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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 22/09/2017

22 de Setembro de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (38): Interpretação e tradução da Bíblia

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22 de Setembro de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (38): Interpretação e tradução da Bíblia

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18/03/2016 00:00 - Atualizado em 01/04/2016 17:34

A Palavra de Deus na Bíblia (38): Interpretação e tradução da Bíblia 0

18/03/2016 00:00 - Atualizado em 01/04/2016 17:34

No artigo passado, começamos a estudar as abordagens tradicionais em três passos. A primeira denominava-se “Método Canônico”. Já tivemos a ocasião de apresentá-las, em suas duas vertentes (Childs e Sanders). Agora se trata de finalizar com algumas avaliações críticas que a própria Pontifícia Comissão Bíblica nos propõe. Em seguida, iniciaremos a segunda abordagem baseado na Tradição: abordagem com recurso às tradições judaicas de interpretação.

Assim formula o documento a problemática trazida pelo uso do método bíblico:

A abordagem canônica encontra-se às voltas com mais de um problema, sobretudo quando ela procura definir o “processo canônico”. A partir de quando pode-se dizer que um texto é canônico?1

Segundo o documento, pode se falar de uma autoridade do texto determinada pela Comunidade de Fé (a Igreja) antes da fixação do texto (Cânon), mas é preciso que a mensagem, transmitida em diversos contextos, seja mantida!

Parece admissível dizer: desde que a comunidade atribui a um texto uma autoridade normativa, mesmo antes da fixação definitiva desse texto. Pode-se falar de uma hermenêutica “canônica” desde que a repetição das tradições, que se efetua levando-se em conta os aspectos novos da situação (religiosa, cultural, teológica), mantém a identidade da mensagem2.

Mas apresenta-se uma questão: o processo de interpretação que conduziu à formação do Cânon deve ele ser reconhecido como regra de interpretação da Escritura até nossos dias?

Além disso, a Bíblia cristã é diferente da Bíblia hebraica, o nosso “Antigo Testamento” é menor em diversos aspectos que os livros sagrados do judaísmo a que se referem.

A Igreja cristã recebeu como “Antigo Testamento” os escritos que tinham autoridade na comunidade judaica helenística3, mas alguns deles estão ausentes da Bíblia hebraica ou se apresentam sob uma forma diferente. O corpus é, então, diferente. Por isso, a interpretação canônica não pode ser idêntica, pois cada texto deve ser lido em relação com o conjunto do corpus.

Mas, o aspecto mais radical é que a Igreja lê as antigas Escrituras hebraicas à luz dos eventos pascais da morte e ressurreição de Jesus. Nascia a interpretação cristã que tanto incomodou os judeus (fariseus e depois os rabinos), a ponto de proclamarem fechado o Cânon judaico em Jâmnia4.

O corpus é, então, diferente. Por isso, a interpretação canônica não pode ser idêntica, pois cada texto deve ser lido em relação com o conjunto do corpus.

Esta nova determinação de sentido faz parte integrante da fé cristã. Ela não deve, portanto, tirar toda consistência à interpretação canônica anterior, aquela que precedeu a Páscoa cristã, pois é preciso respeitar cada etapa da história da salvação. Esvaziar da sua substância o Antigo Testamento seria privar o Novo Testamento de sua raiz na história.

Passaremos então à segunda abordagem deste campo das Tradições.

2. Abordagem com recurso às tradições judaicas de interpretação

Esta abordagem, baseada no progresso do diálogo judeu-cristão, entende que as raízes da Escritura neotestamentária dependem, de certa maneira, da fisionomia do judaísmo, no qual se forma tardiamente a escritura judaica.

O Antigo Testamento tomou sua forma final no judaísmo dos quatro ou cinco últimos séculos que precederam a era cristã. Esse judaísmo foi também o ambiente de origem do Novo Testamento e da Igreja nascente.

Numerosos estudos de história judaica antiga e principalmente as pesquisas suscitadas pelas descobertas de Qumrân colocaram em relevo a complexidade do mundo judeu, em terra de Israel e na diáspora, ao longo deste período.

É neste mundo que começou a interpretação da Escritura. Um dos mais antigos testemunhos de interpretação judaica da Bíblia é a tradução grega dos Setenta. Os Targumim aramaicos5 constituem outro testemunho do mesmo esforço, que continuou até nossos dias, acumulando uma soma prodigiosa de procedimentos sábios para a conservação do texto do Antigo Testamento e para a explicação do sentido dos textos bíblicos.

Em todos os tempos, os melhores exegetas cristãos, desde Orígenes e são Jerônimo, procuraram tirar proveito da erudição judaica para uma melhor inteligência da Escritura. Numerosos exegetas modernos seguem esse exemplo6.

A riqueza da erudição judaica colocada a serviço da Bíblia, desde suas origens na Antiguidade até nossos dias, é uma ajuda muito valiosa para o exegeta dos dois Testamentos, à condição, no entanto, de empregá-la com conhecimento de causa.

Referências:

1 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

2 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

3 Aqui nos referimos a tradução grega dos Setenta (LXX), na qual, inicialmente os textos hebraicos da ‘Torah’ e depois todo o AT foi traduzido do hebraico ao grego e lido nas Sinagogas do Egito (Alexandria), em torno do IIIoséc. a.C.

4 Jâmnia não era um concílio, no sentido do concílio de Trento ou o Concílio de Nicéia, foi ao invés uma escola rabínica. A ideia de um “concílio” penetrou no vocabulário de todos através dos escritos do famoso historiador judeu H. Graetz, que foi o primeiro a chamar a Jâmnia um “sínodo”. Os Cristãos interpretaram o “sínodo” de Graetz como um concílio. No entanto, a palavra concílio implica algumas características que Jamnia não possui. Por exemplo, ao contrário de um concílio cristão, não houve votação, nem promulgação de decretos formais. Em vez disso, Jamnia durou vários anos, e seus pareceres significativos foram preservadas em parcelas nos escritos judaicos mais tardios. Portanto, não é correto falar sobre o “Concílio de Jâmnia”, a descrição mais precisa seria uma escola rabínica.

5 Um Targum é qualquer uma das traduções em aramaico, mais ou menos literal, de partes do Antigo Testamento usada nas sinagogas da Palestina e da Babilônia. Quando, após o cativeiro babilônico no século 6 aC, o aramaico substituiu o hebraico como língua geral falada, tornou-se necessário explicar o significado de leituras das Escrituras.

6 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

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A Palavra de Deus na Bíblia (38): Interpretação e tradução da Bíblia

18/03/2016 00:00 - Atualizado em 01/04/2016 17:34

No artigo passado, começamos a estudar as abordagens tradicionais em três passos. A primeira denominava-se “Método Canônico”. Já tivemos a ocasião de apresentá-las, em suas duas vertentes (Childs e Sanders). Agora se trata de finalizar com algumas avaliações críticas que a própria Pontifícia Comissão Bíblica nos propõe. Em seguida, iniciaremos a segunda abordagem baseado na Tradição: abordagem com recurso às tradições judaicas de interpretação.

Assim formula o documento a problemática trazida pelo uso do método bíblico:

A abordagem canônica encontra-se às voltas com mais de um problema, sobretudo quando ela procura definir o “processo canônico”. A partir de quando pode-se dizer que um texto é canônico?1

Segundo o documento, pode se falar de uma autoridade do texto determinada pela Comunidade de Fé (a Igreja) antes da fixação do texto (Cânon), mas é preciso que a mensagem, transmitida em diversos contextos, seja mantida!

Parece admissível dizer: desde que a comunidade atribui a um texto uma autoridade normativa, mesmo antes da fixação definitiva desse texto. Pode-se falar de uma hermenêutica “canônica” desde que a repetição das tradições, que se efetua levando-se em conta os aspectos novos da situação (religiosa, cultural, teológica), mantém a identidade da mensagem2.

Mas apresenta-se uma questão: o processo de interpretação que conduziu à formação do Cânon deve ele ser reconhecido como regra de interpretação da Escritura até nossos dias?

Além disso, a Bíblia cristã é diferente da Bíblia hebraica, o nosso “Antigo Testamento” é menor em diversos aspectos que os livros sagrados do judaísmo a que se referem.

A Igreja cristã recebeu como “Antigo Testamento” os escritos que tinham autoridade na comunidade judaica helenística3, mas alguns deles estão ausentes da Bíblia hebraica ou se apresentam sob uma forma diferente. O corpus é, então, diferente. Por isso, a interpretação canônica não pode ser idêntica, pois cada texto deve ser lido em relação com o conjunto do corpus.

Mas, o aspecto mais radical é que a Igreja lê as antigas Escrituras hebraicas à luz dos eventos pascais da morte e ressurreição de Jesus. Nascia a interpretação cristã que tanto incomodou os judeus (fariseus e depois os rabinos), a ponto de proclamarem fechado o Cânon judaico em Jâmnia4.

O corpus é, então, diferente. Por isso, a interpretação canônica não pode ser idêntica, pois cada texto deve ser lido em relação com o conjunto do corpus.

Esta nova determinação de sentido faz parte integrante da fé cristã. Ela não deve, portanto, tirar toda consistência à interpretação canônica anterior, aquela que precedeu a Páscoa cristã, pois é preciso respeitar cada etapa da história da salvação. Esvaziar da sua substância o Antigo Testamento seria privar o Novo Testamento de sua raiz na história.

Passaremos então à segunda abordagem deste campo das Tradições.

2. Abordagem com recurso às tradições judaicas de interpretação

Esta abordagem, baseada no progresso do diálogo judeu-cristão, entende que as raízes da Escritura neotestamentária dependem, de certa maneira, da fisionomia do judaísmo, no qual se forma tardiamente a escritura judaica.

O Antigo Testamento tomou sua forma final no judaísmo dos quatro ou cinco últimos séculos que precederam a era cristã. Esse judaísmo foi também o ambiente de origem do Novo Testamento e da Igreja nascente.

Numerosos estudos de história judaica antiga e principalmente as pesquisas suscitadas pelas descobertas de Qumrân colocaram em relevo a complexidade do mundo judeu, em terra de Israel e na diáspora, ao longo deste período.

É neste mundo que começou a interpretação da Escritura. Um dos mais antigos testemunhos de interpretação judaica da Bíblia é a tradução grega dos Setenta. Os Targumim aramaicos5 constituem outro testemunho do mesmo esforço, que continuou até nossos dias, acumulando uma soma prodigiosa de procedimentos sábios para a conservação do texto do Antigo Testamento e para a explicação do sentido dos textos bíblicos.

Em todos os tempos, os melhores exegetas cristãos, desde Orígenes e são Jerônimo, procuraram tirar proveito da erudição judaica para uma melhor inteligência da Escritura. Numerosos exegetas modernos seguem esse exemplo6.

A riqueza da erudição judaica colocada a serviço da Bíblia, desde suas origens na Antiguidade até nossos dias, é uma ajuda muito valiosa para o exegeta dos dois Testamentos, à condição, no entanto, de empregá-la com conhecimento de causa.

Referências:

1 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

2 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

3 Aqui nos referimos a tradução grega dos Setenta (LXX), na qual, inicialmente os textos hebraicos da ‘Torah’ e depois todo o AT foi traduzido do hebraico ao grego e lido nas Sinagogas do Egito (Alexandria), em torno do IIIoséc. a.C.

4 Jâmnia não era um concílio, no sentido do concílio de Trento ou o Concílio de Nicéia, foi ao invés uma escola rabínica. A ideia de um “concílio” penetrou no vocabulário de todos através dos escritos do famoso historiador judeu H. Graetz, que foi o primeiro a chamar a Jâmnia um “sínodo”. Os Cristãos interpretaram o “sínodo” de Graetz como um concílio. No entanto, a palavra concílio implica algumas características que Jamnia não possui. Por exemplo, ao contrário de um concílio cristão, não houve votação, nem promulgação de decretos formais. Em vez disso, Jamnia durou vários anos, e seus pareceres significativos foram preservadas em parcelas nos escritos judaicos mais tardios. Portanto, não é correto falar sobre o “Concílio de Jâmnia”, a descrição mais precisa seria uma escola rabínica.

5 Um Targum é qualquer uma das traduções em aramaico, mais ou menos literal, de partes do Antigo Testamento usada nas sinagogas da Palestina e da Babilônia. Quando, após o cativeiro babilônico no século 6 aC, o aramaico substituiu o hebraico como língua geral falada, tornou-se necessário explicar o significado de leituras das Escrituras.

6 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_199) 30415_interpretazione_po.html#I

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica