Arquidiocese do Rio de Janeiro

34º 25º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 18/12/2018

18 de Dezembro de 2018

5º DOMINGO DA PÁSCOA (24/04/2016)

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19/04/2016 15:15 - Atualizado em 19/04/2016 15:33

5º DOMINGO DA PÁSCOA (24/04/2016) 0

19/04/2016 15:15 - Atualizado em 19/04/2016 15:33

“Eis que faço novas todas as coisas” (...) “Escreve, porque estas palavras são dignas de fé e verdadeira” (Ap 21,5)

Iniciando nossa reflexão pela segunda leitura, vemos descortinar-se a visão de João, a qual tem nos acompanhado nesses domingos do tempo pascal. João viu um novo céu e uma nova terra, porque o primeiro céu e a primeira terra passaram e o mar já não existe. Gênesis e Apocalipse se tocam neste momento. É a unidade da Palavra de Deus que misticamente se apresenta diante dos nossos olhos. Gênesis nos fala de um primeiro céu e uma primeira terra, de uma harmonia original que foi abalada pelo pecado dos nossos primeiros pais. Cristo nos devolve a harmonia original, elevada, todavia ao seu ponto máximo, porque não se trata apenas de um voltar ao paraíso terrestre, mas de caminhar em direção ao paraíso celestial que o Senhor preparou para nós, onde o mar - que aqui simboliza o mal e toda força que se opõe a Deus - já não existe. 

Nestes tempos novos, que o Cordeiro inaugura, surge a Jerusalém Nova, que desce do céu, de junto de Deus, vestida em trajes nupciais. Trata-se aqui da união definitiva de Cristo com sua Igreja, que nos tempos futuros realizará definitivamente suas núpcias místicas, amando o seu esposo não mais de modo imperfeito, mas de maneira paritária, como convém ao verdadeiro matrimônio. O próprio esposo capacitará a esposa a amar assim, no final dos tempos.

A Jerusalém celeste não é produto de nossas mãos. É Deus quem forma e adorna a sua esposa. Ela desce de junto de Deus, já vestida, para as suas núpcias. Muitos querem ver nessa visão de João apenas um chamado para melhorarmos esse mundo. Todavia, no desejo, a princípio muito cheio de boa intenção, de transformamos esse mundo, acabamos olhando demasiadamente aqui para baixo e nos fixando tanto nas realidades terrestres, imperfeitas, transitórias, que acabamos não conseguindo transformar nada, nem modificar aquilo o que gostaríamos de modificar; construímos, talvez, uma sociedade boa, mas somente isso. Reduzimos a bondade a um nível antropológico.

A leitura que hoje ouvimos nos convida a lançarmos um olhar para a escatologia. Devemos ver que é Deus quem prepara para o seu Cordeiro uma esposa. É Deus quem a adorna, a enche de dons e a capacita a amar o seu Cordeiro numa justa medida conveniente a uma esposa que quer ser fiel. Essa Jerusalém nova é sacramentalmente sinalizada na Igreja.

A Jerusalém do AT era sombra; a Igreja é a imagem; todavia, a realidade sobre a Igreja ainda virá. Nos diz o Papa Bento em seu livro Introdução ao Espírito da Liturgia: “a sombra é substituída pela imagem(...). Contudo, como expõe Gregório Magno, ainda só é o tempo da aurora, onde as trevas se misturam com a luminosidade. O Sol que nela nasce, ainda não ascendeu plenamente”. O que aqui se aplica à liturgia aplica-se também à Igreja. Essa palavra da Escritura nos faz antegozar o que seremos. A nossa esperança é alimentada por essa Palavra. Nós que continuamente nos confrontamos com nossas fraquezas, incapacidades, infidelidades, nos vemos diante dessa imagem que é profética e que constitui para nós uma promessa de que, no fim dos tempos, o Pai mesmo revestirá a Igreja com as vestes da salvação e a fará estar à altura do seu Celeste Esposo.

Poderíamos achar que tal pensamento nos afasta de atitudes concretas que visem melhorar a nossa vida nesse mundo. Poderíamos objetar dizendo: que adianta pensar numa Jerusalém nova que virá de junto de Deus se não modificamos a nossa situação social e eclesial presente? É um estranho mistério. Mas a experiência nos revela que quanto mais temos o olhar na escatologia mais queremos de uma certa forma antecipá-la transformando esse mundo num lugar mais parecido com aquilo o que Ele será quando essa Palavra se cumprir. Sem buscar atuar diretamente sobre o contexto atual acabamos atuando, mas sem perder o olhar que se direciona para a promessa, para o futuro, para a escatologia. Afinal, o modelo de um mundo que corresponda à verdade não está em nossos pensamentos, nem mesmo em nossas boas intenções, está justamente naquilo o que a Palavra nos revela sobre o mundo que virá.

Era esse olhar que animava os apóstolos, que os fazia pregar a boa-nova da fé, que os levava a perceber – na brilhante formulação de Lucas - o que “Deus fizera por meio deles”.

Essa Igreja à espera de sua consumação é convidada hoje ao amor que liberta, à “verdadeira liberdade” no amor como pede a oração coleta. O Evangelho que hoje ouvimos pertence ao contexto daquela ceia derradeira que Jesus fez com seus discípulos antes da sua Paixão. Aqui tem início o assim chamado discurso de despedida de Jesus, onde ele começa a elaborar o seu testamento espiritual aos apóstolos, uma vez que Ele sabe que “por pouco tempo” estará ainda com os discípulos.

Poderíamos dividir em duas partes essa perícope. Primeiro, temos os versículos 31-32 onde Cristo fala da sua glória. Lembremo-nos que versículos antes Judas havia saído do recinto onde os apóstolos celebravam a Páscoa com Jesus com o intuito de entregá-lo. Em virtude desse gesto de Judas que abre o processo para a Paixão, Cristo usa o “agora” que domina toda a passagem. “Agora” a glória do Filho se manifesta, porque Ele veio justamente para isso, para dar sua vida em favor de muitos. Deus é glorificado no Filho porque na entrega do mesmo Filho a glória do Pai também se manifesta.

É difícil para nós entendermos a ligação entre morte e glória, entre cruz e ressurreição. São os paradoxos divinos. O fato é que o Cristo vem nos revelar que esse paradoxo está aí e não existe jeito de quebrá-lo com a nossa lógica humana, porque a salvação de nossas almas se dá pelo processo da lógica de Deus. A glória de Cristo é a cruz. É por ela que Ele alcança a ressurreição e nos garante a vida em plenitude. A glória da Trindade se revela através da entrega do Filho. No nosso conceito glória significa fama, riqueza, significa receber toda a atenção dos outros, significa ainda que outros vivem em função de mim. Na vida da Trindade a glória está em que o Pai se esvazia de si mesmo para gerar o Filho e o Filho se esvazia de si mesmo para em tudo obedecer ao Pai, num movimento eterno de amor e reciprocidade que gera a terceira e também eterna pessoa da Trindade, o Espírito Santo, que é puro amor em movimento. Esse amor de esvaziamento, de kénosis, Cristo nos revelou na cruz, quando esvaziou-se totalmente para nos dar a salvação. A glória de Cristo está em esvaziar-se para que sejamos salvos, para que atinjamos a estatura do homem perfeito.

Cristo não somente realiza esse movimento de amor por nós, mas nos convida, no contexto desse fraterno convívio, dessa ceia fraterna, a entrarmos na mesma dinâmica de kenósis amorosa. Vejamos que João não nos transmite o relato da instituição da Eucaristia. Ele não nos transmite um relato testamentário, mas nos transmite como a comunidade cristã vivia a Eucaristia na sua vida cotidiana. João não nos descreve as ações do culto, mas nos apresenta o fruto dessa ação cúltica. Cristo nos indica na ceia derradeira o que significa a Eucaristia. Cristo lava os pés dos seus discípulos, faz-se servo, e servirá de maneira ainda mais perfeita na cruz. Isso é Eucaristia.

Eucaristia é a expressão de um amor que se entrega sem medidas. E é à essa entrega que o Cristo nos convida, fazendo-nos não somente receber a sua entrega amorosa, mas dando-nos a graça de também entrarmos nessa maravilhosa “dança” de amor da Trindade. Eis o mandamento novo: “amai-vos uns aos outros”. O mandamento não é novo na letra, porque o Levítico já o havia anunciado, mas é novo no espírito, porque agora não se trata mais de amar de um modo puramente nosso, mas de amarmos com a mesma qualidade de amor com a qual Cristo nos amou. Cristo não nos amou com um amor meramente de atração (éros) ou simpatia (filia), mas nos amou com seu amor divino (ágape) que inclui a atração, o desejo, a simpatia, mas os supera enormemente. Essa é a senha/sinal do discípulo. O amor nos faz ser reconhecidos como discípulos de Cristo. O amor entre nós será um sinal para os que não crêem.

Precisamos pedir ao Espírito a graça desse amor. A Palavra de hoje nos convence de que não sabemos amar como convém. Amamos somente com nosso interesse. Em nossos mais puros desejos transparece sempre a expectativa de uma correspondência no amor. Somente o Espírito de Deus pode nos fazer amar como Cristo nos ama. Cristo simplesmente nos ama, porque Ele é “verdadeiramente livre”. Ele não cria nenhuma expectativa. É por isso que Ele não nos julga e se alegra com as mínimas manifestações de ternura que temos para com Ele, porque Ele nos ama sem supor nada e sem esperar nada. Ele simplesmente nos ama. E esse amor que é “forte como a morte” como nos diz o Cântico dos Cânticos chega a fazer doer a nossa alma, porque ela se encontra ferida de amor e não conseguimos responder na mesma medida. Peçamos hoje ao Espírito de Deus que dilate os nossos corações a fim de que possamos amar com a mesma medida com a qual o Cristo nos ama. Que possamos ver em cada rosto o rosto do próprio Senhor a fim de que assim possamos amar além das aparências.

O salmista hoje convida as obras do Senhor a glorificarem o nome do Senhor e convida aos santos do Senhor a bendizê-lo com seus louvores. Nós somos a obra-prima de Deus; somos os seus santos eleitos; sim, de fato, o somos, mesmo mergulhados que estamos em nosso pecado. Glorifiquemos o nome do Senhor. Espalhemos, como diz o salmo, seus prodígios entre os homens. Esse louvor nos liberta, Ele dilata o nosso coração, nos faz amar como nos convém e esperar o reino que virá, já misteriosamente presente no meio de nós, mas que definitivamente virá e este reino “é um reino para sempre”. Talvez só lá amaremos da forma como nos convém, mas enquanto aqui estamos podemos sempre crescer no amor. Peçamos ao Senhor que dilate nossos corações. Que alimentando-nos da sua vida que é amor possamos tornar-nos amor, simplesmente amor.



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“Eis que faço novas todas as coisas” (...) “Escreve, porque estas palavras são dignas de fé e verdadeira” (Ap 21,5)

Iniciando nossa reflexão pela segunda leitura, vemos descortinar-se a visão de João, a qual tem nos acompanhado nesses domingos do tempo pascal. João viu um novo céu e uma nova terra, porque o primeiro céu e a primeira terra passaram e o mar já não existe. Gênesis e Apocalipse se tocam neste momento. É a unidade da Palavra de Deus que misticamente se apresenta diante dos nossos olhos. Gênesis nos fala de um primeiro céu e uma primeira terra, de uma harmonia original que foi abalada pelo pecado dos nossos primeiros pais. Cristo nos devolve a harmonia original, elevada, todavia ao seu ponto máximo, porque não se trata apenas de um voltar ao paraíso terrestre, mas de caminhar em direção ao paraíso celestial que o Senhor preparou para nós, onde o mar - que aqui simboliza o mal e toda força que se opõe a Deus - já não existe. 

Nestes tempos novos, que o Cordeiro inaugura, surge a Jerusalém Nova, que desce do céu, de junto de Deus, vestida em trajes nupciais. Trata-se aqui da união definitiva de Cristo com sua Igreja, que nos tempos futuros realizará definitivamente suas núpcias místicas, amando o seu esposo não mais de modo imperfeito, mas de maneira paritária, como convém ao verdadeiro matrimônio. O próprio esposo capacitará a esposa a amar assim, no final dos tempos.

A Jerusalém celeste não é produto de nossas mãos. É Deus quem forma e adorna a sua esposa. Ela desce de junto de Deus, já vestida, para as suas núpcias. Muitos querem ver nessa visão de João apenas um chamado para melhorarmos esse mundo. Todavia, no desejo, a princípio muito cheio de boa intenção, de transformamos esse mundo, acabamos olhando demasiadamente aqui para baixo e nos fixando tanto nas realidades terrestres, imperfeitas, transitórias, que acabamos não conseguindo transformar nada, nem modificar aquilo o que gostaríamos de modificar; construímos, talvez, uma sociedade boa, mas somente isso. Reduzimos a bondade a um nível antropológico.

A leitura que hoje ouvimos nos convida a lançarmos um olhar para a escatologia. Devemos ver que é Deus quem prepara para o seu Cordeiro uma esposa. É Deus quem a adorna, a enche de dons e a capacita a amar o seu Cordeiro numa justa medida conveniente a uma esposa que quer ser fiel. Essa Jerusalém nova é sacramentalmente sinalizada na Igreja.

A Jerusalém do AT era sombra; a Igreja é a imagem; todavia, a realidade sobre a Igreja ainda virá. Nos diz o Papa Bento em seu livro Introdução ao Espírito da Liturgia: “a sombra é substituída pela imagem(...). Contudo, como expõe Gregório Magno, ainda só é o tempo da aurora, onde as trevas se misturam com a luminosidade. O Sol que nela nasce, ainda não ascendeu plenamente”. O que aqui se aplica à liturgia aplica-se também à Igreja. Essa palavra da Escritura nos faz antegozar o que seremos. A nossa esperança é alimentada por essa Palavra. Nós que continuamente nos confrontamos com nossas fraquezas, incapacidades, infidelidades, nos vemos diante dessa imagem que é profética e que constitui para nós uma promessa de que, no fim dos tempos, o Pai mesmo revestirá a Igreja com as vestes da salvação e a fará estar à altura do seu Celeste Esposo.

Poderíamos achar que tal pensamento nos afasta de atitudes concretas que visem melhorar a nossa vida nesse mundo. Poderíamos objetar dizendo: que adianta pensar numa Jerusalém nova que virá de junto de Deus se não modificamos a nossa situação social e eclesial presente? É um estranho mistério. Mas a experiência nos revela que quanto mais temos o olhar na escatologia mais queremos de uma certa forma antecipá-la transformando esse mundo num lugar mais parecido com aquilo o que Ele será quando essa Palavra se cumprir. Sem buscar atuar diretamente sobre o contexto atual acabamos atuando, mas sem perder o olhar que se direciona para a promessa, para o futuro, para a escatologia. Afinal, o modelo de um mundo que corresponda à verdade não está em nossos pensamentos, nem mesmo em nossas boas intenções, está justamente naquilo o que a Palavra nos revela sobre o mundo que virá.

Era esse olhar que animava os apóstolos, que os fazia pregar a boa-nova da fé, que os levava a perceber – na brilhante formulação de Lucas - o que “Deus fizera por meio deles”.

Essa Igreja à espera de sua consumação é convidada hoje ao amor que liberta, à “verdadeira liberdade” no amor como pede a oração coleta. O Evangelho que hoje ouvimos pertence ao contexto daquela ceia derradeira que Jesus fez com seus discípulos antes da sua Paixão. Aqui tem início o assim chamado discurso de despedida de Jesus, onde ele começa a elaborar o seu testamento espiritual aos apóstolos, uma vez que Ele sabe que “por pouco tempo” estará ainda com os discípulos.

Poderíamos dividir em duas partes essa perícope. Primeiro, temos os versículos 31-32 onde Cristo fala da sua glória. Lembremo-nos que versículos antes Judas havia saído do recinto onde os apóstolos celebravam a Páscoa com Jesus com o intuito de entregá-lo. Em virtude desse gesto de Judas que abre o processo para a Paixão, Cristo usa o “agora” que domina toda a passagem. “Agora” a glória do Filho se manifesta, porque Ele veio justamente para isso, para dar sua vida em favor de muitos. Deus é glorificado no Filho porque na entrega do mesmo Filho a glória do Pai também se manifesta.

É difícil para nós entendermos a ligação entre morte e glória, entre cruz e ressurreição. São os paradoxos divinos. O fato é que o Cristo vem nos revelar que esse paradoxo está aí e não existe jeito de quebrá-lo com a nossa lógica humana, porque a salvação de nossas almas se dá pelo processo da lógica de Deus. A glória de Cristo é a cruz. É por ela que Ele alcança a ressurreição e nos garante a vida em plenitude. A glória da Trindade se revela através da entrega do Filho. No nosso conceito glória significa fama, riqueza, significa receber toda a atenção dos outros, significa ainda que outros vivem em função de mim. Na vida da Trindade a glória está em que o Pai se esvazia de si mesmo para gerar o Filho e o Filho se esvazia de si mesmo para em tudo obedecer ao Pai, num movimento eterno de amor e reciprocidade que gera a terceira e também eterna pessoa da Trindade, o Espírito Santo, que é puro amor em movimento. Esse amor de esvaziamento, de kénosis, Cristo nos revelou na cruz, quando esvaziou-se totalmente para nos dar a salvação. A glória de Cristo está em esvaziar-se para que sejamos salvos, para que atinjamos a estatura do homem perfeito.

Cristo não somente realiza esse movimento de amor por nós, mas nos convida, no contexto desse fraterno convívio, dessa ceia fraterna, a entrarmos na mesma dinâmica de kenósis amorosa. Vejamos que João não nos transmite o relato da instituição da Eucaristia. Ele não nos transmite um relato testamentário, mas nos transmite como a comunidade cristã vivia a Eucaristia na sua vida cotidiana. João não nos descreve as ações do culto, mas nos apresenta o fruto dessa ação cúltica. Cristo nos indica na ceia derradeira o que significa a Eucaristia. Cristo lava os pés dos seus discípulos, faz-se servo, e servirá de maneira ainda mais perfeita na cruz. Isso é Eucaristia.

Eucaristia é a expressão de um amor que se entrega sem medidas. E é à essa entrega que o Cristo nos convida, fazendo-nos não somente receber a sua entrega amorosa, mas dando-nos a graça de também entrarmos nessa maravilhosa “dança” de amor da Trindade. Eis o mandamento novo: “amai-vos uns aos outros”. O mandamento não é novo na letra, porque o Levítico já o havia anunciado, mas é novo no espírito, porque agora não se trata mais de amar de um modo puramente nosso, mas de amarmos com a mesma qualidade de amor com a qual Cristo nos amou. Cristo não nos amou com um amor meramente de atração (éros) ou simpatia (filia), mas nos amou com seu amor divino (ágape) que inclui a atração, o desejo, a simpatia, mas os supera enormemente. Essa é a senha/sinal do discípulo. O amor nos faz ser reconhecidos como discípulos de Cristo. O amor entre nós será um sinal para os que não crêem.

Precisamos pedir ao Espírito a graça desse amor. A Palavra de hoje nos convence de que não sabemos amar como convém. Amamos somente com nosso interesse. Em nossos mais puros desejos transparece sempre a expectativa de uma correspondência no amor. Somente o Espírito de Deus pode nos fazer amar como Cristo nos ama. Cristo simplesmente nos ama, porque Ele é “verdadeiramente livre”. Ele não cria nenhuma expectativa. É por isso que Ele não nos julga e se alegra com as mínimas manifestações de ternura que temos para com Ele, porque Ele nos ama sem supor nada e sem esperar nada. Ele simplesmente nos ama. E esse amor que é “forte como a morte” como nos diz o Cântico dos Cânticos chega a fazer doer a nossa alma, porque ela se encontra ferida de amor e não conseguimos responder na mesma medida. Peçamos hoje ao Espírito de Deus que dilate os nossos corações a fim de que possamos amar com a mesma medida com a qual o Cristo nos ama. Que possamos ver em cada rosto o rosto do próprio Senhor a fim de que assim possamos amar além das aparências.

O salmista hoje convida as obras do Senhor a glorificarem o nome do Senhor e convida aos santos do Senhor a bendizê-lo com seus louvores. Nós somos a obra-prima de Deus; somos os seus santos eleitos; sim, de fato, o somos, mesmo mergulhados que estamos em nosso pecado. Glorifiquemos o nome do Senhor. Espalhemos, como diz o salmo, seus prodígios entre os homens. Esse louvor nos liberta, Ele dilata o nosso coração, nos faz amar como nos convém e esperar o reino que virá, já misteriosamente presente no meio de nós, mas que definitivamente virá e este reino “é um reino para sempre”. Talvez só lá amaremos da forma como nos convém, mas enquanto aqui estamos podemos sempre crescer no amor. Peçamos ao Senhor que dilate nossos corações. Que alimentando-nos da sua vida que é amor possamos tornar-nos amor, simplesmente amor.