Arquidiocese do Rio de Janeiro

30º 22º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 21/11/2019

21 de Novembro de 2019

O Papa e a formação permanente do clero

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26/05/2016 00:00

O Papa e a formação permanente do clero 0

26/05/2016 00:00

Na tarde do dia 16 de maio, o Papa Francisco abriu, na Sala do Sínodo, pelo terceiro ano consecutivo, a Assembleia da CEI (Conferência Episcopal Italiana), na condição de Bispo de Roma e primaz da Itália, ocasião em que tratou da renovação do clero a partir do desafio da formação permanente à luz de três grandes pontos: a tripla pertença, ou seja, ao Senhor, à Igreja e ao Reino.

Como eixo norteador do encontro, o Santo Padre disse: “Nesta tarde, não quero lhes oferecer uma reflexão sistemática sobre a figura do sacerdote. Tentemos, ao contrário, inverter a perspectiva e ouvir atentamente, em contemplação. Aproximando-nos, quase que em ponta de pé, a um dos tantos párocos que passam pelas nossas comunidades, deixemos que o rosto de um deles passe perante os olhos do nosso coração e perguntemo-nos com simplicidade: o que faz a sua vida ser saborosa? Por quem e para que entrega o seu serviço? Qual é a finalidade do seu doar-se”?

Dito isso, o Papa iniciou sua reflexão um tanto questionadora ou provocativa. Ela não foi muito longa, mas, sim, objetiva, e versou sobre a figura do padre na paróquia, em nossos dias de profundas mudanças. Espera Francisco que esses questionamentos possam repousar dentro de cada Bispo “no silêncio, na oração tranquila, no diálogo franco e fraterno: as respostas que florescerão os ajudarão a identificar também as propostas de formação pelas quais investir com coragem”.

Proposta a metodologia de trabalho, o Santo Padre indaga sobre “O que, então, dá sabor à vida do ‘nosso’ presbítero?” – Responde que para muitos desses padres o contexto cultural de antes, quando eles começaram o ministério, e o de hoje, mudou bastante. Estamos em uma mudança de época na qual muitas tradições, hábitos e visões de vida foram afetados. Ora, também a vida do sacerdote o foi. Ele sente a dureza dos novos tempos ao encontrar não poucas pessoas perdidas, sem rumo a seguir, em um mundo no qual cada um se considera referência de tudo. Parece que vivemos a filosofia do sofista Protágoras († 410 a.C), quando diz que “o homem é a medida de todas as coisas”.

No entanto, pode-se dizer que a vida do padre é sinal de contradição, uma vez que, como Moisés, ele se aproximou do fogo e deixou que fossem queimadas suas ambições de carreira e poder, assim como se purificou de uma visão intimista de si, que poderia fazer dele um grande devoto em um mundo perdido. Afinal, o sacerdote não é um afastado do mundo como os essênios, mas homens do povo no modelo do Senhor Jesus a caminhar no meio de todos, especialmente dos mais necessitados em uma vida de plena doação.

Longe de se julgar santo e puro, afastado dos pecadores, não se escandaliza com a fraqueza alheia, sabe que ela faz parte da fraqueza humana. O homem é limitado por ser finito. Mais: o próprio sacerdote sabe que ele mesmo é alguém pecador resgatado por Cristo e não um julgador dos irmãos e irmãs, embora não ceda ao superficialismo daquele que deseja estar bem com todos para se dar bem no mercado, qual vendedor de um produto qualquer. Ele tem um compromisso com a verdade.

Aqui não há como não recordar dois pontos do livro O nome de Deus é misericórdia, do próprio Francisco, ao tratar de dois assuntos embasadores da afirmação acima. O primeiro deles é a misericórdia. Sim, Andrea Tornielli, o entrevistador, indaga: “Jorge Mario Bergoglio foi um confessor severo ou indulgente”? E o Papa responde: “Sempre procurei dedicar tempo às confissões, mesmo como bispo ou cardeal. Agora confesso menos, mas ainda o faço. Às vezes, gostaria de entrar numa igreja e sentar-me ainda no confessionário. Mas para responder à sua pergunta: sempre que atendi confissões olhei primeiro para mim mesmo, para os meus pecados, para a minha necessidade de misericórdia, e assim procurei perdoar muito” (p. 58-59).

No entanto, nessa misericórdia não vai nenhuma condescendência com o pecado, como afirma o próprio Papa no mesmo livro, ao contestar a questão segundo a qual a Igreja é muito misericordiosa, em vez de condenar o pecado. Diz ele: “A Igreja condena o pecado, porque deve dizer a verdade: isto é um pecado. Mas, ao mesmo tempo, abraça o pecador que se reconhece como tal, o aproxima e fala com ele sobre a misericórdia infinita de Deus” (p. 84). Em suma, a misericórdia não é álibi para esconder o pecado, mas caminho do pecador na volta ao regaço do Pai celeste, especialmente por meio do sacerdote que o perdoa no Sacramento da Confissão, fazendo-se próximo dos mais necessitados como alguém que ama, e não na condição de mero funcionário do sagrado.

Sabe o padre que “o Amor é tudo. Não procura garantias terrenas ou títulos honoríficos que levam a confiar no homem; no ministério não questiona nada que vá além da real necessidade, nem está preocupado de ligar a si pessoas que lhe foram confiadas. O seu estilo de vida simples e essencial, sempre disponível, apresenta-o plausível aos olhos das pessoas e o aproxima aos humildes, numa caridade pastoral que os torna livres e solidários. Servo da vida, caminha com o coração e o passo dos pobres; faz-se rico do encontro com eles. É um homem de paz e de reconciliação, um sinal e um instrumento da ternura de Deus, atento a difundir o bem com a mesma paixão com a qual os outros curam os seus interesses”. O padre pertence ao Senhor e isso basta!

Como segundo ponto, pergunta o Papa: “Para quem o nosso presbítero entrega o serviço”? E acrescenta: “A pergunta, talvez, precisa ser esclarecida. De fato, antes mesmo de nos questionarmos sobre os destinatários do seu serviço, devemos reconhecer que o presbítero é assim, na medida em que se sente atuante da Igreja, de uma comunidade concreta da qual compartilha o caminho. O povo fiel de Deus permanece sendo o seio do qual nasceu, a família na qual é envolvida, a casa para onde é enviado”.

Aqui o Santo Padre lembra o Servo de Deus Dom Helder Câmara, que nos convida a libertar-nos da auto referencialidade e, como um barco, a sair do cais para águas mais profundas, como alguém do meio do povo para testemunhar neste mundo de egoísmos que o padre há de viver e trabalhar na comunidade a ele confiada.

Todavia, não só a comunidade a ele confiada é referencial ao sacerdote, mas também o presbitério no qual está inserido. Diz Francisco: “Ao mesmo modo, para um sacerdote é vital se encontrar no cenáculo do presbitério. Essa experiência, quando não é vivida em maneira ocasional, nem em força de uma colaboração instrumental, liberta dos narcisismos e dos ciúmes clericais; faz crescer a estima, o apoio e a benevolência recíproca; favorece uma comunhão não somente sacramental ou jurídica, mas fraterna e concreta. No caminhar junto dos presbíteros, diferentes por idade e sensibilidade, expande-se um perfume de profecia que surpreende e fascina. A comunhão é, sem dúvida, um dos nomes da Misericórdia”.

Aqui não podemos deixar de recordar dois pontos de nossa Carta ao Clero, da última Quinta-feira Santa, que diz respeito ao desafio da unidade na pluralidade em nossa Igreja Particular de São Sebastião do Rio de Janeiro: “A relação particular com Cristo Pastor, radicada no Sacramento da Ordem, se coliga com uma segunda relação, também total e irrevogável, na Igreja e pela Igreja, Corpo de Cristo. O presbítero não é um indivíduo isolado, mas membro de um Corpo hierarquicamente estruturado, como servo dos irmãos (cf. PO 3). Na comunhão eclesial, acontecem relações diversas e complementares em Cristo com o inteiro povo de Deus e em particular com o bispo e com o presbitério. Diante de tantas exigências hoje, como fazer para que a nossa unidade nos leve a viver numa comunhão verdadeira, e entusiasme o nosso povo a viver também em comunhão e unidade, na busca da fraternidade que nos conduza a uma missão permanente, principalmente para as periferias existenciais, como sempre gosta de nos recordar o Papa Francisco”? (n. 40). Mais adiante, n. 43, voltamos a recordar que “A consciência da comunhão com o bispo ajuda a perceber também a unidade dos presbíteros que vivem e operam no âmbito do mesmo grau do Sacramento da Ordem. De modo especial, os presbíteros formam um único presbitério na diocese, a cujo serviço são assinalados em comunhão com o próprio bispo (cf. LG 28; PO 8). Tal comunhão sacerdotal constitui o fundamento da comunhão externa, operativa (Carta ao clero 15), sinal e manifestação da unidade como Cristo queria, a fim de que o mundo saiba que o Filho é enviado pelo Pai (cf. PO 8, CD 30)”.

Depois de todas essas colocações, o Papa chega ao terceiro ponto assim formulado: “qual é a finalidade do doar-se do nosso presbítero”? e responde: “Quanta tristeza fazem aqueles que, na vida, estão sempre um pouco pela metade. Calculam, ponderam, não arriscam nada por medo de se perder... São os mais infelizes! O nosso presbítero, ao contrário, com os seus limites, é um que se aventura até o final: nas condições concretas da vida e do ministério que lhe foram colocadas, ele se oferece com gratuidade, com humildade e alegria. Inclusive quando ninguém parece perceber. Inclusive quando, por intuição, humanamente percebe que, talvez, ninguém vai agradecê-lo suficientemente do seu doar-se sem medidas”. Ele faz por Deus.

Aqui também cabe uma palavra a respeito da identidade do padre, como apresentado por uma pesquisa do Ceris, órgão de serviço à CNBB, sobre a verdadeira face dos nossos presbíteros, realizada em 2005. Recordo alguns dados dentre os tantos ali elencados: Os padres foram solicitados a assinalar a principal motivação que os levou à opção sacerdotal a partir de um rol de 13 opções. A grande maioria assinalou a opção “serviço a Deus e aos irmãos” (58%). Todas as demais opções tiveram índices abaixo de 10%. Mais: Quase a totalidade do clero (94%) ao avaliar a própria opção, confirmaria sua opção presbiteral. A espiritualidade tem sido considerada como força motriz para 57% do clero, sendo que 34% apontaram a necessidade de ser mais bem cultivada. As celebrações eucarísticas são consideradas como um dos principais valores que animam a vida espiritual dos padres (67%). Outros valores que os padres consideram importantes são as atividades que exercem em seu ministério (56%), assim como o ideal que os motivou para o ingresso no sacerdócio (46%). As orações, meditações e leituras individuais são assinaladas por 40%. De acordo com a pesquisa, a prática da oração é vivenciada por 96% do clero. A vivência diária da espiritualidade entre os padres está marcada principalmente pela missa (87%), Liturgia das Horas (64%), meditação (48%), leitura de cultivo espiritual (44%), oração do terço (42%) e leitura orante da Palavra de Deus (41%): 70% desses presbíteros atuam em pastoral, sendo a maioria em paróquias, e se sentem felizes com a vida escolhida. (cfr. Pergunte e Responderemos n. 529, julho de 2006, p. 322-325).

Por fim, o Papa Francisco conclui falando aos bispos italianos: “Está, então, delineada, queridos irmãos, a tríplice pertença que nos constitui: pertença ao Senhor, à Igreja, ao Reino. Esse tesouro precisa ser protegido e promovido! Compreendam fortemente essa responsabilidade, assumam com paciência e disponibilidade de tempo, de mãos e de coração. Rezo com vocês a Virgem Santa, para que a sua intercessão os proteja acolhedores e fiéis. Junto com os vossos presbíteros, possam terminar o trabalho, o serviço que lhes foi confiado e com o qual participam ao mistério da Mãe Igreja”.

Louvando a Deus pelas vocações em nossa Arquidiocese e agradecendo-Lhe pelos presbíteros que aqui caminham e servem, rezo para que os queridos filhos sacerdotes sejam sempre mais homens de Deus, totalmente doados ao Senhor, à Igreja e ao Reino!

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Na tarde do dia 16 de maio, o Papa Francisco abriu, na Sala do Sínodo, pelo terceiro ano consecutivo, a Assembleia da CEI (Conferência Episcopal Italiana), na condição de Bispo de Roma e primaz da Itália, ocasião em que tratou da renovação do clero a partir do desafio da formação permanente à luz de três grandes pontos: a tripla pertença, ou seja, ao Senhor, à Igreja e ao Reino.

Como eixo norteador do encontro, o Santo Padre disse: “Nesta tarde, não quero lhes oferecer uma reflexão sistemática sobre a figura do sacerdote. Tentemos, ao contrário, inverter a perspectiva e ouvir atentamente, em contemplação. Aproximando-nos, quase que em ponta de pé, a um dos tantos párocos que passam pelas nossas comunidades, deixemos que o rosto de um deles passe perante os olhos do nosso coração e perguntemo-nos com simplicidade: o que faz a sua vida ser saborosa? Por quem e para que entrega o seu serviço? Qual é a finalidade do seu doar-se”?

Dito isso, o Papa iniciou sua reflexão um tanto questionadora ou provocativa. Ela não foi muito longa, mas, sim, objetiva, e versou sobre a figura do padre na paróquia, em nossos dias de profundas mudanças. Espera Francisco que esses questionamentos possam repousar dentro de cada Bispo “no silêncio, na oração tranquila, no diálogo franco e fraterno: as respostas que florescerão os ajudarão a identificar também as propostas de formação pelas quais investir com coragem”.

Proposta a metodologia de trabalho, o Santo Padre indaga sobre “O que, então, dá sabor à vida do ‘nosso’ presbítero?” – Responde que para muitos desses padres o contexto cultural de antes, quando eles começaram o ministério, e o de hoje, mudou bastante. Estamos em uma mudança de época na qual muitas tradições, hábitos e visões de vida foram afetados. Ora, também a vida do sacerdote o foi. Ele sente a dureza dos novos tempos ao encontrar não poucas pessoas perdidas, sem rumo a seguir, em um mundo no qual cada um se considera referência de tudo. Parece que vivemos a filosofia do sofista Protágoras († 410 a.C), quando diz que “o homem é a medida de todas as coisas”.

No entanto, pode-se dizer que a vida do padre é sinal de contradição, uma vez que, como Moisés, ele se aproximou do fogo e deixou que fossem queimadas suas ambições de carreira e poder, assim como se purificou de uma visão intimista de si, que poderia fazer dele um grande devoto em um mundo perdido. Afinal, o sacerdote não é um afastado do mundo como os essênios, mas homens do povo no modelo do Senhor Jesus a caminhar no meio de todos, especialmente dos mais necessitados em uma vida de plena doação.

Longe de se julgar santo e puro, afastado dos pecadores, não se escandaliza com a fraqueza alheia, sabe que ela faz parte da fraqueza humana. O homem é limitado por ser finito. Mais: o próprio sacerdote sabe que ele mesmo é alguém pecador resgatado por Cristo e não um julgador dos irmãos e irmãs, embora não ceda ao superficialismo daquele que deseja estar bem com todos para se dar bem no mercado, qual vendedor de um produto qualquer. Ele tem um compromisso com a verdade.

Aqui não há como não recordar dois pontos do livro O nome de Deus é misericórdia, do próprio Francisco, ao tratar de dois assuntos embasadores da afirmação acima. O primeiro deles é a misericórdia. Sim, Andrea Tornielli, o entrevistador, indaga: “Jorge Mario Bergoglio foi um confessor severo ou indulgente”? E o Papa responde: “Sempre procurei dedicar tempo às confissões, mesmo como bispo ou cardeal. Agora confesso menos, mas ainda o faço. Às vezes, gostaria de entrar numa igreja e sentar-me ainda no confessionário. Mas para responder à sua pergunta: sempre que atendi confissões olhei primeiro para mim mesmo, para os meus pecados, para a minha necessidade de misericórdia, e assim procurei perdoar muito” (p. 58-59).

No entanto, nessa misericórdia não vai nenhuma condescendência com o pecado, como afirma o próprio Papa no mesmo livro, ao contestar a questão segundo a qual a Igreja é muito misericordiosa, em vez de condenar o pecado. Diz ele: “A Igreja condena o pecado, porque deve dizer a verdade: isto é um pecado. Mas, ao mesmo tempo, abraça o pecador que se reconhece como tal, o aproxima e fala com ele sobre a misericórdia infinita de Deus” (p. 84). Em suma, a misericórdia não é álibi para esconder o pecado, mas caminho do pecador na volta ao regaço do Pai celeste, especialmente por meio do sacerdote que o perdoa no Sacramento da Confissão, fazendo-se próximo dos mais necessitados como alguém que ama, e não na condição de mero funcionário do sagrado.

Sabe o padre que “o Amor é tudo. Não procura garantias terrenas ou títulos honoríficos que levam a confiar no homem; no ministério não questiona nada que vá além da real necessidade, nem está preocupado de ligar a si pessoas que lhe foram confiadas. O seu estilo de vida simples e essencial, sempre disponível, apresenta-o plausível aos olhos das pessoas e o aproxima aos humildes, numa caridade pastoral que os torna livres e solidários. Servo da vida, caminha com o coração e o passo dos pobres; faz-se rico do encontro com eles. É um homem de paz e de reconciliação, um sinal e um instrumento da ternura de Deus, atento a difundir o bem com a mesma paixão com a qual os outros curam os seus interesses”. O padre pertence ao Senhor e isso basta!

Como segundo ponto, pergunta o Papa: “Para quem o nosso presbítero entrega o serviço”? E acrescenta: “A pergunta, talvez, precisa ser esclarecida. De fato, antes mesmo de nos questionarmos sobre os destinatários do seu serviço, devemos reconhecer que o presbítero é assim, na medida em que se sente atuante da Igreja, de uma comunidade concreta da qual compartilha o caminho. O povo fiel de Deus permanece sendo o seio do qual nasceu, a família na qual é envolvida, a casa para onde é enviado”.

Aqui o Santo Padre lembra o Servo de Deus Dom Helder Câmara, que nos convida a libertar-nos da auto referencialidade e, como um barco, a sair do cais para águas mais profundas, como alguém do meio do povo para testemunhar neste mundo de egoísmos que o padre há de viver e trabalhar na comunidade a ele confiada.

Todavia, não só a comunidade a ele confiada é referencial ao sacerdote, mas também o presbitério no qual está inserido. Diz Francisco: “Ao mesmo modo, para um sacerdote é vital se encontrar no cenáculo do presbitério. Essa experiência, quando não é vivida em maneira ocasional, nem em força de uma colaboração instrumental, liberta dos narcisismos e dos ciúmes clericais; faz crescer a estima, o apoio e a benevolência recíproca; favorece uma comunhão não somente sacramental ou jurídica, mas fraterna e concreta. No caminhar junto dos presbíteros, diferentes por idade e sensibilidade, expande-se um perfume de profecia que surpreende e fascina. A comunhão é, sem dúvida, um dos nomes da Misericórdia”.

Aqui não podemos deixar de recordar dois pontos de nossa Carta ao Clero, da última Quinta-feira Santa, que diz respeito ao desafio da unidade na pluralidade em nossa Igreja Particular de São Sebastião do Rio de Janeiro: “A relação particular com Cristo Pastor, radicada no Sacramento da Ordem, se coliga com uma segunda relação, também total e irrevogável, na Igreja e pela Igreja, Corpo de Cristo. O presbítero não é um indivíduo isolado, mas membro de um Corpo hierarquicamente estruturado, como servo dos irmãos (cf. PO 3). Na comunhão eclesial, acontecem relações diversas e complementares em Cristo com o inteiro povo de Deus e em particular com o bispo e com o presbitério. Diante de tantas exigências hoje, como fazer para que a nossa unidade nos leve a viver numa comunhão verdadeira, e entusiasme o nosso povo a viver também em comunhão e unidade, na busca da fraternidade que nos conduza a uma missão permanente, principalmente para as periferias existenciais, como sempre gosta de nos recordar o Papa Francisco”? (n. 40). Mais adiante, n. 43, voltamos a recordar que “A consciência da comunhão com o bispo ajuda a perceber também a unidade dos presbíteros que vivem e operam no âmbito do mesmo grau do Sacramento da Ordem. De modo especial, os presbíteros formam um único presbitério na diocese, a cujo serviço são assinalados em comunhão com o próprio bispo (cf. LG 28; PO 8). Tal comunhão sacerdotal constitui o fundamento da comunhão externa, operativa (Carta ao clero 15), sinal e manifestação da unidade como Cristo queria, a fim de que o mundo saiba que o Filho é enviado pelo Pai (cf. PO 8, CD 30)”.

Depois de todas essas colocações, o Papa chega ao terceiro ponto assim formulado: “qual é a finalidade do doar-se do nosso presbítero”? e responde: “Quanta tristeza fazem aqueles que, na vida, estão sempre um pouco pela metade. Calculam, ponderam, não arriscam nada por medo de se perder... São os mais infelizes! O nosso presbítero, ao contrário, com os seus limites, é um que se aventura até o final: nas condições concretas da vida e do ministério que lhe foram colocadas, ele se oferece com gratuidade, com humildade e alegria. Inclusive quando ninguém parece perceber. Inclusive quando, por intuição, humanamente percebe que, talvez, ninguém vai agradecê-lo suficientemente do seu doar-se sem medidas”. Ele faz por Deus.

Aqui também cabe uma palavra a respeito da identidade do padre, como apresentado por uma pesquisa do Ceris, órgão de serviço à CNBB, sobre a verdadeira face dos nossos presbíteros, realizada em 2005. Recordo alguns dados dentre os tantos ali elencados: Os padres foram solicitados a assinalar a principal motivação que os levou à opção sacerdotal a partir de um rol de 13 opções. A grande maioria assinalou a opção “serviço a Deus e aos irmãos” (58%). Todas as demais opções tiveram índices abaixo de 10%. Mais: Quase a totalidade do clero (94%) ao avaliar a própria opção, confirmaria sua opção presbiteral. A espiritualidade tem sido considerada como força motriz para 57% do clero, sendo que 34% apontaram a necessidade de ser mais bem cultivada. As celebrações eucarísticas são consideradas como um dos principais valores que animam a vida espiritual dos padres (67%). Outros valores que os padres consideram importantes são as atividades que exercem em seu ministério (56%), assim como o ideal que os motivou para o ingresso no sacerdócio (46%). As orações, meditações e leituras individuais são assinaladas por 40%. De acordo com a pesquisa, a prática da oração é vivenciada por 96% do clero. A vivência diária da espiritualidade entre os padres está marcada principalmente pela missa (87%), Liturgia das Horas (64%), meditação (48%), leitura de cultivo espiritual (44%), oração do terço (42%) e leitura orante da Palavra de Deus (41%): 70% desses presbíteros atuam em pastoral, sendo a maioria em paróquias, e se sentem felizes com a vida escolhida. (cfr. Pergunte e Responderemos n. 529, julho de 2006, p. 322-325).

Por fim, o Papa Francisco conclui falando aos bispos italianos: “Está, então, delineada, queridos irmãos, a tríplice pertença que nos constitui: pertença ao Senhor, à Igreja, ao Reino. Esse tesouro precisa ser protegido e promovido! Compreendam fortemente essa responsabilidade, assumam com paciência e disponibilidade de tempo, de mãos e de coração. Rezo com vocês a Virgem Santa, para que a sua intercessão os proteja acolhedores e fiéis. Junto com os vossos presbíteros, possam terminar o trabalho, o serviço que lhes foi confiado e com o qual participam ao mistério da Mãe Igreja”.

Louvando a Deus pelas vocações em nossa Arquidiocese e agradecendo-Lhe pelos presbíteros que aqui caminham e servem, rezo para que os queridos filhos sacerdotes sejam sempre mais homens de Deus, totalmente doados ao Senhor, à Igreja e ao Reino!

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro