Arquidiocese do Rio de Janeiro

32º 17º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 27/05/2017

27 de Maio de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (35): Interpretação e tradução da Bíblia

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27 de Maio de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (35): Interpretação e tradução da Bíblia

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26/02/2016 00:00 - Atualizado em 29/02/2016 14:50

A Palavra de Deus na Bíblia (35): Interpretação e tradução da Bíblia 0

26/02/2016 00:00 - Atualizado em 29/02/2016 14:50

Permanecemos na leitura e comentários ao documento “A interpretação da Bíblia na Igreja” (1993), da Pontifícia Comissão Bíblica. Já pudemos analisar os métodos Retórico e Narrativo.

Agora é a vez de falarmos um pouco sobre o método da Análise Semiótica.

Entre os métodos chamados sincrônicos, isto é, que se concentram sobre o estudo do texto bíblico tal como ele se apresenta ao leitor em seu estado final, coloca-se a análise semiótica que, há uns vinte anos, se desenvolveu bastante em certos meios. Primeiramente chamado pelo termo geral de “estruturalismo”¹, este método pode se propor como descendente do linguista suíço Ferdinand de Saussure que no início deste século elaborou a teoria segundo a qual toda língua é um sistema de relações que obedece regras determinadas.²

Vários linguistas e literatos tiveram uma influência marcante na evolução do método. A maior parte dos biblistas que utilizam a semiótica para o estudo da Bíblia recorre a Algirdas J. Greimas³ e à Escola de Paris, da qual ele é o fundador. Abordagens ou métodos análogos, fundados sobre a linguística moderna, se desenvolvem em outros lugares. É o método de Greimas que iremos apresentar e analisar brevemente.

“Toda lingua é um sistema de relações” este é o ponto de partida da análise do método semiótico. Através de três Princípios o Documento apresenta a identidade da semiótica de Greimas.

a) Princípio de imanência: cada texto forma um conjunto de significados: a análise considera todo o texto, mas somente o texto; ela não apela a dados “externos”, tais como o autor, os destinatários, os acontecimentos narrados, a história da redação.

b) Princípio de estrutura do sentido: só há sentido através da relação e no interior dela, especialmente a relação de diferença; a análise de um texto consiste assim em estabelecer a rede de relações (de oposição, de homologação...) entre os elementos, a partir da qual o sentido do texto se constrói.

c) Princípio da gramática do texto: cada texto respeita uma gramática, isto é, um certo número de regras ou estruturas; em um conjunto de frases, chamado discurso, há diferentes níveis, tendo cada um a sua gramática.

No primeiro princípio o método elimina aquilo que chamamos de referencialidade, o mundo externo ao texto, como nos o encontramos ao lê-lo.

No segundo princípio pode-se comparar o texto a uma teia de aranha, no qual se estabelecem relações entre os fios da teia, entender estas relações é a chave para uma interpretação semiótica do texto.

No terceiro, lidamos com o conjunto das normas gramaticais, as leis criadas para definir o comportamento de fenômenos e comportamentos de um texto, por exemplo, quando o verbo é plural o sujeito também o é!

Terminada esta etapa da análise de um texto o exegeta passaria à análise global que determina sua mensagem, também neste nível temos três níveis⁴ para estabelecer o ‘sentido’ de um texto à luz da análise semiótica:

A) nível narrativo. Estudam-se, no relato, as transformações que fazem passar do estado inicial ao estado terminal. No interior de um percurso narrativo, a análise procura retraçar as diversas fases, logicamente ligadas entre elas, que marcam a transformação de um estado em um outro. Em cada uma destas fases, apuram-se as relações entre os «papéis» exercidos por «atuantes» que determinam os estados e produzem as transformações.

B) O nível discursivo. A análise consiste em três operações: a) a identificação e a classificação das figuras, isto é, dos elementos de significação de um texto (atores, tempos e lugares); b) o estabelecimento dos percursos de cada figura em um texto para determinar a maneira como esse texto o utiliza; c) a procura dos valores temáticos das figuras. Esta última operação consiste em distinguir “em nome do que” (= valor) as figuras seguem, nesse texto determinado, tal percurso.

C) O nível lógico-semântico. É o nível chamado profundo. Ele é também o mais abstrato. Ele procede do postulado que formas lógicas e significantes são subjacentes às organizações narrativas e discursivas de todo discurso. A análise a esse nível consiste – em precisar a lógica que gera as articulações fundamentais dos percursos narrativos e figurativos de um texto. Para isto um instrumento é muitas vezes empregado, chamado de “quadrado semiótico”, figura utilizando as relações entre dois termos “contrários” e dois termos “contraditórios” (por exemplo, branco e negro; branco e não-branco; negro e não-negro).

Os teóricos do método semiótico não cessam de apresentar desenvolvimentos novos. As pesquisas atuais se referem notadamente à enunciação e à intertextualidade.

Aplicado primeiramente aos textos narrativos da Escritura, que se prestam mais facilmente a isso, o método é cada vez mais utilizado para outros tipos de discursos bíblicos.

No próximo artigo concluiremos a análise e a avaliação deste método quando colocado em contato com a Exegese Bíblica.

Referências

1 Por estrutura entende-se um sistema abstrato em que seus elementos são interdependentes e que permite, observando-se os fatos e relacionando diferenças, descrevê-los em sua ordenação e dinamismo. É um método que contraria o empirismo, que vê a realidade como sendo constituída de fatos isolados. Para o estruturalismo, ao contrário, não existem fatos isolados, mas partes de um todo maior. Cf. http://revistas.unibh.br/index.php/ecom/article/viewFile/1002/581 (acesso 01/12/2015).

2 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

3 https://www.youtube.com/watch?v=sZ7C2f93zUc

4 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

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A Palavra de Deus na Bíblia (35): Interpretação e tradução da Bíblia

26/02/2016 00:00 - Atualizado em 29/02/2016 14:50

Permanecemos na leitura e comentários ao documento “A interpretação da Bíblia na Igreja” (1993), da Pontifícia Comissão Bíblica. Já pudemos analisar os métodos Retórico e Narrativo.

Agora é a vez de falarmos um pouco sobre o método da Análise Semiótica.

Entre os métodos chamados sincrônicos, isto é, que se concentram sobre o estudo do texto bíblico tal como ele se apresenta ao leitor em seu estado final, coloca-se a análise semiótica que, há uns vinte anos, se desenvolveu bastante em certos meios. Primeiramente chamado pelo termo geral de “estruturalismo”¹, este método pode se propor como descendente do linguista suíço Ferdinand de Saussure que no início deste século elaborou a teoria segundo a qual toda língua é um sistema de relações que obedece regras determinadas.²

Vários linguistas e literatos tiveram uma influência marcante na evolução do método. A maior parte dos biblistas que utilizam a semiótica para o estudo da Bíblia recorre a Algirdas J. Greimas³ e à Escola de Paris, da qual ele é o fundador. Abordagens ou métodos análogos, fundados sobre a linguística moderna, se desenvolvem em outros lugares. É o método de Greimas que iremos apresentar e analisar brevemente.

“Toda lingua é um sistema de relações” este é o ponto de partida da análise do método semiótico. Através de três Princípios o Documento apresenta a identidade da semiótica de Greimas.

a) Princípio de imanência: cada texto forma um conjunto de significados: a análise considera todo o texto, mas somente o texto; ela não apela a dados “externos”, tais como o autor, os destinatários, os acontecimentos narrados, a história da redação.

b) Princípio de estrutura do sentido: só há sentido através da relação e no interior dela, especialmente a relação de diferença; a análise de um texto consiste assim em estabelecer a rede de relações (de oposição, de homologação...) entre os elementos, a partir da qual o sentido do texto se constrói.

c) Princípio da gramática do texto: cada texto respeita uma gramática, isto é, um certo número de regras ou estruturas; em um conjunto de frases, chamado discurso, há diferentes níveis, tendo cada um a sua gramática.

No primeiro princípio o método elimina aquilo que chamamos de referencialidade, o mundo externo ao texto, como nos o encontramos ao lê-lo.

No segundo princípio pode-se comparar o texto a uma teia de aranha, no qual se estabelecem relações entre os fios da teia, entender estas relações é a chave para uma interpretação semiótica do texto.

No terceiro, lidamos com o conjunto das normas gramaticais, as leis criadas para definir o comportamento de fenômenos e comportamentos de um texto, por exemplo, quando o verbo é plural o sujeito também o é!

Terminada esta etapa da análise de um texto o exegeta passaria à análise global que determina sua mensagem, também neste nível temos três níveis⁴ para estabelecer o ‘sentido’ de um texto à luz da análise semiótica:

A) nível narrativo. Estudam-se, no relato, as transformações que fazem passar do estado inicial ao estado terminal. No interior de um percurso narrativo, a análise procura retraçar as diversas fases, logicamente ligadas entre elas, que marcam a transformação de um estado em um outro. Em cada uma destas fases, apuram-se as relações entre os «papéis» exercidos por «atuantes» que determinam os estados e produzem as transformações.

B) O nível discursivo. A análise consiste em três operações: a) a identificação e a classificação das figuras, isto é, dos elementos de significação de um texto (atores, tempos e lugares); b) o estabelecimento dos percursos de cada figura em um texto para determinar a maneira como esse texto o utiliza; c) a procura dos valores temáticos das figuras. Esta última operação consiste em distinguir “em nome do que” (= valor) as figuras seguem, nesse texto determinado, tal percurso.

C) O nível lógico-semântico. É o nível chamado profundo. Ele é também o mais abstrato. Ele procede do postulado que formas lógicas e significantes são subjacentes às organizações narrativas e discursivas de todo discurso. A análise a esse nível consiste – em precisar a lógica que gera as articulações fundamentais dos percursos narrativos e figurativos de um texto. Para isto um instrumento é muitas vezes empregado, chamado de “quadrado semiótico”, figura utilizando as relações entre dois termos “contrários” e dois termos “contraditórios” (por exemplo, branco e negro; branco e não-branco; negro e não-negro).

Os teóricos do método semiótico não cessam de apresentar desenvolvimentos novos. As pesquisas atuais se referem notadamente à enunciação e à intertextualidade.

Aplicado primeiramente aos textos narrativos da Escritura, que se prestam mais facilmente a isso, o método é cada vez mais utilizado para outros tipos de discursos bíblicos.

No próximo artigo concluiremos a análise e a avaliação deste método quando colocado em contato com a Exegese Bíblica.

Referências

1 Por estrutura entende-se um sistema abstrato em que seus elementos são interdependentes e que permite, observando-se os fatos e relacionando diferenças, descrevê-los em sua ordenação e dinamismo. É um método que contraria o empirismo, que vê a realidade como sendo constituída de fatos isolados. Para o estruturalismo, ao contrário, não existem fatos isolados, mas partes de um todo maior. Cf. http://revistas.unibh.br/index.php/ecom/article/viewFile/1002/581 (acesso 01/12/2015).

2 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

3 https://www.youtube.com/watch?v=sZ7C2f93zUc

4 http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica