogeneidade cultural, principalmente quando esta homogeneidade é considerada única e legítima, submetendo outras culturas a particularismos e dependência. Sociedades pluriculturais coexistiram em todas as épocas, e hoje, estima-se que apenas 10 a 15% dos países sejam etnicamente homogêneos. A diversidade cultural e étnica muitas vezes é vista como uma ameaça para a identidade da nação. Em alguns lugares o multiculturalismo provoca desprezo e indiferença, como ocorre no Canadá entre habitantes de língua francesa e os de língua inglesa. Mas também pode ser vista como fator de enriquecimento e abertura de novas e diversas possibilidades, como confirmam o sociólogo Michel Wieviorka e o historiador Serge Gruzinski, ao demonstrarem que o hibridismo e a maleabilidade das culturas são fatores positivos de inovação. Charles Taylor, autor de Multiculturalismo, Diferença e Democracia acredita que toda a política identitária não deveria ultrapassar a liberdade individual. Indivíduos, no seu entender, são únicos e não poderiam ser categorizados. Taylor definiu a democracia como a única alternativa não política para alcançar o reconhecimento do outro, ou seja, da diversidade. Seus opositores defendem que o multiculturalismo pode ser danoso às sociedades e particularmente nocivo às culturas nativas. (cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Multiculturalismo)

3 http://www.scielo.br/pdf/rsocp/v18n36/03.pdf

4 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

5 Termo cunhado pelo sociólogo americano Lester F. Ward em 1903 está intimamente ligado à noção de patriarcado. Entretanto, não se refere apenas ao privilégio dos homens, mas também à forma com a qual as experiências masculinas são consideradas como as experiências de todos os seres humanos e tidas como uma norma universal, tanto para homens quanto para mulheres, sem dar o reconhecimento completo e igualitário à sabedoria e experiência feminina. A tendência quase universal de se reduzir a raça humana ao termo “o homem” é um exemplo excludente que ilustra um comportamento androcêntrico. O seu oposto, relacionando-o com a mulher, designa-se por ginocentrismo. Vale ressaltar que o androcentrismo não deve ser compreendido como misoginia, a qual Darlene M. Juschka faz uma distinção em seu livro Feminism in the Study of Religion: A Reader, de 2001 (https://pt.wikipedia.org/wiki/Androcentrismo)

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica