Arquidiocese do Rio de Janeiro

30º 26º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 19/03/2019

19 de Março de 2019

Advertir os pecadores

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do e-mail.
E-mail enviado com sucesso.

19 de Março de 2019

Advertir os pecadores

Se você encontrou erro neste texto ou nesta página, por favor preencha os campos abaixo. O link da página será enviado automaticamente a ArqRio.

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do erro.
Erro relatado com sucesso, obrigado.

20/04/2016 18:30 - Atualizado em 20/04/2016 19:25

Advertir os pecadores 0

20/04/2016 18:30 - Atualizado em 20/04/2016 19:25

No mês de março de 2016, dentro do Ano Santo Extraordinário da Misericórdia exortávamos nossos Arquidiocesanos, em nossa Carta Pastoral “Com Misericórdia Olhou para Ele e o Escolheu”, que este mês deveria ter como obra de misericórdia: “Advertir os pecadores”(Jo 8,1-11). Queremos refletir este tema a luz do Evangelho: João 8,1-11. Para a nossa reflexão, o episódio evangélico de Jesus que salva uma mulher adúltera da condenação à morte (Jo 8,1-11). O texto nos apresenta uma disputa entre Jesus e os escribas e fariseus, a propósito de uma mulher surpreendida em adultério flagrante. Segundo a prescrição contida na Lei de Moisés (cf. Lv 20,10 e Dt 22,22-24), são condenados à lapidação o homem e a mulher em adultério. A Lei deve ser aplicada? É este o problema apresentado a Jesus. Para os escribas e fariseus, trata-se de uma oportunidade para testar a ortodoxia de Jesus e a sua fidelidade às exigências da Lei.

Vemos que somos inspirados pela Palavra a advertir os pecadores como fez Jesus com os que queriam apedrejar a mulher adultera, e ao mesmo tempo, dizer aqueles que se reconhecem pecadores: vai e não peques mais.

Inicialmente Jesus é chamado pelos fariseus de “mestre” e lhe interrogam se é justo lapidar a mulher surpreendida em adultério. Eles conhecem a sua misericórdia e o seu amor pelos pecadores, e estão curiosos para ver como reagirá num caso como este, que segundo a Lei mosaica não deixava espaço a dúvidas. E se alguém falasse contra as prescrições da Lei, seria considerado injusto. Caso Jesus manifestasse a sua concordância com a Lei, colocava em contraste a sua bondade e a sua misericórdia; e se decidisse por conceder liberdade à mulher, não estaria cumprindo as prescrições da Lei.

Jesus parece silenciar e põe-se a escrever no chão palavras misteriosas, que o evangelista não revela, mas pode nos fazer interpretar a respeito da fragilidade desse julgamento, pois o que se escreve na poeira da terra, será apagado pelo vento ou quando animais ou homens caminharem sobre as letras então desenhadas. Com isto, Jesus pode querer mostrar o frágil valor do julgamento realizado pelos escribas e fariseus, contudo, após algum tempo escrevendo na terra, pronuncia a frase que se tornou famosa: “Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe lançar uma pedra” (Jo 8, 7). Com o seu silêncio, Jesus parece também convidar cada um a refletir sobre si próprio. Por um lado, convida a mulher a reconhecer a culpa cometida; por outro, convida os seus acusadores a não se subtraírem ao exame de consciência. Com estas palavras Jesus fez os acusadores da mulher a entrarem em si mesmos e, refletir sobre si próprios. Foram eles atingidos por estas palavras e, por isto, um a um se retiraram.

Das palavras de Jesus depende a vida daquela mulher, mas também a sua própria vida. De fato, os acusadores fingem confiar a ele o julgamento, enquanto na realidade é precisamente a ele a quem querem acusar e julgar. Jesus sabe o que está no coração de cada homem, deseja condenar o pecado, mas salvar o pecador. O pecado não é um caminho aceitável, pois gera infelicidade e rouba a paz. Enquanto os acusadores o interrogam com insistência, Jesus inclina-se e põe-se a escrever com o dedo no chão. Observa Santo Agostinho que aquele gesto mostra Cristo como o legislador divino: de fato, Deus escreveu a lei com o seu dedo nas tábuas de pedra (cf. S. Agostinho, Comentário ao Evangelho de João). Portanto Jesus é o Legislador, é a Justiça em pessoa.

Este Evangelho mostra como compreender que o nosso verdadeiro inimigo é o apego ao pecado, que pode levar-nos ao fracasso da nossa existência. Jesus despede-se da mulher adúltera com esta exortação: “Vai, e doravante não tornes a pecar”. O episódio põe em relevo, por outro lado, a intransigência e a hipocrisia do homem, sempre disposto a julgar e a condenar os outros.

Aprendamos com o Senhor Jesus a não julgar e a não condenar o nosso próximo. Como Cristo, sejamos, também, nós dispostos a perdoar, imitando os seus gestos e as suas atitudes. Se é verdade que Deus é justiça, não podemos esquecer que ele é sobretudo amor. Se ele odeia o pecado, é porque ama infinitamente cada pessoa humana. Ama cada um de nós, e a sua fidelidade é tão profunda que não se deixa desanimar nem sequer pela nossa rejeição.

Não tenho dúvida que quem tem em suas mãos este texto diante dos olhos nesse exato momento sabe o que é o exame de consciência. Caso me permita, vamos falar um pouco mais dessa prática cristã tão antiga e tão atual. Ao examinarmo-nos todos os dias, deveríamos pedir ao Senhor que nos ajude a ver as nossas atitudes como ele as vê: os nossos pensamentos, as nossas palavras, os movimentos mais íntimos do nosso coração e todas as nossas ações. Desta maneira, a acusação que a consciência provoca em nós diante duma ação má, começará e terminará em Deus provocando uma espécie de tristeza salutar: “a tristeza segundo Deus produz um arrependimento salutar de que ninguém se arrepende, enquanto a tristeza do mundo produz a morte” (2 Cor 7,10).

Todos devem lembrar da prescrição de se confessar pelo menos uma vez por ano pela Páscoa da Ressurreição. Estamos vivendo o tempo pascal que se prolonga neste grande Aleluia para que vivamos a graça de estado, a santidade que brota da reconciliação com Deus, com a Igreja e com os irmãos. A ninguém deve ser negada a graça de pedir perdão de seus pecados. A ninguém deve ser negado o perdão dos seus pecados. Lembremos que a gênese do Ano da Misericórdia é reconciliação, abertura de coração, recomeço e vivência da graça santificante do Ressuscitado.
Por isso perdoar e ser perdoado nos faz sentir acolhidos por Deus. Deus não cansa de perdoar. Deus não cansa de nos acolher. Nós que devemos nos abrir à sua graça e à sua compaixão. Deus na sua infinita bondade e misericórdia não condena, mas, se coloca à disposição para acolher a pecadora e assim acolher todos os pecadores. Que este texto nos ajude a refletir neste Ano da misericórdia, onde ressaltamos ainda mais o Amor que Deus tem pela sua criatura e pelo pecador.



Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ.
Leia os comentários

Deixe seu comentário

Resposta ao comentário de:

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do comentário.
Comentário enviado para aprovação.

Advertir os pecadores

20/04/2016 18:30 - Atualizado em 20/04/2016 19:25

No mês de março de 2016, dentro do Ano Santo Extraordinário da Misericórdia exortávamos nossos Arquidiocesanos, em nossa Carta Pastoral “Com Misericórdia Olhou para Ele e o Escolheu”, que este mês deveria ter como obra de misericórdia: “Advertir os pecadores”(Jo 8,1-11). Queremos refletir este tema a luz do Evangelho: João 8,1-11. Para a nossa reflexão, o episódio evangélico de Jesus que salva uma mulher adúltera da condenação à morte (Jo 8,1-11). O texto nos apresenta uma disputa entre Jesus e os escribas e fariseus, a propósito de uma mulher surpreendida em adultério flagrante. Segundo a prescrição contida na Lei de Moisés (cf. Lv 20,10 e Dt 22,22-24), são condenados à lapidação o homem e a mulher em adultério. A Lei deve ser aplicada? É este o problema apresentado a Jesus. Para os escribas e fariseus, trata-se de uma oportunidade para testar a ortodoxia de Jesus e a sua fidelidade às exigências da Lei.

Vemos que somos inspirados pela Palavra a advertir os pecadores como fez Jesus com os que queriam apedrejar a mulher adultera, e ao mesmo tempo, dizer aqueles que se reconhecem pecadores: vai e não peques mais.

Inicialmente Jesus é chamado pelos fariseus de “mestre” e lhe interrogam se é justo lapidar a mulher surpreendida em adultério. Eles conhecem a sua misericórdia e o seu amor pelos pecadores, e estão curiosos para ver como reagirá num caso como este, que segundo a Lei mosaica não deixava espaço a dúvidas. E se alguém falasse contra as prescrições da Lei, seria considerado injusto. Caso Jesus manifestasse a sua concordância com a Lei, colocava em contraste a sua bondade e a sua misericórdia; e se decidisse por conceder liberdade à mulher, não estaria cumprindo as prescrições da Lei.

Jesus parece silenciar e põe-se a escrever no chão palavras misteriosas, que o evangelista não revela, mas pode nos fazer interpretar a respeito da fragilidade desse julgamento, pois o que se escreve na poeira da terra, será apagado pelo vento ou quando animais ou homens caminharem sobre as letras então desenhadas. Com isto, Jesus pode querer mostrar o frágil valor do julgamento realizado pelos escribas e fariseus, contudo, após algum tempo escrevendo na terra, pronuncia a frase que se tornou famosa: “Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe lançar uma pedra” (Jo 8, 7). Com o seu silêncio, Jesus parece também convidar cada um a refletir sobre si próprio. Por um lado, convida a mulher a reconhecer a culpa cometida; por outro, convida os seus acusadores a não se subtraírem ao exame de consciência. Com estas palavras Jesus fez os acusadores da mulher a entrarem em si mesmos e, refletir sobre si próprios. Foram eles atingidos por estas palavras e, por isto, um a um se retiraram.

Das palavras de Jesus depende a vida daquela mulher, mas também a sua própria vida. De fato, os acusadores fingem confiar a ele o julgamento, enquanto na realidade é precisamente a ele a quem querem acusar e julgar. Jesus sabe o que está no coração de cada homem, deseja condenar o pecado, mas salvar o pecador. O pecado não é um caminho aceitável, pois gera infelicidade e rouba a paz. Enquanto os acusadores o interrogam com insistência, Jesus inclina-se e põe-se a escrever com o dedo no chão. Observa Santo Agostinho que aquele gesto mostra Cristo como o legislador divino: de fato, Deus escreveu a lei com o seu dedo nas tábuas de pedra (cf. S. Agostinho, Comentário ao Evangelho de João). Portanto Jesus é o Legislador, é a Justiça em pessoa.

Este Evangelho mostra como compreender que o nosso verdadeiro inimigo é o apego ao pecado, que pode levar-nos ao fracasso da nossa existência. Jesus despede-se da mulher adúltera com esta exortação: “Vai, e doravante não tornes a pecar”. O episódio põe em relevo, por outro lado, a intransigência e a hipocrisia do homem, sempre disposto a julgar e a condenar os outros.

Aprendamos com o Senhor Jesus a não julgar e a não condenar o nosso próximo. Como Cristo, sejamos, também, nós dispostos a perdoar, imitando os seus gestos e as suas atitudes. Se é verdade que Deus é justiça, não podemos esquecer que ele é sobretudo amor. Se ele odeia o pecado, é porque ama infinitamente cada pessoa humana. Ama cada um de nós, e a sua fidelidade é tão profunda que não se deixa desanimar nem sequer pela nossa rejeição.

Não tenho dúvida que quem tem em suas mãos este texto diante dos olhos nesse exato momento sabe o que é o exame de consciência. Caso me permita, vamos falar um pouco mais dessa prática cristã tão antiga e tão atual. Ao examinarmo-nos todos os dias, deveríamos pedir ao Senhor que nos ajude a ver as nossas atitudes como ele as vê: os nossos pensamentos, as nossas palavras, os movimentos mais íntimos do nosso coração e todas as nossas ações. Desta maneira, a acusação que a consciência provoca em nós diante duma ação má, começará e terminará em Deus provocando uma espécie de tristeza salutar: “a tristeza segundo Deus produz um arrependimento salutar de que ninguém se arrepende, enquanto a tristeza do mundo produz a morte” (2 Cor 7,10).

Todos devem lembrar da prescrição de se confessar pelo menos uma vez por ano pela Páscoa da Ressurreição. Estamos vivendo o tempo pascal que se prolonga neste grande Aleluia para que vivamos a graça de estado, a santidade que brota da reconciliação com Deus, com a Igreja e com os irmãos. A ninguém deve ser negada a graça de pedir perdão de seus pecados. A ninguém deve ser negado o perdão dos seus pecados. Lembremos que a gênese do Ano da Misericórdia é reconciliação, abertura de coração, recomeço e vivência da graça santificante do Ressuscitado.
Por isso perdoar e ser perdoado nos faz sentir acolhidos por Deus. Deus não cansa de perdoar. Deus não cansa de nos acolher. Nós que devemos nos abrir à sua graça e à sua compaixão. Deus na sua infinita bondade e misericórdia não condena, mas, se coloca à disposição para acolher a pecadora e assim acolher todos os pecadores. Que este texto nos ajude a refletir neste Ano da misericórdia, onde ressaltamos ainda mais o Amor que Deus tem pela sua criatura e pelo pecador.



Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ.
Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro