Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 29/03/2017

29 de Março de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (44): Interpretação e tradução da Bíblia

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29 de Março de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (44): Interpretação e tradução da Bíblia

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06/05/2016 00:00 - Atualizado em 30/05/2016 14:42

A Palavra de Deus na Bíblia (44): Interpretação e tradução da Bíblia 0

06/05/2016 00:00 - Atualizado em 30/05/2016 14:42

Neste artigo damos continuidade à primeira abordagem contextual, aquela denominada ‘teologia da libertação’.

Ao invés de se contentar com uma interpretação objetivante, que se concentra sobre aquilo que diz o texto em seu contexto de origem, procura-se uma leitura que nasça da situação vivida pelo povo. Se este último vive em circunstâncias de opressão, é preciso recorrer à Bíblia para nela procurar o alimento capaz de sustentá-lo em suas lutas e suas esperanças. A realidade presente não deve ser ignorada, mas, ao contrário, afrontada em vista de iluminá-la à luz da Palavra. Desta luz resultará a práxis cristã autêntica, tendendo à transformação da sociedade por meio da justiça e do amor. Na fé, a Escritura se transforma em fator de dinamismo de libertação integral.1

O Documento da Igreja situa a abordagem liberacionista a partir do fato que se renuncia a uma ‘interpretação objetivante’, entendida como uma leitura histórico-crítica: ‘o texto em seu contexto de origem’, para optar por uma interpretação que ‘nasça da situação vivida pelo povo’.

Em outras palavras, segundo esta abordagem bíblica, a interpretação válida surge da situação de opressão do povo pobre. Assim, entramos na lógica desta abordagem.

Deus está presente na história de seu povo para salvá-lo. Ele é o Deus dos pobres, que não pode tolerar a opressão nem a injustiça. É por isso que a exegese não pode ser neutra, mas deve tomar partido pelos pobres no seguimento de Deus, e engajar-se no combate pela libertação dos oprimidos.2

Porque Deus é o Deus dos pobres e oprimidos, como se lê em Ex 3, 7-8:

‘E disse o Senhor: Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores, porque conheci as suas dores. Portanto, desci para livrá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra, a uma terra boa e larga, a uma terra que mana leite e mel; ao lugar do cananeu, e do heteu, e do amorreu, e do perizeu, e do heveu, e do jebuseu.Êxodo’

A Hermenêutica situacionista da libertação conclui que a leitura da Bíblia, nesta perspectiva, obriga-nos a tomar o partido dos pobres! E isto significa incrementar nosso engajamento na ‘ortopráxis’3 a favor dos pobres.

Como a libertação dos oprimidos é um processo coletivo, a comunidade dos pobres é a melhor destinatária para receber a Bíblia como palavra de libertação. Além disso, os textos bíblicos tendo sido escritos para comunidades, é a comunidades que em primeiro lugar a leitura da Bíblia é confiada. A Palavra de Deus é plenamente atual, graças, sobretudo à capacidade que possuem os “acontecimentos fundadores” (a saída do Egito, a paixão e a ressurreição de Jesus) de suscitar novas realizações no curso da história4.

A abordagem da libertação considera os pobres como os destinatários, por excelência da mensagem bíblica, motivo pelo qual a hermenêutica bíblica desta abordagem é subsidiada pela ‘opção preferencial pelos pobres, proclamada em Puebla5 (1979), no inicio do Pontificado do Papa João Paulo II.

Esta relação de Deus com os pobres possui lastro no conjunto das Sagradas Escrituras, desde o Antigo Testamento, como lemos nos Profetas, até os Evangelhos e Cartas do Novo Testamento.

Mas, é preciso avaliar com cautela os pressupostos desta abordagem para que a utilizemos com vantagem para a Palavra de Deus e a Fé na Palavra de Deus.

A teologia da libertação compreende elementos cujo valor é indubitável: o sentido profundo da presença de Deus que salva; a insistência sobre a dimensão comunitária da fé; a urgência de uma práxis libertadora enraizada na justiça e no amor; uma releitura da Bíblia que procura fazer da Palavra de Deus a luz e o alimento do povo de Deus em meio a suas lutas e suas esperanças. Assim é sublinhada a plena atualidade do texto inspirado6.

Passemos em revista, segundo o Documento “A Interpretação da Bíblia na Igreja” (1993), as características virtuosas da abordagem libertária da Palavra de Deus:

1. ‘(....) o sentido profundo da presença de Deus que salva’; Deus é experimentado no contexto da vida que pena em busca de salvação, e assim a identidade Divina não é abstrata ou estranha à precariedade da existência dos crentes.

2. ‘(...) a insistência sobre a dimensão comunitária da fé’, na teologia da libertação não há lugar para a experiência individualista e isolada da Fé. Ela exerceu uma forte crítica à visão da fé como alienação, da parte dos cristãos em sua atuação no mundo.

3. ‘(...) a urgência de uma práxis libertadora enraizada na justiça e no amor’, nesse sentido, não se pode imaginar a Fé sem uma realização concreta da caridade, ou no dizer de São Thiago (2,19): ‘Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem’.

4. ‘(...) uma releitura da Bíblia que procura fazer da Palavra de Deus a luz e o alimento do povo de Deus em meio a suas lutas e suas esperanças’, a leitura bíblica popular alia-se às lutas das camadas mais pobres, reforçando a ideia que a Bíblia não é um livro de filosofia.

Continuaremos a avaliar esta abordagem bíblica no próximo artigo.

Referências:

1  http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

 2 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

  3 Para entender o significa do termo no contexto da teologia da Libertação: http://conferenciarazaodafe.blogspot.com.br/2008/03/5-ortodoxia-e-ortopraxis.html

 4 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

5 Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano realizou-se em Puebla de los Angeles no período de 27 de janeiro a 13 de fevereiro de 1979. No fim de 1976, no transcurso da XVI Assembleia do CELAM, celebrada em San Juan de Puerto Rico, Sebastião Cardeal Baggio, então prefeito da Congregação para os Bispos e presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina, anunciou que Paulo VI tinha a intenção de convocar a III Conferência Geral. Os bispos acolheram com entusiasmo a notícia e iniciaram os trabalhos preparatórios ao evento eclesial. Paulo VI apontou como documento de referência a Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, de 1975, na qual o pontífice analisava o que é evangelizar, qual é o conteúdo da evangelização, quem são os destinatários da evangelização, quem são seus agentes e que espírito deve presidi-la. Paulo VI convocou oficialmente a III Conferência no dia 12 de dezembro de 1977, sob o tema: “Evangelização no presente e no futuro da América Latina”. O pontífice assinalou que ela seria celebrada de 12 a 18 de outubro de 1978, mas o seu falecimento e o breve pontificado do Papa João Paulo I fizeram com que a Conferência fosse adiada, até ter lugar de 28 de janeiro a 13 de fevereiro de 1979. Participaram 356 delegados, sendo previstos inicialmente 249, 221 dos quais eram bispos. O Papa João Paulo II inaugurou a III Conferência pessoalmente, com um discurso lido no Seminário Palafoxiano de Puebla. Essa foi a primeira viagem deste Papa à América e despertou o interesse de multidões. Seu discurso inaugural ditaria a marcha dos trabalhos da reunião eclesial.

 6 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

 

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A Palavra de Deus na Bíblia (44): Interpretação e tradução da Bíblia

06/05/2016 00:00 - Atualizado em 30/05/2016 14:42

Neste artigo damos continuidade à primeira abordagem contextual, aquela denominada ‘teologia da libertação’.

Ao invés de se contentar com uma interpretação objetivante, que se concentra sobre aquilo que diz o texto em seu contexto de origem, procura-se uma leitura que nasça da situação vivida pelo povo. Se este último vive em circunstâncias de opressão, é preciso recorrer à Bíblia para nela procurar o alimento capaz de sustentá-lo em suas lutas e suas esperanças. A realidade presente não deve ser ignorada, mas, ao contrário, afrontada em vista de iluminá-la à luz da Palavra. Desta luz resultará a práxis cristã autêntica, tendendo à transformação da sociedade por meio da justiça e do amor. Na fé, a Escritura se transforma em fator de dinamismo de libertação integral.1

O Documento da Igreja situa a abordagem liberacionista a partir do fato que se renuncia a uma ‘interpretação objetivante’, entendida como uma leitura histórico-crítica: ‘o texto em seu contexto de origem’, para optar por uma interpretação que ‘nasça da situação vivida pelo povo’.

Em outras palavras, segundo esta abordagem bíblica, a interpretação válida surge da situação de opressão do povo pobre. Assim, entramos na lógica desta abordagem.

Deus está presente na história de seu povo para salvá-lo. Ele é o Deus dos pobres, que não pode tolerar a opressão nem a injustiça. É por isso que a exegese não pode ser neutra, mas deve tomar partido pelos pobres no seguimento de Deus, e engajar-se no combate pela libertação dos oprimidos.2

Porque Deus é o Deus dos pobres e oprimidos, como se lê em Ex 3, 7-8:

‘E disse o Senhor: Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores, porque conheci as suas dores. Portanto, desci para livrá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra, a uma terra boa e larga, a uma terra que mana leite e mel; ao lugar do cananeu, e do heteu, e do amorreu, e do perizeu, e do heveu, e do jebuseu.Êxodo’

A Hermenêutica situacionista da libertação conclui que a leitura da Bíblia, nesta perspectiva, obriga-nos a tomar o partido dos pobres! E isto significa incrementar nosso engajamento na ‘ortopráxis’3 a favor dos pobres.

Como a libertação dos oprimidos é um processo coletivo, a comunidade dos pobres é a melhor destinatária para receber a Bíblia como palavra de libertação. Além disso, os textos bíblicos tendo sido escritos para comunidades, é a comunidades que em primeiro lugar a leitura da Bíblia é confiada. A Palavra de Deus é plenamente atual, graças, sobretudo à capacidade que possuem os “acontecimentos fundadores” (a saída do Egito, a paixão e a ressurreição de Jesus) de suscitar novas realizações no curso da história4.

A abordagem da libertação considera os pobres como os destinatários, por excelência da mensagem bíblica, motivo pelo qual a hermenêutica bíblica desta abordagem é subsidiada pela ‘opção preferencial pelos pobres, proclamada em Puebla5 (1979), no inicio do Pontificado do Papa João Paulo II.

Esta relação de Deus com os pobres possui lastro no conjunto das Sagradas Escrituras, desde o Antigo Testamento, como lemos nos Profetas, até os Evangelhos e Cartas do Novo Testamento.

Mas, é preciso avaliar com cautela os pressupostos desta abordagem para que a utilizemos com vantagem para a Palavra de Deus e a Fé na Palavra de Deus.

A teologia da libertação compreende elementos cujo valor é indubitável: o sentido profundo da presença de Deus que salva; a insistência sobre a dimensão comunitária da fé; a urgência de uma práxis libertadora enraizada na justiça e no amor; uma releitura da Bíblia que procura fazer da Palavra de Deus a luz e o alimento do povo de Deus em meio a suas lutas e suas esperanças. Assim é sublinhada a plena atualidade do texto inspirado6.

Passemos em revista, segundo o Documento “A Interpretação da Bíblia na Igreja” (1993), as características virtuosas da abordagem libertária da Palavra de Deus:

1. ‘(....) o sentido profundo da presença de Deus que salva’; Deus é experimentado no contexto da vida que pena em busca de salvação, e assim a identidade Divina não é abstrata ou estranha à precariedade da existência dos crentes.

2. ‘(...) a insistência sobre a dimensão comunitária da fé’, na teologia da libertação não há lugar para a experiência individualista e isolada da Fé. Ela exerceu uma forte crítica à visão da fé como alienação, da parte dos cristãos em sua atuação no mundo.

3. ‘(...) a urgência de uma práxis libertadora enraizada na justiça e no amor’, nesse sentido, não se pode imaginar a Fé sem uma realização concreta da caridade, ou no dizer de São Thiago (2,19): ‘Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem’.

4. ‘(...) uma releitura da Bíblia que procura fazer da Palavra de Deus a luz e o alimento do povo de Deus em meio a suas lutas e suas esperanças’, a leitura bíblica popular alia-se às lutas das camadas mais pobres, reforçando a ideia que a Bíblia não é um livro de filosofia.

Continuaremos a avaliar esta abordagem bíblica no próximo artigo.

Referências:

1  http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

 2 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

  3 Para entender o significa do termo no contexto da teologia da Libertação: http://conferenciarazaodafe.blogspot.com.br/2008/03/5-ortodoxia-e-ortopraxis.html

 4 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

5 Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano realizou-se em Puebla de los Angeles no período de 27 de janeiro a 13 de fevereiro de 1979. No fim de 1976, no transcurso da XVI Assembleia do CELAM, celebrada em San Juan de Puerto Rico, Sebastião Cardeal Baggio, então prefeito da Congregação para os Bispos e presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina, anunciou que Paulo VI tinha a intenção de convocar a III Conferência Geral. Os bispos acolheram com entusiasmo a notícia e iniciaram os trabalhos preparatórios ao evento eclesial. Paulo VI apontou como documento de referência a Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, de 1975, na qual o pontífice analisava o que é evangelizar, qual é o conteúdo da evangelização, quem são os destinatários da evangelização, quem são seus agentes e que espírito deve presidi-la. Paulo VI convocou oficialmente a III Conferência no dia 12 de dezembro de 1977, sob o tema: “Evangelização no presente e no futuro da América Latina”. O pontífice assinalou que ela seria celebrada de 12 a 18 de outubro de 1978, mas o seu falecimento e o breve pontificado do Papa João Paulo I fizeram com que a Conferência fosse adiada, até ter lugar de 28 de janeiro a 13 de fevereiro de 1979. Participaram 356 delegados, sendo previstos inicialmente 249, 221 dos quais eram bispos. O Papa João Paulo II inaugurou a III Conferência pessoalmente, com um discurso lido no Seminário Palafoxiano de Puebla. Essa foi a primeira viagem deste Papa à América e despertou o interesse de multidões. Seu discurso inaugural ditaria a marcha dos trabalhos da reunião eclesial.

 6 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

 

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica