Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 24/07/2017

24 de Julho de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (41): Interpretação e tradução da Bíblia

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24 de Julho de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (41): Interpretação e tradução da Bíblia

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08/04/2016 00:00 - Atualizado em 30/05/2016 14:22

A Palavra de Deus na Bíblia (41): Interpretação e tradução da Bíblia 0

08/04/2016 00:00 - Atualizado em 30/05/2016 14:22

No artigo anterior, começamos a passar em revista as abordagens baseadas nas ‘ciências humanas’. A sociologia foi a primeira das três que serão analisadas pela Pontifícia Comissão Bíblica.

Falta a conclusão da abordagem sociológica antes de passarmos àquela da antropologia cultural, acenos críticos sugeridos pelo documento da Igreja sobre a interpretação bíblica.

Primeiramente, reafirma-se a relevância da abordagem sociológica no operado exegético moderno e crítico. O documento chega a afirmar que sua dispensa causaria danos ou empobrecimento ao funcionamento rigoroso da exegese bíblica.

Geralmente a abordagem sociológica dá uma abertura maior ao trabalho exegético e comporta muitos aspectos positivos. O conhecimento dos dados sociológicos que contribuem a fazer compreender o funcionamento econômico, cultural e religioso do mundo bíblico é indispensável à crítica histórica.

A tarefa da exegese, de bem compreender o testemunho de fé da Igreja apostólica, não pode ser levada a termo de maneira rigorosa sem uma pesquisa científica que estude os estreitos relacionamentos dos textos do Novo Testamento com a vivência social da Igreja primitiva.

A utilização dos modelos fornecidos pela ciência sociológica assegura às pesquisas dos historiadores das épocas bíblicas uma notável capacidade de renovação, mas é preciso, naturalmente, que os modelos sejam modificados em função da realidade estudada.

Mas nem tudo são flores. Há também aspectos que requerem atenção dos exegetas. O texto do Comissão Bíblica alerta para dois aspectos: primeiro, o fato da sociologia estudar com mais segurança formas sociais vivas, modernas, o que não ocorre no estudo bíblico, seja do Antigo, como do Novo Testamento.

Segundo, que, mesmo em matrizes diversas da sociologia marxista, materialista, a sociologia em geral tende a considerar mais relevantes os aspectos econômicos e institucionais em detrimento de outros, em particular, os que interessam às análises religiosas, típicas dos relatos bíblicos.

Além disso, deve se afirmar que a narrativa bíblica (Vétero ou Neotestamentária) não oferece um ‘quadro’ objetivo da sociedade na qual esta se insere e descreve, de certa maneira.

‘É o caso aqui de assinalar alguns riscos que a abordagem sociológica faz correr a exegese. Efetivamente, se o trabalho da sociologia consiste em estudar as sociedades vivas, é previsível encontrar algumas dificuldades logo que se quer aplicar seus métodos a ambientes históricos que pertençam a um passado longínquo. Os textos bíblicos e extra-bíblicos não fornecem forçosamente uma documentação suficiente para dar uma visão de conjunto da sociedade da época. Aliás, o método sociológico tende a dar mais atenção aos aspectos econômicos e institucionais da existência humana do que às suas dimensões pessoais e religiosas’1.

2. Abordagem através da antropologia cultural

O documento apresenta as aproximações e distâncias entre o método sociológico e aquele da antropologia cultural:

A abordagem dos textos bíblicos que utiliza as pesquisas de antropologia cultural está em ligação estreita com a abordagem sociológica. A distinção dessas duas abordagens situa-se ao mesmo tempo no nível da sensibilidade, do método e dos aspectos da realidade que retêm a atenção.

Enquanto que a abordagem sociológica –  acabamos de dizê-lo – estuda, sobretudo os aspectos econômicos e institucionais, a abordagem antropológica interessa-se por um vasto conjunto de outros aspectos que se refletem na linguagem, arte, religião, mas também nos vestuários, ornamentos, festas, danças, mitos, lendas e tudo o que concerne a etnografia2.

Neste sentido, se tivéssemos que responder à questão acerca do objeto de pesquisa da antropologia cultural ao penetrar no terreno das ciências bíblicas, poder-se-ia afirmar que se trata de estudar criticamente ‘as características dos diferentes tipos de homens no ambiente social deles’. O homem dentro dos textos bíblicos como aparece em seus contextos vitais?

Geralmente a antropologia cultural procura definir as características dos diferentes tipos de homens no ambiente social deles – como, por exemplo, o homem mediterrânico – com tudo o que isso implica de estudo do ambiente rural ou urbano e de atenção voltada aos valores reconhecidos pela sociedade (honra e desonra, segredo, fidelidade, tradição, gênero de educação e de escolas), à maneira pela qual se exerce o controle social, às ideias que se tem da família, da casa, do parentesco, à situação da mulher, dos binômios institucionais (patrão-cliente, proprietário-locatário, benfeitor-beneficiário, homem livre-escravo), sem esquecer a concepção do sagrado e do profano, os tabus, o ritual de passagem de uma situação a uma outra, a magia, a origem dos recursos, do poder, da informação, etc3.

A antropologia cultural, portanto, oferece ao exegeta bíblico categorias advindas de ‘modelos’ e tipologias que lhe permitem analisar o ‘humano’ (análise antropológica) em suas características principais em determinadas situações.

Esse gênero de estudos pode evidentemente ser útil para a interpretação dos textos bíblicos e ele é efetivamente utilizado para o estudo das concepções de parentesco no Antigo Testamento, a posição da mulher na sociedade israelita, a influência dos ritos agrários, etc.

Nos textos que relatam o ensinamento de Jesus, por exemplo, as parábolas, muitos detalhes podem ser esclarecidos graças a essa abordagem. Ocorre o mesmo para as concepções fundamentais, como aquela do reino de Deus, ou para a maneira de conceber o tempo na história da salvação, assim como para os processos de aglutinação das comunidades primitivas. Esta abordagem permite distinguir melhor os elementos permanentes da mensagem bíblica cujo fundamento está na natureza humana, e as determinações contingentes segundo culturas particulares.

Referências:

1http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

2http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

3 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

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A Palavra de Deus na Bíblia (41): Interpretação e tradução da Bíblia

08/04/2016 00:00 - Atualizado em 30/05/2016 14:22

No artigo anterior, começamos a passar em revista as abordagens baseadas nas ‘ciências humanas’. A sociologia foi a primeira das três que serão analisadas pela Pontifícia Comissão Bíblica.

Falta a conclusão da abordagem sociológica antes de passarmos àquela da antropologia cultural, acenos críticos sugeridos pelo documento da Igreja sobre a interpretação bíblica.

Primeiramente, reafirma-se a relevância da abordagem sociológica no operado exegético moderno e crítico. O documento chega a afirmar que sua dispensa causaria danos ou empobrecimento ao funcionamento rigoroso da exegese bíblica.

Geralmente a abordagem sociológica dá uma abertura maior ao trabalho exegético e comporta muitos aspectos positivos. O conhecimento dos dados sociológicos que contribuem a fazer compreender o funcionamento econômico, cultural e religioso do mundo bíblico é indispensável à crítica histórica.

A tarefa da exegese, de bem compreender o testemunho de fé da Igreja apostólica, não pode ser levada a termo de maneira rigorosa sem uma pesquisa científica que estude os estreitos relacionamentos dos textos do Novo Testamento com a vivência social da Igreja primitiva.

A utilização dos modelos fornecidos pela ciência sociológica assegura às pesquisas dos historiadores das épocas bíblicas uma notável capacidade de renovação, mas é preciso, naturalmente, que os modelos sejam modificados em função da realidade estudada.

Mas nem tudo são flores. Há também aspectos que requerem atenção dos exegetas. O texto do Comissão Bíblica alerta para dois aspectos: primeiro, o fato da sociologia estudar com mais segurança formas sociais vivas, modernas, o que não ocorre no estudo bíblico, seja do Antigo, como do Novo Testamento.

Segundo, que, mesmo em matrizes diversas da sociologia marxista, materialista, a sociologia em geral tende a considerar mais relevantes os aspectos econômicos e institucionais em detrimento de outros, em particular, os que interessam às análises religiosas, típicas dos relatos bíblicos.

Além disso, deve se afirmar que a narrativa bíblica (Vétero ou Neotestamentária) não oferece um ‘quadro’ objetivo da sociedade na qual esta se insere e descreve, de certa maneira.

‘É o caso aqui de assinalar alguns riscos que a abordagem sociológica faz correr a exegese. Efetivamente, se o trabalho da sociologia consiste em estudar as sociedades vivas, é previsível encontrar algumas dificuldades logo que se quer aplicar seus métodos a ambientes históricos que pertençam a um passado longínquo. Os textos bíblicos e extra-bíblicos não fornecem forçosamente uma documentação suficiente para dar uma visão de conjunto da sociedade da época. Aliás, o método sociológico tende a dar mais atenção aos aspectos econômicos e institucionais da existência humana do que às suas dimensões pessoais e religiosas’1.

2. Abordagem através da antropologia cultural

O documento apresenta as aproximações e distâncias entre o método sociológico e aquele da antropologia cultural:

A abordagem dos textos bíblicos que utiliza as pesquisas de antropologia cultural está em ligação estreita com a abordagem sociológica. A distinção dessas duas abordagens situa-se ao mesmo tempo no nível da sensibilidade, do método e dos aspectos da realidade que retêm a atenção.

Enquanto que a abordagem sociológica –  acabamos de dizê-lo – estuda, sobretudo os aspectos econômicos e institucionais, a abordagem antropológica interessa-se por um vasto conjunto de outros aspectos que se refletem na linguagem, arte, religião, mas também nos vestuários, ornamentos, festas, danças, mitos, lendas e tudo o que concerne a etnografia2.

Neste sentido, se tivéssemos que responder à questão acerca do objeto de pesquisa da antropologia cultural ao penetrar no terreno das ciências bíblicas, poder-se-ia afirmar que se trata de estudar criticamente ‘as características dos diferentes tipos de homens no ambiente social deles’. O homem dentro dos textos bíblicos como aparece em seus contextos vitais?

Geralmente a antropologia cultural procura definir as características dos diferentes tipos de homens no ambiente social deles – como, por exemplo, o homem mediterrânico – com tudo o que isso implica de estudo do ambiente rural ou urbano e de atenção voltada aos valores reconhecidos pela sociedade (honra e desonra, segredo, fidelidade, tradição, gênero de educação e de escolas), à maneira pela qual se exerce o controle social, às ideias que se tem da família, da casa, do parentesco, à situação da mulher, dos binômios institucionais (patrão-cliente, proprietário-locatário, benfeitor-beneficiário, homem livre-escravo), sem esquecer a concepção do sagrado e do profano, os tabus, o ritual de passagem de uma situação a uma outra, a magia, a origem dos recursos, do poder, da informação, etc3.

A antropologia cultural, portanto, oferece ao exegeta bíblico categorias advindas de ‘modelos’ e tipologias que lhe permitem analisar o ‘humano’ (análise antropológica) em suas características principais em determinadas situações.

Esse gênero de estudos pode evidentemente ser útil para a interpretação dos textos bíblicos e ele é efetivamente utilizado para o estudo das concepções de parentesco no Antigo Testamento, a posição da mulher na sociedade israelita, a influência dos ritos agrários, etc.

Nos textos que relatam o ensinamento de Jesus, por exemplo, as parábolas, muitos detalhes podem ser esclarecidos graças a essa abordagem. Ocorre o mesmo para as concepções fundamentais, como aquela do reino de Deus, ou para a maneira de conceber o tempo na história da salvação, assim como para os processos de aglutinação das comunidades primitivas. Esta abordagem permite distinguir melhor os elementos permanentes da mensagem bíblica cujo fundamento está na natureza humana, e as determinações contingentes segundo culturas particulares.

Referências:

1http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

2http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

3 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica