Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 25/07/2017

25 de Julho de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (39): Interpretação e tradução da Bíblia

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25 de Julho de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (39): Interpretação e tradução da Bíblia

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25/03/2016 00:00 - Atualizado em 01/04/2016 17:53

A Palavra de Deus na Bíblia (39): Interpretação e tradução da Bíblia 0

25/03/2016 00:00 - Atualizado em 01/04/2016 17:53

Nos artigos passados tratamos da herança judaica como abordagem exegética na tarefa de interpretar seja o Antigo, quanto o Novo Testamento:

O judaísmo antigo era de uma grande diversidade. A forma farisaica, que prevaleceu em seguida no rabinismo1, não era a única. Os textos judeus antigos se escalonam por vários séculos; é importante situá-los cronologicamente antes de fazer comparações.

Sobretudo, o quadro geral das comunidades judaicas e cristãs é fundamentalmente diferente: do lado judeu, segundo formas muito variadas, trata-se de uma religião que define um povo e uma prática de vida a partir de um escrito revelado e de uma tradição oral, enquanto que do lado cristão é a fé ao Senhor Jesus, morto, ressuscitado e doravante vivo, Messias e Filho de Deus, que reúne uma comunidade. Esses dois pontos de partida criam, para a interpretação das Escrituras, dois contextos que, apesar de muitos contatos e semelhanças, são radicalmente diferentes.

Agora, avançaremos na direção da terceira abordagem.

3. Abordagem através da história dos efeitos do texto

Esta abordagem apoia-se sobre dois princípios: a) um texto torna-se uma obra literária somente se ele encontra leitores que lhe dão vida apropriando-se dele; b) essa apropriação do texto, que pode se efetuar de maneira individual ou comunitária e toma forma em diferentes domínios (literário, artístico, teológico, ascético e místico), contribui a fazer compreender melhor o texto em si.

Nesta abordagem vê-se que a vida da leitura ganha sentido quando se trata dos livros sagrados. Apropriação da mensagem é a atividade dos leitores que está em foco nesta perspectiva.

A Pontifícia Comissão Bíblica não hesita em salientar que esta abordagem traz incrementos à atividade exegética.

A exegese bíblica só podia obter benefícios com esta pesquisa, ainda mais que a hermenêutica filosófica afirmava por seu lado a necessária distância entre a obra e seu autor, assim como entre a obra e seus leitores2.

Sem ser totalmente desconhecida da Antiguidade, esta abordagem se desenvolveu entre 1960 e 1970 nos estudos literários, logo que a crítica interessou-se pelas relações entre o texto e seus leitores.

A exegese percebe a oportunidade de trabalhar sobre textos à luz dos ‘efeitos’ que estes mesmos provocaram nos leitores.

Nesta perspectiva, começou-se a fazer entrar no trabalho de interpretação a história do efeito provocado por um livro ou uma passagem da Escritura (“Wirkungsgeschichte”).

Esforça-se em medir a evolução da interpretação no decorrer do tempo em função das preocupações dos leitores e em avaliar a importância do papel da tradição para iluminar o sentido dos textos bíblicos.

O leitor, situado em suas esferas pessoal e social, com sua cultura, questionamentos e interesses entra em cheio na interpretação de um texto. Este texto é entendido a partir dos ‘efeitos’ que ele causou ao longo da história nos seus leitores em seus ambientes históricos.

Colocar-se em presença do texto e de seus leitores suscita uma dinâmica, pois o texto exerce uma irradiação e provoca reações. Ele faz ressoar um apelo, que é ouvido pelos leitores individualmente ou em grupos. O leitor, aliás, não é nunca um sujeito isolado.

Ele pertence a um espaço social e se situa em uma tradição. Ele vem ao texto com suas questões, opera uma seleção, propõe uma interpretação e, finalmente, ele pode criar outra obra ou tomar iniciativas que se inspiram diretamente na sua leitura da Escritura3.

A atividade da pregação da Igreja desde a sua origem está marcada por este interesse, de um lado, ‘ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho’.

Não se trata de uma fala sem expectativas. Fala-se para transmitir uma mensagem que contagia, converte e muda vidas, por outro lado, o próprio ‘ouvinte-leitor’ apropria-se do que ouve e lê e transforma esta mensagem.

Dá vida nova à mensagem que recebeu em diversos contextos.

Assim, graças aos leitores em suas recepções do Texto Sagrado tem-se um percurso, um verdadeiro itinerário da mensagem, em sua transmissão aos leitores de todos os tempos.

A exegese pode avaliar as diversas etapas e transformações pelas quais um texto passa através da análise da recepção de textos na vida dos seus leitores.

Os exemplos de tal abordagem já são numerosos. A história da leitura do Cântico dos Cânticos oferece um excelente testemunho disso; ela mostra como esse livro foi recebido na época pelos padres da Igreja no ambiente monástico latino da Idade Média ou ainda por um místico como são João da Cruz; assim ele permite melhor descobrir todas as dimensões do sentido deste escrito4.

A Igreja, no entanto, adverte a possibilidade que esta abordagem possa ser ‘nefasta’ à sadia recepção da mensagem por parte dos exegetas, eles também leitores inseridos em circunstâncias negativas, que podem obscurecer o Texto Sacro:

Mas a história atesta também a existência de correntes de interpretação tendenciosas e falsas, com efeitos nefastos, levando, por exemplo, ao antissemitismo ou a outras discriminações raciais ou ainda a ilusões milenaristas. Vê-se por isso que esta abordagem não pode ser uma disciplina autônoma. Um discernimento é necessário. Deve-se evitar o privilégio de um ou outro momento da história dos efeitos de um texto para fazer dele a única regra de sua interpretação5.

No próximo artigo apresentaremos novas abordagens literárias que influenciam a exegese bíblica contemporânea.

Referências:

1 Atividade religiosa e literária do judaísmo, depois da destruição do Templo por Tito (70 d.C).

2 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

3 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

4 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

5 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

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A Palavra de Deus na Bíblia (39): Interpretação e tradução da Bíblia

25/03/2016 00:00 - Atualizado em 01/04/2016 17:53

Nos artigos passados tratamos da herança judaica como abordagem exegética na tarefa de interpretar seja o Antigo, quanto o Novo Testamento:

O judaísmo antigo era de uma grande diversidade. A forma farisaica, que prevaleceu em seguida no rabinismo1, não era a única. Os textos judeus antigos se escalonam por vários séculos; é importante situá-los cronologicamente antes de fazer comparações.

Sobretudo, o quadro geral das comunidades judaicas e cristãs é fundamentalmente diferente: do lado judeu, segundo formas muito variadas, trata-se de uma religião que define um povo e uma prática de vida a partir de um escrito revelado e de uma tradição oral, enquanto que do lado cristão é a fé ao Senhor Jesus, morto, ressuscitado e doravante vivo, Messias e Filho de Deus, que reúne uma comunidade. Esses dois pontos de partida criam, para a interpretação das Escrituras, dois contextos que, apesar de muitos contatos e semelhanças, são radicalmente diferentes.

Agora, avançaremos na direção da terceira abordagem.

3. Abordagem através da história dos efeitos do texto

Esta abordagem apoia-se sobre dois princípios: a) um texto torna-se uma obra literária somente se ele encontra leitores que lhe dão vida apropriando-se dele; b) essa apropriação do texto, que pode se efetuar de maneira individual ou comunitária e toma forma em diferentes domínios (literário, artístico, teológico, ascético e místico), contribui a fazer compreender melhor o texto em si.

Nesta abordagem vê-se que a vida da leitura ganha sentido quando se trata dos livros sagrados. Apropriação da mensagem é a atividade dos leitores que está em foco nesta perspectiva.

A Pontifícia Comissão Bíblica não hesita em salientar que esta abordagem traz incrementos à atividade exegética.

A exegese bíblica só podia obter benefícios com esta pesquisa, ainda mais que a hermenêutica filosófica afirmava por seu lado a necessária distância entre a obra e seu autor, assim como entre a obra e seus leitores2.

Sem ser totalmente desconhecida da Antiguidade, esta abordagem se desenvolveu entre 1960 e 1970 nos estudos literários, logo que a crítica interessou-se pelas relações entre o texto e seus leitores.

A exegese percebe a oportunidade de trabalhar sobre textos à luz dos ‘efeitos’ que estes mesmos provocaram nos leitores.

Nesta perspectiva, começou-se a fazer entrar no trabalho de interpretação a história do efeito provocado por um livro ou uma passagem da Escritura (“Wirkungsgeschichte”).

Esforça-se em medir a evolução da interpretação no decorrer do tempo em função das preocupações dos leitores e em avaliar a importância do papel da tradição para iluminar o sentido dos textos bíblicos.

O leitor, situado em suas esferas pessoal e social, com sua cultura, questionamentos e interesses entra em cheio na interpretação de um texto. Este texto é entendido a partir dos ‘efeitos’ que ele causou ao longo da história nos seus leitores em seus ambientes históricos.

Colocar-se em presença do texto e de seus leitores suscita uma dinâmica, pois o texto exerce uma irradiação e provoca reações. Ele faz ressoar um apelo, que é ouvido pelos leitores individualmente ou em grupos. O leitor, aliás, não é nunca um sujeito isolado.

Ele pertence a um espaço social e se situa em uma tradição. Ele vem ao texto com suas questões, opera uma seleção, propõe uma interpretação e, finalmente, ele pode criar outra obra ou tomar iniciativas que se inspiram diretamente na sua leitura da Escritura3.

A atividade da pregação da Igreja desde a sua origem está marcada por este interesse, de um lado, ‘ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho’.

Não se trata de uma fala sem expectativas. Fala-se para transmitir uma mensagem que contagia, converte e muda vidas, por outro lado, o próprio ‘ouvinte-leitor’ apropria-se do que ouve e lê e transforma esta mensagem.

Dá vida nova à mensagem que recebeu em diversos contextos.

Assim, graças aos leitores em suas recepções do Texto Sagrado tem-se um percurso, um verdadeiro itinerário da mensagem, em sua transmissão aos leitores de todos os tempos.

A exegese pode avaliar as diversas etapas e transformações pelas quais um texto passa através da análise da recepção de textos na vida dos seus leitores.

Os exemplos de tal abordagem já são numerosos. A história da leitura do Cântico dos Cânticos oferece um excelente testemunho disso; ela mostra como esse livro foi recebido na época pelos padres da Igreja no ambiente monástico latino da Idade Média ou ainda por um místico como são João da Cruz; assim ele permite melhor descobrir todas as dimensões do sentido deste escrito4.

A Igreja, no entanto, adverte a possibilidade que esta abordagem possa ser ‘nefasta’ à sadia recepção da mensagem por parte dos exegetas, eles também leitores inseridos em circunstâncias negativas, que podem obscurecer o Texto Sacro:

Mas a história atesta também a existência de correntes de interpretação tendenciosas e falsas, com efeitos nefastos, levando, por exemplo, ao antissemitismo ou a outras discriminações raciais ou ainda a ilusões milenaristas. Vê-se por isso que esta abordagem não pode ser uma disciplina autônoma. Um discernimento é necessário. Deve-se evitar o privilégio de um ou outro momento da história dos efeitos de um texto para fazer dele a única regra de sua interpretação5.

No próximo artigo apresentaremos novas abordagens literárias que influenciam a exegese bíblica contemporânea.

Referências:

1 Atividade religiosa e literária do judaísmo, depois da destruição do Templo por Tito (70 d.C).

2 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

3 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

4 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

5 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica