Arquidiocese do Rio de Janeiro

25º 13º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 19/07/2019

19 de Julho de 2019

Leigos, identidade e missão

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Leigos, identidade e missão

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01/04/2016 00:00 - Atualizado em 05/04/2016 17:41

Leigos, identidade e missão 0

01/04/2016 00:00 - Atualizado em 05/04/2016 17:41

A 54ª. Assembleia Geral da CNBB, que ocorre em Aparecida, à sombra da “Casa da Mãe”, como diz carinhosamente o povo, entre os dias 6 e 15 de abril, tem como tema: “Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade – Sal da Terra e Luz no Mundo”.

A primeira pergunta que pode aflorar na mente de quem toma contato com o tema é esta: como se define o leigo nos dias de hoje e qual é a sua missão específica?

Na realidade, se aprofundarmos um pouco, no campo bíblico-eclesiológico, vemos que a palavra leigo vem do grego laikós que, por sua vez, nasce de laós e significa o povo escolhido de Deus (cf. 2Cor 6,16; 1Pd 2,9; Hb 9,19; 13,12; Ap 21,3...) em distinção ao vocábulo povo, no sentido profano, com a raiz em tà éthne, ou seja, as nações todas ou os gentios (cf. Mt 6,32; 12,21; 25,32; Ef 4,17; 1Ts 4,5).

Ora, isso tudo é dito para demonstrar que a Igreja se considera a herdeira ou a consumadora do Povo de Deus escolhido no Antigo Testamento. Daí o próprio termo laós aparecer 140 vezes no Novo Testamento com o sentido de povo religioso, em oposição aos demais povos (povo = tà éthne) que também devem ser chamados, por meio do apostolado, a fazer parte desse povo eleito, gratuitamente, pelo Senhor.

Sobre isso, diz, com efeito, a Lumen Gentium n. 9 que “aprouve a Deus santificar e salvar os homens não singularmente, sem nenhuma conexão de uns com os outros, mas constituí-los num só povo que O conhecesse na verdade e santamente Lhe servisse”. Continua ainda o mesmo documento a aprofundar o que foi dito: “o Senhor Deus escolheu Israel como seu povo. Estabeleceu com ele uma aliança. E instruiu-o passo a passo... em preparação e figura para a nova e perfeita aliança que se estabeleceria em Cristo, e para transmitir uma revelação mais completa através do próprio Verbo de Deus feito carne” (idem).

É nesse Verbo que cada um dos batizados renasceu. Não da carne, mas da água e do Espírito Santo (cf. Jo 3,5s), a fim de sermos uma linhagem escolhida, sacerdócio régio, nação santa, povo escolhido de Deus (cf. 1Pd 2,9). Escolhido... frise-se, não por nossos próprios méritos, mas, sim, por livre e soberana vontade de Deus. Ele nos resgatou e nos amou quando ainda éramos pecadores (cf. Rm 5,8), mediante o nosso santo Batismo, cuja forma ordinária é o derramamento de água natural na cabeça da criança ou do adulto, pronunciando a fórmula clássica: “NN., eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.

Portanto, é mediante o Batismo que nos tornamos filhos no Filho (cf. Gl 4,5) e nos passamos a ser, visivelmente, membros do Povo de Deus (laós) como leigos. Disso a Lumen Gentium trata, de modo muito belo, em seu número 31, com as seguintes palavras: “Por leigos entende-se aqui todos os cristãos que não são membros da sagrada Ordem ou do estado religioso reconhecido pela Igreja, isto é, os fiéis que, incorporados em Cristo pelo Batismo, constituídos em Povo de Deus e tornados participantes, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo, exercem, pela parte que lhes toca, a missão de todo o Povo cristão na Igreja e no mundo”.

“É própria e peculiar dos leigos a característica secular. Com efeito, os membros da sagrada Ordem, ainda que algumas vezes possam tratar de assuntos seculares, exercendo mesmo uma profissão profana, contudo, em razão da sua vocação específica, destinam-se, sobretudo e expressamente, ao sagrado ministério; enquanto que os religiosos, no seu estado, dão magnífico e privilegiado testemunho de que se não pode transfigurar o mundo e oferecê-lo a Deus sem o espírito das bem-aventuranças. Por vocação própria, compete aos leigos procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus. Vivem no mundo, isto é, em toda e qualquer ocupação e atividade terrena, e nas condições ordinárias da vida familiar e social, com as quais é como que tecida a sua existência. São chamados por Deus para que, aí, exercendo o seu próprio ofício, guiados pelo espírito evangélico, concorram para a santificação do mundo a partir de dentro, como o fermento, e, desse modo, manifestem Cristo aos outros, antes do mais pelo testemunho da própria vida, pela irradiação da sua fé, esperança e caridade. Portanto, a eles compete, especialmente, iluminar e ordenar de tal modo as realidades temporais, a que estão estreitamente ligados, que elas sejam sempre feitas segundo Cristo e progridam e glorifiquem o Criador e Redentor”.

A partir dessa citação, Dom Estêvão Bettencourt, OSB, grande teólogo brasileiro, tece importantes considerações em seu Curso de Eclesiologia da Escola Mater Ecclesiae, de nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ), p. 176, que vamos seguir de perto, junto a outras fontes, neste artigo, uma vez que muito nos ajudam a entender o lugar e a missão do leigo na Igreja. São três pontos:

1) O texto acima poderia dar a impressão de que leigo é todo aquele que não é clérigo (diácono, padre ou bispo). Essa conclusão seria incompleta, pois os religiosos e religiosas nem todos são clérigos, embora alguns possam ser. Na Igreja, pode-se dizer, então, que os consagrados ocupam um lugar à parte, ou ao lado – nem acima nem abaixo – dos clérigos (quando não o são) e dos leigos, devido a um carisma especial de entrega a Deus pelos votos clássicos de pobreza, castidade e obediência.

Aliás, sobre os consagrados bem escreve Dom Dadeus Grings, sábio canonista e Arcebispo emérito de Porto Alegre, o seguinte: “outra realidade, que compreende tanto clérigos como leigos, é constituída pela profissão dos conselhos evangélicos. Trata-se de uma situação especial na Igreja, que não pertence à estrutura hierárquica, mas à sua vida de santidade: são as pessoas consagradas” (Curso de Direito Canônico. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2004, p. 1).

2) Fala-se da índole ou natureza secular do leigo. Essa palavra (secular) provém de saeculum,i = mundo. Daí entender-se por secular aquele que atua no mundo em distinção daquele que age no campo religioso específico ou dentro da Igreja.

É preciso cuidado, porém, ao imaginar aqui uma separação radical como se a fé cristã fosse para ser professada apenas dentro do templo e, na vida pública, pudesse, à moda de um guarda-chuva ou outro apetrecho qualquer, ser deixada do lado de fora. Não. O leigo ou a leiga atua no mundo, em família ou sozinho(a), levando aí o espírito do Evangelho que transforma qual fermento na massa as realidades seculares, sem que elas percam a sua própria autonomia ante o religioso.

Exercendo bem a sua função familiar e profissional, os leigos são a presença viva e eficaz da Igreja nos lugares em que só eles podem ser verdadeiros protagonistas da nova evangelização tão sonhada e promovida pelos Papas Paulo VI e João Paulo II, especialmente. Com sua presença evangelizadora, esses leigos vão fazendo daquilo que parece mais profano (mas não é) algo santo, pois os toca com o espírito evangélico que lhes é próprio em virtude do Batismo.

Sim, nada é profano depois que o Senhor Jesus entrou na História e a santificou com sua redenção físico-mística. Esta redenção consiste em que Ele, ao ter contato com o mundo em suas diversas realidades, e mesmo ao comparar-se com várias delas (videira, porta, pastor, luz etc.), tudo santificou, de modo que toda a realidade temporal é chamada a dar glórias a Deus e servir ao Criador, especialmente pelo digno e justo trabalho humano. Este consiste em uma ação sacerdotal, pois ao trabalhar o ser humano louva a Deus naquilo que faz, tornando, desse modo, o mundo mais santo e, por conseguinte, melhor de se viver.

3) O leigo não é, jamais, um cristão de segunda categoria, como, às vezes, se tratou essa grande parcela do Povo de Deus ao longo da História. Ao contrário, o leigo, assim como os clérigos e religiosos, é, na vida da Igreja, chamado à santidade por meio da espiritualidade básica de todo fiel batizado, pela vocação à vida celibatária, na vida matrimonial ou nas mais diversas atuações no campo da medicina, da educação, da política, dos trabalhos variados. Em cada ambiente há um espaço para o seu testemunho e compromisso com o Evangelho, a ser aí apresentado nas palavras ou nos exemplos.

Reflete com sábias palavras sobre essa presença santa do leigo no mundo, Dom Estêvão Bettencourt, OSB, ao escrever que esse segmento da Igreja recebe nos meios em que está “a graça de Deus necessária para dar lúcido testemunho de Cristo, santificar a si, aos seus irmãos e às tarefas que exerce. O progresso da cultura, do saber, da técnica, da produção podem ser atrativos sedutores da cobiça, a ganância, a autoafirmação..., mas segundo os desígnios de Deus são setores que o cristão, por efeito da vitória de Cristo, deve tornar harmoniosas manifestações da santidade e da glória do Senhor”. (Curso de Eclesiologia, p. 176).

Ora, é tendo muito presente essas e outras considerações sobre os leigos e leigas que a Igreja no Brasil se reunirá para a sua 54ª Assembleia Geral. Pensa ela, de modo colegiado, em oferecer uma resposta coerente e eficaz, em pleno século XXI, ao Povo de Deus sobre as questões atinentes ao campo laical: a evangelização em nosso tempo passa pelo protagonismo dos leigos, discípulos e missionários de Jesus Cristo. Ser presença cristã na sociedade hodierna é uma grande responsabilidade de quem é chamado a “sentir com a Igreja” no seguimento de Jesus Cristo e ser testemunha do Ressuscitado.

Sim, dois termos que se unem na missão: ser discípulo ou aluno – aquele que aprende –, a fim de poder ser, depois, missionário – aquele que faz missão ou transmite o conteúdo recebido no discipulado. Com esse binômio tudo fica mais fácil: aprende-se sobre Deus e depois se fala d’Ele ao próximo, de acordo com a realidade na qual ele vive, com a palavra e principalmente pelo testemunho. Essa catequese é permanente, mas muito importante de um modo especial nos sacramentos da iniciação cristã (Batismo, Eucaristia e Crisma), cada vez mais legados à Igreja enquanto comunidade e não enquanto família ou Igreja doméstica.

Precisamos, pois, de catequistas bem preparados, a fim de poderem ajudar os pais, padrinhos, adolescentes, jovens e adultos a entenderem melhor a razão do que pedem e recebem na Igreja. Requer-se que saibam o que fazem. Mais ainda: é preciso que conheçam a fé professada, a fim de estarem sempre prontos a dar as razões de sua esperança a quem lhes pedir (cf. 1Pd 3,15)... Nisso, nós, os bispos, queremos, em Assembleia, ajudar o nosso laicato.

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01/04/2016 00:00 - Atualizado em 05/04/2016 17:41

A 54ª. Assembleia Geral da CNBB, que ocorre em Aparecida, à sombra da “Casa da Mãe”, como diz carinhosamente o povo, entre os dias 6 e 15 de abril, tem como tema: “Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade – Sal da Terra e Luz no Mundo”.

A primeira pergunta que pode aflorar na mente de quem toma contato com o tema é esta: como se define o leigo nos dias de hoje e qual é a sua missão específica?

Na realidade, se aprofundarmos um pouco, no campo bíblico-eclesiológico, vemos que a palavra leigo vem do grego laikós que, por sua vez, nasce de laós e significa o povo escolhido de Deus (cf. 2Cor 6,16; 1Pd 2,9; Hb 9,19; 13,12; Ap 21,3...) em distinção ao vocábulo povo, no sentido profano, com a raiz em tà éthne, ou seja, as nações todas ou os gentios (cf. Mt 6,32; 12,21; 25,32; Ef 4,17; 1Ts 4,5).

Ora, isso tudo é dito para demonstrar que a Igreja se considera a herdeira ou a consumadora do Povo de Deus escolhido no Antigo Testamento. Daí o próprio termo laós aparecer 140 vezes no Novo Testamento com o sentido de povo religioso, em oposição aos demais povos (povo = tà éthne) que também devem ser chamados, por meio do apostolado, a fazer parte desse povo eleito, gratuitamente, pelo Senhor.

Sobre isso, diz, com efeito, a Lumen Gentium n. 9 que “aprouve a Deus santificar e salvar os homens não singularmente, sem nenhuma conexão de uns com os outros, mas constituí-los num só povo que O conhecesse na verdade e santamente Lhe servisse”. Continua ainda o mesmo documento a aprofundar o que foi dito: “o Senhor Deus escolheu Israel como seu povo. Estabeleceu com ele uma aliança. E instruiu-o passo a passo... em preparação e figura para a nova e perfeita aliança que se estabeleceria em Cristo, e para transmitir uma revelação mais completa através do próprio Verbo de Deus feito carne” (idem).

É nesse Verbo que cada um dos batizados renasceu. Não da carne, mas da água e do Espírito Santo (cf. Jo 3,5s), a fim de sermos uma linhagem escolhida, sacerdócio régio, nação santa, povo escolhido de Deus (cf. 1Pd 2,9). Escolhido... frise-se, não por nossos próprios méritos, mas, sim, por livre e soberana vontade de Deus. Ele nos resgatou e nos amou quando ainda éramos pecadores (cf. Rm 5,8), mediante o nosso santo Batismo, cuja forma ordinária é o derramamento de água natural na cabeça da criança ou do adulto, pronunciando a fórmula clássica: “NN., eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.

Portanto, é mediante o Batismo que nos tornamos filhos no Filho (cf. Gl 4,5) e nos passamos a ser, visivelmente, membros do Povo de Deus (laós) como leigos. Disso a Lumen Gentium trata, de modo muito belo, em seu número 31, com as seguintes palavras: “Por leigos entende-se aqui todos os cristãos que não são membros da sagrada Ordem ou do estado religioso reconhecido pela Igreja, isto é, os fiéis que, incorporados em Cristo pelo Batismo, constituídos em Povo de Deus e tornados participantes, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo, exercem, pela parte que lhes toca, a missão de todo o Povo cristão na Igreja e no mundo”.

“É própria e peculiar dos leigos a característica secular. Com efeito, os membros da sagrada Ordem, ainda que algumas vezes possam tratar de assuntos seculares, exercendo mesmo uma profissão profana, contudo, em razão da sua vocação específica, destinam-se, sobretudo e expressamente, ao sagrado ministério; enquanto que os religiosos, no seu estado, dão magnífico e privilegiado testemunho de que se não pode transfigurar o mundo e oferecê-lo a Deus sem o espírito das bem-aventuranças. Por vocação própria, compete aos leigos procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus. Vivem no mundo, isto é, em toda e qualquer ocupação e atividade terrena, e nas condições ordinárias da vida familiar e social, com as quais é como que tecida a sua existência. São chamados por Deus para que, aí, exercendo o seu próprio ofício, guiados pelo espírito evangélico, concorram para a santificação do mundo a partir de dentro, como o fermento, e, desse modo, manifestem Cristo aos outros, antes do mais pelo testemunho da própria vida, pela irradiação da sua fé, esperança e caridade. Portanto, a eles compete, especialmente, iluminar e ordenar de tal modo as realidades temporais, a que estão estreitamente ligados, que elas sejam sempre feitas segundo Cristo e progridam e glorifiquem o Criador e Redentor”.

A partir dessa citação, Dom Estêvão Bettencourt, OSB, grande teólogo brasileiro, tece importantes considerações em seu Curso de Eclesiologia da Escola Mater Ecclesiae, de nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ), p. 176, que vamos seguir de perto, junto a outras fontes, neste artigo, uma vez que muito nos ajudam a entender o lugar e a missão do leigo na Igreja. São três pontos:

1) O texto acima poderia dar a impressão de que leigo é todo aquele que não é clérigo (diácono, padre ou bispo). Essa conclusão seria incompleta, pois os religiosos e religiosas nem todos são clérigos, embora alguns possam ser. Na Igreja, pode-se dizer, então, que os consagrados ocupam um lugar à parte, ou ao lado – nem acima nem abaixo – dos clérigos (quando não o são) e dos leigos, devido a um carisma especial de entrega a Deus pelos votos clássicos de pobreza, castidade e obediência.

Aliás, sobre os consagrados bem escreve Dom Dadeus Grings, sábio canonista e Arcebispo emérito de Porto Alegre, o seguinte: “outra realidade, que compreende tanto clérigos como leigos, é constituída pela profissão dos conselhos evangélicos. Trata-se de uma situação especial na Igreja, que não pertence à estrutura hierárquica, mas à sua vida de santidade: são as pessoas consagradas” (Curso de Direito Canônico. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2004, p. 1).

2) Fala-se da índole ou natureza secular do leigo. Essa palavra (secular) provém de saeculum,i = mundo. Daí entender-se por secular aquele que atua no mundo em distinção daquele que age no campo religioso específico ou dentro da Igreja.

É preciso cuidado, porém, ao imaginar aqui uma separação radical como se a fé cristã fosse para ser professada apenas dentro do templo e, na vida pública, pudesse, à moda de um guarda-chuva ou outro apetrecho qualquer, ser deixada do lado de fora. Não. O leigo ou a leiga atua no mundo, em família ou sozinho(a), levando aí o espírito do Evangelho que transforma qual fermento na massa as realidades seculares, sem que elas percam a sua própria autonomia ante o religioso.

Exercendo bem a sua função familiar e profissional, os leigos são a presença viva e eficaz da Igreja nos lugares em que só eles podem ser verdadeiros protagonistas da nova evangelização tão sonhada e promovida pelos Papas Paulo VI e João Paulo II, especialmente. Com sua presença evangelizadora, esses leigos vão fazendo daquilo que parece mais profano (mas não é) algo santo, pois os toca com o espírito evangélico que lhes é próprio em virtude do Batismo.

Sim, nada é profano depois que o Senhor Jesus entrou na História e a santificou com sua redenção físico-mística. Esta redenção consiste em que Ele, ao ter contato com o mundo em suas diversas realidades, e mesmo ao comparar-se com várias delas (videira, porta, pastor, luz etc.), tudo santificou, de modo que toda a realidade temporal é chamada a dar glórias a Deus e servir ao Criador, especialmente pelo digno e justo trabalho humano. Este consiste em uma ação sacerdotal, pois ao trabalhar o ser humano louva a Deus naquilo que faz, tornando, desse modo, o mundo mais santo e, por conseguinte, melhor de se viver.

3) O leigo não é, jamais, um cristão de segunda categoria, como, às vezes, se tratou essa grande parcela do Povo de Deus ao longo da História. Ao contrário, o leigo, assim como os clérigos e religiosos, é, na vida da Igreja, chamado à santidade por meio da espiritualidade básica de todo fiel batizado, pela vocação à vida celibatária, na vida matrimonial ou nas mais diversas atuações no campo da medicina, da educação, da política, dos trabalhos variados. Em cada ambiente há um espaço para o seu testemunho e compromisso com o Evangelho, a ser aí apresentado nas palavras ou nos exemplos.

Reflete com sábias palavras sobre essa presença santa do leigo no mundo, Dom Estêvão Bettencourt, OSB, ao escrever que esse segmento da Igreja recebe nos meios em que está “a graça de Deus necessária para dar lúcido testemunho de Cristo, santificar a si, aos seus irmãos e às tarefas que exerce. O progresso da cultura, do saber, da técnica, da produção podem ser atrativos sedutores da cobiça, a ganância, a autoafirmação..., mas segundo os desígnios de Deus são setores que o cristão, por efeito da vitória de Cristo, deve tornar harmoniosas manifestações da santidade e da glória do Senhor”. (Curso de Eclesiologia, p. 176).

Ora, é tendo muito presente essas e outras considerações sobre os leigos e leigas que a Igreja no Brasil se reunirá para a sua 54ª Assembleia Geral. Pensa ela, de modo colegiado, em oferecer uma resposta coerente e eficaz, em pleno século XXI, ao Povo de Deus sobre as questões atinentes ao campo laical: a evangelização em nosso tempo passa pelo protagonismo dos leigos, discípulos e missionários de Jesus Cristo. Ser presença cristã na sociedade hodierna é uma grande responsabilidade de quem é chamado a “sentir com a Igreja” no seguimento de Jesus Cristo e ser testemunha do Ressuscitado.

Sim, dois termos que se unem na missão: ser discípulo ou aluno – aquele que aprende –, a fim de poder ser, depois, missionário – aquele que faz missão ou transmite o conteúdo recebido no discipulado. Com esse binômio tudo fica mais fácil: aprende-se sobre Deus e depois se fala d’Ele ao próximo, de acordo com a realidade na qual ele vive, com a palavra e principalmente pelo testemunho. Essa catequese é permanente, mas muito importante de um modo especial nos sacramentos da iniciação cristã (Batismo, Eucaristia e Crisma), cada vez mais legados à Igreja enquanto comunidade e não enquanto família ou Igreja doméstica.

Precisamos, pois, de catequistas bem preparados, a fim de poderem ajudar os pais, padrinhos, adolescentes, jovens e adultos a entenderem melhor a razão do que pedem e recebem na Igreja. Requer-se que saibam o que fazem. Mais ainda: é preciso que conheçam a fé professada, a fim de estarem sempre prontos a dar as razões de sua esperança a quem lhes pedir (cf. 1Pd 3,15)... Nisso, nós, os bispos, queremos, em Assembleia, ajudar o nosso laicato.

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro