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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 28/03/2017

28 de Março de 2017

A misericórdia e a justiça

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A misericórdia e a justiça

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11/03/2016 16:47 - Atualizado em 11/03/2016 16:48

A misericórdia e a justiça 0

11/03/2016 16:47 - Atualizado em 11/03/2016 16:48

A Igreja proclama, no quinto domingo da Quaresma, durante o ciclo de leituras do ano C, a passagem evangélica da mulher surpreendida em adultério (cf. Jo 8,1-11). Nesse episódio, Jesus é instigado pelos mestres da Lei e os fariseus a sentenciar uma pessoa flagrada cometendo pecado. Através dessa narrativa, se torna possível conhecer um pouco mais o coração compassivo e justo do Senhor. Por certo, a misericórdia e a justiça, nos ensinam o Papa Francisco, “não são dois aspectos em contraste entre si, mas duas dimensões de uma única realidade que se desenvolve gradualmente até atingir o seu clímax na plenitude do amor” (MV 20).

A concepção de justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, narrada pelo evangelista João, se apresenta no próprio texto bíblico: “Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres” (Jo 8,5). Nos livros da Torah, encontramos duas passagens sobre punição do pecado de adultério: “O homem que cometer adultério com a mulher do seu próximo deverá morrer, tanto ele como a sua cúmplice” (Lv 20,10) e “Se um homem for pego em flagrante deitado com uma mulher casada, ambos serão mortos; o homem que se deitou com a mulher e a mulher”(Dt 22,22). A pena, comumente, aplicada em tais situações era a morte dos envolvidos por apedrejamento.

A cena descrita na narrativa evangélica é, na realidade, uma armadilha para colocar o mestre da Galileia numa situação delicada: “Perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem um motivo de O acusar” (Jo 8,6). O dilema estava proposto: ou Ele se opunha aos preceitos da Lei e, com isso, seria incriminado por ensinar em dissonância com Moisés; ou se posicionava contra a mulher e perderia sua fama de amigo dos pecadores. Em qualquer um dos casos, a sua figura sairia ferida. A intenção farisaica mais do que a de condenar e de observar o preceito da Torah era a de envolver o Senhor numa cilada jurídica.

O Cristo conhecia os ditames da legislação mosaica. Todavia, Ele diz solenemente que sua missão era levar o código moral do Povo de Deus à sua significação verdadeira: “Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento” (Mt 5,17). E, ainda, mostra a necessidade de superar a concepção de justiça dos escribas e dos fariseus: “Com efeito, eu vos asseguro que se a vossa justiça não ultrapassar a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5,20). Tudo isso fica mais evidente quando Ele revela a radicalidade da sua missão: “eu não vim para julgar o mundo, vim para salvá-lo” (Jo 12,47).

A solução de Jesus, frente ao dilema no qual se encontrava, foi de uma sabedoria ímpar. Ele, por um lado, não desautorizou a Lei de Moisés – “quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo 8,12) – e, por outro, também não deixou que a mulher sofresse qualquer retaliação em função de sua falta – “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? (...) Eu também não te condeno” (Jo 8,10-11). A justiça do Cristo se efetivou tanto na vida dos escribas e fariseus – “e eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um” (Jo 8,9) – quanto na daquela mulher: “Podes ir, e de agora em diante não peques mais” (Jo 8,11). Ele ofereceu aos acusadores a oportunidade de se assumirem como pecadores e à mulher a de recomeçar uma vida nova, marcada pela experiência da absolvição.

Encarando esse relato da mulher adúltera, somos levados a concordar com o dito do Papa Francisco: “A justiça por si só não é suficiente” (MV 22). Jesus não se limitou apenas ao aspecto legal do caso, mas ultrapassou a medida do justo, oferecendo aquela mulher a experiência da misericórdia e do amor divino, pois “Deus não rejeita a justiça. Ele engloba-a e supera-a num evento superior onde se experimenta o amor, que está na base duma verdadeira justiça” (MV 22). Segundo Santo Agostinho, “é mais fácil que Deus contenha a ira do que a misericórdia”. Neste Ano Jubilar, a Igreja é chamada a reintegrar a misericórdia na sua justiça, esforçando-se por vencer todo fermento farisaico e configurando-se ao coração compassivo de Cristo.

 

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A misericórdia e a justiça

11/03/2016 16:47 - Atualizado em 11/03/2016 16:48

A Igreja proclama, no quinto domingo da Quaresma, durante o ciclo de leituras do ano C, a passagem evangélica da mulher surpreendida em adultério (cf. Jo 8,1-11). Nesse episódio, Jesus é instigado pelos mestres da Lei e os fariseus a sentenciar uma pessoa flagrada cometendo pecado. Através dessa narrativa, se torna possível conhecer um pouco mais o coração compassivo e justo do Senhor. Por certo, a misericórdia e a justiça, nos ensinam o Papa Francisco, “não são dois aspectos em contraste entre si, mas duas dimensões de uma única realidade que se desenvolve gradualmente até atingir o seu clímax na plenitude do amor” (MV 20).

A concepção de justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, narrada pelo evangelista João, se apresenta no próprio texto bíblico: “Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres” (Jo 8,5). Nos livros da Torah, encontramos duas passagens sobre punição do pecado de adultério: “O homem que cometer adultério com a mulher do seu próximo deverá morrer, tanto ele como a sua cúmplice” (Lv 20,10) e “Se um homem for pego em flagrante deitado com uma mulher casada, ambos serão mortos; o homem que se deitou com a mulher e a mulher”(Dt 22,22). A pena, comumente, aplicada em tais situações era a morte dos envolvidos por apedrejamento.

A cena descrita na narrativa evangélica é, na realidade, uma armadilha para colocar o mestre da Galileia numa situação delicada: “Perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem um motivo de O acusar” (Jo 8,6). O dilema estava proposto: ou Ele se opunha aos preceitos da Lei e, com isso, seria incriminado por ensinar em dissonância com Moisés; ou se posicionava contra a mulher e perderia sua fama de amigo dos pecadores. Em qualquer um dos casos, a sua figura sairia ferida. A intenção farisaica mais do que a de condenar e de observar o preceito da Torah era a de envolver o Senhor numa cilada jurídica.

O Cristo conhecia os ditames da legislação mosaica. Todavia, Ele diz solenemente que sua missão era levar o código moral do Povo de Deus à sua significação verdadeira: “Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento” (Mt 5,17). E, ainda, mostra a necessidade de superar a concepção de justiça dos escribas e dos fariseus: “Com efeito, eu vos asseguro que se a vossa justiça não ultrapassar a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5,20). Tudo isso fica mais evidente quando Ele revela a radicalidade da sua missão: “eu não vim para julgar o mundo, vim para salvá-lo” (Jo 12,47).

A solução de Jesus, frente ao dilema no qual se encontrava, foi de uma sabedoria ímpar. Ele, por um lado, não desautorizou a Lei de Moisés – “quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo 8,12) – e, por outro, também não deixou que a mulher sofresse qualquer retaliação em função de sua falta – “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? (...) Eu também não te condeno” (Jo 8,10-11). A justiça do Cristo se efetivou tanto na vida dos escribas e fariseus – “e eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um” (Jo 8,9) – quanto na daquela mulher: “Podes ir, e de agora em diante não peques mais” (Jo 8,11). Ele ofereceu aos acusadores a oportunidade de se assumirem como pecadores e à mulher a de recomeçar uma vida nova, marcada pela experiência da absolvição.

Encarando esse relato da mulher adúltera, somos levados a concordar com o dito do Papa Francisco: “A justiça por si só não é suficiente” (MV 22). Jesus não se limitou apenas ao aspecto legal do caso, mas ultrapassou a medida do justo, oferecendo aquela mulher a experiência da misericórdia e do amor divino, pois “Deus não rejeita a justiça. Ele engloba-a e supera-a num evento superior onde se experimenta o amor, que está na base duma verdadeira justiça” (MV 22). Segundo Santo Agostinho, “é mais fácil que Deus contenha a ira do que a misericórdia”. Neste Ano Jubilar, a Igreja é chamada a reintegrar a misericórdia na sua justiça, esforçando-se por vencer todo fermento farisaico e configurando-se ao coração compassivo de Cristo.

 

Padre Vitor Gino Finelon
Autor

Padre Vitor Gino Finelon

Professor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida